A sua cor

52 Desentendimentos


Notas iniciais
Hey! Que tempos estamos vivendo... Loucura pensar que tanta coisa aconteceria desde que postei o primeiro capítulo aqui, em 2014. E apesar de tudo, sabe o que nunca muda? O bem que escrever e ler me faz. Espero que essa história dê a pelo menos algumas pessoas o mesmo prazer que eu tenho ao escrevê-la.

— Draco?! – Hermione exclamou, completamente chocada. Entre todas as imagens terríveis que sua mente formou, ver Draco Malfoy no chão da sala, pálido, não era uma delas. – O que você...

— O que você estava pensando?! – Severo vociferou, pegando Draco pelas vestes e jogando na parede mais próxima.

— Severo! – Hermione gritou, assustada – O que você está fazendo?

— Você é completamente IMBECIL? O que você tinha na porra da cabeça, Malfoy? – Severo pontuou cada uma das suas palavras segurando Draco pelo pescoço, jogando-o de uma parede a outra antes que ele conseguisse falar.

— Para com isso! – Hermione gritou mais uma vez, tentando inutilmente puxar Severo para longe de um Malfoy pálido e assustado no canto da sala, chocada demais para reagir com magia.

— Você não pensou nem um por um segundo a merda que isso acarretaria? – Severo continuou, alheio aos pedidos desesperados da bruxa ao seu lado.

— Severo, por favor, se acalme. O que aconteceu?

— Esse garoto idiota aconteceu! – ele respondeu, irado, fazendo Draco se encolher.

— Ninguém vai me contar o que aconteceu? – Hermione perguntou mais uma vez, apreensiva pelo silêncio dos dois. Quando ela estava prestes a perder a paciência, Draco finalmente falou.

— O Lorde das Trevas quer você, Granger. – ele começou, cauteloso, esperando pela reação dela.

— Bem, sim – ela piscou – isso era o esperado. – ela finalmente conseguiu dizer, captando a mudança na magia de Severo.

— Ele não pode te machucar. Ainda. E não diretamente... Mas – ele hesitou.

— Mas... – Hermione instigou, olhando de um para o outro, seu estômago se contorcendo de pavor só de imaginar estar na presença de tantas pessoas que a queriam morta.

— Mas os Comensais podem, Hermione – Severo falou, finalmente olhando para ela – Não podem te matar, mas podem machucá-la. E é claro que você não precisa se preocupar porque não vou deixar isso acontecer.

O tom arrogante dele a irritou profundamente, e por mais que ela quisesse retrucar, sabia que seria infantil. Ele estava com tanto medo quanto ela estivera agora a pouco.

— E o que vai dizer a ele, Severo? Nem você pode sair dessa agora, é muito arriscado.

— E o que você espera?! – ele estourou – Você quer que te torturem como Bellatriz? E ela certamente terá muito prazer em fazer de novo. Isso sem mencionar no que os homens fariam com você. É isso que quer?

— Severo – Hermione avisou, sentindo as lágrimas caírem livremente pelo seu rosto.

— Snape, você não precisa-

— Fica fora disso, Draco! Você quer que eles lancem tantas Cruciatus que você pedirá pela morte? Quer que eles te toquem? Que eles se forcem a você e te-

— Cala a boca! – Hermione gritou, sua magia tremulando com tanta intensidade que várias luzes piscaram no pequeno chalé – Você não pode me dizer essas coisas, Severo Snape! Não é mais difícil para você do que para mim, e eu não sou idiota. Eu sei o que aconteceria lá. EU SEI! Mas você consegue pensar em alguma saída?

— Eu, sim. – Draco Malfoy finalmente disse, fazendo Hermione piscar, surpresa, porque ela sequer lembrava que ele ainda estivesse na sala. – Me ofereci para cuidar de você, Granger, enquanto fica como prisioneira na Mansão. E é claro que não farei nada contra você. Dou a minha palavra. Faço um voto perpétuo, o que for. Mas não a machucarei.

