A sua cor

6 Uma conversa?


Notas iniciais
Gente, pode parecer que as coisas estão lentas, mas não dá pra esperar que a situação a qual Hermione e Snape estão se desenrole facilmente. Fiquei realmente pensando se não seria frustrante para os leitores ficar protelando um momento decisivo, mas prefiro que as coisas aconteçam no tempo certo. E cada capítulo é um degrau para o relacionamento dos dois, e esse é definitivamente um primeiro passo. Gostaria de agradecer os últimos comentários, eles me deixaram absurdamente feliz e com mais vontade de escrever! Espero que gostem! Beijoos!

Hermione

Não queria ter me dirigido de maneira tão fria a ele, mas não imaginava que isso pudesse realmente atingi-lo. Supus que ele me daria alguma resposta, mas no entanto, ficou estático e, depois de longos segundos, moveu-se para a outra bancada sem me olhar uma única vez.

– Granger! Granger!

– Nossa, professor! O senhor me assustou! – respondi, quase derrubando o caldeirão. – De novo... – completei.

– Está se distraindo! Isso é inadmissível aqui e sabe disso! – ele disse, firme. — A poção está quase fervendo...

Ele estava certo... Minha cabeça estava dando muitos giros ultimamente e tudo por causa dele... Finalizando a poção, me perdi observando-o. Os ingredientes que estavam a sua frente indicavam a Poção Wiggenweld: Casca de Wiggentree, Muco de Verme Gosmento, Ditamno e Moly.

– Sabe me dizer que poção é essa? – ele perguntou, com a expressão fria.

– Poção Wiggenweld. E tem o poder de restaurar as forças de uma pessoa. Sua coloração é verde.

– 10 pontos... – ele hesitou – a menos para a Grifinória. – disse, desviando o olhar entediado para o caldeirão.

– O que? – respondei, piscando algumas vezes para entender. – O que respondi de errado?!

– Está incompleta. A pessoa pode estar sem forças por estar doente, por ter se machucado ou por estar muito cansado.

– Achei que isto estivesse subentendido. – disse, franzindo a testa.

– Mas não está. Agora continue seu trabalho e pegue os ingredientes para a Felix Felicis.

– O senhor vai me deixar prepará-la? – perguntei empolgada.

– É pra isso que está aqui, não? Apesar de não ter dado uma resposta digna a uma pergunta simples, está aqui para me ajudar.

Apesar das palavras rudes e frias, escolhi por ficar quieta. Não faria o menor sentido responder suas ofensas com mais distância. Ignorei-o e segui fazendo a poção.

...

E assim se seguiam os dias. Ora eu fazia pesquisas, ora fazia poções. As manhãs e tardes eram carregadas e intensas. Snape era frequentemente chamado para exercer sua função como comensal, e sempre voltava furioso. Das poucas vezes em que tentei me aproximar ele me afastou com palavras mais cruéis. Mas quanto mais ele tentava me afastar, mais próxima eu me sentia dele.

A segunda vez que o vi chegar de um dos chamados de Voldemort, me dei conta do quão difícil deveria ser. Dumbledore não quis me contar detalhes da vida de Snape, mas ‘sem querer’ deixou sua penseira a vista pouco depois da nossa última conversa, praticamente implorando para que eu visse as memórias ali deixadas. E o que eu vi foi um homem que sempre nos protegeu, e tudo por um amor fiel a mãe de Harry. Nunca poderia imaginar algo assim vindo dele, mas apenas serviu para confirmar minha louca teoria de que havia algo mais em sua história.

As noites eram mais tranquilas. Quando ele não estava fora, estava trancado no escritório, ou inventando mais poções para fazer – como se já não tivéssemos estoques o suficiente.

Em menos de duas semanas aconteceria o casamento de Fleur e Gui e também o aniversário de Harry. Seria a oportunidade perfeita para encontrá-lo e dizer tudo o que era preciso sobre as horcruxes, mas seria difícil escapar de Rony ou das perguntas insistentes de todos os presentes, especialmente de Gina.

Deixando de lado esses pensamentos, voltei minha atenção para o livro de arte das trevas. Estava estudando-o novamente, no chão da sala, em frente a lareira, quando ele apareceu. Fingi que não dei muita importância para deixá-lo mais à vontade caso quisesse se juntar a mim. Bufei mentalmente com meu pensamento estúpido, mas de maneira extraordinária foi exatamente isso o que aconteceu. Do seu jeito sempre silencioso ele se aproximou e sentou-se na poltrona que eu tanto gostava, com o olhar perdido sobre o crepitar do fogo. Eu estava numa luta interna entre falar e ficar calada, até que ele finalmente quebrou o silêncio.

– Não deveria ficar lendo isso com tanta intensidade. – disse, ainda sem olhar para mim.

Era um sinal de preocupação? ‘Claro que não, Hermione!’.

– Não é como se eu tivesse escolha... – respondi, suspirando, deixando meu olhar pousar na lareira também.

É provável que tenhamos ficado pelo menos dez minutos sem dizer uma única palavra. E era bom. Senti-me culpada por ter deixado me levar por uma sensação de paz enquanto lá fora os sentimentos eram de medo e incerteza. Mas ao mesmo tempo me pareceu tão certo sentir segurança estando ali, com ele. Sim, o improvável! Sentir segura sob o mesmo teto de um comensal. Só que ele não era isso, eu podia sentir. Novamente o instinto Luna se apossou de mim, mas era realmente nisso que eu acreditava: que ele era uma boa pessoa. E foi pensando assim que percebi o olhar dele em mim, e reunindo minha coragem resolvi fitá-lo de volta.

