A substituta
29 O porcoelho e sua presilha perdida.
Lysandre me levou pelo corredor, meu rosto ainda coberto com a jaqueta do Castiel. Ouvi muitas vozes e flashes de câmeras disparam em nossa direção. Me deixar ser guiada por ele.
Não queria que tudo tivesse terminado desse jeito, eu estava pronta pra acabar com essa mentira, Ambre havia me dado um ultimato pra me revelar durante essa coletiva depois de ter me impedido de contar aos rapazes em casa.
Tudo que eu havia desejado era que o Castiel não me visse, por que ele tinha que ter dito aquilo em frente aquelas pessoas?
Senti os flashes e as vozes cessarem, e o barulho de uma porta se fechando atrás de mim, eu estava sozinha com Lysandre em uma sala. Não tirei a jaqueta do rosto, não queria ter que encará-lo, não depois de ter mentido. Foi um longo tempo de silencio então me adiantei em dizer.
—Sinto muito. Na verdade não sou homem. —Aquilo tinha ficado óbvio, mas percebi a necessidade de dizer.
Ele tirou a jaqueta da minha cabeça, eu o olhei pelo canto do olho e depois abaixei a cabeça.
—O que há pra se dizer? Isso é repentino.—Ele fez uma pausa. —Não esperava por isso. Devo ficar bravo? —Ele limpou a garganta. —Taylor você é uma garota? Que sacanagem.
—Sei disso.
—Deixe-me te olhar de novo pra ter certeza. Levante a cabeça. —Ele disse de um jeito autoritário.
Desobedecer não parecia uma opção. Levantei minha cabeça devagar tomando cuidado pra não olhar nos olhos dele.
—E então você é mesmo uma garota... E é mesmo linda. —Eu corei. —Como não percebi isso antes? —O tom de voz dele parecia um pouco dramático.
—Você me tratou bem mesmo quando eu estava mentindo, e mesmo assim não te contei a verdade. Me desculpe.
—De qualquer forma a partir de hoje... Vamos começar do zero. —Eu olhei pra ele que sorriu pra mim.
—Lysandre! Lysandre!
Fomos interrompidos pela voz do Alexy, ele batia desesperadamente na porta. Lysandre olhou de má vontade pra porta e a abriu. Alexy entrou correndo pela porta e ficou de frente pra mim, Castiel entrou logo atrás dele e trancou a porta novamente.
Parecia haver algum tipo de tensão entre Castiel e Lysandre, os dois trocaram olhares nada amistosos.
Castiel e Lysandre se aproximaram de mim e Alexy, e o encararam, foi então que o segui o olhar deles e vi a expressão no rosto dele pela primeira vez, ele estava me olhando com raiva e talvez ao mesmo tempo admirado. Abaixei o rosto.
—Como você vê o Taylor é uma garota. —Castiel disse. —Eu já sabia disso, desculpe não ter falado pra vocês. Se não quiserem aceitar digam agora, eu resolverei isso.
—Por mim tudo bem. —Lysandre disse.
—Lysandre aceitou, e você Alexy?
—Taylor. —Ele disse um pouco irritado. Levantei meu rosto pra olhar pra ele. —Você é garota. Você é uma garota... —Ele disse entre dentes. — Uma garota! —Ele disse mais alto.
—Desculpe Alexy... —Minha voz afinou, há muito tempo eu não usava esse meu tom de voz.
—Eu não sabia de nada. —Ele coçou a cabeça e olhou pros lados.
Depois ele me encarou e deu uns passos em minha direção, com um movimento tão rápido ele segurou os meus ombros e beijou a minha testa.
—Taylor. —Ele abriu um sorriso. —Então você é uma garota. —Ele deu uns pulos e começou a me sacudir. —Eu não me importo.
Ele se afastou de mim e abriu os braços, como se fosse desmaiar.
—Eu te aceito! —Ele disse.
Fiquei olhando pra ele completamente surpresa.
—Então se todos aceitaram, vamos limpar essa bagunça. Lysandre vá chamar o Boris e a Rosalya. —Disse o Castiel.
