Tentar ler Marina é impossível como tentar ler uma folha em branco. Ela não demonstra nada. Seu rosto totalmente impassível.

Nunca tive nenhum tipo de contato com pessoas com deficiência, mas estando á cinco minutos ao seu lado já deu para perceber que essa condição não é nenhum desafio para ela.

Pelo contrário.

Ela anda com confiança e tranquilidade.

Eu fico pasmo.

E mais tranquilo também, não que eu vá assumir isso para mim outra vez.

Está tendo uma obra na calçada bem à nossa frente, quando estamos nos aproximando, meu primeiro impulso é segurar o braço de Marina.

Ela não vai gostar.

Se eu fizer isso é bem provável que ela coloque a pestinha branca para me morder.

Vale o risco?

Olho para ela de relance, o rosto focado, como se estivesse prestando atenção em todos os movimentos ao seu redor, em todos os ruídos.

O que são muitos.

Buzinas, obras, pessoas para todos os lados. Um mar de pessoas que mal se dão o trabalho de perceber que uma pessoa com necessidades está entre eles. Pessoas preocupadas demais com suas vidas, e com seus celulares, para se importar com as necessidades dos outros.

Uma tremenda bagunça.

Isso meio que me deixa irritado e culpado também, porque eu meio que sempre estive incluído nesse grupo de pessoas.

Estamos em silêncio desde que saímos do prédio, mas para o meu espanto não é um silêncio que incomoda, é um silêncio até que...

Confortável.

E para falar a verdade eu meio que estou com medo de abrir a boca e falar qualquer outra besteira novamente.

Eu deveria adverti-lá sobre o obstáculo.

Que se dane!

Quando estico meu braço para segurar o seu e puxa-lá antes que ela acabe tropeçando e caindo, ela desvia do obstáculo como se o estivesse vendo.

Facilmente.

Estou de boca aberta e encarando a criatura intrigante à minha frente.

Um sorrisinho se forma em seu rosto.

— Para que você acha que trago Amora comigo?

Porra, ela poder ler meus pensamentos.

Engulo em seco.

— Não entendi. — Digo, mentindo. E tenho certeza absoluta de que ela sabe disso.

— Eu quase posso ouvir as engrenagens do seu cérebro trabalhando a todo vapor. — Ela dá de ombros casualmente. — É o que todos pensam, e com você sei que não é diferente.

— Bom, mas como sempre diz minha mãe, eu não sou todo mundo.

Foi a melhor coisa que encontrei para dizer, e sinceramente, era melhor ter ficado calado.

Estou sempre trocando os pés pelas mãos.

— Foi por isso que quis vir comigo, não foi? — Pergunta de repente.

Ela continua olhando para a frente, e dessa vez eu não consigo desvendar suas expressões. Simplesmente não há nenhuma.

Não sei se ela está zangada, magoada, ofendida.

Marina para em seu encalço e eu me vejo parando também. Ela se vira até que esteja de frente para mim.

A brisa que está passando por nós faz uma mecha do seu cabelo se soltar. A mecha negra em um perfeito contraste com a pele clara e os lábios rosados.

Ela realmente é muito bonita.

Deve ser um mundo totalmente diferente para ela. Não poder desvendar as pessoas por suas expressões, nem sequer se olhar, saber com quem você se parece.

Saber o quanto sua beleza me deixa embasbacado.

— Diferente dos nossos últimos encontros, pelo menos desta vez, eu não acho que você esteja com segunda intenções. — Ela está séria, e eu me sinto como um garotinho que foi pego no flagra.

E realmente não estou. Eu só a vi ali parada e sozinha e uma parte minha que já estava adormecida há muito tempo ficou com medo que acontecesse alguma coisa com ela.

Marina desperta isso em mim.

— Eu realmente preciso comprar o vinho. Eu prometi para sua irmã, não lembra? — Digo depressa.

Marina dá um riso exasperado como se soubesse que estou mentindo.

— Sabe, eu tenho facilidade em ler as pessoas. E eu consegui ler você perfeitamente desde o nosso primeiro contato. — Diz casualmente. — Mas não estou conseguindo ler agora. Então, eu uso minha intuição, e minha intuição me diz que você acha que eu não posso me cuidar sozinha.

