A sua cor
51 Uma jogada perigosa
Notas iniciais
Mais alguns dias se passaram e Severo alternava entre cuidar de Hogwarts, protegendo o maior número possível de alunos sem levantar suspeita, treinar o Draco e ajudar a Hermione nas pesquisas. Havia muito pouco que ele podia fazer em relação ao último caso, porque Hermione não podia falar abertamente sobre a tarefa que Dumbledore os havia designado. Mas por mais que ele soubesse que era para sua própria segurança, achava totalmente desnecessário todo esse suspense. Não era como se ele já não estivesse envolvido até o pescoço com tudo o que dizia respeito a guerra, então que diferença fazia um risco a mais ou a menos?
Aparentemente, todas. Pelo menos no que dizia respeito a Hermione, que ficava totalmente mudada quando ele sequer tentava mencionar os riscos que ele inevitavelmente corria com a batalha que se aproximava. Ela estava em negação completa, e ele não poderia culpá-la. Não sabia se era o famoso otimismo grifinório, ou se era uma coisa Hermione Granger de ser, mas ela não aceitava menos do que ele sair completamente ileso da Guerra.
Era refrescante, para dizer o mínimo, que alguém se importasse com ele dessa forma. Ele passara a vida toda sendo ou invisível ou odiado, e ele sabia que era egoísta se sentir bem com todo o amor que ela dava a ele, mas sinceramente, Severo não podia evitar. Era uma indulgência que ele não podia, e não queria, viver sem.
Pela primeira vez na vida ele se sentia digno de alguém, e queria honrar isso fazendo o melhor para ela. E, que Merlin o perdoasse, mas por Hermione ele iria tentar. Tentaria com todas as forças sair ileso da guerra, mesmo sabendo que suas chances eram mínimas. Coisas mais inacreditáveis aconteciam todos os dias, e Hermione Granger ser a sua esposa era uma delas, pelo amor de Deus. E se ele fazia parte de um universo em que isso era possível, então por que não se fazer de tolo mais um pouco e acreditar em finais felizes?
— Não faz o menor sentido! Não tem nenhuma pista! – Hermione gritou, exasperada.
— Hermione... – Severo suspirou, exausto, acordando dos seus devaneios.
— É como procurar no escuro. Pode ser qualquer coisa. Argh!
— Você sabe que posso ajudar.
— Severo. – Hermione avisou, fugindo do olhar dele – Você sabe que não posso contar. Quanto mais você souber, mais exposto você fica.
— Mais? – ele bufou – Hermione, você está sendo-
— Tola? – ela interrompeu, finalmente levantando o rosto para encará-lo. – Você já sabe o que estamos procurando, mas não cabe a você encontrar e destruir. É muito arriscado.
— É ainda mais arriscado colocá-los no castelo para procurar uma coisa que nem sabem o que é! – Severo gritou, nervoso.
O silêncio tenso pairou entre eles, deixando todo o chalé estranhamente silencioso; apenas o barulho das ondas que batiam furiosamente contra as pedras podia ser ouvido. A pequena sala estava tomada por dezenas de livros e centenas de pergaminhos espalhados displicentemente pelo chão, mesa e sofá. Xícaras de chá esquecidas compunham a mesinha de centro, e uma garrafa de whisky de fogo jazia próxima a lareira. Nenhum dos dois gostava do estado caótico que o cômodo se encontrava, mas a arrumação não era exatamente uma prioridade.
— Desculpe. – Severo finalmente falou, escondendo o rosto nas mãos.
— Como você poderia descobrir, Severo? – Hermione perguntou suavemente. Você-sabe-quem jamais deixaria essa informação sair, mesmo para você. E Harry não pode ter acesso a mente dele porque seria suicida. E muito menos você. – Severo assentiu. Hermione estava certa, é claro. Ele pensou e descartou milhares de possibilidades e planos, mas todos muito arriscados. Mais do que toda a situação já era.
— A resposta tem que estar no castelo. O Lorde das Trevas teme que Potter entre na escola antes dele, e sempre que Hogwarts é mencionada ele fica ansioso.