Assim que eles chegaram, Castiel executou seu plano. Vestiu a Rosalya com as roupas que eu estava usando e fez Boris tirá-la dali como se fosse eu com seu rosto coberto pra despistar os fotógrafos.
Eu tive que bagunçar meu cabelo e vestir um terno masculino pra reassumir minha posição como Taylor, eu ainda tinha a coletiva pra ir eu não podia deixá-los na mão.
Os três me olharam mais Surpresos do que nunca assim quem me viram.
—Lynn, estamos todos do mesmo lado agora. Você veio até que pra evitar que algum de nós se prejudicasse, não é? — Castiel perguntou, eu assenti. —Então agora vá até o fim como Taylor. Agora mesmo que queira desistir, não deixaremos você fazer isso.
Eu olhei para os três por um breve tempo.
—Pessoal obrigada... E sinto muito. A partir de hoje assumirei a responsabilidade e não deixarei que ninguém descubra.
Faraize entrou na sala me arrastando pra coletiva, por sorte nem ele e nem ninguém perceberam nada.
Todos os repórteres se concentraram tanto na história da namorada misteriosa do Lysandre que não me fizeram tantas perguntas, foi relativamente simples. Só me perguntei como ele ia desmentir isso depois.
Quando estávamos prontos pra ir embora e entrarmos na nossa van, Alexy fazia planos para festas, acabamos nos deparando com a Ambre, eu abaixei a cabeça.
—Antes de irmos, temos que superar uma montanha. —Disse o Castiel. — A montanha mentirosa.
—Amor, o que está acontecendo? —Ela se aproximou dele pra tocar seu rosto, mas ele a segurou.
—Pare com esse teatro, eu descobri que você está por trás disso. —Ele empurrou sua mão.
Eu olhei pra ele, como ele havia descoberto aquilo? Ambre tirou sua mascara de falsidade e nos olhou com raiva.
—Então você sabia de tudo. Pelo visto esses dois ai também sabem e a aceitaram. —Ela riu desdenhando. —Você é tão medrosa e nem conseguiu dar um fim nisso. —Ela me encarou por um instante e depois olhou pro Castiel. — E você, não há como terminar comigo. Eu disse claramente no começo que eu decido quando termina esse namoro. — Castiel engoliu em seco.
—Mas concordamos que você deixaria a Lynn em paz, não é? Você quebrou sua promessa primeiro.
—Isso aí. Mas se quer que eu continue com a boca fechada é bom continuar fingindo ser meu namorado. —Eu olhei pros dois, surpresa. Por minha causa o Castiel tinha se submetido aquilo? Eu não consegui acreditar. —Tay você continua fingindo ser m homem e os outros dois continuam fingindo ser anjos. —Ela sorriu presunçosa. —Boa noite a todos.
Ela tentou beijar o Castiel que a afastou, ela deu outro sorriso e se virou pra ir embora.
—Você mentiu sobre estar com ela apenas pra esconder a identidade do Tay? —Disse Alexy.
—Castiel eu... —Comecei, ele me interrompeu.
—”Sinto muito’’ e ”Obrigada’’? Não quero ouvir essas palavras agora.
Ele caminhou em direção ao carro dele, eu fiquei olhando ele ir, engolindo minhas palavras, o remorso fazia meu coração doer.
Chegamos em casa antes do Castiel, que não demorou muito pra chegar. Eu já estava me preparando pra dormir como sempre no quarto do Castiel quando Alexy nos interceptou.
—Nem irmãos dividem o mesmo quarto. —Ele começou um sermão. —Lynn... —Ele fez uma pausa ao dizer meu nome real pela primeira vez. —Não adianta me dizer que não vê o Castiel como homem e que não fica desconfortável aqui, você não vai mais ficar no quarto dele.
Nem deu tempo de dizer nada — mas também não havia nada pra dizer — O Alexy pegou minhas coisas, eu peguei os meus edredons e olhei pro porcoelho, Castiel seguiu o meu olhar. Eu saí rapidamente do quarto sem pegar ele.
Agora não posso nem pegar o porcoelho, eu perdi minha presilha.
