A verdadeira magia
12 O encontrar
Levantei da cama e saí rapidamente, tão rapidamente que nem lembrava de como tinha feito minha rotina matinal. Quando percebi já estava caminhando lentamente para a escola, observando a paisagem. Meus passos ficaram cada vez mais pesados, e quando fui olhar, o chão estava escuro, e meus pés estava sendo puxado pra dentro dele. Me debati desesperado pra tentar sair, mas não consegui. Senti um ar gelado bater em meu rosto, e virei para evitá-lo. Vi rapidamente pela minha esquerda um caminho de gelo se formar, encostando nas sombras e as congelando. Logo após isso ele se quebrou, fazendo a escuridão desaparecer e me soltando. Quando me virei, vi um longo cabelo fazer uma curva rápida pelo beco, e corri pra alcançar. Quando virei, o chão havia cedido e me fez cair sem pausa numa estranha escuridão. Sentia o ar não me alcançar enquanto descia pelo abismo que parecia sem fim.
De um solavanco eu acordei caindo no chão. Senti a dor pelo corpo e o atordoamento de ter acordado. Dei uma gemida enquanto sentia o gosto de sangue aparecer na minha boca. O corte leve na bochecha foi porque caí com o rosto em cima da minha mão, e isso foi suficiente pra abrir o corte. O corpo todo doía, porque caí com tudo e muito despreparado sem nada pra frear a queda, ou amenizar.
Quando me levantei e me chequei, minha mãe entrou no quarto e já ficou preocupada.
– Filho, o que houve? — Ela falou se aproximando de mim.
– Eu meio que caí da cama… — Falei, ainda atordoado pelo sono. A dor, ainda bem, já passava.
– Caiu da cama? — Ela repetiu. — Tá doendo? — Ela falou inocentemente.
– Nãããããããão, imagiiiiiiiina. — Falei, ainda com sono. — Treinei por meses pra isso.
Ela olhou pra mim com um olhar de reprovação, mas logo pareceu esquecer isso.
– Pode ir, mãe, eu tô bem agora. Vou tomar um banho e já desço.
– Certeza que está bem? — Ela insistiu.
– Sim, estou. — E me limitei a isso. Falar que minha boca sangrou, nem pensar.
Eu peguei minha toalha e logo fui tomar banho. Ela foi em direção às escadas, descendo rapidamente. A água fria ajudou muito na dor da cabeça, única que tinha realmente ficado. Os músculos relaxaram, a pele esfriou e a visão ficou normal, e foi assim que eu terminei o banho e fui me vestir. A nuvem de confusão de minha mente diminuiu, mas ainda me perturbava enquanto tomava meu café. Após terminar, fui logo em direção à escola pra pior aula possível, aula de sábado. O caminho me fez pensar no meu sonho durante todo o tempo.
Passando pela parte que estava mais presente no sonho meu corpo gelou por um segundo. Passei com cuidado pelo local, andando e prestando atenção em tudo que poderia se revoltar. Não me adiantou muito, porque nada aconteceu. Cheguei na escola meio que parecendo levemente decepcionado. Vai saber. Na sala logo vi Amanda, então segui direto pra minha cadeira.
– Bom dia, Filipe. — Amanda falou alegremente. — Que lindo dia, não?
– Você só pode tá me zoando… — Respondi me espalhando na cadeira. — Nunca é bonito acordar no sábado com aula pela manhã.
– Você deve ter ido dormir tarde. — Ela continuou, com um largo sorriso aberto. — Ficou até que horas acordado?
– Nada disso, fui dormir até cedo. — Falei ofendido. — Era só meia noite.
– Mas isso é tarde. — Ela falou meio que brigando.
– Não se preocupe, eu faço isso sempre. — Respondi. — Foi por causa do sonho que tive hoje. Pesadelo, na verdade.
– O que você sonhou? — Ela perguntou curiosa.
– Um sonho doido. — Eu comecei, deitando a cabeça na mesa. — Eu meio que fui atacado por sombras quando vinha pra escola. E então um rastro de gelo me salvou. Uma garota de cabelos longos.
– Isso não parece uma boa desculpa pra estar de mal humor. — Ela alfinetou.
– Não, — Concordei. — mas cair da cama sem proteção porque estava sonhando que caía em um poço sem fundo, acho que talvez até seja. — Falei rapidamente.
– E se machucou? — Ela falou. Mais uma.
– Nada, tava treinando pra cair da cama enquanto dormia. — Respondi acidamente levantando a cabeça na direção dela. — Nem senti dor. — Vi que ela ficou meio triste com o jeito que falei. — Me desculpa por isso, é o dia.
– Desculpa o que? O que houve? — Will chegou logo perguntando. Diferente de mim, ele estava sem sono, meio que não abalado por acordar tão cedo. — O que ele fez, Amanda?
