A verdadeira magia
4 O confrontar
Notas iniciais
Seu visual era como de filme. Todo de preto, com máscara de ski, o clichê todo. Retornei até ter visão de Amanda, e mandei sinais pra ela ligar pra polícia. Ela pareceu entender, e pegou seu celular. Retornei ao ponto da escada onde podia ver o tal ladrão. Fiquei em pânico interno sobre o que fazer. Ir pra cima? Eu tinha uma faca e o elemento de surpresa. Mas ele estava armado. E demoraria pra eu sair da escada. Espero a polícia? Não, pior ainda. Eles vão demorar. Pense, pense... Eu estou com Velocidade. Eu posso ir pra cima. Com muita velocidade eu conseguiria. Espera, eu estou com Dimensão alternativa também. Hora de fazer mais um teste com ela.
Foquei toda a minha atenção para o ladrão, e tentei mandá-lo para a dimensão. O vórtex tradicional apareceu rapidamente, e o mandou pra lá silenciosamente, mas a arma que ele segurava não foi com ele, então ela caiu no chão fazendo um grande barulho. Desci a escada correndo, e fui até Amanda.
– Se esconda! — Sussugritei.
– O que aconteceu?
– Vem aqui primeiro. — E arrastei ela até o canto mais escondido da sala. — Dimensão alternativa.
– Mandou o que?
– Não o que, e sim quem. — Ela me olhou confusa. — Mandei um assaltante pra lá.
A boca dela se abriu de surpresa. Como previsto, pus a mão na sua boca de novo, dessa vez com mais força.
– Tem mais. — Falei.
Não ouvi o que ela disse em resposta, mas tenho certeza que foi "O que?".
– Silêncio. Eu vou ver o outro.
Amanda me segurou antes de me afastar.
– O que vai acontecer com ele?
– Não sei. Nós vemos isso depois.
Saí antes de Amanda me impedir. Com cautela, comecei a passar pela sala, procurando o outro homem que estava lá. Era óbvio que tinha outro, pelo menos um. E o barulho da arma caindo no chão deve ter chamado sua atenção. Segui até perto da escada, olhando para a cozinha. Vazia. Coloquei minha cabeça pra ver a escada. Nada também. Ótimo, segui subindo devagar até o limite, e tentei ver o corredor. Ninguém. Até agora tudo bem.
Subi a escada, ficando no começo do corredor. Somente a porta do quarto da minha mãe estava aberta. Prossegui com ainda mais cautela, e fui me aproximando da porta. Ignorei a arma no chão, não queria pegar nela. Chegando na porta do quarto, vi uma bagunça no chão. Fiquei no batente do lado de fora e me abaixei pra tentar olhar melhor. Olhar lá me fez ver várias coisas.
Um assaltante procurava freneticamente pelo closet do quarto, enquanto outro segurava uma arma apontando para minha mãe. Ela estava de costas pra porta, e um deles estava atrás à esquerda, apontando um revólver pra ela. O outro estava dentro, atirando várias roupas pra fora tentando achar algo. A porta do closet tinha um espelho, por onde eu podia aparecer, mas não era muito visível. Agora era a hora de mandar tudo junto. Foquei em mandar os dois, ladrão e arma, para dentro da dimensão. Me foquei para mandá-los, e o vórtex começou a aparecer. Dessa vez havia mais gente pra ver, e como estava com uma baita sorte, o assaltante que vasculhava o closet se virou na hora que seu parceiro desaparecia. Minha mãe também olhava de olho arregalado o que acontecia.
O assaltante, agora recuperado do choque de ver seu parceiro sumir, me viu na porta, e tentou alcançar sua arma em cima do criado mudo que fica um pouco longe do closet. Corri pra chegar mais rápido e impedir, e Velocidade fez o truque, me pondo em frente ao assaltante. Ele surpreendeu-se comigo, e entrou em posição de combate. Eu me preparei também, com faca levantada, mas ele não hesitou. Quando ele veio para cima de mim, saltei para o lado para evitar o golpe. Quando me foquei de novo nele, o cano da arma estava levantado em minha direção.
Meu sangue gelou. Larguei a faca rapidamente e levantei as mãos. Meu foco foi unicamente na arma em minha frente. Vendo as mãos dele tremerem segurando a arma, sabia que atiraria por qualquer coisa. Fechei os olhos e não me mexi. Como se eu estivesse naquela aula de história de hoje, o tempo parecia ter parado. Não havia sons que chegassem ao meu ouvido, e isso aumentava ainda mais a sensação de tempo parado. Me senti leve, no escuro, até que ouvi o que mais temia no momento. Um tiro foi disparado, e comecei a sentir a dor no meu coração. Senti a dor, caí no chão de costas, senti o frio do chão e do meu coração ao mesmo tempo, e sentia cada vez mais minha pulsação parar. Abri os olhos lentamente para tentar ver minha mãe pelo menos mais uma vez. Me surpreendi ao ver Amanda me olhando. O tiro ecoava nos meus ouvidos, mas lentamente comecei a ouvir outras vozes.
