A sua cor
54 Esperança
Notas iniciais
— Não foi bom, então, hein? – Draco perguntou, cauteloso, quando Severo voltou ao chalé quase uma hora depois de Hermione se trancar no quarto.
— Não. – Severo suspirou, suas mãos em punhos.
— Ela passou por aqui dizendo que quando estivéssemos prontos era só chamá-la. – Draco falou depois de um tempo, observando seu padrinho cair abatido em uma das cadeiras.
Severo apenas assentiu, e sua expressão era de exaustão completa. Mas havia mais: tristeza. E muita. Draco queria perguntar, entender, mas sabia quando não ultrapassar os limites com Severo. E desabafar, além de não ser um traço sonserino, não era muito o forte de nenhum dos dois homens na sala.
— Você está pronto para isso, Draco? – Severo perguntou depois de um tempo, segurando o olhar dele.
— Eu estou. – ele respondeu enfaticamente – Posso fazer isso. Vai dar certo.
Severo assentiu, levantando-se. De costas para o Draco, ele parou apoiado na lareira, pensando no que dizer. Ele sabia, é claro, que era a melhor chance que possuíam, seria estúpido negar. Mas não tornava o processo mais fácil.
— Não tenho muita escolha aqui. – Severo finalmente falou – Mas antes de começarmos vamos fazer um acordo. – ele finalmente se virou para o garoto, segurando o seu olhar – Se você perceber que alguma coisa vai dar errado ou que o Lorde das Trevas está desconfiado, vai fazer exatamente o que vou te dizer.
Draco arregalou o olhar, mas assentiu rapidamente – Fui claro? Não importa o que aconteça, ou que consequências isso gere para a guerra, você vai tocar essa chave de portal – Severo tirou um pequeno objeto do bolso e o lançou sobre a mesa – e tirar você e a Hermione do perigo. Tudo bem? Se eu fizer isso agora, teremos poucas chances, você prejudica os seus pais, e a Hermione jamais me perdoaria. Mas se algo no plano falhar, você tem que me prometer que fará isso.
— Eu-
— Prometa. – Antes que Draco pudesse reagir, Severo já estava na sua frente, segurando-o firmemente pelo ombro. Seu olhar, sempre concentrado e vazio, ardia. De medo, raiva, frustração, preocupação.
— Snape, eu prometo. – ele disse com toda a convicção que mal sabia que possuía. – Prometo a você que vamos ficar em segurança.
— Tudo bem – Severo assentiu, soltando-o, e pegou o pequeno objeto em cima da mesa para entregá-lo – Guarde em segurança, e utilize com sabedoria caso seja extremamente necessário. E não conte à Hermione por enquanto.
— Mas, senhor-
— Ela já me odeia agora. Não fará diferença esconder algo que talvez nem seja necessário. Também quero que, caso aconteça algo comigo, você a leve até a minha casa na Rua da Fiação. Nesta carta tem todas as instruções. – Severo tirou um envelope do bolso – Vou guardá-lo na gaveta da minha mesa no laboratório, e no caso de... bem – ele desviou o olhar – você já sabe onde encontrar.
— Snape, não vai acontecer nad-
— Não seja estúpido, garoto. – Severo o cortou – Só siga as minhas instruções. Estou confiando em você.
— Tudo bem – Draco apenas assentiu, seu coração apertado pelo destino de uma das poucas pessoas que ele realmente gostava e admirava. Seu coração também doeu pela garota, Granger. Ele não gostava dela e não seria hipócrita, mas não podia negar que os dois se amavam, e não conseguia deixar de pensar no quão arrasada ela ficaria caso o destino do seu padrinho fosse a morte.
— Bom. Vou chamá-la, então. Você tem que voltar para a Hogwarts, não posso cobrir sua ausência por muito tempo.
— Claro. – Draco finalmente encontrou forças para responder, meio tonto com todas as novas informações e com o rumo da conversa.
— Vamos acabar logo com isso.
...
Os três bruxos conversaram por quase quatro horas sobre oclumência, e Severo deu dicas pontuais sobre a abordagem do Lorde das Trevas na legilimência. Severo ensinou tudo o que podia para os dois, caso fossem pegos em alguma contradição, e deu orientações para que não caíssem nas armadilhas mentais de Voldemort.
Tudo foi repassado minunciosamente, e eles estavam bastante satisfeitos com o resultado. Apesar da briga na praia, Severo e Hermione trabalharam em conjunto como se não houvesse a menor tensão entre eles, e Draco estava tão focado em não estragar tudo que se comprometeu intensamente durante as horas de treinamento.
A parte mais difícil foi a de implantar algumas simulações de memórias falsas. Severo estava claramente desconfortável em sequer imaginar Hermione numa situação potencialmente perigosa, mesmo que fictícia, mas era a única alternativa. Eles estavam contando que não chegaria a esse ponto, mas não valia a pena correr o risco.
Draco foi embora pouco depois, escoltado pelo próprio Severo de volta à Hogwarts, e Hermione se viu sozinha no chalé tentando processar tudo o que tinha acontecido nas últimas 24 horas. Mais especificamente na conversa da praia, em que Severo finalmente decidira contar o que estava segurando-o por todo esse tempo.
A mente de Hermione girou tentando pensar em quem seria o bruxo que agora dominava a varinha das varinhas sem sequer ter o conhecimento disso, mas sabia que era inútil. Muito provavelmente era algum comensal da morte que estivera na torre de astronomia no fatídico dia da morte de Dumbledore, e que diferença isso faria? Não impediria o Lorde das Trevas de penalizar Severo, pois para ele era Snape o verdadeiro dono.
