Notas iniciais
De novo trouxe um cap pra vocês. Agora ouçam só. Eu mesmo estou betando, e minha maior paixão na escola é matemática. Eu sei, eu sei, eu que sou o doido, mas enfim, me avisem se tiver algum erro que tiver passado despercebido por mim e o Word, ok?

– Ok, começando os negócios. — Ela falou. Eu, ainda vermelho, estava tentando processar os eventos da sala. Não sei como ela saiu de envergonhada pra assustada, depois pra depressiva, depois calma, depois sacana em uma única tarde. — Filipe, foca aqui em mim.

– Oi, é, oi, diga. Negócios, que negócios? Porque você fez aquilo? E como você fez aquilo, se morreu de vergonha na frente do seu pai? — Falei disparado. Nem tinha notado, mas minha voz saiu fina pra tudo isso. Ela notou e riu de leve. Limpei a garganta e continuei. — Quer dizer, que negócios?

– Que negócios? O que a gente ia fazer quando chegasse na sua casa? — Ela falou. Senti meu rosto quente de novo, mas dessa vez era outro motivo. — As cartas! Me mostra.

– Ah, é, as cartas. Ufa, eu aqui pensando besteira. — Falei pra mim mesmo, mas aparentemente falei pra Amanda também sem querer.

– Pensando besteira? Porque pensaria besteira, Filipe? — Falou usando tom sarcástico no Filipe.

– Ehh, nada não. Foi outra coisa. — Passei a mão no cabelo, tentando disfarçar meu constrangimento. — Ahahh... As cartas, né.

– Sim, me mostra.

– Ok, vou chamar Velocidade. — Falei, me preparando.

Tentei fechar minha mente e focar na carta. Fechei os olhos, me imaginei segurando a carta de novo, até que consegui sentir ela na minha mão.

– Incrível. Essa é Velocidade... — Amanda falou em admiração. Entreguei a carta pra ela ver.

– Ela é ativada aproximando ela do seu rosto. O efeito, bem, é aumentar a velocidade do usuário. — Falei, apontando o óbvio. Amanda lançou um olhar seco em minha direção.

– Obrigado, Sherlock.

– De nada, Watson. — Dei um olhar Sherlockiano, com um sorriso de lado. Rimos um pouco, até Amanda falar de novo.

– E Dimensão alternativa, onde ela está? — Ai eu pensei, isso vai ser um problema.

– Oh, droga, Dimensão alternativa... Isso é um grande, grande problema.

– Porque seria? — Ela questionou.

– Porque uma das restrições da carta é que não se pode chamá-la sem ter tirado todos os itens de dentro da dimensão.

– E porque seria um problema?

– Porque mandei dois deles pra lá... — Falei, vendo sua expressão mudar de tranquila para preocupada, até ficar assustada.

– Não... — Ela balbuciou. — O que você vai fazer?

Não sei mesmo o que fazer. Como iria chamar dois bandidos, e um deles armado, pro meu quarto? Pense, pense. Comecei a olhar ao redor para formar um plano.

– Porta... Cama... Mesa... Janela... Armário... Ventilador... Janela! — Falei do nada.

– O que tem? — Ela parece não ter pegado o fio da meada.

– Não percebe? Eu posso chamar como eu quiser. Eu vou querer chamar eles pela janela!

– Mas eles não estariam no ar? E não iam cair? — Ela falou, com pesar na fala.

– Sério, simpatia por eles agora? — Falei cético.

– São pessoas ainda assim. — Ela respondeu. — Arranje um jeito melhor.

– Ok, já sei, liga pra polícia, eles vão ter dois ladrões trapalhões para capturar.

Amanda, mais satisfeita agora, pegou seu celular enquanto eu ia pra janela estudar o local de pouso deles. Procurei uma árvore ou um telhado pra eles ficarem, e encontrei um do outro lado da rua. Uma casa com sacada, bem fechada e sem ninguém vendo, seria meu alvo.

– Quanto tempo até ele chegarem aqui?

– Sete minutos.

– Perfeito. — Disse isso e comecei a chamar os dois pra lá. Não deu certo, nem chamando individualmente. Me bateu o desespero.

– Não deu certo. Eu não tô conseguindo, Amanda.

– Acalme-se.

– Como, eu vou perder isso assim, não tem como... — Meus pensamentos desesperados acabaram assim que Amanda segurou minha mão.

– Acalme-se. Não perca a cabeça, e pense em como resolver isso. — Ela falou com voz suave.