– ...ipe... Filip... Filipe... — Vozes variadas vinham ao mesmo tempo me confundindo, mas todas chamavam meu nome.
– Calma... Uma por vez... — Falei, ou ao menos acho que falei.
– Filipe! Reage! — Senti um tapa. E ponha tapa nisso.
O calor do tapa fez meu sangue fluir pra deixar a marca da mão de Amanda no meu rosto. Virei meu rosto para a esquerda com a força, e vi a parede do closet com sangue espalhado nela. Tentei me mover, mas não consegui, parte pela experiência, parte por Amanda estar sentada em cima de mim. Virei meu rosto para Amanda para pedir pra ela sair. Mal endireitei a cabeça e ela me deu um tapa pra direita. Isso me deu meu movimento de novo, e a noção do que aconteceu.
– Amanda... Cadê... Minha mãe? — Balbuciei lentamente.
– Os médicos já estão vendo ela. — Ela falou rapidamente. — E você? Está bem? Você... — Ela foi falando ainda mais rápido.
– Calma, calma. — Falei. — Vamos devagar. Primeiro, saia de cima de mim, por favor? — Pedi carinhosamente. Mal terminei a frase e ela já estava vermelha. Saindo de cima de mim aliviou minha cintura, e isso já me deixou melhor. Me virei para procurar o lugar que minha mãe estava antes. Estava vazio.
– Cadê ela? — Falei, olhando pra Amanda de novo.
– Levaram ela pra fora em uma maca. — Falou como seu rosto escondido nas mãos.
Me levantei devagar e olhei ao redor. Muita coisa revirada, mas tudo trabalho do assaltante. Olhando para onde ele estava eu vi vermelho. Vermelho sangue espalhado pela parede e pelo chão. Olhei para meu corpo, e procurei o buraco onde a bala tinha entrado. Estranhei não ter visto nada na busca.
– Eh, Amanda, contexto... — Pedi confuso.
– Você... Não lembra... — Ela começou. Balancei a cabeça negativamente. — Eu... Atirei no assaltante... — Ela falou. O rosto ficou menos vermelho e começou a cair lágrimas dele. — No... No meio do peito... Eu... Eu só queria... — O choro venceu e dominou Amanda.
– Você me salvou? — Perguntei confuso, mais pra mim mesmo do que pra ela responder. Sem esperar resposta, me aproximei dela e a abracei.
Ela, surpresa, chorou mais ainda. Ficamos ali, sentados na cama, eu a abraçando e ela chorando. Após um pouco, separei o abraço e me endireitei na cama.
– Obrigado, Amanda. Eu vou ver minha mãe. — Falei rapidamente, e me levantei. — Você, eu acho, quer ir pra casa agora. — Falei, tentando desconversar. — Você... Já ligou pro seu pai?
Não tive resposta. Quando ia olhar pra ela, senti seus braços ao meu redor.
– Eu... Matei um homem... Eu sou uma…
– Você fez o que devia ter feito. — Falei. Ela afrouxou os braços.
– Você me salvou. Você tirou a vida de alguém que não se importava com vidas dos outros. — Continuei, agora me virando e a abraçando. — Eu estarei pra sempre agradecido. Obrigado.
–Hm... Sim... Mas... — Ela começou baixinho.
– Mas nada. O que foi feito foi feito. — Falei, e dei um aperto no abraço. — Eu preciso ver minha mãe. Você que vir comigo?
– Sim... — Ela falou simplesmente.
Soltei dela e me virei para a porta. Puxei a mão dela e nos conduzi até a escada. Chegando até a sala, vi meu pai sentado no sofá, com a cabeça perto das pernas e as mãos na cabeça.
– Pai? — Perguntei, indo para ele diretamente. — Pai, você tá bem?
Ele olhou pra mim e me puxou para um abraço muito dos estranhos.
– Você tá bem? O que aconteceu? Me explica tudo.
Sentei no sofá e comecei a falar do que me lembrava.
– Quando nós voltamos, Amanda e eu, gritei pela mãe, mas ela não respondeu. Como ela não falou nada pelo celular, estranhei muito. Logo falei para Amanda se esconder, peguei uma faca e subi pra ver se achava ela. Pedi pra Amanda chamar a polícia, e segui pro quarto.
– E você tá doido? Inventou isso da onde? — Meu pai falou, claramente preocupado.
– Calma, pai, não ia fazer besteira, não sou idiota. Ouça, segui para o quarto e vi dois homens lá, apontando uma arma pra mãe. — Menti, sim, mas pra defender as cartas. Parece que sempre minto quando é pra ocultá-las. — Entrei pra tentar surpreender o cara dentro do quarto, e consegui. Um deles fugiu, mas deu tempo do outro apontar a arma pra mim. Amanda me salvou depois disso. — Ele me ouvia em silêncio, sem soltar do abraço. — E a mãe? Como ela está?
– Ela tá bem, só desmaiou mesmo. Retiraram o corpo do ladrão, e já o levaram embora. — Ele falou. — Vai lá ver sua mãe.
