A sua cor
53 A verdade
Notas iniciais
Severo teve um pequeno déjà-vu quando caminhou pela praia até encontrar Hermione em pé, abraçada ao próprio corpo, olhando para o mar. Parecia uma outra vida, completamente distante desta, quando ele foi ao encontro dela depois te der deixado escapar que Harry Potter muito provavelmente não sobreviveria à Guerra. E agora, numa trágica jogada no destino, ele faria o mesmo.
Em poucos meses tudo mudou. Eles passaram de professor/aluno para um casal de fachada, e então, finalmente, se descobriram apaixonados, consagrando um amor marcado pela guerra. Severo nunca, nem nos seus melhores sonhos, imaginou que algo assim ainda poderia acontecer com ele: amar, e ser amado de volta. Se sentir feliz, em êxtase. Vivo.
Mas o preço do amor deles era muito alto. Especialmente para Hermione. Ele fora novamente egoísta. Deixou-se envolver, e agora ela sofreria.
Tentando deixar os pensamentos pessimistas de lado, ele caminhou até ela. Seus passos eram rápidos, mas sua postura era cautelosa. Tinha receio de que ela se virasse e saísse, de que ela o rejeitasse, mas quando não o fez, ele parou ao seu lado. Por vários minutos eles não falaram nada um com o outro, apenas olharam juntos para o horizonte cinza. O frio era cortante, e uma tempestade ameaça cair.
— O clima na Escócia é horrível. – ela finalmente falou depois de um tempo.
— E você só percebeu isso agora? – ele brincou de volta, sorrindo discretamente. Quando ela não respondeu, Severo completou. – Inclusive, é parte do motivo pelo qual os somos tão mal-humorados.
— O que? Você acha que mais sol nos faria mais felizes? – ela finalmente olhou para ele, divertida.
— Não faria mal, tenho certeza. – ele concordou com falsa seriedade, sentindo o coração saltar com o som da risada dela.
Mais um tempo se passou em silêncio confortável, e Severo pensou que era mais um dos motivos que ele adorava em Hermione: poder ficar no mais completo silêncio sem que a situação ficasse constrangedora. Eles simplesmente apreciavam a presença um do outro, se bastavam.
— Parece familiar? – Severo perguntou, apontando displicentemente para eles mesmos.
— Na verdade, parece. Mas tanta coisa aconteceu desde aquele dia... – ela suspirou.
— Sim.
— Quem poderia imaginar. – Hermione sorriu, balançando a cabeça, e de repente ambos falaram ao mesmo tempo:
— Dumbledore. – e riram juntos, como se mais nada importasse, como se mal tivessem brigado a menos de uma hora atrás.
— Aquele velho fofoqueiro. – Severo sorriu, relaxando aos poucos a postura. O gesto os fez se aproximar ainda mais, o ombro dela quase tocando o braço dele. – Desculpe por ontem, Hermione. Sinto que tudo saiu do meu controle, e isso... Sou tomado por uma raiva que me consome por inteiro quando vejo o perigo que todos correm, especialmente você.
Hermione sentiu as lágrimas se formando, mas quando tentou dizer algo, ele a deteve.
— E, sim, é claro que sei que você não é indefesa. É uma mulher forte, extremamente capaz e inteligente, dona de sua própria mente, e muito poderosa. Mas da mesma forma que se preocupa comigo, me preocupo com você. Consegue entender isso? — ele finalmente olhou para ela, implorando.
— Eu entendo. Severo, eu entendo. – ela finalmente respondeu, com a voz embargada. – Mas me deixar de fora não vai ajudar. Se pudermos ser honestos um com o outro, talvez tenhamos mais chances de sairmos vivos da Guerra. Não suporto saber que terei que te deixar em alguns dias e que não nos veremos mais. Dê um pouco de crédito ao Harry, ao Draco e, principalmente, a mim. Já tivemos essa conversa antes, mas o que você não está me dizendo?
Severo deixou o olhar dela e se afastou, claramente pedindo por um pouco de tempo. Fazia parte daquele antigo manual Severo Snape que Hermione entendia muito bem.
