A um toque dos dedos
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Consigo ouvir a risada de Andreas assim que chego ao topo da escada. É a brincadeira favorita dele, esconde-esconde. Eu, particularmente não gosto, mas se o deixa feliz, eu faço um esforço.
Estou a dez minutos o procurando pela casa, fingindo que não sei onde provavelmente ele está escondido.
Aposto que ele está no quarto da mamãe e do papai. Mesmo sabendo disso, eu faço questão de procurá-lo em qualquer outro cômodo da casa, apenas para prolongar sua diversão.
Durante um segundo de devaneio olho para minhas mãos e elas estão tão pequenas. É engraçado ter doze anos de novo. Em algum lugar da minha mente eu sei que este momento é apenas uma lembrança.
Não é real.
Mesmo que eu queira me agarrar a isso. Mesmo que eu prefira ficar aqui do que voltar para minha vida real.
Por que ele está aqui...
Ouço a risada de Andreas novamente e isso me instiga a procurá-lo.
— Você não me acha. — Andreas grita. Consigo ouvir a diversão em seu tom de voz.
Meu coração congelado já há muito tempo vacila. Uma parte minha já tinha esquecido de como sua voz era.
Ando pelo corredor comprido e escuro em direção à porta do quarto. Giro a maçaneta com cuidado para não fazer barulho.
Apenas uma luz fraca, vindo da fresta da cortina, ilumina o quarto. Andreas está agachado ao lado da cama. Posso ver o topo de sua cabeça, o cabelo castanho despontando.
Sorrio.
Dou passos lentos tentando fazer o mínimo de barulho possível, me preparando para pegá-lo de surpresa. Quando faço o impulso para alcancá-lo Andreas se transforma em uma nuvem de fumaça, desaparecendo por entre meus dedos.
Meu coração acelera.
— Andreas! — Eu grito assustado.
De repente eu não sou mais o garoto que brincava de esconde-esconde com o irmão caçula, e sim o homem de trinta e dois anos assombrado por meus pesadelos.
— Andreas! — Grito novamente com a voz rouca. Sinto algo preso em minha garganta. — Não vá, por favor. — Imploro caindo em meu meus joelhos.
Sinto as lágrimas escorrendo por meu rosto. O desespero sufocando meu peito, o apertando, o esmagando, até a dor ser insuportável.
— Não, não, não... — Choramingo com a voz abafada por meus soluços. — Eu sinto muito. Sinto muito.
Se eu pudesse eu faria tudo diferente.
Um choro incontrolável ecoa por todo o cômodo. Meu próprio choro. O escuro é a única coisa que tenho agora.
Andreas se foi.
Estou sozinho.
Me debato em meus lençóis, acordando de supetão. Demoro para conseguir enxergar no quarto escuro. As cortinas balançando com o suspiro suave da brisa da madrugada.
Ainda é noite.
Olho para o lado, o relógio de cabeceira marca duas horas e vinte da manhã.
Esfrego as mãos em meu rosto, frustrado.
Porra.
A sensação esmagadora está por todo meu peito, o comprimindo.
Havia muito tempo que não tinha esses pesadelos, e Deus sabe o quanto eu agradecia por isso. Não que eu não pense em Andreas, eu penso nele todos os dias da minha vida, mas quando penso consigo controlar, já quando sonho, é imprevisível.
Sufocante.
Eu não sei que momento vai vir nos meus sonhos, mas sei de qual eu tenho mais medo.
Deito novamente minha cabeça no travesseiro e fico encarando o teto. O sonho ainda nítido em minha cabeça. Meu coração bate tão forte que me dá a impressão de que a qualquer momento ele vai se lançar para fora do peito.
♡
Obviamente que vou ter um dia longo de merda. Não consegui fechar os olhos depois do sonho, não por não estar cansado, mas sim com medo de dormir e reviver tudo aquilo de novo.
Tomo um gole de café para poder engolir o analgésico, já que minha cabeça parece estar prestes a explodir.