Não foi bem isso que eu pensei. Na verdade, eu nem pensei direito, eu apenas agi no impulso.

Sinto meu corpo se enrijecer.

Não sei se gosto que ela me leia tão bem.

— Posso te assegurar que o motivo não foi esse. — Minto descaradamente. — Eu não faço o tipo que cuida das pessoas. — Não estou mentindo nessa última frase.

Me odeio por uma pequena parte minha agradecer por ela não poder me ver agora. Eu devo estar patético. Minha cara com certeza entregaria tudo.

Troco meu peso de um pé para o outro, porque , porra, não gosto do nervosismo que me toma quando ela me olha assim.

Marina continua me encarando.

Mesmo sabendo que ela não pode de fato me enxergar, é desconcertante.

Provavelmente ela deve estar tentando ler meus pensamentos de novo.

Ela impertiga seu rosto e parece ter achado a resposta que procurava.

— Bom, acho que você tem razão, são sentimentos genuínos demais para eu esperar de você.

Porra.

Essa doeu.

Tudo bem que ela não teve uma boa impressão de mim, mas desde então eu venho tentando me redimir de algum jeito.

— Eu também não sou um monstro insensível, Marina.

Quando dou por mim as palavras já saíram da minha boca de forma tão rápida que eu mal consigo disfarçar a mágoa em meu tom de voz.

Não sou bom com sentimentos. Não me recordo nem se quer dá última vez que deixei alguém me magoar. São poucas as pessoas no mundo com as quais eu me importo.

E uma delas não está mais aqui.

Mas eu sinto uma empatia estranha por Marina desde que a conheci. Confesso que tem um pouco de atração também.

Não sou de ferro.

Mas não é só isso.

A expressão em seu rosto se suaviza e ela parece até um pouco envergonhada. Ela passa a língua nos lábios antes de começar a falar e me pego hipnotizado.

— Estou pegando pesado, né? — Diz inclinando a cabeça para o lado da mesma forma adorável de ontem. — Você é complexo. — Tenho a impressão de que ela diz isso mais para si mesma do que para mim. — Eu não sou uma garota ranzinza, se bem que devo estar transparecendo isso. Eu só tenho que me proteger. As pessoas são maldosas às vezes.

Engulo em seco.

Nunca me senti incomodado por ser um cafajeste, mas agora eu meio que me sinto. Uma parte minha não gosta que ela tenha essa imagem de mim. O que me assusta um pouco, porque eu não me importo nem um pouco com o quê as pessoas pensam ao meu respeito.

Por que com ela seria diferente?

— Eu não sou um santo, mas também não sou um insensível sem coração. — Escolho muito bem minhas palavras. — Eu posso ser um cara legal quando quero.

Ela aperta os lábios enquanto continua com o resto inexpressivo.

Parece que ao contrário de mim ela é difícil de ler.

— Acho que podemos zerar, então. — Diz de repente.

— Como? — Pergunto confuso.

— Recomeçar de novo. — Diz com estusiasmo, como se tivesse encontrado a solução para algum problema. — Minha irmã gosta de você, e geralmente Cecília não se engana em seus julgamentos.

Espero que não.

— Então, você está me propondo nos conhecermos de novo? — Pergunto com diversão.

Marina revira os olhos.

— Claro que não tem como nos conhecermos de novo. — Ela me acha burro, com certeza. — Entretanto, estou propondo que nós comecemos de novo. Eu vou fazer um esforço e esquecer que você é um galinha e você esquece que sou uma chata reclamona.

Justo.

Um sorriso se abre em seu rosto.

Ela estende sua mão para mim, como que para celar um acordo. Quando minha mão se encosta na sua percebo que essa é a primeira vez que a toco.

Aperto sua mão na minha, e porra, gosto da sensação.

Amora late, mas não de uma forma ameaçadora como antes. Parece que ela também entrou no acordo.

Minhas calças agradecem.

— Já que resolvemos nossas pendências, agora podemos ir? Cecília vai me matar se eu não caprichar.

O jantar.

Eu tinha aceitado o convite como uma forma de irritá-la, mas já que colocamos os pingos nos "i" eu não quero que recomecemos com o pé esquerdo.