– Ele tá irritado por causa do sono. — Ela falou, se virando pra respondê-lo. — Sorte dele hoje não tem aula de História. — Ela falou olhando pra mim.
No meio de risos de Will e frios na minha coluna não visíveis aos outros, o professor chegou. A aula, pelo menos, era legalzinha. Matemática. Eu achava muito divertida. O professor era muito gente boa, eu gostava da matéria e os outros ficavam desesperados quando o professor falava de prova. A aula foi divertida e rápida, graças a Deus. Depois de vermos uma introdução a Cálculo, matéria do semestre que vem, a aula havia se tornado em momento de tirar dúvidas, então a fila já crescia pela sala até a porta.
Vendo que a minha presença não seria mais percebida, peguei minha bolsa e me preparei pra sair. No mesmo segundo que ia levantar eu me lembrei de ontem, então me virei pra avisar pra Amanda e Will que ia sair.
– Eu vou indo. — Falei rapidamente, fazendo Will focar seus olhos em mim e Amanda virar a cabeça na minha direção. — Só avisando.
– Vai onde? — Will perguntou.
– Sair. Já que eu não vou tirar dúvidas nenhuma e a loja do senhor Burlin está muito longe, se eu sair agora eu consigo voltar a tempo pra casa.
– Não sem mim. — Ouvi sentindo medo. Amanda tinha falado isso.
– Ok, então também vou. — Will se manifestou.
– Tá, então vem. — Eu respondi ainda chocado por Amanda querer sair da aula também.
– Mas ele não vai perceber? — Will respondeu. Quem eu achava que iria complicar mais estava calmamente guardando suas coisas na sua mochila.
– Vai nada. — Dando ênfase no nada. — Eu faço isso quase toda vez. Ele vai ficar distraído ajudando todos e já fez a chamada, então…
Falei isso e saí na frente. Pelo menos isso era o que eu achava, pois Amanda silenciosamente tinha saído da sala. Boquiaberto eu segui. Encontrei com ela lá fora, um pouco afastada da porta.
– Vamos logo. — Amanda falou. Ela estava tomando iniciativa? Ela? E pra fazer o mau? Isso não parecia com ela.
– Certo, mas porque você vai na frente? — Will falou. Esse menino podia ter Inteligência, mas não sabia ler a situação de jeito nenhum.
Amanda não respondeu, ela simplesmente puxou Will e eu pelo braço e nos levou pra fora da escola. Saímos pelo portão e Amanda nos soltou nada gentilmente.
– Filipe, vai na frente. — Ela estava mandando. Porque mandando?
– O que aconteceu pra você ficar assim hoje? — Perguntei, antes de ser empurrado pra frente.
– Nada, só… — Ela hesitou. — Só não quero que meu pai descubra isso. — Ela falou rapidamente.
– Hm, sei. — Respondi descrente.
Assumi a “liderança”, porque na verdade andávamos lado a lado, e prosseguimos para a loja do senhor Burlin. Amanda não respondeu minha frase, mas olhava para os lados de tempos em tempos. Will continuava absolutamente sem saber de nada. E eu continuei a guiá-los para a nova loja.
O caminho foi lento, mas tranquilo. Saímos da escola perto das dez, e a aula terminava meio dia, então tínhamos tempo de sobra pra chegar lá e voltar sem ninguém saber. Caminhamos por algumas calçadas de ruas bastante movimentadas, mas em alguns momentos eu entrei em ruas secundárias, até becos, por vontade de explorar e saber o melhor caminho. Como tinha ido uma única vez e poderia não achar a loja de primeira, e tinha seguido o caminho mais conhecido. Acho que seguir pelas secundárias pode ter sido o maior erro que poderia ter feito, porque aconteceu algo no caminho.
Passamos por um dos becos desconhecidos, um bem afastado, mas se não me falhasse a memória cortaria uns cinco minutos de caminhada. Um beco pequeno, sem nenhuma iluminação de casas ou postes, mas de dia não haveria problemas. Seguimos pelo caminho desviando de poças d’água e sacos de lixos espalhados, andando sempre pelas sobras dadas pelas casas e outras construções. Chegando numa virada um pouco mais íngreme, nós vimos aquilo que eu já tinha visto duas vezes antes. Do chão e das paredes saía o que parecia uma fumaça negra densa, iguais às que apareceram nos meus sonhos.