Dou uma última conferida no espelho antes de sair de casa. O hematoma que estava meu rosto nos últimos dias já sumiu completamente. Ajeito a gravata em meu pescoço. Estou usando um terno cinza, com uma gravata da mesma cor.
Minha própria imagem refletida no espelho. Sinto vontade de rir quando penso no quanto as pessoas valorizam minha imagem externa.
Se elas soubessem o quão feio eu sou por dentro.
Tomo um último gole do meu café e então alcanço a chave do carro no balcão da cozinha.
Antes de me dirigir ao elevador eu já ouço uma risada, que agora, é familiar.
— Tem certeza que você não quer uma coisa mais discreta? — Ouço a voz de Cecília.
As duas estão em frente à porta do apartamento de Marina, encaram um tapete que chamaria a atenção de qualquer pessoa.
— Você sabe que gosto de coisas não discretas. — Rebate Marina, que claramente esta se divertindo com a situação. — Eu não posso vê -las, mas a reação das pessoas me diverte.
Amora late alto assim que me vê, e corre em minha direção.
Acho que somos amigos agora.
Me abaixo para fazer carinho em sua cabeça. Ela parece gostar.
— Bom dia, Inácio. — Cecília me cumprimenta sorridente assim que me vê, mas logo faz uma cara de preocupada. — Tudo bem com você? Está um pouco abatido.
Marina franze as sobrancelhas escuras, como se o que Cecília disse a tivesse deixado intrigada.
Está encostada na parede, o cabelo solto, e usando apenas uma camiseta comprida e um short que me agrada bastante.
Me agrada muito.
Ainda agachado, antes que eu consiga sequer pensar em me conter, meus olhos viajam desde a ponta dos seus pés, percorrendo todo o seu corpo, até se fixar em seus olhos escuros.
É como levar um soco no estômago toda vez que olho para eles. Não é uma sensação comum para mim, ninguém me desperta isso, mas ela...
Levanto-me depressa, coloco meu melhor sorriso no rosto. Aquele sorriso que as pessoas esperam de mim.
— Noite de sono ruim, apenas isso. — Digo, vagamente. — Acho que comi demais. — Brinco para tirar a atenção.
Como sempre faço.
— Mentira. — Murmura Marina, quase inaudível.
Automaticamente me viro para ela, intrigado.
Seu rosto está impassível, difícil de ler. Os olhos fixados em mim. Duas órbitas negras onde eu poderia facilmente me perder. Quase que me desafiando a respondê-la.
Por que ela acha que estou mentindo?
— Então são dois. — Comenta Cecília, parecendo estar totalmente alheia a o que acabou de acontecer.
Meus olhos viajam lentamente de Cecília até Marina que ainda está quieta, encostada à parede. E agora eu começo a me perguntar se eu realmente a ouvi murmurar alguma coisa, ou se estou enlouquecendo de vez.
— Sabe que demoro a me acostumar em alguns ambientes. — Se defende Marina. — É uma questão de tempo. Logo, logo começo a dormir feito uma pedra.
Marina faz um gesto com a mão como se aquilo fosse apenas uma bobagem, e Cecília estivesse exagerando.
E eu ainda estou aqui rezando para que eu não esteja começando a enlouquecer.
Estou perdendo meu juízo.
— Estávamos discutindo o tapete de boas vindas nada discreto que Marina comprou. — Comenta Cecília, me tirando do meu transe.
Forço-me a manter minha mente no aqui e agora. Eu provavelmente estou fantasiando situações. Vai ver eu estou mesmo enlouquecendo finalmente.
O tapete é uma mistura de um amarelo vibrante, vermelho e verde. Tem algumas formas geométricas espalhadas em um tom de roxo super forte.
Me faz pensar se a pessoa que os fabrica não gosta de dinheiro. Por que claramente não está querendo vender.
Realmente não é nada discreto.
Torço o nariz.