— Sobre o jantar — Digo, casualmente, olhando para o chão ao invés de olhar para ela. — Se você ainda não quiser que eu vá, não tem problema.

Marina pensa por um instante, e eu me pego congelado esperando sua resposta. Ela então dá de ombros, como se não fizesse tanta diferença assim.

— O convite já foi feito, e eu meio que quero esfregar na sua cara que sou uma ótima cozinheira.

Língua afiada.

— Espero mesmo que seja tudo isso mesmo que vocês estão falando, minhas expetativas estão altíssimas, vou logo avisando.

Marina ri do meu comentário, e isso me relaxa.

É, acho que podemos recomeçar.

Faço uma careta para as opções de vinho que estão à minha frente. Uma sessão inteira, e não tem nada que preste.

Isso só pode ser uma brincadeira.

— Não pode ser tão ruim. — Comenta Marina rindo da minha indignação.

Bufo frustrado.

— Acredite em mim, é bem ruim sim.

Eu sou um filho da mãe com bom gosto, isso eu sou. Entendo de vinho, e não estou vendo nenhum que valha a pena por aqui, e agora está um pouco tarde de mais para ir até a adega.

Vou ter que me virar com esses mesmo.

— Escolha qualquer um, juro que eu não vou reclamar. Não sou muito de beber. Não vou saber diferenciar se é um vinho bom ou não, e isso também inclui Cecília.

Mas eu queria impressionar. Queria mostrar que posso ser um cavalheiro. Queria que elas gostassem.

— Eu nunca tomei nenhum desses. Quais as chances de serem muito ruins?

Marina pensa um pouco antes de me responder.

— Quais os nomes? — Pergunta, casualmente. — Geralmente vinhos tem nome legais. Vamos usar os nomes como critério.

Garota esperta.

Talvez funcione.

— Celeiro da Vila. — Leio o nome do primeiro, e Marina não consegue segurar o riso, nem eu. — Pés de ouro. — Marina e eu fazemos uma careta.

— Com certeza esse não. — Comenta Marina com nojo.

— Concordo, o nome realmente não é nem um pouco atrativo. — Volto minha atenção para a prateleira. — Humm, acho que temos um campeão.

Marina parece curiosa.

A garrafa até que tem um valor considerável para um vinho barato de supermercado.

— Vinícola doce. — Leio no rótulo. — Vai ter que ser esse. Eu deveria reclamar com o gerente desse lugar. Deveria ter uma variedade decente, pelo amor de Deus.

Marina revira os olhos.

— Que exagero! Tenho certeza que é ótimo. — Marina estende sua bengala e começa a se afastar de mim. — Vamos, eu preciso logo dos ingredientes. Tenho certeza que já demoramos tempo demais.

A partir de agora eu apenas a acompanho. Meus olhos grudados em suas costas, completamente hipnotizado por seus movimentos.

Marina para em frente à prateleira de tomates e começa a examiná-los um por um, pegando-os em suas mãos, apertando-os. Ela faz com naturalidade. Deve fazer isso o tempo todo.

Depois de escolher os que mais se agrada ela repete o mesmo processo com mais algumas verduras e legumes.

Assim que ela coloca a última sacola de legumes no carrinho um funcionário do mercado se aproxima dela.

O homem não parece ser o tipo de funcionário que aborda os clientes para oferecer ajuda.

— Está precisando de alguma coisa, senhorita? — Pergunta casualmente, mas seus olhos estão a engolindo por inteira.

Seus olhos a examinam dos pés a cabeça, e me enfurece para caralho.

— Ah, sim. Será que você poderia me mostrar onde ficam os pães?

Marina parece não perceber o efeito que têm sobre os homens. E é injusto para caramba ela não poder ver a babaquice estampada na cara de alguns.

As palavras que ela me disse enquanto estávamos conversando na rua me acertam feito um soco no estômago.

Eu preciso me proteger.

A frase acaba de fazer muito sentido para mim.

O homem posiciona a mão nas costas de Marina, para conduzi-la, mas ele coloca um pouco baixo demais.

O desgraçado.

Eu deveria fazê-lo engolir seus dentes.