No momento que a vimos, ela se mexeu rapidamente, vindo em nossa direção como uma onda feroz, e por onde passava ouvíamos o barulho das coisas sendo arrastadas ou batendo contra uma parede. Eu congelei no meu lugar, não me mexendo, mas não era medo. Me senti como no sonho, e não me apavorei muito. A onda se aproximava rápido demais, e não tive tempo de ter reação nenhuma. Ela se aproximou de nós com muita velocidade. Num piscar de olhos uma chama surgiu e fixou-se na nossa frente. Era uma flecha flamejante, que fez as sombras se separarem para evitá-la, se juntando e continuando a se aproximar com velocidade. Uma rajada de fechas foi disparada, prendendo na nossa frente e nos protegendo. As sombras desviaram e focaram a pessoa que as lançou.
O movimento parecido com onda havia parado, e agora tinha mudado para uma torrente de ar forte, saindo do chão e subindo rapidamente pela superfície do pequeno prédio onde estava a garota de cabelos longos. Subiam como uma gigantesca serpente alada, com muita velocidade, me dando calafrios quando seu vento passou perto de nós. A garota então levantou a mão e apontou para a nuvem de sombra, fazendo o que havia visto no meu sonho. Um caminho de gelo foi se formando na parede até alcançar as sombras, que congelaram ao toque, logo após isso elas se quebraram e sumiram, exatamente como tinha visto antes. Prestando atenção na garota, vi que a semelhança entre ela e a garota dos meus sonhos era enorme, então não podia perdê-la de vista.
– Espere! — Gritei em vão, pois ela já tinha se virado. — Will, me empresta Inteligência, rápido.
Will havia caído no chão, não sei se pelo choque ou pelo vento forte, mas estava sentado de bunda no chão.
– Will, a carta! — Gritei, ficando na frente dele.
Ele, ainda em choque, tirou Inteligência e me entregou. Equipei rapidamente e olhei ao redor. O efeito foi sentido rapidamente, e logo via exatamente o que iria fazer. Visualizei o caminho e corri, usando o máximo possível de Velocidade para tentar, por sorte, escalar e acompanhar a tal garota. Quando finalmente subi o telhado, olhei rapidamente para todos os lados. Inteligência era boa, meu foco e pensamento estavam grandemente aumentados. Rapidamente decidi o caminho mais provável que ela poderia ter pegado e segui correndo e pulando nessa direção. Depois de três telhados eu a vi. Ela corria pelos telhados também, mas em velocidade normal. Não foi difícil alcança-la, pois Velocidade e Inteligência juntas me deram o melhor e mais rápido caminho possível. Segurei o seu ombro, deixando ela surpresa com isso.
– Você tem duas cartas. — Afirmei. – Quem é você?
Ela, ainda ofegando, não respondia. Eu a havia pressionado contra uma parede que ali estava.
– Eu tenho uma, Velocidade, por isso te alcancei. Agora me diga, quem é você? – Falei, encarando ela fortemente. – Porque nos salvou? O que era aquela “coisa”? – Eu continuava, mas ela não parecia que ia responder. – Eu não te deixarei ir até você me responder. – Concluí com raiva na voz. Ela deu uma pequena tremida no corpo e desviou o olhar de mim. – Escute aqui, eu...
– Jessica. – Ela falou, pronunciando o nome em inglês. – Esse é meu nome...
– Ok, Jessica, o que era aquilo? – Falei, melhorando minha postura e soltando seu ombro, dando espaço pra ela.
– Aquela sombra... – Ela falou, olhando lentamente pra mim, depois virando o rosto de novo. – Não sei seus nomes. Ninguém sabe. Mas devem ser destruídas. – Ela falou ainda muito enigmática.
– Você já enfrentou outras antes? – Perguntei. Não sei bem ao certo o porquê, mas perguntei.
– Sim. Escute, eu só... — Ela começou, mas eu interrompi.
– Filipe.
– Eh... – Ela pausou. – Filipe, eu apenas te salvei. Não me siga, não me procure, simplesmente esqueça que eu existo. – Ela falou. Seu tom era beirando o desespero. – Será mais seguro pra você.
– Mesmo que eu tenha uma carta? – Falei, relembrando isso a ela.
– Você tem uma carta? – Ela falou surpresa. Achei que persegui-la pelos telhados não foi processado por ela. – Qual?
No momento que ia responder, nós ouvimos o barulho do que parecia ser um pássaro. Jessica olhou rapidamente para cima, procurando preocupada por algo. Ela focou os olhos no horizonte e então se virou rapidamente pra mim.
– Não posso falar agora, eu te respondo depois talvez. – Ela falou. Agora não entendi. A última pergunta havia sido dela... – Aqui, pegue. – E me estendeu um pedaço de papel. Quando examinei rapidamente, notei que ele estava em branco, e voltei minha atenção a ela, mas não a vi mais. Ouvi um barulho de batida não muito longe, então percebi que ela tinha ido. Não a procurei dessa vez, eu voltei até Will e Amanda.
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