Torço o nariz.
— Pela reação de vocês eu não fui enganada pela vendedora. — Diz Marina, rindo. — Ela me deu exatamente o que pedi.
— Você pediu isso mesmo para ela? — Pergunto com descrença.
É como se tivessem pegado um tapete branco qualquer e jogado as tintas aleatoriamente por cima.
É a coisa mais feia que já vi.
— Qual é, ele é lindo! — Exclama Marina. — Eu pedi para ela o tapete mais colorido que ela tivesse na loja.
— O seu gosto é tão estranho. — Comenta Cecília, provavelmente pensando alto.
— Eu gosto de cores. É quase como se eu conseguisse as enxergar. Me deixem em paz vocês dois.
— Eu não disse nada. — Me defendo.
Marina aperta os olhos e se vira em direção a minha voz novamente. Faz aquela cara de novo, aquela cara de quem sabe exatamente o que estou pensando.
— Mas está pensando. — Diz simplesmente.
É como se conseguisse ler minha mente.
Engulo em seco.
Deixo que meus olhos a encarem mais do que seria educado. Por um momento eu chego até a esquecer de que não estamos sozinhos aqui nesse corredor.
O rosto ligeiramente ruborizado, o cabelo de um jeito mais selvagem que ontem, provavelmente ela deve ter acabado de acordar.
— Você é quem tem que gostar do tapete. Ele é seu.
Mesmo que seja horroroso.
— Viu. — Diz com petulância para Cecília. — Pelo menos nisso eu e Inácio concordamos.
Cecília revira os olhos.
— Já vi que sou voto vencido. — Cecília olha com desgosto para o tapete. — Só me prometa que vai me chamar para ir com você na próxima vez. Espere até eu voltar.
Marina ri e concorda.
— Até você voltar? — Pergunto com curiosidade.
— Eu estou voltando para casa hoje. Eu só vim para ajudar Marina com a mudança, adaptação, essas coisas. — Cecília dá de ombros.
Ela não vai ficar?
— Graças a deus. — Murmura Marina, mas consigo sentir o pesar em seu tom de voz.
Ela vai sentir falta da irmã.
Mas Marina vai ficar sozinha?
Odeio esse sentimento de preocupação que tenho sentido nos últimos dias.
Não, não é preocupação.
Empatia... é empatia.
— Achei que você fosse ficar mais tempo. — Comento.
Antes que Cecília me responda Marina diz:
— Olha só, o papo está bom, mas eu preciso mesmo terminar meu café da manhã. Eu tenho aula para dar hoje, lembra Cecília. Eu nem lavei meu rosto ainda. — Marina se vira em minha direção com um sorriso de canto. — Acho que nos esbarramos por aí, vizinho.
Sorrio.
Ela claramente não quer entrar nesse assunto. E eu não deveria me intrometer.
— Acho que sim. — É o que respondo.
♡
Já estou há mais de duas horas sentado a minha mesa, em minha sala, deveria estar trabalhando, mas me peguei pesquisando sobre ONGs para deficientes visuais. Vi que existem pelo menos três em um raio de distância relativamente perto de onde moro, e de onde trabalho.
Me pergunto vagamente se é em alguma delas que Marina trabalha.
Continuo com uma sensação esquisita no peito, quase como se algo estivesse apertando, sufocando, meu coração.
O que é estranho, já que vivo catorze anos duvidando se sequer tenho um.
Odeio essa merda.
Eu não sei há quanto tempo Marina vive com essa condição, não sei nada sobre sua vida, mas odeio ficar aqui sentindo empatia por ela não ter mais ninguém em casa, caso precise.
Empatia é uma merda.
Bufo frustrado e enterro meus dedos em meu cabelo.
Porra!
Eu tenho coisas para fazer!
Que merda é essa!
Não é da minha conta. Eu deveria me sentir totalmente indiferente, mas empatia é mesmo uma merda. E eu me pego a todo momento pensando nela, e em como suas pernas são lindas.