Não havia nenhuma outra luz que não a que emergia da lareira e da lua. O seu rosto era visto apenas através das sombras, mas era o suficiente para sentir a intensidade do seu olhar. Ele não se afastou e nem pareceu querer afastar-se, e aproveitando o momento resolvi arriscar e puxar uma conversa. Pensei em fazer alguma pergunta técnica, ou sanar algumas dúvidas que ainda me perseguiam, mas tive vontade de ao menos naquele momento falar sobre qualquer outra coisa que não envolvesse a guerra.

– Eu gosto daqui. – falei, ainda olhando para ele.

Desviando o olhar para a lareira novamente, respondeu com sua voz arrastada:

– Também gosto.

– Seria absurdo dizer que... que me sinto em paz aqui? – perguntei, um pouco hesitante e receosa com a reação dele.

– Não, não é absurdo. – disse, voltando a me olhar.

Não sabia o que dizer ou como agir. Ele realmente havia respondido sem grosserias ou ironias?!

– Estamos aqui há semanas e é a primeira vez que realmente conversa comigo. – desabafei, recebendo uma sobrancelha levantada em resposta – Nunca havia ficado tanto tempo sem conversar com alguém. – completei, sorrindo, tentando quebrar a tensão.

– Claro... Aqueles dois nunca saíam de perto de você. – ele disse, mas não em seu tom irônico usual, e sim de um jeito divertido.

Espantada com o senso de humor dele não contive minha expressão de surpresa, e ele rapidamente transformou suas feições em seriedade.

– Não sou muito de conversar, Granger. – admitiu ele. É claro que não era nenhuma revelação, mas estava gostando da forma como ele estava se abrindo, mesmo que num ritmo lento. Aliás, tão lento que a Guerra poderia acabar e ele provavelmente ainda estaria tentando falar meu primeiro nome.

– É notável, senhor. – disse, divertida. Quase imperceptivelmente o canto da boca dele se levantou, no que parecia ser um sorriso realmente sincero que ele lutava para não deixar transparecer. Mas perdendo a batalha, acabou se rendendo.

Ficamos em silêncio mais um tempo e um bocejo revelou meu sono. Instantaneamente ele se virou e me aconselhou a ir deitar. Queria ficar mais, mas não abusaria tanto da sorte e do espaço que ele estava me dando.

– O senhor vai ficar mais? – perguntei, já de saída.

Percebendo o incômodo dele, pensei ter sido inconveniente com a pergunta e temi ter estragado tudo com a minha intromissão. ‘Hermione idiota! Não é da sua conta se ele vai ficar ou não!’, gritei em pensamento.

– É... – ele começou, mexendo-se desconfortavelmente na cadeira – estou dormindo aqui na sala.

– Porque? – perguntei involuntariamente – O senhor não tem um quarto lá em cima?

– Não. Não consigo abrir o quarto que está trancado e o que está vago não aceita nenhuma magia. – ele disse, tentando parecer entediado mas visivelmente intrigado.

– Você tem alguma ideia do porquê disso? – perguntei, curiosa.

– Nenhuma. – ele disse, contorcendo a expressão por ter que admitir que não havia solucionado o enigma. Era assustador que em tão pouco tempo eu já o conhecia tão bem.

– Poderíamos tentar... juntos – sussurrei.

Mais uma vez achei que tivesse ido longe demais. Lidar com ele seria um processo longo e delicado, mas eu não tinha muito a perder. Esperando por um resposta que não vinha, desejei uma boa noite e segui para o meu quarto.

***

Severo

Era realmente absurdo que no meio de todo o horror do meu passado e do que ainda estava por vir eu poderia sentir alguma paz. Não sabia ao certo quantas semanas já haviam se passado desde que ela chegara – talvez umas quatro considerando a morte de Dumbledore – mas tirando alguns desentendimentos, conviver com ela não era de tudo insuportável. Mas ficar na presença de outra pessoa de forma tão íntima estava entrando na lista de tarefas árduas as quais Alvo já havia me designado. Não tanto pela Granger como eu supunha que seria, mas pela minha completa incapacidade de lidar com outra pessoa: ‘penoso e desnecessário’, era o que achava. Mas ela facilitava bastante. Eu a provoquei de todas as maneiras, mas a menina não se abateu em nenhuma delas. Ou me respondia a altura, ou de forma educada, ou apenas ficava calada.

Voldemort havia reunido alguns comensais neste dia, e a reunião havia sido, no mínimo, repulsiva. Nunca soube o que esperar de todas as vezes em que ele me chamava, mas cada uma delas se revelava mais monstruosa que a outra. Não que eu tivesse alguma dignidade para julgar o que era monstruoso ou não, mas a realidade que insistia em trazer meus erros à tona só me fazia perceber o que escolhas erradas podem fazer. E ver o corpo de Charity Burbage pairando no ar, suando por todos os poros de dor e de medo, com cortes profundos e sangue... foi insuportável. E sua voz pedindo socorro... me pedindo socorro. Simplesmente aterrorizante.

‘E em contraste com toda a minha carga negativa há a jovem que provavelmente está dormindo o mais tranquilo dos sonos’, pensei enquanto olhava para o lugar em que ela estava há pouco, antes de me desejar uma boa noite sem resposta. Ver mais uma pessoa que eu conhecia ser morta por Voldemort me fez pensar que a menina não merecia meu mau-humor.

– Loucura – bufei – Muito whisky de fogo, provavelmente. Ela mesma provocou essa situação descabida, não vou tentar melhorar por ela. – e voltando a frieza habitual, virei o último gole da bebida que me fazia sentir menos pior e esperei acordado o dia seguinte, já que há muito tempo dormir se tornou mais um privilégio que uma necessidade.

***