A sua cor
7 A descoberta
Notas iniciais
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No dia seguinte, Hermione desceu as escadas lentamente com receio de encontrar Snape dormindo. ‘Seria muito, muito estranho vê-lo dormir’, pensou a bruxa, balançando a cabeça negativamente com a imagem que ia se formando em sua cabeça. Para sua sorte, tudo o que ela encontrou foi um copo vazio na mesa central e um silêncio que só era quebrado pelo vento que batia ferozmente na janela. Seguindo para a cozinha, começou a preparar seu café da manhã e, por questões de segundos o cheiro de chá a fez lembrar dos pais. Ela tentava refrear esses pensamentos o máximo que podia preenchendo sua cabeça com tudo o que estava acontecendo em sua vida, mas as vezes eles simplesmente apareciam, fazendo com que Hermione não pudesse controlar as lágrimas. Tentando controlar os olhos marejados, um soluço lhe escapou.
– Hermione estúpida! Você tem que se controlar! – ela disse a si mesma, firmemente, enxugando as lágrimas de modo feroz.
– Tirando todos os motivos óbvios... – Snape começou, entrando na cozinha – existe algum em particular que a tenha deixado assim?
Acostumando-se com as entradas silenciosas de Severo, Hermione não mais se assustava quando sua voz grave a surpreendia de alguma forma. Ao contrário disto, ela começou a entender o homem com quem dividia uma casa, e sentia sua presença se ele estivesse por perto.
– Sim, há um. – ela respondeu, ainda de costas para ele.
Quando ela se virou, com a cabeça ainda baixa para tentar esconder os olhos vermelhos, Severo deu um passo à frente. Interpretando o movimento de seu ex-professor, Hermione entendeu que aquela ‘pequena’ atitude era uma abertura para ela continuar falando. ‘Esse homem precisa de um manual’, ela pensou.
Era curioso como a jovem conseguia captar tão bem o que ele estava querendo dizer com seus silêncios e gestos. Para a maioria das pessoas, um passo para frente seria apenas um passo, mas para Snape era o equivalente a um abraço e palavras carinhosas de incentivo para se abrir o coração. E Hermione estava aprendendo muito rapidamente cada um destes símbolos.
Erguendo a cabeça e segurando o olhar, a bruxa suspirou e sentou em uma das banquetas. Girando a xícara em suas mãos finas, ela respondeu:
– Meus pais. Modifiquei suas memórias para protegê-los, para dificultar que alguém os alcance.
Amaldiçoando Dumbledore mentalmente por estar em uma destas situações sentimentais e se punindo por ter dado tempo dela continuar a falar – e pior, ter permitido isso –, ele tentou encontrar as melhores palavras para tirá-lo de uma vez por todas daquela cozinha.
– Granger, há como desfazer o encantamento quando isso tudo acabar. – ele disse, com sua habitual postura.
– Sim, eu sei. – ela disse, convencida, ainda olhando para ele. – Mas a ideia de saber que meus próprios pais não sabem que eu existo é muito ruim. – continuou, mudando drasticamente o tom de voz para um choramingo. E sem se importar se ele havia dado espaço para ela falar mais, completou: – é horrível saber que eles não tem lembranças do passado que tiveram comigo. – ela parou, tentando se controlar e evitar um soluço em meio as lágrimas – É horrível saber que eles não estão me esperando em casa. – completou, se levantando para perto da janela e olhando para o mar.
A primeira ideia de Snape era evitar toda aquela conversa, mas vê-la chorar pelos pais o fez querer, sinceramente, ter algo reconfortante para dizer. Mas ele vasculhou toda a sua mente e não encontrou nada que pudesse fazê-la se sentir melhor, pois simplesmente não era do feitio dele esse tipo de atitude. A única pessoa que ele já havia dito palavras carinhosas foi para ela... ‘Lílian’, pensou. Porque raios Severo pensou nela nem ele mesmo saberia naquele momento, mas foi como se a jovem dos cabelos de amêndoa lhe tivesse dito o que fazer.
– Imagino que deve ser horrível. Mas as lembranças que tem mostram que todo esse passado foi real. Guarde estes momentos para te deixar mais forte agora, para te motivarem a pensar que tudo isso vai acabar logo. – é claro que ele não pensava que tudo isso acabaria logo, pois no decorrer deste ‘logo’ muitas coisas iriam acontecer. – Não seja fraca, Granger. – Esta última parte foi completamente desnecessária e ele sabia. Mas a menina a ignorou completamente e filtrou sua atenção apenas para a parte que tinha aguçado sua curiosidade.
– E quais são os motivos que te inspiram a continuar? – ela perguntou, decidida.
Snape a considerou por um bom tempo... Pensou em ignorá-la, considerou dar uma resposta rude, cogitou mudar de assunto e quase se virou para ir embora. No entanto, seus esforços de evitá-la estavam falhando miseravelmente, e o hábito irritante que ela tinha de olhar com tanta firmeza servia como um desafio para ele. Se estivessem em sala, ele poderia resolver com pontos tirados ou frases grosseiras na frente da turma. Mas nada disso funcionaria agora... e disso ele também sabia.
– Os meus motivos são pessoais, Granger. – ele finalmente respondeu. – Agora, se sua curiosidade sobressaiu ao seu momento nostalgia, é porque já está melhor. – e girando os calcanhares, ele caminho em direção ao corredor.
– É por causa dela, não é?
No momento em que Hermione perguntou, se arrependeu. ‘Estúpida!’, ela se repreendeu. Snape apenas parou. Ela já nem escutava mais o vento ou o barulho das ondas. Ela não sentia nada além da sua própria respiração ofegante.