Eu passei um tempo considerável as encarando.
Talvez eu esteja precisando de uma bebida, e de uma companhia para voltar ao meu eu normal.
Ao meu eu normal que não tem empatia por ninguém. Ao meu eu normal que passa o tempo pensando em pernas de mulheres aleatórias, e não de uma em específico.
É, é isso.
Eu deveria parar de sentir empatia por minha vizinha desconhecida e, atraente e fascinante, e cuidar da minha vida.
Fecho a aba do notebook em que eu estava pesquisando, e abro o relatório que tenho enrolado para terminar.
Antes que eu comece a teclar, alguém invade meu escritório a dentro, sem ao menos bater na porta, ou pedir para a minha secretária me avisar.
Ergo meus olhos da tela do notebook para encarar os olhos azuis e frios do homem parado à minha frente.
O dia vai ser ótimo.
Inclino-me para trás em minha cadeira.
— Pai. — Cumprimento.
Digo alguma coisa simplesmente porque ele está parado feito uma estátua. Ele não costuma vir a minha sala, o que já me deixa em alerta.
Que merda eu posso ter feito agora?
— Achei que você criaria juízo com o tempo, mas vi que estava errado. — Seu tom de voz é calmo, porém firme.
Faço uma lista mental tentando adivinhar do que diabos ele está falando, mas não me vem nada à mente.
Eu faço bem o meu trabalho, então não deve ser nada relacionado a isso.
Nós não nos vemos, ou nos falamos, a mais de três meses. Nossa relação não é amigável, eu não esperaria nenhum tipo de cumprimento diferente.
Se é que posso chamar isso de cumprimento.
— Bom, a que devo a honra? — Pergunto calmamente, ignorando sua irritação velada.
— Eu recebi um email do setor de segurança da empresa. — Diz simplesmente.
Ele ergue uma sobrancelha, e parece querer que eu adivinhe.
Mas infelizmente não leio mentes...
— E? — O instigo a continuar. — Não sei do que você está falando.
Não consigo evitar voltar a minha personalidade de dezoito anos quando o assunto é meu pai. É como se com sua presença, uma luz se acendesse e tomasse o controle.
É mais forte que eu.
Não fui um adolescente fácil, mas ele não ajudava muito.
Sempre odiei o fato de ele jogar todas suas expectativas em cima de mim, esquecendo-se de que eu sou uma pessoa, e não uma extensão dele mesmo.
Ele puxa uma das cadeiras que estão em frente à minha mesa e se senta calmamente.
— E — repete, no mesmo tom que usei. — que tinha um videozinho seu com uma das modelos do catálogo do mês no elevador.
Fecho os olhos quando o entendimento me invade.
Porra!
— Ah! — A ironia brinca em seu tom de voz. — Agora acho que sabemos exatamente do que estamos falando, não é mesmo?
Me sinto com oito anos de idade novamente. Sendo pego no flagra fazendo algo que não deveria.
— Você sabe que temos câmeras nos elevadores, não sabe? — Questiona como se eu fosse burro.
Não acredito que dei esse mole.
Não quero nem pensar na possibilidade desse vídeo estar rodando pelos computadores do escritório.
Sara com a boca no meu...
Que merda!
De repente me vejo na posição em que mais odeio no mundo.
Eu errado e meu pai certo.
Não há muita coisa que eu possa fazer para limpar minha barra agora.
— Você tem alguma coisa para me dizer?
Seus olhos revelando totalmente sua irritação. Sua postura pode até estar calma, mas sei que isso não é o que ele está sentindo no momento.
E desta vez não o culpo por isso.
— Eu não pensei no momento. — Digo simplesmente, sem muitas armas para me defender.
Eu poderia inventar mil desculpas para o meu deslize, mas decido por ser sincero. Eu deixei a porra dos meus instintos me controlarem, e não pensei no óbvio.
