A substituta
2 Como um garoto
Entrei na gravadora e me troquei no banheiro, vesti uma calça jeans camiseta larga e jaqueta preta, não foi nada fácil me olhar no espelho me ver com roupas masculinas, quando coloquei a peruca de cabelo curto me assustei comigo mesma, não via diferença entre mim e meu irmão.
— Eu acho que isso é uma fraude. — Eu disse ao ver o Boris.
—Fraude por quê? Você só fará isso pelo seu irmão, basta assinar e fim. Vamos lá.
—Espera, essas calças estão rasgadas, e muito folgadas. —Não acredito que os garotos usavam esse tipo de roupa.
— É a moda hoje em dia. — Ele disse normalmente. — É só segurar e vamos.
Ele me puxou pelo bolso da calça, subimos as escadas até uma grande sala.
—Taylor! —Fui recebida por um homem de cabelos pretos e olhos azuis. — Você veio.
Ele veio até mim e apertou a minha mão, eu tentei não encará-lo pra não correr o risco de ele perceber algo. Ele me segurou pelos ombros.
— Você parece tenso. Leu o contrato que eu enviei?
— Sim, está tudo impecável Sr Faraize. — O Boris se apressou em responder.
— Vamos assinar então. — Ele me puxou.
Ele me estendeu um papel, e assinou me indicou onde eu deveria assinar. Me estendeu a caneta e eu olhei pro Boris.
— O que está esperando? Assine seu nome. — Ele disse.
Eu não fazia ideia de como era a assinatura do meu irmão, então escrevi com letras simples o nome dele.
— Esse daí é o Taylor, o cara da voz angelical? — O rapaz de cabelo vermelho entrou na sala, dizendo isso ironicamente.
—Ainda bem que está aqui, quero te apresentar uma pessoa. —Disse o Faraize.— Taylor, esse é o Castiel. E onde estão Lysandre e Alexy?
Ele ignorou o Faraize e caminhou até mim, se inclinou na mesa e parou com o rosto a centímetros do meu me analisando eu olhei pros lados. Depois fixei meus olhos nos dele.
—Você é bom mesmo? —Disse levantando uma sobrancelha.
Ele se endireitou e pegou o papel do contrato, ele começou a ler e em seguida se virou pro Faraize.
—Antes de ele assinar eu preciso confirmar uma coisa. — Ele pegou o meu braço e me puxou pra fora da sala.
—Ei, Castiel. — O presidente e o Boris começaram a chamar.
Nós entramos em uma sala onde eles deviam gravar os CDs e a trancou, os outros dois rapazes da banda já estavam lá, e ficaram surpresos ao me ver.
—Você é o Taylor? — O rapaz de cabelo branco disse, eu havia sido jogada a centímetros dele, observei que seus olhos tinham cores diferentes o esquerdo é verde e direito num tom amarelado. Ele sorriu e colocou a mão no meu ombro.
Assustada, eu dei vários passos pra trás e encostei no rapaz de cabelo azul.
— Esse cara é baixinho. — Ele disse colocando a mão em cima da minha cabeça. Eu não era tão pequena 1,63, mas para um homem isso fazia diferença.
Os três ficaram me encarando, cada um com uma expressão diferente. Sr Faraize e o Boris ficaram do lado de fora pedindo que abrisse a porta. O garoto de cabelo vermelho pegou uma folha e me estendeu.
—Cante! — Ele disse. — Preciso te ouvir cantar antes de decidir se te aceito no grupo. Se eu não gostar do seu talento, não importa quantos contratos assine, não iremos te aceitar. —Eu olhei o papel.
— O presidente Faraize falou muito bem de você, estou curioso para ver a sua técnica. — Disse o garoto de cabelo castanho.
— Você tem uma voz boa, cante. — Disse o terceiro.
Eu fiquei olhando por papel, completamente perdida.
— Taylor, você realizou seu sonho, não desista. Lembra? — Gritou o Boris lá de fora. — Você sempre quis isso.
O Castiel ergueu o contrato e estava prestes a rasgar, eu tive cantei uma das poucas musicas que eu conhecia, uma musica da igreja que era em latim, os três ficaram olhando pra mim surpresos, depois de um tempo Castiel abriu a porta e entregou o contrato pro Faraize, pareciam estar convencidos da minha voz.
O rapaz de cabelo branco saiu da sala sorrindo, e o de cabelo azul se aproximou de mim.
— Que voz incrível! Fiquei todo arrepiado. De onde veio essa voz? — Ele deu um tapa descontraído na minha barriga. — O Castiel parece ter te aceitado. Vamos trabalhar juntos. — Ele sorriu e saiu da sala também.
Boris respirou aliviado, e o Faraize se aproximou de mim.
— Bem vindo ao grupo. — Ele me observou. — Você é mesmo bonito, rosto delicado, as garotas irão gostar de você.
Depois disso Boris me levou pra fora, no caminho ele disse que estava surpreso por nossas vozes também serem bem parecidas. Quando eu havia trocado minha roupa pedi a ele que avisasse meu irmão pra ir me visitar quando ele chegasse antes que eu fizesse minha viagem até Roma, lá eu irei receber minha proclamação oficial e passarei a ser uma freira.