Draco disse olhando para uma Hermione muito surpresa. Depois, pensando melhor, ele se virou para Severo: — Eu não a machucarei, tio.

— Não se trata disso, Draco. Mas você não...

— Acha que não vou dar conta? Que eu vou ferrar com tudo?

— É muito arriscado. Eles vão desconfiar quando perceberem que ela não está ferida ou emocionalmente quebrada. E se o Lorde das Trevas pedir para ver suas memórias? O que mostrará a ele? Imagens de vocês dois sentados na sala olhando para o teto? Coelhos brancos e saltitantes? Por favor...

— Posso criar memórias falsas. – Draco sugeriu.

— Garoto, você acha que é simples? Treinamos isso nas últimas semanas. E enquanto suas memórias são aceitáveis, não chegariam perto de convencer o Lorde das Trevas.

— E se simulássemos? – os dois bruxos olharam intrigados para Hermione.

— Simular o quê, exatamente? – Draco perguntou, ganhando um suspiro exasperado de Hermione – As lembranças?

— Não, não as lembranças. Os fatos. As lembranças seriam tecnicamente verdadeiras. Você não me machucaria de verdade, mas poderíamos sugerir as agressões. Ainda seria tudo verdade, e todos nós estaríamos seguros. Eu estaria a salvo, Severo manteria sua posição como espião duplo e você cairia nas boas graças dele.

— E manteria meus pais seguros – Draco murmurou, seus pensamentos correndo furiosamente enquanto analisava a hipótese de Hermione.

Ela, no entanto, olhou em expectativa para Severo. Alguns minutos de puro silêncio se passaram até que ele falou novamente.

— Teria que ser muito bem construído. As emoções e a mente estão conectadas, então deve haver muito ódio nessas simulações, Draco, como se estivesse realmente sentindo isso. O Lorde das Trevas não vagueia pela sua mente como se fosse um filme, ele também é capaz de sentir as memórias. Tem que ser convincente.

— E então... temos um plano? – Draco perguntou, olhando para o casal a sua frente.

— Sim, temos um plano. – Hermione respondeu, decidida. – Severo?

E tudo que eles ouviram como resposta foi a porta do laboratório batendo com força.

...

— Eu falo com ele. – Hermione suspirou.

— Acho melhor você dar um tempo para ele, Granger.

— Nossa – Hermione riu sem humor – por um momento pensei ter ouvido você praticamente dizer que conhece Severo melhor do que eu.

— Na verdade, eu conheço.

— Perdão?

— O quê? Você acha que meses com ele te faz uma especialista? – ele disse, com arrogância.

— E você acha que a vida toda faz? Quantas pessoas que convivem com ele a anos podem dizer que realmente o conhecem? Tempo não quer dizer nada.

— Tempo quer dizer tudo, Hermione. O tempo que passaram juntos, mesmo que pouco, te mostrou uma pessoa completamente diferente, mas você não sabe tudo.

— E o que há para saber? Sei tudo que preciso saber sobre ele. Tudo que é suficiente.

— Tanto faz. – Draco riu sem humor, deixando Hermione ainda mais furiosa.

— Você só está com raiva porque a única pessoa realmente sensata na sua vida agora tem alguém, e você não é o centro dela!

No momento em que as palavras saíram, Hermione sabia que havia extrapolado. Ela viu os ombros dele endurecerem e suas mãos se fecharem em punhos.

— Aprendeu direitinho, Granger. – Draco disse depois de um tempo, decidindo que não valia a pena uma discussão.

— Sinto muito – Hermione fez uma careta, tanto pelo comentário anterior quanto pelo pedido de desculpas.

— Não precisa pedir desculpas – ele respondeu depois de um tempo – E talvez você esteja certa. Mesmo distante, ele foi a única pessoa que não me colocou em risco, ou em situações em que não queria estar. Minha mãe também, é claro, mas ela não percebeu até onde o seu preconceito a levaria. Ela foi ensinada assim, e meu pai também. Era natural para eles. “Um mundo de puros sangues” – ele riu. Eles não entenderam completamente que esse tipo de discurso levaria a morte de pessoas. Tortura. Horror.