O sorrisinho ridículo no rosto como se ela fosse a porra de uma presa fácil.

Me aproximo de Marina e o fuzilo com os olhos. Não preciso de muito para intimidá-lo já que está mais que claro quem sairia muito ferrado de um embate.

E não sou eu.

— Obrigado pela ajuda. — Tento manter minha voz suave para que Marina não perceba minha irritação. — Mas eu a acompanho daqui.

Marina franzi as sobrancelhas, provavelmente estranhando minha fala.

Olho para o homem à minha frente como se ele tivesse acabado de cometer o maior erro de toda a sua vida.

Ele empalidece.

É, seu filho da puta, eu sei muito bem o que estava passando pela sua cabeça.

— De nada, fiquem à vontade. — Ele gagueja um pouco. — Se precisarem de alguma coisa, estou à postos.

— Pode deixar, não vamos precisar. — Faço questão de trombar meu ombro com o seu quando passo ao seu lado.

O homem arregala os olhos para mim.

Agradeça por eu não socá-los.

— Tudo bem? — A voz de Marina me faz sair do meu transe. — Você agiu meio estranho agora.

— Tudo sim. — Respondo, rapidamente. Coloco minha mão em suas costas, e tomo cuidado para não ser desrespeitoso como aquele desgraçado. — Os pães são bem ali na frente, eu só não quis atrapalhar o trabalho do cara.

Ela arqueia uma sobrancelha, mas não diz mais nada, apenas deixa que eu a guie.

Não levamos mais de dez minutos para pegar os ingredientes finais. Me pergunto o que será que ela irá preparar.

Marina têm os ingredientes anotados em um aplicativo em seu celular. Uma voz robótica repassa tudo o que ela precisa.

Quando ela termina nos dirigimos ao caixa. A loira bonita que me atendeu outro dia sorri quando me vê na fila.

Ajudo Marina a colocar suas coisas no caixa.

— Boa noite. — Comprimenta a loira com um sorrisinho no rosto.

— Boa noite. — Responde Marina, educadamente.

A loira mantem seus olhos em mim, o que me deixa desconfortável. Eu gosto da atenção que recebo das mulheres, mas não nesse momento. Não é bem o que eu quero agora. Eu ainda estou irritado para cacete.

Continuo ajudando Marina com as compras. Não consigo deixar de pensar no quão novo isso é para mim. Nunca fui ao mercado com nenhuma mulher na vida.

— O gato comeu sua língua, gato? — Pergunta a atendente, me olhando diretamente nos olhos.

Noto de soslaio Marina franzir suas sobrancelhas escuras. Ela continua o movimento de ajeitar as coisas no caixa com o rosto totalmente inexpressivo, parecendo alheia a energia que está carregando o ambiente bem agora.

Tenho certeza que dessa vez ela está tudo menos alheia a isso.

Engulo em seco.

— Boa noite, Susy. — Leio o nome que está escrito em seu crachá. — Como vai?

— Não achei que fosse te ver tão cedo. — Susy continua puxando assunto e ignorando Marina completamente. — Você não costuma vir com frequência ao mercado. Alguma coisa te interessou aqui?

Não é preciso ter metade de um neurônio para entender o que ela quis dizer com isso.

Obviamente ela está falando de si mesma.

Ela está dando em cima de mim descaradamente. Em um dia normal eu adoraria flertar, mas esse não é o momento.

Marina passa por mim para começar a ajeitar as coisas em uma sacola. Ela não demonstra estar incomodada.

— Na verdade, eu só vim pegar o de sempre.

— Você deveria testar coisas novas. — Murmura, e me lança uma piscadela.

Pego minha carteira no meu bolso traseiro.

— Quanto deu? — Pergunto rapidamente, querendo sair o quanto antes daquela situação.

Que droga está acontecendo comigo?

— Não mesmo. — Protesta Marina. — Minhas compras, eu pago. — Enfatiza com teimosia.

Ah, agora não!

— Eu sou o convidado, quero ajudar de alguma forma. Se não for aqui, vai ser na sua cozinha, e acredite, eu sou um desastre na culinária. Você não vai me querer lá. — Rebato de uma forma que ela não tenha como argumentar.

Susy olha de mim para Marina como se fossemos criaturas de outro mundo.