Soltei do abraço que havia começado do nada de novo e comecei a seguir para fora de casa. Vi ela sentada na ambulância, e segui rapidamente para lá. No caminho me cobriram com aquela manta cafona dos filmes, mas nem liguei na hora. Minha mãe era meu foco.
Chegando mais perto dela, vi que estava em choque. Tentei falar com ela, mas seus olhos nem mudaram a expressão de vazio e confusão que demonstravam. Cutuquei algumas vezes tentando ter qualquer resposta dela, até que finalmente ela falou, e eu desejei não ter cutucado.
– Como você fez aquilo?
Gelei. Como iria explicar o que tinha feito? Eu não queria explicar, não parecia certo.
– Não fui eu, foi a Amanda. Ela atirou e…
– Não foi isso. — Ela olhou pra mim. Um olhar que jamais tinha visto de ninguém. Olhar perfurante, como se buscasse entender o que tinha visto achando a resposta no meu cérebro. Eu me apavorei, e resolvi não mentir.
– Não posso dizer. — Falei desviando o olhar dela. — Sim, fui eu, mas não posso dizer como fiz aquilo, e não irei falar, não parece certo contar.
– Me conte. — Ela falou.
– Não posso.
– Me conte, filho. — Ela segurou minha mão. Não do jeito amoroso de uma mãe, mas sim do jeito desesperado em busca da resposta.
– Não vou contar. Não é certo contar. E também sinto que não posso contar. — Falei e saí dali, ignorando o que minha mãe disse e o aperto que deu em minha mão. Me doía o coração, mas eu estava me forçando a me afastar. A experiência me fez pensar sobre o porquê de eu não poder me abrir pra minha mãe sobre as cartas, mas falar tão tranquilamente sobre ela minutos depois de conhecer Amanda.
Com a mente maquinando uma explicação plausível, entrei em casa de novo, planejando ir para meu quarto pegar roupas para alguns dias. A perícia tinha liberado grande parte da casa, mas o quarto de minha mãe era fora dos limites ainda. Sem contar que teríamos que tirar o sangue de lá. O corpo já tinha ido junto com os policiais, sobrando somente a ambulância que atendia minha mãe lá fora.
– Pai. — Falei, entrando de novo na sala. — E agora, qual o plano?
Ele olhou pra mim e baixou a cabeça de novo.
– Ir para um hotel, eu acho. — Ele começou. — Temos que limpar a casa, e isso vai demorar.
– Todos nós? — Falei em dúvida.
– Porque a pergunta? — Ele falou, olhando em minha direção.
– Mamãe está... Como posso dizer isso... — Tentei pensar em uma referência de qualquer coisa pra tentar animá-lo. Isso ajuda a gente a se acalmar. — Bem... Ela tá meio... Jack Sparrow quando Jones matou o Will. — Nem eu entendi direito, mas já tinha saído.
– Como assim "Jack Sparrow quando Jones matou o Will"?
– Sabe, aquela cara dele, ohh... — Falei, imitando o Jack. Não deu certo. Mas foi suficiente pra ele soltar uma risada fraca, sem ânimo. O que foi suficiente pra ele rir foi Amanda fracassando em segurar seu riso. Aquele som de ar passando pelo nariz foi hilário, e aliviou bastante o clima pesado.
– Isso me lembra... — Falei, depois de parar de rir. — Amanda, conseguiu falar com seu pai? Isso é, se esse é seu plano agora.
– Mandei uma mensagem pra ele. — Ela disse e eu me surpreendi. — Não podia ligar pra ele ouvir minha voz assim. Precisava me acalmar um pouco, afinal…
– Não, chega, acabou o assunto. — Falei rapidamente. — Vamos focar no futuro, que tal? — Falei retoricamente. — Eu vou pegar minhas roupas e por no carro, pai.
– Certo. Cuidado pra não ir no quarto de sua mãe, a perícia bloqueou o acesso.
– Certo. Meu quarto fica longe, acho que dá pra entrar.
– Eu vou com você, Filipe. — Amanda falou.
– Tá bom... — Falei lentamente. — Porque você…
– Você me chamou aqui pra ir pro seu quarto, se lembra? — Ela falou com um olhar divertido. E o que ela falou foi suficiente pra ativar a mente do velho.
– Cuidado lá em cima, viu? Ele vão trazer luz ultravioleta pra…
– Pai, nem termine a frase. — Falei, indo do esbranquiçado normal até vermelho tomate claro. Amanda, que eu pensei que ia ficar envergonhada como ficou antes, deu risinhos e me puxou em direção à escada.
– Pode deixar... Pai. — Amanda disse isso, não eu. Meu rosto ardeu de tanta vergonha, ficando com uma nova tonalidade de vermelho. Meu pai riu alto, enquanto Amanda ria também, mas com um tom muito diferente de risos de divertimento. Como se ela adorasse a situação.
Subi os degraus numa correria, mas era da Amanda, não de Velocidade. Ela me puxou para o quarto e fechou a porta.
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