A sua cor
3 Olhos Negros
Notas iniciais
Flash back on
– Posso saber o que faz aqui, Granger?
O coração de Hermione foi à boca, totalmente descompassado. Na tentativa vã de organizar os papeis deixou-os cair, fazendo com que o sombrio professor os alcançasse antes dela.
– Pro-pro-fessor Snape, eu posso explicar. – gaguejou, assustada.
– Explicar? E qual parte pretende explicar? A que está fora dos dormitórios no meio da noite, a parte em que está na área restrita da biblioteca verificando registros ou a parte em que está bisbilhotando os meus registros? – perguntou, irônico e nervoso, mas com a voz arrastada e perigosa de sempre.
Nos longos segundos que se seguiram, a jovem conseguiu ter um vislumbre de seu mestre de poções e aproveitou a oportunidade para observá-lo. Era um homem alto, as feições do rosto marcavam uma vida difícil. Os cabelos realmente pareciam oleosos de longe, mas de perto só se via o quão lisos e negros eram, assim como os olhos. Sim, os olhos. Escuros e intensos, absurdamente carregados. O que aquele homem escondia? Era o que Hermione desejava descobrir. E então, no segundo seguinte percebeu o que deveria fazer. A maior parte das pessoas o olhava com temor. Ao entrar na sala, com sua capa farfalhando, os alunos rapidamente se calavam. Ela precisava agir diferente se desejava entendê-lo.
Então, reunindo toda a sua coragem grifinória, Hermione o respondeu da forma mais petulante que conseguiu:
– Eu posso explicar todas, senhor. Mas antes, gostaria de falar com o diretor.
Severo mal pode acreditar na ousadia da aluna. Como ela podia desafiá-lo tão descaradamente?
– Como ousa sua criatura insolente? Falar comigo nesse tom e ainda por cima me desacatar?
– Não estou desacatando nenhuma ordem sua, professor Snape. Apenas quero conversar com Dumbledore antes de explicar o porquê de não estar no meu dormitório quando já se passa da meia noite, na seção restrita da biblioteca olhando registros e, ainda por cima, bisbilhotando os seus. – respondeu, devolvendo-lhe as mesmas palavras.
Snape a pegou pelo braço e praticamente a arrastou pelos intermináveis corredores de Hogwarts até a sala do diretor, sem lhe direcionar um único olhar ou mesmo uma única palavra.
– O senhor está me machucando! Me solta! – ela falava, tentando desvencilhar-se dos firmes dedos que a seguravam enquanto ele apenas a ignorava.
– Gota de limão. – proferiu, seco, para abrir a gárgula.
Dumbledore estava atrás de sua mesa, escrevendo algo, e imediatamente levantou o olhar por trás dos óculos ao ouvir o gemido de Hermione.
– Senhorita Granger? O que faz aqui? – perguntou o diretor, curioso e um pouco assustado. Mas antes que ela pudesse responder, Severo interrompeu grosseiramente.
– Esta aluna – disse, com desdém – estava na área restrita da biblioteca a esta hora da madrugada analisando registros. E ainda teve a ousadia de me desacatar e me responder com ironia.
– Severo, deixe-me a sós com a Senhorita Granger, sim? Amanhã conversamos. – finalizou, ignorando o olhar descontente de Snape, que se virou bruscamente.
– Presumo que temos muito o que conversar minha cara. Muito... – Dumbledore disse, fazendo sinal para que ela se sentasse. – Balas de mel?
Flash back off
***
– Ele não tirou nem um ponto da Grifinória? – perguntou Minerva, curiosa. E com o sinal negativo de Hermione, ela insistiu. – Nem uma detenção? Nada?!
– Não, professora. E para completar ele me levou até Dumbledore. Ele poderia facilmente ter resolvido a situação, me humilhando como sempre fez e tirando infindáveis pontos da minha casa. Poderia ter me feito lavar todas as paredes das masmorras sem magia... No entanto, ele apenas me levou ao diretor, mesmo sabendo que Dumbledore poderia apenas me oferecer doces e alertar quanto ao meu comportamento. Fiquei com essa dúvidas por pouco tempo, no entanto, pois na mesma noite o diretor as respondeu.
– Dumbledore percebe tudo, não é mesmo? – perguntou de forma retórica um Harry pensativo.
– Sim, ele sabe. – respondeu Hermione, após um longo suspiro.