— Sim. – Hermione concordou, pensamento furiosamente – e tem que ser algo valioso.
— E antigo – eles falaram juntos.
— Os fantasmas podem saber de algo – Hermione tentou, mesmo já sabendo da resposta.
— Se eu perguntar sobre isso pode levantar suspeitas.
— Você tem razão. – Hermione suspirou, frustrada. – E se reuníssemos a Ordem novamente e...
— Não.
— Mas, Severo...
— Não vou colocá-la em risco. Um novo encontro da Ordem está fora de cogitação. Como vou explicar a ausência simultânea do diretor e de uma das professoras? Eles vigiam Minerva o tempo todo – Severo levantou abruptamente, dando passos largos até a janela que dava para floresta.
— Então nós vamos ter que arriscar. – Hermione disse, firme, mesmo ciente de como isso afetaria Severo. O fato é que ele sabia que não estava mais em seu controle. Ele fez o que tinha que fazer, desempenhara o seu papel de espião duplo com maestria, e era hora de se afastar. Mas como ele poderia simplesmente sentar e esperar que o Lorde das Trevas o chamasse? Vivera quase toda a sua vida assim, e não se importara. Mas agora... ele queria viver. Queria viver porque, de repente, sua vida não parecia tão ruim. Ao contrário, sua vida ganhara um novo tom. Uma nova cor.
— Severo? – Hermione chamou, aproximando-se do bruxo que olhava resoluto pela janela – Eu vou ficar bem. Vai dar tudo certo. – E como se estivesse tentando se aproximar de um animal arredio, a bruxa tocou as costas de Severo suavemente, sentindo-o endurecer, e depois relaxar com o toque.
— Não quero perder você, Hermione. – e finalmente estava dito. O maior medo de Severo Snape estava dito, e não havia como voltar atrás. E ele nem queria. O que Severo queria era pegar Hermione e aparatar com ela para algum lugar muito, muito distante. E seguro. E se ele pudesse amarrá-la para impedi-la de cometer algo estúpido, ele faria. No entanto, tirar de Hermione a sua escolha, mesmo que para protegê-la, era idiota e prepotente. Severo não queria, jamais, cerceá-la de sua própria mente, de suas próprias decisões.
— E você não vai. – ela sussurrou, afundando no abraço dele. – Eu sei o que estou fazendo, Severo.
— Não duvido da sua capacidade, Hermione, e quero que saiba disso – disse, firme, olhando para os olhos gentis e determinados da jovem mulher com quem ele havia se casado.
— Então confia em mim – pediu, buscando o olhar dele, implorando pelo seu entendimento. – Não posso deixar-
— O Potter e o idiota do Weasley sozinhos.
— Você sabe que não é apenas por eles, Severo – Hermione suspirou – É uma luta pelo que acredito, por um mundo bruxo menos preconceituoso e mais aberto, seguro. E também porque eu provavelmente seria morta no segundo em que eles ganhassem.
— Não diga isso! – Severo rapidamente tocou os lábios dela com a ponta dos dedos, proibindo que qualquer outro comentário do tipo saísse.
— Vou ter cuidado – ela sussurrou.
— Me prometa – ele exigiu.
— Eu prometo, Severo. Prometo. Mas você tem que me prometer o mesmo.
— Já conversamos sobre isso, Hermione.
— Severo-
— Merda! — Severo sibilou, apertando o braço numa tentativa inútil de conter a dor enquanto Hermione olhava para a Marca Negra totalmente paralisada.
— O que... – ela tentou dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas só conseguiu olhar em desespero para ele.
— Fique segura e não faça nenhuma besteira. – ele conseguiu dizer, se preparando para desaparatar. – E reforce os feitiços de proteção como combinamos.
Hermione se jogou no abraço dele, falhando miseravelmente em manter a compostura.
— Volte para mim – ela sussurrou, fazendo todo o corpo dele se enrijecer. Soltando do abraço, Severo apenas assentiu discretamente e desapareceu num rodopio de vestes negras, deixando Hermione sozinha com o medo aterrorizante de perdê-lo.
