– Pare! – Foi o que falei pra ela. O meu grito fez ela se virar surpresa.

– Quem é você? – Ela falou, então pareceu me reconhecer. – Ah, sim, você é o garoto que derrubou a caneta na sala. – Ela não largou o braço de Will, que foi forçosamente virado pra me encarar. – O que faz aqui? Não estava fazendo sua prova?

– Saí mais cedo. – Respondi. – Precisava salvar meu amigo de você.

– E como você fará isso? – As sombras, antes balançando no chão atrás dela, levantaram voo e vieram em minha direção. Atirei na direção das sombras, acertando em cheio e criando um grande buraco nelas.

– Que carta é essa? – Ela vociferou. – Isso é impossível, essa carta jamais existiu antes.

– Chama-se Tiro fatal. Esse é um dos meios que uso Dimensão alternativa. – Eu falei, soando muito convencido. Nisso, sua expressão mudou. Ela fez um comando com as mãos, fazendo aquelas sombras desaparecerem em um portal de luz negra que apareceu.

– Altum umbræ invocato te! – Ela falou, estendendo sua mão pra frente. Isso parecia latim, e sei que umbræ é umas das palavras pra sombra. – Dissipet puerum! — No chão, um pouco à frente de onde ela estava, um círculo negro se formou. Não era como eu vi antes. Era mais escura, sombria, e parecia mais forte.

Do círculo saiu uma forma mais definida de sombra. Era um corpo negro, estranho, parecendo até ser um roxo muito escuro em algumas partes, aparentando ter um liso brilhoso e arrepiador. Não tinha olhos, nem boca, somente pernas e braços e cabeça. Aquela forma me assustou pela pressão que dava pra sentir devido a sua presença.

Ficando com um pé atrás, observei a criatura que tinha se materializado na minha frente. Seus movimentos pareciam ser lentos, já que movia seus braços e pernas devagar e a cabeça pedia para os lado, nunca conseguindo mantê-la equilibrada. Ao movimento do braço da diretora a sombra pulou em minha direção. Sua velocidade era enorme, e seus braços vieram em minha direção com mais agilidade do que esperava. Percebi que o contato iria acontecer, e iria doer e muito, mas fui salvo no último instante.

Senti meu corpo ser jogado para o lado com um grande empurrão. Caí de lado e olhei pra ver quem ou o que havia causado isso. Era Amanda. Ela havia me empurrado para o lado e jogava seu corpo para o outro. O ataque da criatura passou por entre nós, desaparecendo em um portal antes de atravessar a porta pra dentro da escola.

– Amanda! Porque demorou tanto? – Foi o que pude falar devido à situação.

– Porque? – Ela falou como se fosse óbvio. – Tava terminando minha prova. – Eu não acredito nisso.

Não pude mostrar minha revolta pra ela porque um novo portal se abriu e a criatura apareceu novamente, vindo por cima e tentando me acertar com um soco. Rolei o mais rápido que pude, mas ainda assim senti o poder dela passando a milímetros de meu corpo.

Me levantei e fiquei observando de novo a criatura, agora na mesma posição de antes de me atacar. Fiquei ainda mais atento, observando com atenção todos os seus movimentos, e de vez em quando olhava para a diretora. Logo na primeira vez que olhei pra ela, ela estava de costas tentando fugir, agarrando com força o braço de Will.

– Amanda, não deixa ela fugir! – Falei sem nem desviar a atenção da criatura. – Eu cuido desse aqui. – E então criei uma Esfera de luz na mão direita. A cena parecia de um mangá, e agora era a hora que eu ouvia algo como ‘Okay, só não morra. ’, ou algo assim, mas o que Amanda disse me desmotivou.

– Eu e esses meus amigos... – Ela se levantou rapidamente e perseguiu a diretora.

Lancei a Esfera de luz pra cima, estralando o dedo logo em seguida. Saíram quatro feixes rápidos e poderosos, que perseguiam a criatura. Ela, entretanto, ergueu seu pseudobraço invocou chamas negras, arremessando-as logo depois. Os quatro feixes de luz foram atingidos por quatro jatos de fogo, sendo impedidas de conseguir o contato.

Lancei então outra Esfera, dessa vez pra mandar algo lá pra dentro. No segundo que uma latinha que estava jogada no chão entrou eu a arremessei de volta com toda a potência, tentando acertá-la pelo lado direito. O arremesso foi facilmente desviado, porque a latinha atravessou seu corpo com bastante velocidade. Eu fiquei sem opções. A criatura então ergueu seu braço pra cima, e fez um portal aparecer. Dele, vindo rapidamente, saiu algo negro como se fosse cristal, vindo rapidamente em minha direção. Fechei instintivamente meus braços na minha frente, torcendo pra não ser atingido. Senti um grande calor agradável ao meu redor. Logo lembrei de Jessica, mas não vi flecha nenhuma por perto.