— Eu poderia fazer uma lista de coisas que você faz sem pensar no momento. — Diz com frieza. — Ficaríamos aqui o dia inteiro.
Engulo a raiva crescente.
Bom, fiz merda, não tenho como voltar atrás, mas ficar aqui nesse joguinho de quem é bom e quem é mau não vai nos levar a lugar nenhum.
Nós já tivemos esta mesma conversa, por motivos diversos, e elas nunca acabaram bem.
— Estou demitido? — Pergunto sem rodeios, porque é a única coisa que me importa no momento.
Meio que seria o óbvio, mas ele não teria vindo até aqui se esse fosse seu objetivo, ele já teria o feito e pronto. Eu só seria informado.
Meu pai ergue uma sobrancelha.
— Eu deveria mesmo te demitir, motivos para isso não me faltam. Sua conduta foi totalmente irresponsável.
Eu realmente queria estar em qualquer outro lugar menos aqui.
— Mas você é meu filho, e não vou fazer isso. — Continua. — Eu posso ver sua evolução, pelo menos no lado profissional, por que fora isso você ainda parece um adolescente sem controle.
Encaro seus olhos, que todos dizem que são idênticos aos meus, e me sinto pequeno novamente. Sendo repreendido por fazer alguma coisa errada, sendo repreendido por não suprir as expectativas que foram colocadas sobre mim.
— Eu quero que você se torne o homem que eu sei que você pode ser, e que pare de agir como um irresponsável.
Um riso exasperado me escapa.
— Nem que eu vivesse cem anos eu conseguiria alcançar suas expectativas. — Tenho certeza de que ele pode ouvir o amargor em minhas palavras.
— Minhas expectativas? — Pergunta com ceticismo.
— Minhas é que não são. — Digo, secamente, deixando todas as minhas mágoas falarem mais alto.
— Você é meu único filho, minhas expectativas sobre você são únicas e exclusivamente pensando no seu bem estar.
Agora eu gargalho.
— É engraçado para você? — Pergunta incrédulo.
Não me lembro de quando esse muro entre mim e meu pai começou a ser construído, por outro lado, me lembro exatamente do dia em que ele se tornou alto e impenetrável.
— Se você não vai me demitir, eu tenho
trabalho a fazer. — Digo, calmamente, querendo encerrar de vez esse momento.
Posso ver a decepção nos olhos do meu pai, e porra, odeio que isso ainda me atinja.
— E sobre meu descuido — continuo — não vai acontecer de novo. Você tem minha palavra.
Otto Ferraz me encara por mais alguns segundos que mais se parecem horas. Sem dizer uma única palavra ele se levanta e caminha até a porta. Antes de a abrir ele se vira em minha direção uma outra vez.
— Caso isso te preocupe, eu já cuidei para que o vídeo fosse apagado. — Sinto minha mandíbula trincar. — E eu sei que você é mais do que isso, Inácio.
As palavras saem de sua boca e instantaneamente socam meu peito.
♡
Durante a faculdade eu tive uma das épocas mais destrutivas da minha vida. Tinha raiva de tudo e de todos e descontava isso sendo uma pessoa desagradável.
Odiava o fato de ter apenas que lidar com as coisas que aconteciam. A vida vinha e te dava uma surra, te deixando em frangalhos, e então vinha alguém e dizia:
— Você tem que superar. A vida continua.
Eu não queria continuar porra nenhuma, eu queria que acabasse, mas no entanto, eu ainda estou aqui, continuando.
Sinto como se todas as sensações, e sentimentos, que trancafiei no fundo da minha alma, estivessem lutando para sair.
E, porra, eu não consigo fazer nada para impedir.
Só de pensar no quão difícil foi juntar todos os meus pedaços e contruir essa casca com a qual me protejo hoje.
Não quero ser aquilo de novo.
Decido que melhor que afogar meus problemas no álcool, ou em mulheres, talvez uma noite de sono seja melhor.
Faço todo meu caminho para casa, mal podendo esperar por um bom banho e uma noite tranquila de sono.