Provavelmente estranhando também eu não ter respondido seu flerte, não que isso me importe. Minha atenção está toda em Marina agora.

Marina revira os olhos, como de costume, e balança a cabeça em negação, e nesse momento eu sei que venci.

E é uma sensação boa para caralho!

Passo meu cartão pagando as compras. Pego as sacolas mais pesadas, já que Marina insiste em ajudar também.

Como ela pretendia levar tudo isso sozinha para casa?

— Volte sempre, bonitão. — Ronrona Susy, me lançando a segunda piscadela da noite. — Sabe onde me encontrar.

Marina arqueia as sobrancelhas e nos dirigimos para a saída.

— Uau. — Comenta de repente, quando já estamos do lado de fora do mercado. — Mais direta que isso acho impossível.

— Do que você está falando? — Pergunto me fazendo de desentendido.

Um sorriso debochado brinca no canto do seu rosto como se ela soubesse que sei exatamente do que ela está falando.

— Do que eu estou falando? — Pergunta incrédula. — Ela estava dando em cima de você descaradamente.

— Sério? Eu nem percebi. — Respondo evasivo.

— Claro que não. — Brinca Marina. — E claro que vocês também nunca flertaram antes. — Eu quase posso tocar a ironia em suas palavras de tão palpável.

Sinto minhas bochechas queimarem, e não sei o porquê, eu sou um homem adulto e livre, afinal.

— Nada sério, se é o que você quer saber. — Provoco.

Examino bem seu rosto para ver se consigo tirar alguma informação dali, mas não tem nada.

— Cecília disse que você é um homem muito bonito. — Diz de repente, parecendo pensativa.

Seu comentário me pega de surpresa. Não esperava por essa. Esperava que ela fosse me provocar mais, como sei que ela gosta de fazer.

— Ah é, ela disse isso? — Pergunto em tom de brincadeira.

— Disse. — Responde, ainda com o ar pensativo.

E é só isso que consigo desvendar em seu rosto.

Quando chegamos eu ajudo Marina a colocar as compras em sua cozinha, e não posso evitar não perceber os olhares de Cecília. Seus olhos vão de mim para Marina como se ela estivesse vendo algo ali que nenhum de nós conseguiu perceber ainda.

— Vocês foram juntos, então? — Pergunta Cecília como quem não quer nada, mas eu posso ver as segundas intenções estampadas em seus olhos.

Não é nada do que ela está pensando. Eu não faço o tipo casalzinho. Estou sendo prestativo de um jeito que não costumo apenas porque simpatizei com elas, mas esse negócio de romance nao é comigo.

Por mais que eu me sinta atraído por Marina, eu sei que uma boa convivência de vizinhos é o máximo que vamos ter.

Combino de voltar às oito já que já passam das sete horas da noite. Marina tinha razão, acabamos demorando demais.

Tomo um banho demorado deixando a água cair em meu rosto, e relaxar todo o meu corpo.

Eu fiquei impressionado com a autonomia dela. Ela agi com confiança, tanta confiança, que você precisa prestar muito bem atenção para notar sua deficiência.

Será que ela já nasceu assim?

Como será viver sem poder se enxergar?

Sinto um aperto no peito, e instantaneamente me obrigo a parar de pensar sobre isso.

Isso não é da minha conta.

Saio do banho e procuro uma roupa confortável para vestir. Coloco uma calça jeans, e um suéter verde. Percebo que esfriou um pouco agora à noite.

Minha barriga ronca, e isso me faz lembrar que já faz horas desde minha última refeição.

Durante o banho pensei bastante e, deixei mais que claro para mim mesmo que por mais que eu sinta atração por Marina, aquele não é terreno para mim.

Não quero magoá-la.

Não seria fácil me envolver do jeito que estou acostumado e depois deixá-la para lá. E eu ainda seria obrigado a dar de cara com ela todos os dias.

Isso supondo que ela sinta alguma coisa por mim... O que ela não deixou transparecer.

Ela nunca deixa.

A mulher tem algum tipo de armadura.

Suspiro alto.

Então eu vou a esse jantar, vou ser o vizinho mais gentil da face da terra, mas apenas isso.