A fonte do calor era uma fina película quase transparente que me envolvia como um escudo. Era um escudo feito pelas minhas mãos, e ele me protegeu do ataque que a criatura havia lançado contra mim. Parei de criar o escudo e logo senti um cansaço enorme. Eu tenho que pensar em algo. A criatura, depois de baixar o braço, voltou à posição inerte de antes.

Meu combate estava sendo mais difícil do que era possível. Meus golpes, tanto simples quanto fortes ou rápidos, não conseguiam encostar nela, enquanto eu não podia fazer nada mais do que me defender. E a cada bloqueio de ataque eu ficava mais fraco, cada vez mais perdendo o fôlego. No último bloqueio que fiz eu perdi o equilíbrio. Ela estava estática de novo, mas começou a se mover lentamente, como se soubesse que eu já não podia me defender de seu ataque.

Quando seus braços estavam a centímetros de distância de meu rosto, uma lâmina perfurava o peito da criatura. A espada entrava constantemente em seu peito, e sua cabeça balançava freneticamente, como se estivesse sentido a dor da espada. A lâmina continuava a entrar, e vinha na direção da minha cabeça. Quando pensei que seria atingido, a ponta da lâmina se desfez em pó, caindo no chão perto de mim, e fazia isso sempre deixando a lâmina entrar mais e não alcançar meu rosto. Reconheci o jeito que a espada se desfazia, e tentei lembrar onde havia visto isso antes.

– Garoto, você está bem? – E a voz potente dele chegava aos meus ouvidos, me lembrando do dia em que conheci Clint.

Estava cansado, até um pouco pasmo pelo fato de ter uma espada a centímetros do meu rosto, mas me levantei e abri espaço entre mim e a criatura.

– Clint! Como me achou?

– Como sabe o meu nome, garoto? – Ele falou, balançando a espada pra trás e arremessando a criatura longe. Seu ferimento parecia queimar, saindo fumaça mesmo do local que a lâmina estava. – Isso pode esperar, vamos primeiro destruir essa coisa ali. – E a espada agora mudou para uma katana.

Eu ainda estava cansado, mas iria participar do combate. Clint avançou contra a criatura, agora recuperada do ferimento de antes. Ela estendeu o braço e bloqueou a espada com um escudo que havia formado. O escudo resistiu o golpe, mas se quebrou logo em seguida. Agora eu entendi. Ela estava me imitando, tentando recriar os golpes que eu fiz. Ainda bem que não usei um Tiro fatal nela...

Criei uma Esfera de luz enquanto Clint fazia outro ataque. Seu corpo era grande demais para poder atacar em sequência com uma katana, então foi bloqueado de novo por outro escudo. No momento que a espada acertou o escudo eu estalei os dedos, fazendo minha Esfera de luz explodir logo atrás dele, liberando dez finos feixes de luz e atacando diretamente a criatura. Ela não conseguiu se defender, sendo logo encoberta pela luz branca e sendo mandada para dentro da minha dimensão.

– Vejo que sua carta é muito boa pra combate. – Clint falou, agora se dirigindo a mim.

– Não tanto como a sua. – Eu repliquei. – Espadas! Isso é irado. – Tinha até animação em minha voz, e um barulho alto me fez lembrar de Amanda perseguindo a diretora. – Mas agora não. Minha amiga está atrás da diretora. – E nisso eu saí em direção ao portão que elas tinha passado antes, mas a mão de Clint segurou meu ombro firmemente.

– Calma, garoto. Minha parceira está lá. – Ele disse.

– Parceira? Quem? – Eu perguntei em seguida. – É a Emmy?

Clint ficou claramente chocado. Ele não conseguiu muito reagir sobre o que disse. E após várias distorções no seu rosto para formular a pergunta, interrompendo os ocasionais barulhos vindo de longe, Clint falou.

– Como... Você... Sabe tanto assim de nós? – E isso foi mesmo algo difícil pra ele. Me faz pensar que ele trabalhou demais no corpo e não na mente.

– De uma maneira nada convencional. E não foi espionagem. – Falei isso vendo se ele tinha alguma reação, mas ela demorou demais para aparecer em seu rosto. Decidi ser o mais simples possível. – Em sonhos.

– Sonhos? – A confusão era um pouco mais clara em seu rosto. Aceitável, já que ouvir que uma pessoa te conheceu em um sonho, é pra se duvidar mesmo.