– Uhn... — Fechei os olhos e comecei a pensar. Eu tenho que visualizar o que eu quero tirar, isso é o problema. Eu não lembro como eles eram. Queria ver como estavam lá dentro. Numa dimensão desconhecida, confusos, provavelmente com medo. Olhe, imagine, tenta lembrar. Nesse momento eu vi perfeitamente os dois ladrões. Eu os vi dentro da dimensão, de algum modo. Eu não podia entrar nela, mas eu podia vê-los.

Bom, é agora ou nunca. Abri meus olhos e foquei na sacada. Foquei visualizando suas feições. Primeiro o sem arma, sendo seguido por seu parceiro. Mas algo deu errado.

Quando estava no meio do transporte do segundo, o ladrão que estava na sacada deu um grito. Um grito alto, como se fosse um gemido desesperado de dor. A passagem do segundo foi interrompida pelo grito, e meus olhos rapidamente se voltaram para vê-lo. Seu braço direito estava faltando a partir do cotovelo. O sangue banhava a sacada, porque além sair sangue do braço de um, meio corpo jazia do outro lado.

Amanda, que tinha se virado quando viu o braço do assaltante, fez menção de virar, mas eu impedi. Fechei a cortina e me joguei na cama. Por isso a carta fala aquilo, por isso não devo mandar ninguém pra lá. Merda. Fiquei deitado na cama, socando o travesseiro, sentindo lágrimas rolando pelo meu rosto. Saber que você matou alguém é um peso maior de se carregar do que parecia antes. Senti novamente o tempo indo devagar, pra me torturar mais. Minutos, horas, anos, não sabia ao certo quanto tempo tinha passado. Eu relembrava a cena várias e várias vezes, cada vez chorando mais.

Amanda apertou minha mão, então meus olhos puderam ver de novo meu quarto. Vi que ela estava ajoelhada ao meu lado, chorando também. Sentei no colchão, e ela levantou a cabeça. Meu olhar continuava triste, por causa do que iria ter que fazer.

– Amanda, fique aqui, por favor. — Pedi, então me levantei e fui até a janela.

Ela parece que não tinha entendido o que iria fazer, até que pareceu entender, pois chorou mais e se jogou em cima do colchão. Olhando pela janela, mesmo com olhos muito marejados, vi a sacada novamente. O sangue cobria tudo, o ladrão um estava caído, aparentemente morto, e metade do outro estava no chão. Não desviei o olhar, e me forcei a ver o que tinha feito. O grito, como esperado, tinha chamado a atenção dos donos da casa. Pra tentar evitar chamar mais atenção ainda, mandei o resto visualizado antes para o telhado, de um modo que ninguém visse na hora. Após mandá-lo, olhei ao redor, pra ver o estrago. Uma viatura da polícia estava lá, olhando para a sacada. Os vizinhos da frente estavam na rua, junto com a polícia. Ninguém havia notado a outra metade dele, até que ela caiu em cima da sacada, assustando todos com o jato de sangue.

Eu já não podia mais ver a cena. Fechei a cortina e olhei pra Amanda. Ela estava deitada, virada para a parede.

– Amanda, a carta. — Ela se virou pra mim. Teria gritado comigo se não tivesse visto a expressão no meu rosto. Me sentei ao lado da cama, ficando em frente ao seu rosto.

– Não mande mais nada vivo pra lá, ok? — Ela falou, pondo a mão no meu rosto.

– Não mandarei. Não posso fazer isso de novo. Jamais. — Falei.

– Como está? A cena, como ficou lá fora? — Ela falou.

– Muito sangue. — Seus olhos marejaram. — E vamos deixar assim.

– E o primeiro? — Minha falta de resposta foi suficiente pra ela entender. O que ela não chorou antes ela chorou agora. Segurei sua mão rapidamente.

– Amanda, por favor, não chore. Por favor. — Ela olhava pra mim. — Me desculpe por isso, eu não queria isso... — Meus olhos também marejaram. — Eu prometo que jamais farei isso de novo. — Falei isso a abracei fortemente. — Eu prometo.

Estávamos sentados na cama ainda pensando sobre o que aconteceu, até que eu resolvi quebrar o gelo de algum modo.

– Bem... A noite tá chegando, o que você achou? Gostou de me conhecer? — Falei, com um leve sorriso.

Parece ter funcionado a piada, pois ela deu um leve e fraco sorriso.

