Acordei em casa, na minha cama, estranhando muito tudo isso. A última coisa que me lembro era da escola. Ficamos cercados pelas sombras e... Nossa, minha cabeça dói.

– Pelo menos tudo terminou bem... – Comentei baixinho. Fechei os olhos de alívio e deixei um sopro fraco sair da minha boca, aliviado por tudo o que aconteceu.

Logo que o sopro leve saiu de minha boca eu senti o ar sair de meus pulmões de uma vez. Amanda, que agora se tornou boa em arremessar livros também, jogou um livro de Matemática na minha barriga. Graças a Deus era o único que estava à vista.

– Meu Deus, Amanda. – Foi o que eu pude grunhir. – Legal saber que eu desmaiar não te impede de fazer isso. – Reclamei, continuando a passar a mão perto do local que o livro me acertou.

– Você não assuste os outros assim! – E sua voz era alta e perfurante. – Agora desce pra falar sobre tudo. – Sua voz seria muito assustadora se não estivesse tão aguda.

Segui os seus comandos e desci pra sala, vendo nela Will, agora acordado, Clint e Emmy. Me sentei em uma cadeira que Amanda trouxe da cozinha. Parecia que eu ia ser interrogado.

– Garoto, aquilo foi incrível, — Clint falou. – mas você tem que falar algumas coisas. – Ele concluiu lentamente.

– De onde nos conhece? – Emmy pronunciou fracamente a pergunta.

– Uau, quase não ouvi o que você disse. – Ela visivelmente rolou seus olhos. – Acho que o melhor jeito de explicar seria dizer que foi em sonho. – Todos, menos Emmy, se sobressaltaram. – Foram alguns sonhos que eu tive, e vocês dois apareceram neles. Em um, no último que tive, foi o mais intenso. Foi como participar de uma cena de algo. Eu pude saber algumas coisas, mas são sonhos. – Expliquei, mostrando que também estava confuso. – Não sabia que poderiam ser verdades, já que são sonhos.

– Então... – Clint falou. – Quando você chamou meu nome...

– Eu arrisquei. Saber que está certo é algo não muito bom, porque o resto...

– O que aconteceu nesse seu sonho? – Will perguntou.

–Bom, deixa eu lembrar... – Eu falei. O sonho foi hoje de manhã mesmo, mas ele se confundiu com os outros. – Eu lembro de usar algumas cartas. Algumas que não vimos antes. Estávamos cercados. Vento, tinha essa carta também. E Jessica. Ela estava lá. Porque...

As memórias do sonho estavam bastante confusas. Lembro claramente de enfrentar uma multidão de sombras. Mas tinha algo que não me lembro.

– Preciso falar com a Jessica. Eu já volto. – Eu me levantei e fui em direção ao meu quarto.

– Como você vai falar com Jessica? – Amanda me perguntou. – Ela sumiu naquele dia, não foi?

– Ela me deu o telefone dela. Pra caso eu precisasse falar com ela. Espera um pouquinho. – E subi a escada rapidamente.

Cheguei no quarto e peguei meu celular, e comecei a procurar o papel que ela havia me dado. Depois de achar o papelzinho devidamente guardado na minha mesa eu disquei o número. O telefone tocou cinco vezes até que ela atendeu.

– Alô? – Ela falou, parecendo confusa.

– Jessica? – Não houve confirmação do outro lado. – Jessica, sou eu, Filipe. – Ainda mudo. – Você me passou seu telefone... – E então ela interrompeu.

– Filipe. Sim, eu lembro. O que você quer logo agora? – Ela falou. Parecia ter falado isso com muita velocidade, e parecia ter pouco fôlego agora.

– Você pode vir na minha casa? Preciso muito saber algumas coisas. – Eu falei.

– Onde... Você... Está? – Ela estava correndo de algo.

– O que está acontecendo com você? Tem algo te seguindo? – Eu perguntei.

– Sim. Bem, quase. Tem só algumas sombras me seguindo. Perto do centro, por cima de alguns... – Teve um breve silêncio, seguindo de uma batida surda. – Telhados. Sabe, coisas comuns.