— O seu pai sabia, Draco. Ele participou disso antes.

— E ele tentou sair, mas é impossível. Não tem uma opção, uma vez que você entra. Ele só está me protegendo, assim como minha mãe. Qualquer coisa que negamos ao Lorde das Trevas volta para nós, ou para quem amamos, e dez vezes pior.

— Os dois lados perdem numa guerra. – Hermione concordou.

— Mas tem sempre um que começa, e eu quero ajudar a terminar. – Draco disse, e imediatamente Hermione soube: ia funcionar.

...

Hermione estava no limite. Esgotada tanto física quanto emocionalmente. Mas ela sabia que tinha que aguentar ou então tudo desmoronaria. Se ela caísse, quem estaria lá por Severo? Por Harry e Rony? Por Draco? No fundo ela sabia que era errado pensar assim, que eles eram homens adultos que sabiam se cuidar, mas era da sua natureza se preocupar. E naquele momento eles corriam muitos riscos.

Só que ela estava exausta. Exausta de olhar por todos. Exausta de simplesmente estar ali mediando conflitos e, principalmente, exausta de pisar em ovos em torno de Severo.

Já fazia quase quatro horas que Draco se trancara com Severo no laboratório, fazendo com que ela se isolasse na pequena biblioteca do chalé tentando não pensar no bruxo taciturno e falhando miseravelmente.

— Quer saber? Chega. – ela decidiu, fechando o livro com força – Isso é ridículo! – os pergaminhos voaram quando ela fechou o caderno, xingando baixinho quando eles saíram da ordem. Era um motivo estúpido, mas ela quis chorar. E gritar. E chorar de novo. Era frustrante. Por que ele não podia simplesmente falar com ela? Estava de saco cheio de tudo, de saco cheio dele, e decidiu que a partir daquele ponto faria as coisas de forma diferente.

...

Severo acordou com uma dor terrível no pescoço, e demorou alguns segundos para entender onde estava e o que tinha acontecido. Flashes da conversa com Draco vieram a sua cabeça, seguido pelas lembranças do plano pensado por Hermione. Hermione... pensar nela fez seu coração gelar de puro medo.

Pensando um pouco mais ele tentou lembrar porque não estava no quarto com a Hermione, e a imagem da porta trancada o fez xingar baixinho.

— Merda – ele levantou bruscamente, mas se arrependeu no segundo seguinte – Droga! – ele xingou de novo, procurando cegamente pela varinha – Você é um completo idiota, Severo Snape. Um idiota.

Suas articulações reclamaram quando ele finalmente levantou, a cabeça latejando com a tensão da noite anterior. Ele e Draco conversaram por horas durante a madrugada, mas incrivelmente, eles não falaram sobre a Guerra ou o plano, mas sobre a vida. Draco estava se tornando um bom homem, e Severo sorriu satisfeito para si mesmo.

Eles também conversaram sobre Hermione, obviamente, e pela primeira vez Severo não se importou. Claro que houve um pouco de whisky de fogo envolvido, ou ele não seria capaz de se abrir tanto. E que seria para o seu afilhado que ele declararia seu amor devotado por Hermione ele nunca poderia imaginar, mas ele sinceramente não se importava mais.

Ele contou sobre quando o sentimento dele em relação a ela começou a mudar, até chegar ao ponto em que ele não podia fazer mais nada além de se render. Que ele queria que ela fosse a pessoa mais feliz e realizada do mundo, e que ele pudesse fazer parte disso. Que fosse ele ao lado dela, que fosse ele a tocá-la, a inspirá-la. A amá-la. Por algumas horas ele se permitiu ser egoísta e vislumbrou um futuro com ela – um em que eles ficariam juntos e teriam uma vida, sem a tenebrosa sombra da guerra.