– Bom, tirando o que aconteceu hoje... Sim, foi bom. — Ela falou, dando um sorriso, dessa vez sincero. — Eu acho que nunca me senti tão sem saber o que sentir por conhecer uma pessoa antes na minha vida.

– Hein? Vou considerar isso como elogio. — Dei outro sorriso.

– E você?

– Eu o que?

– Você está feliz por ter me perseguido online, me encontrado na escola e me levado pra sua casa? — Ela falou, segurando o riso.

– Falando assim é difícil não estar. — Respondi debochando. — Nunca estive tão feliz por sentir que não sabia o que sentir por conhecer uma pessoa. — Comecei a rir depois que falei isso, sendo seguido por Amanda. — Pelo menos esse dia será inesquecível.

– Verdade... Você tropeçou na sala, me mostrou a carta na biblioteca, ficou passando vergonha na frente da escola comigo.

– Fomos numa loja incrível juntos.

– Vimos uma boneca demônio filha da Annabelle. — Ela completou, rindo em seguida.

– Sim, a demônia em cabelo. — Ri junto com ela. — Consegui defender a casa e minha mãe.

– Correção, nós defendemos a sua casa. — Ela interrompeu.

– Isso, nós. E agora acho que acabou. Esse foi o dia, não?

– Sim, mas falta uma coisa, que deixará marcado pra sempre. — Ela falou isso e se aproximou de mim, me dando um beijo na bochecha. Inesperado foi, é claro, mas me trouxe muito mais do que o susto. Fiquei vermelho, alegre, aliviado, calmo, e fiquei ainda mais vermelho, porque o que nos interrompeu foi meu pai na porta, aproveitando a vista.

– Olha só, bem que eu tinha falado. — Ele falou, certamente se divertindo com a cena.

A fala dele me fez dar um pulo e cair da cama, rolando até o meio do quarto. Amanda, que na presença do pai é facilmente envergonhada, era possuída por um espírito de provocadora na frente de meu pai, o que só piorava a situação. Me levantei rapidamente, correndo em direção ao meu pai e puxando ele pra fora do quarto, fechando a porta atrás de mim.

– Pai, que foi?

– Eu falei antes, e continuo dizendo, eles vão trazer luz ultravioleta, e…

– Não! Para com isso! Não ia ser assim! Não tão longe. — O desespero era minha voz, e minha voz era o desespero.

– Calma, calma, saiba que não estava espionando, eu tinha que falar com vocês.

Respirando um pouco mais, perdendo o desespero da voz, e a sensação de temor, fiquei mais calmo.

– E o que é?

– Bom, o pai da minha futura nora, — Olhei pra ele assustado. — digo, Amanda, está aqui.

– Eu aviso pra ela. Vai cuidar da mãe ou algo assim. — Falei.

– Olha... Tá bom, eu cuido do meu amor e você cuida do seu. — Terminou de falar e saiu correndo escada abaixo. Eu juro que se eu tivesse alguma coisa pra jogar nele eu teria jogado. Voltei pro quarto pra avisar Amanda.

– Problemas, tomate? — Amanda falou logo assim que me viu.

– Sim e sim. — Falei, nem perto de ficar menos ruborizado. — Meu pai já quer nos casar. — Falei isso pra ver se pelo menos ela ficava também assustada. Não deu certo. Se deu alguma coisa foi o olhar dela ficando cada vez mais divertido. — E seu pai chegou aqui. — Agora a cor sumiu do rosto dela. Aparentemente o pai é o ponto fraco dela. E só. — Amanda... Oi... Tá com lag?

– Meu pai tá aqui? — Ela falou. Estranhamente, ela soou desesperada.

– Sim, porque esse medo todo?

– Porque meu pai é muito muito superprotetor. Ele é capaz de fazer qualquer coisa pra me proteger. A situação não vai ser legal.

– Eu seguro. Já lutei contra um ladrão hoje, bora ver se ele me aguenta. — Disse confiante.

– Não tente, ninguém conseguiu até hoje. — Ela usou tom de aviso.

– Então eu vou ser o primeiro. — Falei, peguei sua mão, e comecei a andar pra porta. — Vamos que eu vou ganhar. — Puxei ela escada abaixo. — Se eu morrer vou morrer feliz pelo menos. — Falei sorrindo.

Ela abriu um sorriso também e agora seguiu comigo para a sala.

Notas finais
Eita, Amanda e suas safadezas, Filipe e sua coragem, o que pode dar errado? Até o próximo.