...
Quando Severo chegou à Mansão Malfoy seu olhar imediatamente caiu em Draco, que olhava resoluto para um ponto distante a sua frente, totalmente imerso na sua própria miséria. Lucius estava pior. Seu cabelo loiro e sempre impecável estava sem vida, desalinhado, assim como a sua roupa, dando a impressão de que não dormia a dias. Narcisa, entre os dois, era a mais controlada. Ela não fazia contato visual com ninguém, mas também não olhava para o chão. Seu rosto tinha olheiras profundas, mas não entregava uma única emoção, um único sentimento. Só que Severo sabia melhor. Conhecera a mulher por tempo suficiente para saber que ela temia profundamente por seu filho, e que faria qualquer coisa para mantê-lo protegido.
— Ah, Severo! – Voldemort exclamou, sorrindo. De relance, Severo teve um vislumbre do animal rastejando ao lado de seu mestre e se sentiu momentaneamente enjoado. Ele vira muitas coisas ruins sendo Comensal da Morte, muitas das quais ele suspeitara nunca mais se recuperar, mas havia algo sobre a cobra maldita que o deixava particularmente afetado e ele não entendia o motivo. – Temos boas notícias. – Voldemort começou, seu olhar assassino brilhando de satisfação.
— Meu Lorde – Severo assentiu, cumprimentando-o cordialmente. Mas uma sensação estranha se espalhou por todo o seu corpo enquanto aguardava, sua mente mandando todos os sinais de que alguma coisa muito ruim estava prestes a acontecer.
— Harry Potter e o garoto Weasley foram vistos em Godric’s Hollow esta noite. No entanto, você não me avisou. Eu sei que a garota provavelmente está tomando muito o seu tempo, mas não tanto que você tenha que ser lembrado das suas tarefas. Diga-me, Severo, é o seu terrível gosto por prostitutas sangue-ruins fazendo você pensar mais com outras partes do seu corpo que com o cérebro?
Severo queria, não pela primeira vez, sair dali. Não, correr dali e desaparatar.
— Peço desculpas, Meu Lorde, mas creio que fiquei concentrado na escola ultimamente.
— Somente a escola? – Voldemort sugeriu, sorrindo. Mas Snape sabia que ele não estava feliz.
— Meu Lorde?
— Severo – Voldemort disse, andando calmamente até ele – Todos sabemos que tem gostado de se divertir com a garota. Mas é só isso?
Severo congelou.
— Ah. – Voldemort sorriu – Tocamos num ponto. Achou que eu não saberia?
Mil perguntar bombardearam a mente de Severo em poucos segundos. ‘Será que ele sabia?’, ele se perguntou, mesmo sabendo que era impossível. Ninguém além da Ordem sabia. Será que tinham sido traídos? A mente de Severo girava com as possibilidades, ao mesmo tempo em que controlava a sua mente para não ser descoberto. A força necessária para manter o autocontrole era tanta que ele sabia que não aguentaria por muito tempo.
— A garota está lá o meu prazer, senhor, mas isso é tudo.
— Mentiroso! – a voz doentia de Belatriz ecoou na sala fria e escura. –Você está protegendo a garota, Severo, e eu vou provar! – a bruxa gritou, alucinada, e Severo quis matá-la ali mesmo.
— Fascinante teoria, e errada. Como sempre. Interessante como a sua mente funciona, Bella. – ele disse, indiferente, embora seu corpo inteiro estivesse tremendo de ódio.
— Meu Lorde, ele está mentindo! Eu sei que está!
— O suficiente, Belatriz! – Voldemort gritou, fazendo-a se encolher no mesmo instante.
— Sim, meu Lorde. – ela murmurou, voltando para o seu lugar na grande mesa. Severo podia sentir o olhar dela queimando, mas ignorou.
— É verdade o que a Bella diz? – Voldemort perguntou, e Severo sabia que estava sendo testado.