Passo a mão ajeitando meu cabelo mais uma vez antes de bater na porta.

Ouço vocês abafadas, e passos se aproximando. Quando Cecília abre a porta eu mostro a garrafa de vinho e falo:

— Não me responsabilizo por esse vinho. — Brinco.

Cecília ri, e então me olha dos pés a cabeça. Ela dá um assobio alto.

— Marina, seu vizinho é um pedaço de mal caminho. — Comenta se abanando.

— Deixa só o Mário ficar sabendo disso. — Ouço Marina dizer.

— Ele não tem que saber de tudo, não é mesmo. — Cecília abre a porta para que eu entre e então a fecha.

Ainda têm algumas caixas espalhadas pela sala, mas olhando ao redor vejo que as duas já cuidaram da maioria da mudança.

Amora está enrolada em sua caminha no canto, perto do sofá. Ela levanta a cabeça olhando para mim, mas logo volta a encostar sua cabeça novamente.

Acho que também fizemos uma trégua.

— Quem é Mário? — Pergunto genuinamente curioso.

Entrego a garrafa de vinho para Cecília.

— É o meu marido, você vai conhecê-lo em algum momento.

— Com certeza, esses dois vivem pegando no meu pé. — Alfineta Marina, mas percebo o tom de brincadeira em sua voz. — É bem provável que você esbarre mais com eles do que comigo.

Cecília sorri com carinho para a irmã.

— Por que nós amamos você, sua reclamona.

Sinto uma pontada no peito ao ver a interação entre as duas. Se provocando, brincando uma com a outra. O amor é perceptível entre as duas. Cecília cuida de Marina. Irmãos mais velhos sempre tem um amor fraternal sobre os irmãos mais novos. Eu sei disso porque eu também era assim com o meu irmão.

Dou mais alguns passos para dentro do apartamento e já consigo ver Marina na ilha da cozinha. Ela está cortando algumas das verduras que ela pegou no mercado hoje. Consigo reconhecer.

O cheiro que exala pelo apartamento é maravilhoso e faz meu estômago roncar mais uma vez.

— Espero que você goste de comida mexicana. — Marina está com o cabelo preso em um coque no alto da cabeça. — É o que deu tempo de fazer.

Caminho até a ilha da cozinha e apoio meus braços no balcão inclinando-me para ver o que ela está cozinhando.

— Se estiver tão bom quanto o cheiro, certeza que vou gostar. — Comento.

Marina sorri.

Eu gosto quando ela sorri.

Marina fez um banquete com burritos, tortilhas e guacamole. Acho que nunca comi uma comida caseira tão boa em toda a minha vida.

As duas já se deram por satisfeitas, mas eu ainda ataco mais um burrito.

— Alguém parece ter aprovado sua comida, Marina. — Comenta Cecília.

Marina sorri e toma mais um gole do vinho, que para minha surpresa, ou sorte, não é tão ruim.

— Prometo que na próxima vez eu trago um vinho decente.

— O que seria um vinho decente? — Questiona Marina.

Eu preciso ensinar essa mulher a degustar um bom vinho de qualidade.

— Acredite em mim, você vai saber quando provar.

Mantenho meus olhos em Marina, e ela está totalmente relaxada. Tem um leve rubor em suas bochechas, provavelmente por conta do vinho. Ela soltou os cabelos e eles caem como uma manta negra por sobre seus ombros.

Quando penso que ela não pode ficar ainda mais linda...

Imagens de nós dois invadem minha mente. Seu cabelo enrolado em minha mão, eu o puxando com força...

Porra!

Tomo mais um gole do meu vinho.

— Então Inácio, o que você faz da vida? — Cecília está me encarando agora.

Estava tão distraído olhando para Marina que nem notei que a atenção de Cecília está totalmente em mim.

Me sondando.

Engulo em seco.

— Eu sou publicitário.

— Que importante. — Caçoa Cecília. — Você trabalha nisso há muito tempo?

— Bom, a empresa é do meu pai, então eu meio que fui predestinado a isso. Comecei a faculdade desde cedo, e já trabalho nisso há um bom tempo.

— Você gosta do que faz? — Pergunta Marina. — Por que do jeito que você acabou de descrever me parece que você não teve muita escolha.