Antes que as portas do elevador se abrissem eu já estava conseguindo ouvir os latidos.
Amora.
A cada passo que dou, me aproximando da porta, eles ficam mais e mais altos.
Eu planejava passar e agir totalmente indiferente, já que latidos de cachorros são sons completamente comuns, mas o que me intriga é de onde estão vindo esses latidos.
Tem alguma coisa errada.
Eu deveria passar direto para o meu apartamento, mas alguma coisa me diz para não fazer isso.
Luto contra todo os meus instintos e volto em meu encalço em direção à porta de Marina. Encosto minha orelha a porta, em uma tentativa patética de ouvir qualquer coisa que possa estar causando aqueles latidos.
Não ouço nada, a não ser os latidos.
Inspiro fundo e vasculho minha mente procurando uma desculpa convincente o suficiente, caso não esteja acontecendo nada de mais, já que meu instinto patético está me forçando a bater nesta porta.
Olá, boa noite, será que você teria uma xícara de açúcar para me emprestar?
Tenho certeza de que soaria ainda mais ridículo fora da minha mente.
Minha parte impulsiva colocaria esta porta abaixo, mas isso provavelmente causaria a ira de Marina, e não é uma coisa pela qual eu esteja procurando hoje.
Ando de um lado para o outro, as mãos firmes em meus quadris, decidindo o que eu devo fazer.
O Inácio de uma semana atrás provavelmente ignoraria, mas irritantemente não é uma opção agora.
Foda-se!
Me aproximo e dou batidas apressadas na porta. Aguardo ansiosamente até finalmente ouvir passos, além dos latidos, se aproximarem.
Assim que Marina abre a porta meus olhos instantaneamente já examinam seu rosto, seu corpo, até o seu dedinho do pé. E para a minha surpresa não é da forma com a qual eu a examinaria normalmente.
Eu só quero saber se ela está bem.
Seus olhos estão vermelhos, ela provavelmere chorou.
— Inácio.
Ela apenas diz meu nome, e não é uma pergunta.
— Eu acabei de chegar do trabalho e só queria dizer boa tarde. — Mal reconheço a urgência em meu tom de voz.
Não acredito que eu disse isso.
Eu não sabia direito o que dizer caso ela abrisse a porta, então foi meio que a primeira coisa que me veio a cabeça.
Marina arqueia uma sobrancelha, e tenho certeza de que ela está se perguntando se seu vizinho é completamente insano.
Amora parou de latir e agora está sentada em suas patas olhando de mim para Marina.
Meu coração está batendo tão rápido no peito que parece prestes a se lançar para fora.
— Legal. Boa tarde para você também. — Ela parece confusa, e desconfiada.
Eu continuo ali parado, meus olhos examinando o máximo do apartamento que consigo. Parece tudo em ordem.
Droga.
Um silêncio constrangedor paira entre nós, e porra, nunca me senti tão idiota.
Empatia é uma merda.
— Eu acabei de fazer café, gostaria de uma xícara? — Ela parece bem educada, mas tenho certeza de que só quer disfarçar o constrangimento.
— Quero sim. — Respondo ofegante, ainda sentindo a adrenalina correr por minhas veias. — Quero café. Eu gosto muito de café.
Ah, cala a boca!
Porra, parece que corri uma maratona.
Marina me dá espaço para que eu entre, e fecha a porta em seguida.
Marina anda até a cozinha, tateando em uma coisa e outra.
Fiquei tão transtornado que nem me liguei no fato de que Marina não pode me ver, mas ela disse meu nome antes que eu disesse qualquer coisa.
— Como sabia que era eu? — Pergunto de repente, curioso.
Marina se encosta no balcão da cozinha.
— Seu cheiro. — Murmura baixinho, parece até constrangida em admitir.
Sinto um calafrio percorrer meu corpo. Um tipo de corrente de energia, que liga um lugar dentro de mim que não estava mais funcionando.