— Meu Lorde, a sangue-ruim é maçante, mas serve como prostituta. É divertido ter uma boca disposta, se o senhor me entende... – Severo sorriu discretamente, fazendo alguns comensais rirem do comentário.
— Quem poderia imaginar? A sangue-ruim, amiga de Potter, protegida de Minerva McGonagall, serve para uma boa foda. – Voldemort finalmente pareceu convencido, quebrando o contato visual com Severo. – Por agora, talvez os outros possam ter uma chance também. O que acha?
— Como o senhor quiser, meu Lorde. – Severo finalmente conseguiu dizer, estoicamente.
— Perfeito. Porque está na hora. A segurança em Hogwarts deve ser redobrada. Sob nenhuma circunstância o garoto pode ultrapassar os portões, e se o fizer, ele precisa ser detido. – Se Severo tinha alguma dúvida que uma das horcruxes estava, de fato, em Hogwarts, não havia mais. Sua mente tentou trabalhar, pela milésima vez, na reposta, mas tudo o que conseguia pensar era em Hermione e no que ele teria que fazer para protegê-la. Quanto tempo mais ele aguentaria isso? Esse inferno? O medo e a pressão constantes?
— Se o garoto aparecer nos arredores do castelo, saberei imediatamente. Não tem motivo para ele se deter em Hogsmead. Além de ser muito perigoso. Só me pergunto se ele seria capaz de se arriscar tanto voltando à Escola. Não faria muito sentido, Meu Lorde. – Severo instigou, sabendo no mesmo instante que tinha ido longe demais.
— Só importa saber que, se ele entrar, sofrerá uma emboscada. E, apenas para garantir, a garota deve ser trazida para cá. Já está na hora de Potter escolher. Se ele estiver por perto, mandarei um recado a ele.
— Sim, meu Lorde. – Severo respondeu finalmente, até que a voz de outro comensal ecoou na sala.
Era Draco.
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— Draco, meu menino! Fale! Estava ficando impaciente para saber quando finalmente começaria a participar das reuniões. Não seja fraco como o seu pai.
— A garota, Granger.
— Sim?
— Eu a quero. – Draco disse, sentindo o olhar chocado de seu pai.
— Milorde, ele é só um menino. Não saberia o que fazer com uma prostituta. – um comensal qualquer falou, ganhando a risada dos outros homens.
— Ela é uma puta que infernizou a minha vida, e eu a quero. Quero que ela faça o que eu pedir e calada. – Severo estava completamente chocado, e felizmente todos os outros também estavam, ou teriam percebido a sua reação.
— Devo dizer que estou... surpreso. – Voldemort disse, olhando para Draco em busca de alguma coisa, qualquer coisa, que estivesse fora do lugar. Mas o garoto parecia tão decidido que mesmo o Lorde das Trevas não questionou. Afinal de contas, o que Draco Malfoy poderia querer com Hermione Granger que não machucá-la?
— Se é assim, está decidido. Você vai cuidar da sangue-ruim a partir de agora, Draco, mas eu espero que você entenda o que isso significa. – Sua voz era anormalmente calma, e Draco não saberia dizer, mesmo nas horas que seguiriam, como ele conseguira se manter tão focado. Muito menos como conseguira falar tão enfaticamente.
— Sim, senhor, eu sei.
— Se me decepcionar novamente, Draco, seus pais irão pagar. Não seja um covarde. – Malfoy podia sentir a reação de choque dos seus pais mesmo sem olhar para eles, e sentiu o estômago embrulhar. Por mais que seus pais fossem preconceituosos e tivessem apoiado ideias extremas, de alguma forma Draco sabia que eles não haviam pensado realmente nas implicações da guerra, ou no rumo que a coisa toda tomaria. Além disso, ele não fora criado para ser um estuprador, e só de imaginar que a sua mãe estaria pensando nele dessa maneira o fez sentir doente.
— Eu não vou. – Draco respondeu sem hesitar – Não vou errar dessa vez, senhor.
E não, ele não erraria.
Porque Draco Malfoy estava se sentindo certo pela primeira vez na vida, e essa certeza não estava nas trevas.
...
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