Apertei a ponta do nariz. Era algo muito precioso pra mim.
Pov. Castiel.
Ela nem vê mais o porcoelho como parte das suas coisas, nem o levou.
Cruzei os braços. Se livrar das coisas depois que elas não têm mais uso é coisa de gente desleal!
Tirei a presilha dela do bolso, pelo visto ela nem havia percebido que perdeu. Estava quebrada, ela nem ia mais precisar, analisei por um instante e depois a joguei no lixo. Eu nem devia ter trazido isso.
Caminhei até a cozinha pra beber alguma coisa, Lysandre, Alexy e a Lynn conversavam animadamente. Fiquei espreitando por ali e peguei uma garrafa de água pra disfarçar.
—Ei Lynn, essa maçã parece deliciosa. — Lysandre estendeu uma maçã pra ela.
—Essa não é melhor? —Ela lhe estendeu uma vermelha.
Ele cheirou a maçã e em seguida colocou no nariz dela.
—Acho que o cheiro dessa está melhor. —Ele respondeu.
—Não sei escolher alimentos pelo cheiro. —Ela disse.
—Tsc. Então pra que serve esse seu focinho? —Murmurei.
—Falou comigo? —Alexy perguntou.
—Não, eu estava cantando.
—Ah ta. —Ele se aproximou da Lynn e a puxou pelo braço. —Lynn quando eu fizer suco pela manhã, também farei pra você. Vamos beber juntos. —Eu imitei ele baixinho.
—Podíamos usar isso. —Ela mostrou um pacote de cenouras.
—Verdade? —Ele torceu o Nariz. —Não me importo.
—Farei suco pra você toda manhã. —Ela disse alegrinha.
—Então o porcoelho vai comer cenouras todo dia. —Murmurei mais baixo dessa vez.
E fiquei encarando os dois.
—Lynn. —Ele disse sério. —Realmente gosto de você.
Ele abriu os braços pra abraçá-la, eu arregalei os olhos e passei no meio deles o interrompendo.
—Com licença, vou pegar uma maçã. —Eu disse e me virei pra Lynn. —Ele está acostumado a ser cheio dessa intimidade toda, não se acostume a isso.
Ela me olhou assentindo balançando a cabeça várias vezes.
—Sim Castiel.
Ela se virou e foi até a geladeira pegar algo.
—Ei, são vocês nessa embalagem de picolé. —Ela disse.
—Sim foi nosso primeiro comercial. —Alexy disse correndo até ela. —Tínhamos que dizer. Ai geladinho! — Ele fez uma cara ridícula. —Usamos até boneco de neve.
—Queria ver isso. —Ela disse.
—Eu tenho os vídeos, depois mostro pra você. —Ele se virou pra geladeira pra pegar algo também. —Olha isso!
Ele pegou uma barra de chocolate da qual também éramos garoto propaganda e ficou parado com ela na frente do rosto como se fosse uma estátua.
—Derrete na boca. Chocolate Angel. —Ele disse.
—Ah... Que nojo. —Eu disse.
—Por quê? Ficou tão charmoso. —Ela ergueu os polegares.
—Ah, tão geladinho. —Ele começou a repetir aquilo sem parar. —Ei Lynn, vamos fazer juntos.
—Ah... —Ela ficou hesitante. —Tão geladinho! —Ele olhou pra ela como se fosse derreter.
—Lynn, você tão fofinha! —Parecia que estava falando com um bebê.
Ele começou a se aproximar perigosamente dela, fui até ele e o puxei pra trás. Lysandre tinha tido a mesma ideia que eu e o puxamos ao mesmo tempo. Eu o soltei.
—Alexy me ajuda com essa salada aqui. —Lysandre chamou.
Os dois se afastaram e eu fiquei encarando a Lynn. Ela estava com uma etiqueta de preço no cabelo.
—Continua com mania de colocar coisas no cabelo. —Eu disse.
—No meu cabelo? —Ela passou a mão até encontrar. —Ué quem colocou isso aqui? Dois reais... —Ela ficou com o olhar triste. —Minha presilha custou dois reais.
—Eu não disse que foi 20? Comprei por 20! —Disse irritado.