Cada pedaço do meu corpo se sente atraído por Marina.
E é uma tortura.
Ela ainda está encostada no balcão da cozinha. Diferente de hoje de manhã, ela agora está usando uma calça jeans que aperta seu corpo em todas as partes certas. Um suéter simples, e os cabelos soltos. Parece nem fazer esforço para ser a mulher mais linda que já cruzou o meu caminho.
Estreito meus olhos quando me ligo no fato de que sua mão está enrolada em uma toalha, sem falar na tremenda bagunça que está a cozinha.
— O que aconteceu com sua mão? — Pergunto me aproximando dela, com preocupação.
Meu instinto não estava totalmente errado, afinal.
Neste momento eu estou pouco me fodendo para o limite de espaço quando me aproximo dela. Como que por reflexo Marina aperta a mão contra o peito.
— Eu me atrapalhei, ainda não estou cem por cento acostumada com o apartamento. Eu ia fazer café, e deixei a água fervendo, mas não me atentei, e acabei esbarrando na panela. — Ela dá de ombros. — É normal acontecer esse tipo de coisa.
Marina parece não estar levando a situação a sério, ao contrário de mim.
— Por isso que está com a mão enrolada em uma toalha? — Pergunto, um pouco mais aflito do que deveria.
— Caiu um pouco de água quente. Mas já não está mais doendo.
Está estampado em seu rosto que ela está mentindo.
Seguro sua mão na minha com delicadeza e retiro a toalha que a está cobrindo. Passo meus dedos delicadamente por sua pele, algumas partes estão vermelhas, e dá para se ver claramente onde a água quente atingiu.
Marina grunhe, provavelmente de dor, quando eu toco a vermelhidão.
Tento ser o mais delicado possível, mas de repente o ar fica mais pesado. Está difícil respirar. Difícil parar de tocá-la.
A sensação é boa demais.
Marina está com o rosto inclinado, ela não diz nada, apenas respira fundo, e nesse momento eu tenho a certeza.
Ela também sente essa atração.
A boca entreaberta enquanto ela puxa pequenas doses de ar. E meus olhos estão ali, grudados em seus lábios.
Eu só teria que me inclinar um pouco, e então a beijaria.
Eu nunca quis tanto saber como é o gosto de alguém.
Droga.
Quebro nossa conexão e dou um passo para trás.
— Nós vamos ao hospital. — Anuncio — É melhor alguém dar uma olhada nisso. Hoje pode até parecer nada de mais, mas talvez amanhã não seja esse o caso.
Marina solta o ar que estava segurando, eu solto o ar que eu mesmo estava segurando.
— Não acho que seja necessário. Eu tenho uma pomada aqui, tenho certeza que resolve.
— Eu acho mesmo que você deveria ir a um médico.
Marina parece pensativa, morde o lábio inferior, e eu tenho que desviar meus olhos, porque porra, não sou de ferro.
— Tudo bem, mas eu vou sozinha.
Ah, só pode ser brincadeira.
— Eu vou com você. — Digo de uma forma que ela não possa contestar.
Quais as chances de eu a deixar sair daqui sozinha?
Zero.
Ela parece não gostar da ideia. Já percebi que ela odeia que a tratem como uma pessoa de vidro, que pode quebrar a qualquer momento, mas prefiro que ela pense assim, porque é bem melhor do que ter que explicar para ela, ou para mim mesmo, que eu só quero ter a certeza de que ela vai ficar bem.
Nem eu tenho a certeza do que isso
significa, e uma parte minha não quer descobrir.
— Vou buscar um casaco. — Ela anuncia contrariada.
Meus olhos a seguem até a perder de vista quando ela entra no corredor que leva aos quartos.
Sinto uma palpitação estranha no peito. Quase como se meu coração estivesse acordando de uma longa soneca. Ainda quieto, desorientado, mas me dizendo que ele ainda está aqui, e não só para bombear sangue.
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