Volto pra classe e tenho que limpar a minha mesa e cadeira novamente. As vezes me pergunto o que tem de interessante em fazer a mesma coisa todo santo dia sem se cansar. Bom, algo que não é essencial pra sua vida como comer e fazer as necessidades fisiológicas. Sobre o tipo de bullying que esses retardados praticam, não tem nada de novo e aterrorizador. A não ser o fato do vazio que a cachorra da minha ex-melhor amiga deixou em meu coração, e o fato de que estou mais chateado com ela do que toda essa coisa idiota de bullying. Eu realmente amava muito ela. Nós estivemos juntas desde que tínhamos oito anos de idade, desde que eu me mudei pra essa cidade idiota. Claro que essa brincadeiras idiotas me chateavam bastante também. Principalmente no início, mas perder ela desse jeito, foi muito pior. Quando a ficha realmente caiu, decidi ser indiferente a tudo isso. Fingir que não estou aqui, que não vejo eles, que não escuto eles, que eles não existem. Que existe só eu nessa maldita escola. E assim tento passar as minhas manhãs. Por quê as minhas tardes passo no cursinho e lá ninguém me provoca e joga as malditas camisinhas na minha mesa ou mochila. Nenhum garoto idiota tenta me apalpar sem a minha permissão.

No cursinho sou considerada um cérebro. Na escola também era até virar a super vadia. Os professores do cursinho, que são super gatos e me adoram, não que eu seja narcisista ou algo do tipo, é apenas a visão da diferença pela qual eu sou tratada por eles em relação aos outros alunos, e os alunos me respeitam, apesar de alguns me lançarem olhares de inveja e desgosto. Nós últimos meses desenvolvi uma amizade com Théo, irmão do Thiago, e com Jéssica, a garota que devora romances eróticos e que pintou o cabelo de ruivo acobreado para se parecer com a personagem de desenho animado Jessica Rabbit. E por mais que isso pareça bizarro, ela parece ser ruiva natural, a cor combinou com os olhos cor de mel dela. Sem contar que ela tem os peitos grandes, o que a faz mais parecida ainda com a Jessica Rabbit. Théo é parecido com o irmão, tirando a parte de não ser tão musculoso quanto ele e não ter a barba sexy, tirando isso são realmente parecidos. E a verdade seja dita, sem esses dois eu estaria na extrema fossa. Na época em que eu fui pega com Thiago pela a Alessandra, ela estava tendo crises de ciúmes em relação a mim, o Théo e a Jéssica. Ago que eu tentei contornar, fazendo algumas festas do pijama em minha casa, sendo somente eu e ela. No começo dos boatos, eu pensei que ela poderia ter feito isso por ciúmes deles, ou ciúmes do meu segredo, ou ciúmes do fato de não ser virgem, pura e casta como ela, ou por não ter contado tudo isso pra ela, e quando eu contei foi de mais.

Tá, sei que esconder uma coisa dessas da sua melhor amiga é uma coisa errada. Principalmente quando ela esteve por perto por nove anos, mais da metade da sua existência em terra. Mas as dúvidas e medo em relação ao fato de como ela julgava todas as garotas que não eram mais virgem, ou até se uma garota ria de mais pra um garoto foram maiores. Saber que ela podia me julgar daquele jeito, me deixava mal. Mas já que ela havia visto tudo, despejei tudo o que estava entalado na garganta por dois anos. Talvez o fato dela querer me odiar depois daquela briga, tenha sido razoável depois do que eu disse. Mas isso não melhora o fato de que eu nunca me senti mais traída em toda a minha vida.

Finalmente a aula acaba. Hoje eu não teria cursinho. As aulas eram apenas nas segundas, quartas e sextas, tendo terça e quinta livres. Fui direto pra casa, já que a aula de biologia havia me deixado faminta depois de falar sobre comida e suas respectivas vitaminas e outras baboseiras de química. Chegando em casa reparei um caminhão de mudança. Um garoto loiro estava carregando um colchão. Presumi que o garoto era Eliot, meu vizinho que havia se mudado com o pai que era da marinha, há uns seis anos atrás. A avó e mãe do garoto ainda moravam ali com sua irmã mais velhas, fazia uns três anos que eu não via ele. Quando ele ainda morava no Brasil, ele passava as férias aqui, mas quando foi pra doce, aclamada e bela L.A. sua família que ia pra lá. Ele havia crescido muito, considerando sua altura quando eram mais jovens, ele usava uma blusa enorme do Chicago Bulls que mostram que ele havia malhado nesse tempo fora, uma calça jeans e um tênis Quix preto.

– Ei! Eliot! -Gritei chamando sua atenção. Quando me viu abriu um sorriso enorme. Sentia a falta dele nesse tempo fora. Isso me lembra as crises de ciúmes que Alê tinha sobre mim em relação a ele. Pensando por esse modo ela era bem possessiva. Ele largou o colchão encostado na grade do portão e foi de encontro a mim.

– Cérebro!! — Exclamou em um tom de zombaria. Sentia falta desse apelido. Ele me abraçou e eu o abracei de volta. -Que saudade! — Sorri em resposta. Também havia sentido falta desse mala.

– Também senti sua falta. Mala. -Completei, ele me apertou mais esmagando meus seios, que não eram pequenos, contra seu peito, o que doeu, me levantando um puco do chão. — Me larga Eliot! — Disse dando levez tampinhas em suas costas. — Meus peitos. — Disse constrangida, tentando-lhe alertá-lo de que meus seios haviam crescido, e isso, esse super abraço urso, não fazia eles doerem de prazer e sim dor. Dor e mais extrema dor. Ele me soltou após espiar a minha expressão facial.

– Desculpe. — Disse ele afagando a minha cabeça, bagunçando o meu cabelo. Seu sorriso era genuíno. -Me empolguei um pouco.

– Percebi. — disse com os olhos semicerrados. — Vou deixar você terminar de fazer a sua mudança e preciso comer alguma coisa. Depois você vai lá em casa que eu te alimento e você me conta tudo sobre Los Angeles. Manda um oi pra Samira e pra Kátia.

– Ok! Pode deixar. -Disse ele todo sorridente parecendo um bobo alegre. Dei um sorriso de volta e abri o portão da minha casa.