— Quanto você lembra das Relíquias da Morte?
— A história infantil? – Severo assentiu – Tudo. Espera, você não está querendo me dizer que isso tem alguma relação com a guerra. Está?
— Tem toda relação, Hermione. Elas existem, e você sabe. Potter tinha a capa da invisibilidade com ele. E também-
— A Pedra. – Hermione completou, e Severo a olhou interrogativamente – Estava dentro do pomo de ouro. Quando eu fui para a floresta atrás dos meninos – ela fez uma pequena careta lembrando quão insana ela havia sido – Harry tentou me alertar para a possibilidade desses pontos estarem ligados.
— E?
— Não acreditei. Achei que estivesse ligando pontos que não existiam. Fui idiota. E tem o símbolo das relíquias em todos os lugares.
— Então você pode imaginar que Dumbledore era o dono da Varinha das Varinhas.
— O que?! – Hermione praticamente gritou – Mas, Dumbledore? Como?
— Não é tão chocante assim se você pensar logicamente. O que Dumbledore não sabia, Hermione? Era um homem poderoso.
— Sim, mas... como? Você-sabe-quem tem essa informação? – Hermione prendeu a respiração.
— Ele sabe.
— Mas – a mente de Hermione trabalhava freneticamente – Você o desarmou.
— Eu o matei, Hermione. Use as palavras certas. – ele disse, amargurado.
— Não seja obtuso, Severo! Então... – Hermione tentou processar tudo – você é o dono legítimo?
— Não exatamente. Mas o Lorde das Trevas acredita que sim.
— Merlim! – Hermione estava completamente sem fôlego, e precisou se afastar para processar tudo. — Então ele vai matá-lo! Severo, ele-
— Hermione, calma.
— CALMA? – ela gritou, furiosa – Como pode me pedir isso?
— Por favor. – ele pediu, segurando-a suavemente pelos ombros.
— Ele está com a varinha? – Hermione perguntou, se afastando do toque dele. Sua voz suave era o completo oposto de suas emoções.
— Ele roubou do túmulo de Dumbledore. Mas a varinha não funcionou como ele esperava. De acordo com a história...
— Você tem que desarmar o bruxo para que a varinha o identifique como dono.
— Sim. – Severo assentiu.
— E o que você quis dizer com ‘não exatamente’? – ela perguntou depois de um tempo, tentando ser o mais racional possível.
— Alguém o desarmou antes, pouco antes de eu chegar na Torre de Astronomia. – Severo hesitou por um milésimo de segundo, quase falando o nome do Draco, mas optou por não fazê-lo – O plano é que o Lorde das Trevas pense que será legítimo, mas a varinha não responderá a ele porque pertence, neste momento, a outro bruxo.
— Que não é você.
— Que não sou eu. – ele concordou.
— E porque você acha que ele vai te matar? Ele não pode apenas desarmá-lo?
— Hermione, o Lorde das Trevas não se importa. Acha que ele será complacente comigo? Ele não vai enfrentar uma batalha sem estar cem por cento certo de que é o dono da Varinha das Varinhas.
— Então, e me corrija se eu estiver errada, as Relíquias da Morte existem e Dumbledore estava tentando me avisar. Você-sabe-quem não só acredita na história, como já está com a varinha. Ele viu que não funciona porque precisa desarmar o dono legítimo, que na cabeça dele, é você. – ela apertou as mãos na tentativa de se controlar – A quanto tempo sabe sobre as relíquias? Dumbledore contou a você?
— Não. Era muito arriscado. Como já falamos sobre isso, ele me passava peças, informações que eu tinha que saber à medida que seu plano avançava. Ele nunca me contou tudo. Fui construindo o quebra-cabeça ao longo do tempo. Ele só não imaginava que morreria antes da batalha. Por isso precisei saber mais do que ele planejava contar. Sinto muito.
— E nós podemos realmente confiar em Dumbledore? Porque eu já não tenho tanta certeza.