—Castiel... Aquela presilha... Eu a perdi. —Ela abaixou a cabeça.
—Perdeu de novo você quer dizer. Ela caiu durante a apresentação do vídeo e foi esmagada.
—É mesmo? —Ela ficou com um olhar de pânico. — O que vamos fazer?
—Não há nada pra fazer, não serve. Jogue fora. — Cruzei os braços.
—Mas...
—Com licença. —Disse o Alexy passando entre nós.
A Lynn foi pra trás pra lhe dar espaço para abrir a geladeira e não viu o Lysandre logo atrás ela quase caiu ao bater com ele, mas ele segurou sua cintura.
—Você está bem? Quase caiu. —Ele disse despreocupadamente.
__Estou bem. __Ela não fez nada pra tirar aquela mão dali.
Ela me lançou um olhar de cachorro sem dono e eu desviei o olhar. Não fiz questão de esconder a minha raiva.
Voltei pra meu quarto já era tarde, eu ia tentar dormir. Rolei na cama por horas sem consegui pegar no sono. Me levantei e fui até a cozinha ver se a bagunça já tinha parado, estava tudo em um completo silencio.
—Parece que Lynn ia me dizer algo antes do Alexy atrapalhar... O que será?
Será que ela ia concordar com o que eu disse e dizer que a presilha não servia mais pra ela?
Não, ela não demonstraria tanto desrespeito. Então...
Será que ela já queria se livrar daquilo, e agradeceria por desaparecer já que custou dois reais?
Não, ela gosta da presilha, ficou feliz quando eu a peguei da mentirosa. Será que...
Ela diria que não pode jogar fora, e diria que a presilha que eu dei pra ela era algo precioso?
Não, não... Balancei a cabeça em negativa. Caminhei pela casa, quando estava voltando pro meu quarto vi a porta do quarto dela aberta e as luzes acesas, dei uma espiada pro lado dentro e dei de cara com a tia dela.
—Ah!!! —Eu gritei pelo susto.
Ela estava sonolenta. Coloquei a mão no coração.
—Quando chegou aqui? —Perguntei.
—Agora pouco, entrei em silencio pra não incomodar.
—Me assustou, saia da frente.
—O Taylor está dormindo bem? —Ela perguntou.
—Ele não está ai? —Apontei pro quarto.
—Não, ele não está dormindo no seu quarto? —Ela deu uns passos em direção a cozinha. —Com licença, preciso tomar algo.
Eu fiquei parado pensado. Eu não tinha visto ela pela casa e se não estava em seu quarto onde mais poderia estar?
—Será que...? Não, não, não. Ela não iria até lá procurar pela presilha. —Essa ideia me passou pela cabeça por um segundo. —Impossível... Mas e se ela foi, por que faria isso?
Uma imagem veio automaticamente a minha mente, quando viajamos para o interior e estávamos sentados olhando as estrelas, ela estava olhando pra mim quando perguntou a estrela se podia gostar dela, e isso eu não tinha imaginado.
—Mas não pode ser, ela gosta do Lysandre. —Continuei falando sozinho.
Fui pro meu quarto e peguei a presilha do lixo, coloquei um casaco e peguei as chaves do meu carro. Eu queria provar algo pra mim, mesmo sabendo que ela não teria coragem e nem motivos pra procurar pela presilha eu tinha que ir aquele lugar só pra acalmar a minha mente.
Quando cheguei lá caminhei despreocupadamente até a sala, um vigia noturno me reconheceu e me permitiu entrar.
Ela não está aqui eu sei, só vim porque estou com insônia mesmo.
Quando cheguei até a porta, hesitei em abri-la. Por que estava nervoso? Por causa dela?
Me recusei a aceitar isso e abri a porta de uma vez. Olhei ao redor e estava vazio, pelo menos aparentemente. Comecei a caminhar devagar, mas não havia ninguém mesmo.
—Tsc. Foi o que pensei. —Peguei a presilha do meu bolso e joguei ali no chão.
Caminhei pra fora da sala irritado comigo mesmo por ter me prestado a esse papel.
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