– O que disse? – ele perguntou de forma letal, ainda de costas.
Por mais que Hermione imaginasse o quão bravo ele ficaria, ela ainda preferiu contar a verdade de uma vez. ‘Talvez seja melhor que ele já saiba de tudo...’, pensou. E respirando fundo ela repetiu, porém, não como uma pergunta:
– É por causa dela.
Snape estava com tanto ódio que os nós dos dedos estavam perdendo a cor, sua respiração sobressaía a de Hermione e em seus pensamentos só ficava a ideia de que outra pessoa além de Dumbledore sabia de algo que ele guardava há anos... algo completamente íntimo.
Rapidamente ele se virou e aproximou-se de Hermione, segurando-a pelos cotovelos.
– O que você quer dizer? De quem está falando? – ele perguntou, sacudindo-a.
– É só uma suposição! Eu não tenho certeza! Só algumas coisas que pesquisei e... e...
– MENTIRA! – ele gritou – Conte a verdade ou vou ter que usar Legilimência em você!
– Então usa! – ela gritou de volta, nervosa.
Em pouco tempo ele já estava nos pensamentos de Hermione. Viu a conversa entre ela e Dumbledore, viu a jovem se despedir de Harry e Minerva e, finalmente, viu quando o diretor a deixou sozinha em sua sala, com a penseira à vista. Ela viu toda a conversa entre os dois bruxos, desde quando ele implorou a Alvo que protegesse os Potter até o dia em que ele revelou seu patrono. Viu Hermione ligando os pontos e associando a corsa ao patrono de Lílian.
Exausto, ele se afastou dela, tremendo de raiva. Sua pele parecia ainda mais pálida e seu lábio tremia de ódio. Hermione, no entanto, permanecia estática. Suava um pouco na nuca e na mãos, tanto pela reação de Snape quanto pela tentativa de fechar sua mente.
– Dumbledore não deveria ter feito isso. – ele disse, entredentes.
– Mas senhor, que mal há nis...
– Nem ouse terminar, Granger! Que mal há nisso?! Eu te digo: são-minhas-lembranças. MEU PASSADO! – disse com a voz alta, ainda mais perigosa. – Não dá pra se ter o controle de tudo, menina estúpida!
– Sei que não dá Snape! – explodiu Hermione. – Mas Dumbledore pareceu achar que era importante eu saber disso!
– Pare de falar nele, menina arrogante!
– Para de me chamar de menina!
Os dois pararam por um momento, ambos se olhando com ódio, com a respiração descompassada. Nesse momento eles sabiam que a discussão havia terminado.
– Não precisa falar comigo, Granger. Limite-se ao estritamente necessário.
Com ainda mais raiva, Hermione gritou:
– Não precisa?! E como você pretende fazer isso dar certo se nem ao menos vamos conversar?! – ela indagou, indignada.
– Fazer dar certo?! O que exatamente, Granger? Imaginou que viveríamos felizes aqui?! Que eu me sentaria na sala e contaria para você o meu passado? Que jantaríamos felizes? O que mais você imaginou?! Que eu e o Potter nos tornaríamos amigos? Que a Ordem confiaria em mim com um simples pedido seu?! Não seja tola! — e com um sussurro, continuou – Está desperdiçando seu tempo comigo.
Hermione passou por ele com tanta velocidade que ele nem mesmo teve tempo de assimilar, e subindo as escadas ela gritou enquanto batia os pés com força:
– ÓTIMO! Está me fazendo um FAVOR. – e chegando ao quarto, começou a jogar todas as suas coisas em sua bolsinha enfeitiçada.
Tão rápido quanto passou por Snape ela juntou suas coisas e seguiu para a porta, batendo-a. Severo, que tentava se acalmar, se levantou de mau-humor ao escutá-la sair. ‘Não, ela não pode ser tão estúpida a ponto de sair assim!’, disse para si mesmo.
– Granger! Granger! – ele a chamou. Vendo que ela o ignorava, ele a alcançou com seu passos rápidos e a segurou pelo braço, abaixando-se até ficar na altura de seu olhar – O que pensa que está fazendo?
– Indo embora, não é óbvio? – ela respondeu, furiosa.
– Eu já imaginava que não era tão inteligente, mas isso! Superou minha expectativas. Agora deixa de ser idiota e volta para casa, sim? – e soltando-a, ele se virou para voltar, até que a ouviu por sobre os ombros.
– Não. – ela disse, baixo mas firme.
– O que? – perguntou, voltando-se para ela.
– Não. Não vou voltar. O senhor não é tão bom?! Então pode fazer isso sozinho.
– Eu devo te lembrar que temos a porcaria de um pacto?
– Não, senhor, não deve me lembrar. Eu sei muito bem. Mas qualquer coisa é melhor que ficar aqui.
– Também não gosto de ficar aqui nessa casa com a senhorita, Granger. – ele começou, mordaz. – Mas agora que começamos com isso não temos alternativa. Não dá pra sair por aí aparatando! Pode colocar tudo a perder!
Hermione sabia de todas as consequências, claro, e não ia fazer nenhuma loucura. Mas também não queria ceder às articulações do mestre de poções.
– Eu vou andando!
– Andando?! – ele exclamou, deixando uma risada seca sair – Ao menos sabe onde está? Acho que não. Portanto, se quiser ficar aqui fora na chuva que está prestes a cair, ótimo. Talvez doente não me dê tanta dor de cabeça. – e voltando para o chalé, deixou uma Hermione irritada para trás.
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