– E porque você não as destrói?

– Não. Se eu usar eles me acham de novo, e não posso deixar me acharem de novo. – Ela parecia que iria falar muito ainda, mas eu falei mais rápido.

– Ok, sabe aquela abertura que você me viu da última vez? Vai pra lá que eu te encontro.

– Ok, vou indo. – E desligou o telefone. Corri rapidamente pro andar de baixo.

Eles estavam falando alguma coisa que eu interrompi quando desci rapidamente pelos degraus.

– Vamos andar um pouquinho? – Eu falei, já indo pra porta. Antes de começarem a pergunta eu já expliquei. – A Jessica está correndo, então preciso encontrá-la em outro canto. Lá no terreiro abandonado. Clint, você sabe o caminho.

Eles pareceram ficar em dúvida sobre o que eu disse, então eu abri a porta pra sair, mas ela foi fechada rapidamente.

– Se explique melhor. – Amanda falou.

– Jessica. Sendo perseguida. Por isso ela vai pra lá. Eu vou pra lá. Me sigam ou não, mas eu preciso ir pra lá. – Então eu consegui sair. E eles também se mexeram agora. Seguimos rapidamente para o terreiro, e logo vimos Jessica correndo por entre as árvores, tentando esquivar de sombras. Elas a perseguiam com velocidade, e parecia não desistir de alcança-la.

– Jessica! – Eu gritei, e logo corri em sua direção. Clint também foi atrás, logo criando uma grande espada. Emmy, Amanda e Will ficaram recuados observando.

Me aproximei de Jessica, mas não falei nada. Logo criei a Esfera de Luz, e as sombras se focaram em mim.

– Não! – Jessica gritou, tentando me impedir, mas eu estalei os dedos e acertei várias sombras, reduzindo um pouco o seu número. – Não faça isso.

– E porque não? – Falei, enquanto Clint abriu caminho por entre as sombras, eliminando várias a cada gingada da espada.

– Eles vão me achar.

– Eles quem?

– A Irmandade.

Eu não entendi. Porque a Irmandade estaria tentando achá-la?

– E porque isso?

– Eu fui e peguei mais uma carta emprestada... – Ela falou, e usou o caminho de gelo de antes para derrotar sombras atacantes. – E eles simplesmente surtaram! – Ela falou isso seriamente. Foi cômico.

– Qual delas? – Eu perguntei, então eu meio que respondi pra mim mesmo. – Vento...

– Ué, foi essa mesmo. – Ela disse, então ficou ainda mais na defensiva. – Você me espionou mesmo... Eu sabia.

– Não. Explico depois.

– Eu posso explicar... – Ouvi uma voz desconhecida falar por entre as poucas árvores que ainda restavam em pé.

– Oh, demais. Me acharam. – Jessica resmungou. As sombras, antes tentando nos acertar, agora recuaram, sumindo de vista.

– Certamente você fugiu bem, Jess. – A voz esticou seu nome bastante. – Acho que está na hora de nos devolver o que você pegou, não acha?

– Difícil. – Ela falou. – Não tenho relógio pra ver. – Ela falou isso em direção à voz. Eu tinha, mas deixa pra lá.

– Hahahahah, vejo que ainda faz graça comigo. – A pessoa dona da voz começou a aparecer por entre os troncos. Eu então reconheci que era, mas não parecia em nada como antes. – Vamos lá, se entregue a... Você... – O rapaz vestido em couro preto reluzente falava isso.

– Sim, sim, eu sei. Devia ter contado sobre isso. – Eu falei alto, porque senti os olhos de todos em minha direção. Graças aos céus não havia livros por perto, mas já tenho certeza que levo um. – E deixa eu adivinhar. – Falei me dirigindo a Jessica. – Você pegou as cartas que pode porque o que a Irmandade tentava fazer deu super errado.

– Que isso, garoto, como você sabe tanto? – Clint se manifestou.

– Essa eu posso explicar. – O couro animado falou. – Clairividência.