Mas ele havia a magoado várias e várias vezes, e muitas delas propositalmente, na tentativa de que ela percebesse a impropriedade de estar com ele romanticamente. Mas a verdade é que era ele o medroso. Era ele que estava tentando se poupar do risco de amar. Seria doloroso demais perdê-la. Doloroso demais saber como era tê-la em seus braços, lhe dar prazer, para depois ela perceber o horror que era tê-lo ao seu lado, como marido, como amante. Draco estava certo em chamá-lo de idiota na noite passada. Ele era, de fato, mas estava disposto a mudar isso.

E, com sorte, não seria tarde demais.

...

— Hermione, por favor, abra a porta. Eu sei que fui um idiota e-

— Problemas no paraíso? – Draco provocou, aparecendo no pequeno corredor do chalé.

— O que você está fazendo aqui? Não tem 50 cômodos na sua casa ou algo assim?

— 80, para ser mais exato.

— Ainda não é uma explicação do porque está aqui.

— Hm, eu quis. – ele deu de ombros.

— Merlin, me dê paciência. – ele rogou, batendo a testa na porta – Hermione, abra a porta!

— Sabe, eu não sou casado, mas não acho que é assim que se agrada uma esposa, mesmo que a esposa em questão seja a Hermione.

— Você não tem que achar nada, Draco. Não está aqui como terapeuta de casal. – Severo disse entre dentes.

— Terapeuta de casal? O que é- vendo o rosto irritado de Severo, ele desistiu de perguntar – Bem, você quem sabe. Mas você vai ter que fazer isso de maneira diferente.

— Fazer o que de maneira diferente? E o que estão fazendo parados aí?

Ambos olharam assustados para uma Hermione desconfiada e de braços cruzados no fim do corredor.

— Merlin, ela nem estava no quarto e você parado aí feito um idiota! – Draco, claro, achou a situação toda terrivelmente engraçada, e passou rindo por uma Hermione confusa e estressada, deixando-os a sós para conversar.

— Hermione, eu-

— Não. Não perca o seu tempo, Severo. Não quero conversar. Estou cansada. A menos que seja algo sobre a guerra ou o plano, não vamos discutir.

Severo assustou com o tom abrupto dela. Eles nunca haviam falado assim um com o outro. Farpas e comentários ferinos, sim, mas não o tom frio e exausto vindo dela. Isso o assustou, e ele não esperava.

— Eu, bem- sua voz quebrou, mas se recusando a ser vulnerável na frente dela ele simplesmente falou, frio – Como quiser.

E sem olhar para trás, se trancou novamente no seu escritório e se serviu de uma bebida. Um pensamento rápido de que ele estava bebendo muito o assaltou, e imediatamente largou o copo. Não. Ele não faria isso consigo mesmo e, principalmente com Hermione. Ele não se afogaria na própria mágoa e culpa e enfrentaria os seus erros como um homem adulto.

Decidido, ele fez o copo e a garrafa desaparecerem e marchou decidido para encontrá-la.

— Uow! – Draco gritou, quase tropeçando com ele na entrada do laboratório.

— Onde ela está?

— Ia te falar que ela passou por mim chorando. Acho que foi para a praia, não sei. Sério, tio, você precisa aprender a controlar os seus nervos. Só estou dizendo.

Draco achou que tinha ido longe demais quando Severo apenas parou e respirou três vezes enquanto olhava duramente para ele. Depois apontou o dedo, respirou de novo, desistiu e simplesmente passou por ele a passos largos e decididos rumo a parte de trás da casa. Draco apenas sorriu consigo mesmo, balançando a cabeça, achando surreal que o padrinho dele tenha se rendido tão completamente ao amor. E, naquele momento, ele só desejou que os dois sobrevivessem à guerra para ter a chance de viverem em paz e felizes.

Porque se tinha alguém que merecia, essa pessoa era Severo.

...