E tudo a sobrecarregou tão completamente que Hermione desabou na poltrona da sala. A poltrona dele. Foi demais. Era tanto para processar que doía. Depois de tudo, de tanto esforço, seria em vão. Ele não estaria com ela. Existia uma enorme diferença entre não saber o que aconteceria, e a certeza do fim. E Hermione não sabia se poderia lidar com isso. Deem os mais complexos desafios, mil livros, feitiços impossíveis, enigmas, poções perigosas, ela dava conta. Mas isso... era muito para processar.
Ela se sentiu tão tola por tudo. Era uma sensação de falhar completamente, só que dessa vez não era um teste idiota, não eram as suas próprias inseguranças, era Severo. E o que mais a chocava era saber que ela faria tudo de novo, mesmo sabendo do fim, se significasse sentir metade das coisas que ela sentiu com ele. Hermione cairia de cabeça de novo e de novo, esquecendo sua racionalidade, e ouviria seu coração. Se apaixonaria profundamente por ele nesta e em outras vidas, outras dimensões, por que como ela não poderia? Era Severo Snape. Não existia outro homem como ele. É quase como se tivessem feitos um para o outro, por mais clichê que isso soasse.
“Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais”.
Hermione riu e chorou com a dura verdade das palavras de Emily Brontë. Ela sempre sonhara com um amor assim, mas não achava que fosse possível. Não achava que isso realmente existisse fora do imaginário de um escritor. Mas aqui estava ela, agarrada numa poltrona que o fazia lembrar dele, seu coração quebrado pelo futuro que não tinham, e ao mesmo tempo muito grata por ter tido a oportunidade de viver em meses o que a maioria das pessoas não tinha numa vida inteira.
Fechando os olhos e sentindo as lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto, Hermione finalmente entendeu que se era o agora que eles tinham, então, por Merlin, ela aproveitaria.
...
Severo chegou no chalé algumas horas depois, apenas para encontrá-lo mergulhado no silêncio. A tempestade havia dado uma brecha, mas uma chuva fina insistia em cair, batendo suavemente nas janelas. A fogueira estava acessa, o que indicava que Hermione havia deixado a sala a pouco tempo. Os livros e pergaminhos que antes se espalhavam por toda a pequena biblioteca agora estavam meticulosamente organizados na mesa de canto. Todos os copos e xícaras também desapareceram, e a casa estava no seu estado impecável usual. Não fosse pela sensação latente da presença dela, Severo teria achado que ela finalmente o deixara. Seria absurdo, claro, mas sua mente sempre pessimista não deixava de lhe pregar peças.
Ele queria subir e procurá-la, saber se era bem-vindo, apenas olhar para ela, mas não tinha a coragem. Ele poderia ser sincero o suficiente consigo mesmo para dizer que não suportaria se ela o mandasse embora. Como seria a partir de agora? Ela poderia perdoá-lo? Como ele poderia deixá-la ir sabendo que a magoara profundamente?
Eram muitas perguntas, e Severo não tinha a energia suficiente para enfrentar. O dia havia sido mais sombrio que os demais, e não porque a guerra estava à espreita, mas porque vira em Hermione uma dor tão grande que o deixou incapacitado. E, pior, uma dor causada por ele. Ela era luz. Foi luz na sua vida sem cor por todos esses meses, e agora...
— Muito bem, Severo – ele sussurrou para si mesmo, afundando o rosto nas mãos. A chuva começou a se intensificar, batendo com mais força nas paredes do pequeno chalé que ele agora chamava de casa. Independente do que viesse a acontecer, ele ficaria sempre feliz por ter tido um lar de verdade, mesmo que por pouco tempo. Ele nunca se sentira tão seguro e confortável quanto aqui, nada perto do que Hogwarts oferecera a ele mesmo depois de tantos anos.
Resignado, ele relaxou contra a poltrona e deixou que as memórias o invadissem.
Hermione dormindo na mesma poltrona em que ele estava, cachos pendendo para o lado, pés delicados para o outro.
Eles cozinhando juntos.
As conversas, provocações.
O casamento.
O Natal no tapete, em frente a lareira, e aquele beijo avassalador.
Ela falando que sentia ciúmes dele.
Eles fazendo amor...
— Severo? – a voz dela, suave, o confundiu, e ele levantou a cabeça sobressaltado, perdido entre as lembranças e a realidade.
— Hermione? – ele levantou, assustado – Aconteceu alguma coisa?
— Não, está tudo bem – ela se desculpou com um gesto discreto por tê-lo assustado – Eu te chamei algumas vezes, mas você parecia completamente perdido em pensamentos.
— Sim. – ele assentiu, confuso, passando a mão pelo cabelo.
— Vou preparar alguma coisa para comer na cozinha. Você gostaria de me acompanhar?
O coração de Severo saltou com o convite, e ele mal pode acreditar no que ouvira. Uma brecha. Uma bandeira branca. Uma segunda chance. Pegue, Severo, apenas pegue.
— Você vai cozinhar? – ele hasteou a sobrancelha, levantando uma velha piada entre eles.
— Posso te surpreender. – ela sorriu suavemente, deixando-o totalmente atordoado.
— Por todos os meios, lidere o caminho Senhorita Granger.
— Snape – ela disse por sobre o ombro enquanto caminhava para a cozinha, e no olhar confuso dele, completou – Meu nome é Hermione Snape.
E, bem, talvez não estivesse tudo perdido, afinal.
...
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