– Clarividência, jumento. – Jessica cortou. Ele, claramente irado, jogou uma onda de sombras nela como resposta. Ativei o Escudo de luz a tempo, evitando assim um grande ataque. – Isso foi legal.

– Eu sei. – Eu falei rapidamente. – Eu descobri isso com os sonhos.

– Não me ignorem! – Ele gritou. – Bem, voltando ao que eu estava dizendo...

– Não precisa mais, o assunto morreu. – Jessica interrompeu, criando o caminho de gelo e o mandando em sua direção. – Hora de fugir. – Ela lançou uma bola de fogo no gelo, causando uma explosão de vapor de água, criando o que parecia ser uma névoa. O motoqueiro parece ter nos perdido de novo, e puxei o Clint para irmos embora. Sinalizamos para os três que estavam atrás para irmos embora.

– Não pra minha casa. Ele já passou lá, então... – Falei isso e fui em direção a Amanda. – Amanda... Dá pra gente ir pra sua casa agora?

– Pra fugir dele? – Ela questionou.

– Sim. Melhor lugar por enquanto.

– Ok, me sigam. – Ela falou.

Amanda correu na frente, e rapidamente chegamos até a escola de novo. Olhamos para trás para vermos se ainda nos seguiam e não vi nada. Menos mal. Sem descansar muito nós começamos a subir a pequena ladeira até a casa de Amanda. Chegamos lá esgotados, exceto Amanda, Clint, Jessica e Emmy. Acho que isso faz com que eu e Will fôssemos os menos condicionados. Amanda, ao invés de nos dirigir a porta da frente, nos fez dar a volta pelos fundos e nos guiou até uma pequena casa, que parecia ser um galpão ou algo assim.

– Amanda, que lugar é esse? – Eu perguntei, já que não conhecia aquela parte.

– Um lugar que dá pra sair dali. – Ela falou, apontando pro quarto dela.

Entramos e vi um quarto ligeiramente maior que o que eu tinha visto antes. É bem parecido com o anterior em termos de decoração. As parede, entretanto, eram pintadas de um azul celeste simples e sem brilho. Um canto do chão era forrado, e parecia ser o único lugar pra se sentar dali. Não tinha nenhuma mobília mesmo.

– Sintam-se à vontade. Vou avisar que cheguei em casa, só um momento. – Amanda saiu e seguiu em direção a ‘mansão’ dela. Vendo isso, Will e Clint seguiram calmamente para a parte acolchoada. Emmy, que quase não havia falado hoje, já estava silenciosamente sentada se apoiando na parede. Jessica se dirigiu pra exatamente o outro lado do colChão. Eu não estava a fim de me sentar, então fiquei em pé me apoiando na parede mesmo. Amanda retornou rapidamente e se sentou entre Will e Emmy.

– Ótimo... – Eu falei.

– Eu conto, se acalma. – Jessica falou. Essa garota tem tendência de interromper muito.

– Garoto, você lembra de mais alguma coisa do sonho? – Clint perguntou, ignorando Jessica completamente.

– Acho que não era sonho. Não depois disso. – Falei.

– Como assim? – Amanda questionou.

– Só eu me importo com o que aconteceu agora há pouco? – Jessica falou.

– Não é isso. – Eu falei como resposta. – Jessica, digamos que eu meio que sei porque você tava fugindo. – Ela me olhou estranhamente. – E não porque você me disse algo.

– Tá, isso seria viagem. – Ela falou.

– Eu sei. Lembra que eu falei que você tinha pegado Vento?

– Sim, mas isso é porque...

– Não, não é. – Eu cortei. – Não te espiono. Eu sonhei com isso. Sonhei que algo similar acontecia.

– E você soube de Vento... – Emmy pronunciou lentamente, deixando que eu concluísse a pergunta na minha mente.

– Vento existia no sonho, e você usava. – Muitos se viraram para encarar Emmy, que continuou quieta e encostada na parede.