***
Flash back on
O olhar atento do diretor estava começando a constranger Hermione, que apenas se perguntava mentalmente o que ele queria lhe dizer ou se ele já sabia o que a fez procurá-lo.
– Senhorita Granger, de fato é muito esperta e inteligente. Já demonstrou isso muitas vezes, mas devo admitir que a subestimei quanto a sua visão lógica. Posso saber o porquê do interesse no Professor Snape?
– Como o senhor sabia que os registros eram sobre ele? – perguntou ela, sentindo-se idiota logo depois por perguntar algo tão óbvio. Dumbledore pareceu divertir-se com a confusão da garota.
– Venho percebendo como olha para ele. Seu olhar não está mais carregado ou desconfiado como o de seus amigos. Está mais para... curioso. Curioso e confuso. E além do mais, Severo sempre resolve situações como a que ocorreu esta noite sem precisar recorrer a mim. Provavelmente o deixou confuso também.
– Quase não acreditei quando vi que ele realmente estava me trazendo até o senhor.
– Entenda, minha cara, ele não está acostumado com atitudes como a da senhorita. Todos ou o temem ou desconfiam de suas ações. Não demonstrar medo provavelmente o deixou confuso. E Severo é muito perspicaz, provavelmente já vem notando sua reação em relação a ele.
Hermione assustou-se por um momento, imaginando que Snape notara sua presença mais do que o necessário. Realmente acreditou que estivesse camuflando bem suas intenções. E também assustou-se por perceber que nada passava totalmente despercebido naquela escola.
– Senhor, por que é tão comedido quando o assunto é o professor Snape? – perguntou de forma direta.
O diretor a fitou por longos segundos, e hesitou em falar algumas vezes, como se estivesse prestes a contar um grande segredo. Mas no fim, limitou-se somente a uma pergunta.
– Confia em mim, Hermione?
O fato de Dumbledore a chamar pelo nome a assustou bastante, mas ela logo balançou a cabeça afirmativamente.
– Sim, senhor. Eu confio.
– Pois bem... Ainda não posso lhe contar tudo, pois estaria atingindo a vida pessoal de Severo. Mas a senhorita pode confiar nele da mesma forma que confia em mim.
– Mas ninguém acredita! — Hermione gritou, exasperada — Não estou duvidando do senhor, muito menos menosprezando sua crença nele. Mas... pode chegar o momento em que não vai poder ajudá-lo.
– Sim, exatamente. — respondeu ele — E é por isso que a sua perspicácia veio em tão oportuno momento. A senhorita vai dar a Severo um motivo a mais pra lutar. E também fará com que as pessoas certas, no momento certo, acreditem em sua lealdade. – disparou o diretor, mal dando chance para a jovem assimilar.
– E-e-eu?! – Hermione não sabia como reagir. – Desculpe, senhor, mas não há chances disso acontecer. Primeiramente porque minha palavra não tem nem metade da importância que está colocando nela. Segundo, porque o ódio que a maioria das pessoas sente por Snape é profundo, e duvido que eu – ou alguém, ela pensou – consiga mudar isso. E terceiro, e mais importante, se estou entendendo bem o senhor está insinuando que eu ajude o professor Snape... mas não acredito que ele vá querer ajuda. Especialmente se a ajuda em questão for de uma grifinória que ele mal suporta dar aulas. – concluiu Hermione, num só fôlego.
E então o diretor fez o inesperado: riu, abertamente.
– Não sabia que a modéstia lhe era característico, minha jovem. – disse Dumbledore, divertido. Mas ao ver o rosto corado de Hermione, decidiu completar.
– Não, não! Não estou ironizando, minha cara... Jamais faria isso! É só que não imaginava que ainda se considerava tão pouco. Sua opinião tem um peso muito importante para as pessoas certas. Vai chegar o momento em que precisará procurar essas pessoas e contar-lhes o que achar necessário que elas saibam. – vendo a expressão interrogativa dela, ele continuou – Você saberá quem procurar e o que falar. Também confio em você.
– Senhor, tenho a sensação de que está me delegando algo muito grande...
– ... que será absolutamente capaz de aguentar.
Hermione respirou, sabia que já tinha entrado nisso no momento em que decidiu insistir na sua ideia absurda de entender Severo Snape, pensando que havia algo mais ali. Então cedeu e finalmente perguntou de forma corajosa:
– O que eu devo fazer?
– Achei que nunca perguntaria! – exclamou Dumbledore, mais divertido que o convencional. – Casar-se com ele.
Flash back off
***
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