— Confiar nele para o fim da Guerra? Sim. Por quais meios? Não sei. – Severo respondeu honestamente.
— E por que está me dizendo agora? Por que tudo isso está saindo agora, neste momento? – seu corpo fervia com raiva mal contida.
— Não aguentava mais mentir para você. Estava acabando comigo. Quando começamos isso, fiz uma promessa que não te magoaria. Achei que estivesse te poupando, mas estava errado. Não espero que me perdoe, mas não poderia...
— Não poderia o que? – ela cortou bruscamente – Me dizer que é praticamente um homem morto? Me deixar fazer planos de um futuro que não vai acontecer? Por favor. – ela riu, sem alegria.
— Hermione – ele estremeceu.
— Não diga o meu nome. – ela engasgou com o choro contido – Apenas... não. Não fale comigo.
— Por favor, eu... – ele tentou se aproximar.
— Não! – ela colocou a mão entre eles, impedindo-o de se aproximar.
Ela ficou de costas para ele, abraçando o próprio corpo, tremendo levemente, e Severo não poderia dizer se era de frio ou raiva. Talvez os dois. E ele se odiava por ter feito isso com ela.
— O plano com o Draco ainda continua? – Hermione perguntou depois de um tempo, sem olhar para ele.
— Sim. Seria muito arriscado não ter um plano alternativo.
— Harry sabe? – seu olhar era duro quando ela se virou.
Severo hesitou, mas decidiu pela verdade – Ele sabe. Contei a ele naquele dia no Chalé das Conchas.
— Então eu sou a idiota que descobre por último? – ela estalou.
— Não é culpa do garoto. – Severo não gostava do Potter, é claro, mas não faria ninguém levar a culpa por erros que eram dele. Sua cota nisso já estava ultrapassada.
— Tem mais alguma coisa que eu deveria saber? Alguma grande e terrível surpresa à espreita?
— Vão ter sempre ecos no meu passado, Hermione. – Severo suspirou, resignado – Mas em relação a Guerra, não. – ele sentiu novamente uma pontada de culpa por não contar que o bruxo que havia desarmado Dumbledore era o próprio Draco, mas se ele o fizesse, Hermione certamente se colocaria em risco.
Hermione assentiu, chocada demais para pensar ou sequer falar alguma coisa. Seu olhar ficou perdido num ponto fixo na areia pelo que pareciam horas, até que ela criou coragem o suficiente para trazer o assunto proibido à tona. – E sobre a Lílian?
— O que tem ela? – Severo estreitou os olhos, dando um passo decidido na direção de Hermione.
— Quando tentei perguntar sobre ela, alguns meses atrás, você foi lacônico. — ela não tinha nenhuma intenção de perguntar sobre isso agora, mas quando deu por si as palavras já haviam sido jogadas ao vento.
— Quer realmente conversar sobre isso agora? – com o maxilar cerrado ele se inclinou sobre ela – Tudo bem. – ele cruzou os braços – O que mais quer saber?
Hermione sabia que estava sendo irracional. Ela só queria magoá-lo, mas seria tremendamente injusto trazer um assunto tão delicado no meio de uma briga. Recuando, ela piscou como se saísse de um transe.
— Sinto muito. – sua voz não era nada mais que sussurro, que Severo teve que se esforçar para ouvir através dos sons do vento e das ondas. – Não quis trazer esse assunto agora. Foi injusto e somos melhores que isso.
— Hermione-
— Mas se não temos mais nada para falar um com o outro – ela cortou novamente – vou voltar para o chalé. Draco está esperando para começarmos a plantar as memórias falsas.
E sem olhar para ele, ela saiu, deixando um Severo completamente destruído para trás.
Porque, sim, Hermione havia mudado nos poucos meses de casamento – aquela eternidade. Se tornou uma mulher ainda mais forte e capaz, que facilmente olhou para ele e falou com absoluta certeza. Ela não tinha medo. Era brilhante e imprevisível.
E para o seu desespero completo, ele a amava ainda mais.
...
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