– Meio que sonhos. – Eu disse. – Eu sonhei com vocês, mas não acho que era mesmo sonhos. Acho que eram cenas do futuro.

Iria até continuar explicando, mas um grito chamou nossa atenção. Não era de Amanda, então julguei que era de Emmy. Clint confirmou isso correndo rápido para lá, me pegando de surpresa. Corri atrás até ver Amanda, Will e Emmy cercados por sombras. Amanda estava apoiada em um joelho, Will estava desmaiado, sendo protegido por Emmy, que quase não conseguia mais ficar em pé.

– Emilly! Você está bem? – O grito de Clint fez com que todos se voltassem pra ele. Lá se foi nosso ataque surpresa...

– Clint! Que demora... – Emmy falou isso tão sem emoção que fiquei levemente assustado.

Clint logo correu na direção deles, abrindo caminho pelas sombras balançando uma espada de tamanho muito grande. Eu corri logo atrás, passando pelo vácuo deixado pelas gingadas da grande espada.

– Amanda. – Falei me aproximando dela. – Muito problema?

– Um pouco. – Ela respondeu.

– Você de novo. – A diretora se sobrepôs. – Se qualidade não deu certo, vocês caem agora! – Ela ergueu o braço em nossa direção, mandando todas as sombras atacarem juntas. Notei também os portais que apareceram atrás dela, onde mais sombras pareciam sair.

– Vamos ficar cercados por cima também se não fizermos algo. – Eu falei. Lembrei do sonho que tive, mas não podia funcionar. Will estava caído, e a carta de fogo era de Jessica, que não estava aqui, e Emmy, eu julgo, não tem o poder de vento dos sonhos. – Clint, rápido, quais são as suas cartas? – Continuei.

– Posse chamar armas de curto combate. – Ele falou, girando uma lança que havia criado e destruindo dezenas de sombras.

Emmy desviava e lançava socos no ar, sem nenhuma arma ou efeito. Eu jogava algumas Esferas nas sombras, e elas explodiam criando a Malha de luz, dando tempo suficiente para chegar mais perto de Emmy.

– Emmy, qual a sua? – Falei, dando um Tiro fatal em uma sombra atacante.

– Como sabe... – Eu a interrompi.

– Sonhos. Agora me diga. – E criei uma Barreira, destruindo quatro sombras atacantes.

– ... Força. – Ela completou depois de um tempo. – Não é tão boa pra combate.

– Mas pode até ser. Me passa ela por um segundo? – Eu perguntei. Ela claramente não esperava isso. A barreira continuava em pé, mas agora estava sentindo o cansaço aumentar rapidamente. – Coisa rápida, só um ataque.

– E como... – Interrompi de novo.

– Não vou, agora me passa. – Realmente essa falta de confiança era demais pra aguentar em um dia só.

Ela estendeu a mão e pôs a carta no meu braço direito, e eu imediatamente senti seu efeito. Meu cansaço diminuiu consideravelmente, e quebrei a Barreira, criando uma gigantesca Esfera de luz.

– Clint, me cobre um pouco. – Gritei.

Enquanto Clint me defendia usando duas espadas, a Esfera de luz aumentou de tamanho, ficando três vezes maior do que uma normal. Arremessei ela pra cima, fechando minhas mãos com força pra cima, criando uma palma forte, que fez a Esfera se partir em centenas de feixes, destruindo as sombras que nos atacavam. Alguns dos feixes passaram rapidamente pela diretora boquiaberta e entraram nos portais criados atrás dela, fechando todos. Alguns feixes acertaram os pulsos e a testa da diretora, e pareceu entrar em corpo, fazendo que ela gritasse alto e se contorcer, até que caiu de costas no chão.

Estava em pé, com as mãos fechadas acima da minha cabeça, parado, até todos os feixes serem usados. As sombras ao nosso redor desapareceram. Comecei a ofegar bastante quando meus braços desceram pra posição normal. Amanda estava sentada ao lado de Will, que agora acordava de seu... Coma? Emmy estava sentada no chão também, tendo Clint ao seu lado, cuidando dela.

– Agora, garoto, me diga. – Clint falou primeiro. – Como você sabe quem somos?

– Eu... Tinha... Falado... Antes... – Ofegava entre as palavras. — Sonhos... – O cansaço estava me impedindo de falar, então decidi descansar um pouco. Estiquei minha mão para devolver Força para Emmy. No segundo que a carta surgiu na minha mão, eu senti vertigem e caí de costas no chão. Não me lembro de nada mais que aconteceu.