— Você não pode ir! —Disse o Boris de repente.
— Por quê?
— Por favor, fique mais um pouco como Taylor. — Ele fez uma cara de pobre coitado. — mais um mês, teremos alguns compromissos e você precisa ir.
— Isso não faz sentido. — Olhei pra ele — Peça ao Taylor que vá.
— O Taylor está... Ele não consegue fechar os olhos. — Ele começou a chorar e eu o olhei confusa.
— O que? — O choro dele parecia falso.
— É culpa minha. Pedi que ele fizesse um pequeno retoque no rosto. — Ele se virou de costas. — Nada exagerado. Ele está agora nos EUA fazendo outra cirurgia pra corrigir. Se isso vazar pra imprensa estamos perdidos.
Ele se aproximou de mim e segurou minhas mãos.
—Apenas por um mês. Faça isso por ele.
—Ficar no lugar dele? Isso significa que eu vou ter que dançar e fingir ser um homem. — Aquilo era absurdo.
—E morar com eles. —Ele completou.
—Isso é ridículo.
—Não é, ajudarei em tudo.
—Eu não posso.
—Claro que pode. —eu parei um instante pra pensar.
—Não, não. — saí correndo pra longe dele.
Eu consegui fugir dele e fui até a igreja, rezei por umas horas, a madre superiora se aproximou de mim sem eu perceber.
—Já é tarde Lynn. — Ela disse. — Depois de ter voltado da cidade você só sabe rezar, algo ruim aconteceu a ele?
—Sim, mas não posso fazer nada pra ajudar. — Olhei pra baixo. — Quero me tornar uma freira. — Ela suspirou, parecia não aprovar minha decisão.
—Lynn, por que quer se tornar uma freira?
—Por que... Por que — Não consegui pensar em nada rápido. — Por que é a vontade dele. — apontei pro alto.
—Não estou perguntando sobre ele, mas sobre você.
—Eu... — Olhei pros lados. — Eu vivo no convento desde criança, nunca pensei em outra coisa a não ser me tornar freira como você.
— Você ainda tem tempo pra ver varias outras coisas. Pense nisso com mais cuidado.
—Já decidi! — Ela me olhou com uma expressão triste. — Irei a Roma.
Depois disso fui dormir, no dia seguinte acordei bem cedo para ir ao aeroporto. Minha mala já estava pronta há dias, eu só precisava ir ao portão de embarque certo e chegar na hora. Eu andei calmamente analisando a passagem e não vi um rapaz se aproximar de mim, nós nos chocamos e minha passagem e seu aparelho de mp4 foram ao chão.
—Desculpe. — Eu peguei o mp4 dele do chão e ele a minha passagem, quando fui olhar seu rosto, era o Castiel vocalista da banda que o meu irmão irá participar.
Ele não olhou pro meu rosto, estava tirando os óculos escuros, ele havia me olhado de perto da outra vez se me visse agora me reconheceria. Eu usei o véu do meu traje pra cobrir o rosto e sai correndo.
—Irmã, sua passagem! — Ele gritou.
Tudo que eu fiz foi ir mais longe possível dele que eu consegui, entrei no elevador e subi, ele parecia estar atrás de mim então me escondi.
Como vou pegar a minha passagem? Pensei.
Quando me virei pra trás, vi o rapaz de cabelo branco se aproximando ele falava ao telefone e olhou diretamente pra mim.
—Irmã. — Ele disse. Eu cobri o rosto e corri dele.
Mas acabei indo na direção do rapaz de cabelo azul, me vi cercada pelos três, já estava quase na hora do meu embarque, consegui sair dali me escondendo atrás de umas pessoas e me encostei na pilastra, comecei a pensar no que fazer. Observando eles de longe, parece que eles desistiram de me procurar e seguiram para seus voos.
Minha passagem. Suspirei.
Madre superiora, o que devo fazer agora?
Fiquei olhando pela vidraça do aeroporto, vendo o avião que eu ia, decolar. Olhei o aparelho de mp4 do Castiel, conectei o meu fone nele e fiquei ouvindo suas musicas. Reconheci a voz dele, ele canta bem. Pensei no meu irmão, era esse tipo de musica que ele queria cantar.
Quando eu estava indo embora do aeroporto vi o Sr Boris parado, ao me ver eu tentei correr mas ele falou alto.
— Irmã! Sabe por que seu irmão quer cantar? Por que ele quer encontrar a mãe de vocês.
As palavras dele me fizeram ficar parada, uma lembrança da minha infância retornou, eu e meu irmão chorávamos, enquanto crianças cantavam a nossa volta ‘’Seu pai morreu e sua mãe fugiu’’
‘’nosso pai foi um grande compositor, e nossa mãe uma grande cantora’’ — Meu irmão gritou. — ‘’quando eu crescer eu me tornarei um cantor famoso, e eu encontrarei nossa mãe’’.
Será que esse era o meu destino? O que eu deveria fazer agora?
Me virei pro Boris, eu iria aceitar fazer isso pelo meu irmão, irei me tornar o Taylor.
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