A víbora
5 Capítulo 05
Não encare essa situação como algo inseguro, ou que eu esteja buscando a morte ou algum tipo de punição a mim mesma. Pois não estou. Afinal moro em Sínomo, e nada aqui acontece. Não existe assaltos, assassinatos ou algo do tipo, lembra? Somos quase programados para agir de forma ética, e ter uma vida programadamente segura.
Mas eu não consigo viver assim, sempre seguindo um script como se fizesse parte de uma peça individual, mas mutualmente monótona. Apesar do meu repúdio com a vida controlada que temos aqui, eu entende o excesso de segurança. Quando o mundo era exatamente como você conhece, que cada individuo toma escolhas livres, e vive com suas consequências individuais, o ser humano começou a criar uma espécie de segunda personalidade, e essa outra pessoa tinha o ego inflado e gigantesco, e ela acreditava que ele deveria governar o mundo todo, acreditava piamente que era o mais inteligente, talentoso, bondoso ... E com isso religiões estranhas foram nascendo, jeitos diferentes de encarar a vida, de se vestir, de opinar.
E como esperado, todos esses seres diferentes começaram a entrar em conflito. Conflito esse que durou vinte anos de guerra. Guerra por religião, por opiniões, por etnias ... Até que os recursos naturais acabaram, e eles se obrigaram a unir forçar para sobreviver,mas, você sabe, são apenas humanos, não suportam seres diferentes. E entraram então em uma nova guerra, só que desta vez, pela sobrevivência
E então se passaram cinco anos de guerra por água, comida e espaço. Obviamente não deu certo, havia muitos humanos, e poucos recursos, e com fome, humanos comiam humanos, crianças, o que pudessem. Em desespero cientistas criaram uma doença, programada para matar pelo menos da população atual. Funcionou,em partes. Eles perderam o controle, e a doença se propagou de maneira desoladora. Matou noventa por cento da população.
Foi quando os sobreviventes se viram em pânico e criaram um lugar, protegido, onde somente pessoas comprovadamente saudáveis viveriam, procriariam e quando estivessem fortes, sairiam de lá e povoariam o mundo novamente. Esse lugar seguro é Sínomo. Ou seja, aqui ninguém me estupraria, roubaria ou mataria. Exceto eu mesma. E sejamos sinceros, não seria má ideia.
Sai vestindo uma calça de couro preto, que ficou tão justa que parecia costurado em mim. Uma blusa regata preta, lisa e bem decotada. Nunca me senti tão forte e determinada, e caminhei tranquilamente por entre as ruas muito bem iluminadas e modernas. Demorei para chegar lá, mas cheguei, apresentei o cartão Jason, a recepcionista perguntou como se pronunciava eu olhei no fundo dos olhos dela, me debrucei sobre a bancada, deixando meus lindos e modestos seios a encararem, e disse :
– Jeison.
Mas de uma forma bem delicada, minha intenção era que ela acreditasse que esse nome era unissex, e que eu uma mulher poderia me chamar Jason. E com sucesso ela me deixou entrar. Principalmente pelo fato de que embaixo do nome estava escrito Engenheiro genético.
Caminhei sozinha pelos corredores, vendo cada um dos pacientes trancados nas sala de segurança máxima. Quem passa pelo lado de fora não imagina que aquele minusculo prédio, todo decorado com flores e cestas de vime, era na verdade um depósito gigantesco de assassinos.
Passei quieta pelos corredores, vendo cada detalhe que eu pude. E no final de um dos corredores vi que tinha um imenso mural com muitas noticias sobre os doentes. Li todos eles com muita atenção. E caminhei por outros corredores, e sem querer entrei na ala de críticos. Não, eu não os nomeei assim. Estava escrito em letras garrafais e em negrito. Então ouvi gemidos e gritos. As portas eram mais grossas e repletas de fechaduras e correntes, e somente um quadrado de vidro blindado dava acesso aos pacientes.
Muitos deles acorrentados, pareciam furiosos, gritavam nomes aleatórios, babados e até as vezes manchados de sangue.
–Pobres coitados.
Disse uma jovem enfermeira que mais parecia uma pré adolescente. Eu balancei a cabeça positivamente, enquanto olhava um dos pacientes dentro do quarto.
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