Ela está segurando a taça próxima aos seus lábios, seus olhos fixados em minha direção. Meus olhos passeiam de sua mão até seus lábios...

— Gosto sim. — Me forço a responder. — Pelo menos nisso eu tive sorte. Se eu não gostasse acho que seria mais um problema entre meu pai e eu.

Seu peito sobe e desce com a respiração lenta, e eu não sei se é o efeito do vinho, mas eu acho hipnotizante.

— Você não se dá bem com seus pais? — Cecília parece interessada.

Ajeito-me na cadeira.

Eu preciso focar e parar de fantasiar.

Me viro em direção à Cecília, que é o terreno mais seguro da mesa. Me obrigo a responder às perguntas que ela está fazendo. É um caminho mais seguro a seguir, até porque eu também tenho perguntas e gostaria de respostas.

— Com minha mãe não tenho problema nenhum, apenas com meu pai. Nós temos ideias diferentes, e podemos ser um pouco cabeça dura as vezes. — Dou de ombros como se não fosse nada de mais.

Achei que talvez Cecília pudesse ficar com um pé atrás comigo depois dessa informação, mas pelo contrário, posso ver que ela entende o que quero dizer.

— Família é complicado. — Tem um pesar em sua voz. — Nem todo mundo tem a sorte de ter a família margarina perfeita.

Eu não queria que fosse desse jeito, mas as vezes as coisas são como são.

Mal tenho tempo de me aprofundar no assunto para entender o que ela quis dizer com isso, quando assusto-me com algo se aconchegando ao meu pé.

Levanto a toalha da mesa para ver uma pequena bola branca com a cabeça deitada em meu sapato.

Acho que ela decidiu que gosta de mim agora.

— Amora, aqui não é lugar de ficar! — A repreende Cecília. — Volte para o seu lugar.

Amora nem se move.

— Pode deixar, com tanto que ela não tente arrancar um pedaço da minha calça outra vez, ela está liberada para ficar.

Marina ri.

— Eu ainda acho que você deveria arranjar um cão guia mais bem treinado, Marina.

É perceptível que Cecília não está brincando desta vez.

— Amora está ótima para mim. — Rebate Marina, sucinta.

Cecília entrelaça as mãos em cima da mesa, com paciência.

— Eu sei que você gosta dela, eu também, mas temos que concordar que ela é indisciplinada. Ela não vai atender suas necessidades.

Uma expressão de desgosto passa pelo rosto de Marina rapidamente, tão rapidamente que se eu não estivesse estudando cada centímetro do seu rosto desde que sentei nessa cadeira, eu não teria percebido.

— Acho que esse não é o momento de falar sobre isso, Cecília.

Marina claramente não está confortável. É um assunto particular. Decido agir rápido.

— Como você encontrou a diab... quero dizer, a Amora? — Pergunto mudando de assunto.

O rosto de Marina se ilumina. Essa cachorrinha deve mesmo ser importante para ela.

— Amora foi treinada para ser cão guia, mas não foi aprovada para os requisitos. Pelo menos não todos. — Cecília balança a cabeça em reprovação. — Mas nós tivemos uma conexão instantânea, quando cheguei ao abrigo. E para mim ela é perfeita, ela é meus olhos.

— Seus olhos poderiam ser mais bem treinados. — Alfineta Cecília.

Percebo que não é que ela não goste de Amora, ela gosta, é apenas a preocupação de irmã falando mais alto.

Eu meio que concordo com ela, mas óbvio que não vou dizer nada.

— As crianças da ONG amam ela. — Retruca Marina. — Ela é dócil, e me ajuda bastante, para mim ela é perfeita.

Cecília bufa frustrada.

Marina é teimosa, e já deu para perceber que quando ela coloca uma coisa na cabeça é difícil fazê-la mudar de ideia.

A palavra ONG não passou despercebida por meus ouvidos.

— ONG? — Pergunto com curiosidade, e dou mais uma mordida em meu burrito.

Deus, isso é muito bom.

— Eu dou aulas para crianças em uma ONG. — Responde Marina. — Foi por isso que me mudei para cá.

— Aulas de quê? — Pergunto, genuinamente curioso.