– Então deixa eu falar porque eu peguei Vento também. – Jessica quebrou o rápido gelo que tinha se formado. Me silenciei e deixei ela falar dessa vez. – Eu me juntei a Irmandade porque sim.

Will deixou a cabeça dele bater barulhosamente na parede. Eu soltei um suspiro pesado. Jessica continuou normalmente.

– Depois de alguns meses me foi apresentado o fundador dela. Eu já o conhecia, o tinha visto várias vezes ali, mas não sabia que era o líder. O nome dele é Dione. – Ela pronunciou separadamente cada uma.

– Desculpa, como? – Amanda interrompeu.

– Di-o-ne. Do jeito que se parece mesmo. – Ela explicou, usando as mãos. Eu sei que Amanda riu com isso. – Só que ele odeia esse nome. E como não pode mudar ainda, ele pede para chamá-lo de Johnny, igual ao nome americano. Besteira dele, isso sim. – Ela falou sem se alterar.

– Jessica, avança pra parte que você pegou a carta. – Eu pedi.

– As cartas. – Ela corrigiu. – Todas as cartas da Irmandade eram guardadas e usadas dependendo da missão passada. – Parece ser muito chato. – Era irritante não usar minha própria carta. Mas tinha certa lógica nisso.

Todos balançaram a cabeça concordando, menos Clint e Amanda.

– Faz um certo tempo que a Irmandade estuda sobre as sombras. Um ano, mais ou menos. Pouco tempo, é claro, mas eles pretendiam fazer algo grande pra conseguir esse conhecimento. Eles queriam capturar sombras e tentar dominá-las. – Me lembrei da segunda vez que vi Jessica. Ela brigou comigo dizendo que eu atraí as sombras que a Irmandade iria capturar. Dei um pequeno sorriso de lado, um sorriso bem arrogante mesmo, quando lembrei que eu disse que isso daria errado. – Eles conseguiram isso ontem. Passaram a noite inteira estudando com aquela coisa. Eu fui pra casa, já que minha parte foi somente capturar uma “amostra” grande o suficiente pra estudarem.

Ela desviou o olhar pra mim rapidamente, como se fosse ironicamente agradecendo?

– Quando voltei hoje à Irmandade, tudo parecia normal, mas não tinha mais ninguém. As cartas ficavam em posse de Johnny, então passei na sala dele para ver se ele estava lá. Não encontrei nada além do case das cartas. Quando andei pelo local, alguma coisa lá não parecia certa. Fui então nas cartas, e quando cheguei perto, eu senti que me observavam. Olhei e vi ele. Johnny. Mas ele estava mudado. Vocês viram ele hoje. Mas ele não era assim antes. Esse lado radical dele não existia. Ele era até bem recluso, e demorava muito pra contar que era o líder para os novatos. Usava roupas simples e trabalhava mesmo na pesquisa.

– Agora eu entendo. – Falei. Todos olharam pra mim. – Eu falei em casa sobre aquele meu sonho, não foi? – Somente Jessica não soube do que falei. – No sonho me foi dito que o que a Irmandade tentou fazer falhou. Era sobre isso. O estudo não deu muito certo e Johnny deve ter sido atacado por aquela sombra.

– Exatamente. – Jessica falou. — Parece ser ele, agir como ele, e saber o que ele sabe, mas não é mais ele.

– E como podemos resolver isso? – Will perguntou. – Parece ser uma possessão ou algo do tipo, então como podemos ajuda-lo?

– Do mesmo jeito que foi feito contra aquela pessoa, na escola. – Emmy rapidamente comentou.

– A diretora? – Amanda falou. – Talvez ela também estava possuída como Johnny está! – Ela concluiu.

– Vocês puderam falar com ela? – Eu perguntei. — Sabe, depois do que aconteceu?

– Não pudemos confirmar. Ela ficou desacordada lá, mas estava viva. – Clint falou. – Eu confirmei que ainda tinha pulso e chamei alguém pra lá.

– Pode ser... – Falei. – Mas temos que ter certeza antes de tentar qualquer coisa. Nós precisamos ver a diretora. – Concluí.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.