— Eu dou aulas de pintura. — Responde, tranquilamente. Faz uma pausa como se estivesse esperando que eu disesse alguma coisa. — Não vai ficar surpreso? Geralmente essa é a reação das pessoas quando digo que dou aulas de pintura.

Isso meio que me irrita. Qual o problema dela dar aulas de pintura? .

O que têm de errado com as pessoas?

— Na verdade, não. — Respondo casualmente, disfarçando minha irritação.- Não sou um grande entendedor de arte, mas acredito que arte é para ser sentida, não tem nada a ver com visão.

Olho de soslaio e percebo que ela aprova minha resposta.

Ponto para mim.

— Está vendo, eu disse que gostei dele. — Diz Cecília cutucando Marina com com o cotovelo.

Sorrio.

— Eu gostaria de fazer uma pergunta, mas não quero ser indelicado. — Digo com cautela.

Marina leva a taça de vinho aos lábios outra vez, e parece avaliar se eu mereço ou não.

Ela deposita a taça outra vez na mesa, e de forma despreocupada apoia o queixo em sua mão.

— Vamos lá, pergunte. — Diz simplesmente. — Hoje você está liberado.

Eu tenho a sensação de que quero despejar um caminhão de perguntas em cima dela a todo momento.

Não consigo evitar.

Ela me intriga.

— Como funcionam suas aulas?

Ela não enxerga as cores, então eu meio que fico curioso. Na verdade, minha curiosidade é mais entender ela.

— Eu ja enxerguei um dia Inácio. Há muito tempo atrás.

Isso me surpreende. Não tinha passado pela minha cabeça essa hipótese ainda.

Isso é meio que pior.

Não imagino como deve ser enxergar um dia e no outro não.

Ela vê que fico em silêncio então continua.

— As cores são as memórias mais fortes que tenho na minha cabeça. Eu não me lembro de muitas coisas. Formas, rostos... virou tudo um borrão na minha cabeça. Mas as cores, elas ainda são bem vivas. — Ela parece perdida em pensamentos por um instante, mas logo se recompõe. — Eu ensino as crianças a se expressarem da forma como me foi ensinada depois do meu acidente.

Marina deve ser um pouco mais nova que eu. Eu arriscaria dizer que talvez ela tenha uns vinte e cinco, vinte e seis anos. Não consigo imaginar como deve ser duro passar por algo assim sendo tão jovem.

— É um trabalho lindo, Inácio. E as crianças amam a Marina. — Comenta Cecília com orgulho. — Às vezes eu gosto de acompanha-lá e ficar apenas assistindo suas aulas do cantinho.

Cecília faz carinho no cabelo de Marina.

Sinto alguma coisa dentro de mim se remexer...

— Algumas crianças tem deficiência visual outras não, nós praticamos a inclusão também. É um trabalho que eu amo muito fazer, temos problemas, claro, como em qualquer outro trabalho social. Sempre há obstáculos, mas vale a pena.

Fico fascinado a ouvindo falar. Posso sentir a paixão em suas palavras. No jeito que seus olhos estão brilhando agora.

Foco, Inácio.

Foco.

— Que tipo de problemas? — Pergunto, tentando manter o foco na conversa e não em como Marina está completamente linda agora.

— Verba, voluntários. — Diz simplesmente. — Mas nós contornamos do jeito que dá. A maioria das crianças são carentes.

Acho que nisso eu posso ajudar.

— Talvez eu possa ajudar. A empresa em que trabalho investe muito em projetos sociais, eu posso ver o que arranjo. Levar a ideia para eles e ver no que dá. Não posso prometer nada, mas vou tentar ajudar.

Cecília sorri para mim como se eu fosse a pessoa mais bondosa que já pisou na terra.

Ah, se ela soubesse o que eu gostaria de fazer com a irmã dela.

Ajeito-me na cadeira e empurro esses pensamentos para o mais profundo do meu subconsciente.

— Ajuda é sempre bem vinda.

Um sorriso tímido brinca nos lábios de Marina.

Bem no meu interior eu sei que talvez eu não esteja ajudando com a mais honesta das intenções, mas quem se importa?

Eu quero conhecê-la melhor, e é apenas isso que vou ter.