A sua cor
4 O plano
Notas iniciais
***
– Isso é tudo que posso dizer agora. – falou Hermione, depois de uma pausa e um longo suspiro.
– Você sabe que ainda acho isso absurdo? – perguntou Harry, com a voz baixa.
– Sim, eu sei.
– Mas você sabe que ainda vou te apoiar mesmo achando isso tudo um absurdo, não é?
Hermione o fitou, um pouco surpresa, e com um meio sorriso disse um “eu sei” baixo mas carregado de muita emoção. – Obrigada.
– E quanto a Snape? Ele aceitou essa loucura? – perguntou Harry, seco.
– É aí que a senhora entra, Professora. Você precisa convencê-lo. – disse Hermione, com os olhos castanhos brilhando de ansiedade. – Ele não teve escolha quanto ao casamento, mas tem escolha quanto a nossa convivência. Ela não precisa ser insuportável.
– Senhorita Granger, não sei como posso fazer isso. Eu e Snape nunca fomos próximos. Digo, ele nunca foi próximo de ninguém. – disse Minerva, um pouco angustiada com o pedido da aluna.
– Pelo menos sua relação com ele é mais próxima do que a minha. Por favor...
– É claro que eu quero ajudá-la. Especialmente se isso vai auxiliar o nosso lado de alguma forma. Só não posso prometer que teremos bons resultados.
Hermione concordou, aceitando o óbvio.
– Mas já é alguma coisa. – sussurrou.
– Mas você já tentou falar sobre isso com ele? Digo, Dumbledore chegou a contar para ele sobre essa história toda, não é? Qual foi a reação dele?
– Sim, ele já sabe de tudo pelo próprio diretor. E sim, eu tentei conversar com ele. Mas nossa conversa – ironizou a jovem — conseguiu sair pior do que eu imaginava.
– E como o encontrou?
– Foi antes da morte do Dumbledore, na verdade. No dia seguinte o diretor o informou sobre seu plano descabido e Snape veio até mim, furioso.
***
Flash back on
– O que pensa que está fazendo, sua bruxa metida a sabe-tudo? – Snape a assustou, segurando-a pelo braço.
– O senhor poderia, por favor, me soltar? – pediu Hermione, com sua voz autoritária.
Snape, no entanto, a ignorou enquanto a levava para a sua sala.
– No que você estava pensando? – ele indagou, um pouco mais alto do que costumava falar.
– De que parte o senhor está falando? – ela perguntou, cruzando os braços e o fitando com confiança.
– Você sabe muito bem, Granger. Você e o Dumbledore resolveram se unir para infernizar minha vida! – ele disse, furioso, encostando-se na mesa – Que ideia descabida é essa? E por Merlin, porque resolveu se intrometer na minha vida? Não vai me dizer que agora se preocupa comigo? – ele perguntou, irônico – A irritante-sabe-tudo da grifinória, amiga do insuportável e arrogante Potter, a menos cabeça oca do Trio de Ouro, está querendo ajudar o lado negro e sombrio do mundo mágico? — alfinetou, deslizando para perto dela de modo perigoso.
Hermione recuou alguns passos enquanto ele avançava.
– Diga, Granger! Onde está toda a sua petulância agora?
– Se eu tivesse pretensão de entrar para o lado negro do mundo mágico eu não procuraria o senhor. – ela disse, calmamente, inocente, o que foi suficiente para desarmá-lo.
Após fitá-la de perto, ele se afastou, voltando a se apoiar na mesa.
– Eu não quero infernizar a sua vida. Até porque, como você vê, o efeito é recíproco. Também não estou feliz com isso. Não é somente o senhor quem está entrando em uma situação absurda, mas...
– ... mas nada! Isso está fora de questão, Granger. Já tenho problemas demais na minha vida e não quero mais um. Então pare de ficar incentivando as ideias daquele bruxo! Fui claro?
– Perfeitamente claro, senhor. – ela disse, abaixando os olhos e se virando para sair. – O que não quer dizer que vou cumprir. – completou.
Em questão de segundos ele a alcançou, fazendo-a se virar. Ficaram tão próximos que ele pôde ver a cor exata dos seus olhos. “Castanhos, com pequenos pontos esverdeados”, ele anotou mentalmente. Mas temprano recobrou sua fúria e lhe disse pausadamente, com aquela voz marcante que tanto amedrontava seus alunos.
– Não estamos em uma de minhas aulas, Granger, em que posso tirar pontos da sua casa a cada vez que essa sua mão inconveniente é levantada sem ser chamada ou mesmo desejada. Isso é real. Então eu sugiro que você deixe de agir como idiota e vá fazer o que realmente sabe: se enfurnar na biblioteca com esse nariz empinado no meio dos livros. – concluiu, de forma cruel.
Algumas lágrimas se formaram nos olhos da jovem, que lutou em vão para não deixá-las transparecer. E com alguma dificuldade disse com a voz trêmula mas ainda firme:
– Eu sei muito bem que isso é real. Eu sei muito bem que estamos em guerra. Não sou idiota e nem estou agindo como uma. É o senhor quem está sendo cabeça dura. Não sei o que vai acontecer com o diretor, mas meu raciocínio me diz que ele não vai poder te ajudar por muito tempo. Vai chegar a hora em que precisará de outra pessoa em quem confiar. E eu não estou fazendo isso pelo senhor, mas pela guerra. Se Dumbledore disse que é a chave, então deve ficar protegido. – concluiu ela, com a voz ainda mais firme e com as lágrimas já secas.
– E não, não estou preocupada com você. Mas como vê, seu disfarce está nas mãos da sangue-ruim que tanto detesta. Então eu sugiro, senhor, que reconsidere.
Ela não queria dizer nada do que disse. Ela não gostava de Snape, mas tanto a sua mente quanto seu coração diziam para ajudá-lo. E não era só pela guerra, mas pela sua vontade de fazer algum bem para alguém que, aparentemente, só teve o mal. Mas ela não poderia dizer isso. Nunca.
– Saia daqui. Agora. – foi a única resposta que ela recebeu, tais palavras ditas do modo mais baixo e perigoso que alguma vez ele já dissera a alguém.
Flash back off
***
– Certamente foi a conversa mais longa que ele já teve com alguém. Severo é sempre tão lacônico. Ele ficou realmente irritado com a senhorita. – disse Minerva, com pesar, balançando a cabeça de forma negativa.
– Sim, ele ficou. E depois disso só nos vimos uma vez mais, ainda com diretor, para acertarmos os últimos... detalhes. Depois que ele, bem... vocês sabem – ela ia dizer ‘matou Dumbledore’, mas ficou com receio de irritar ainda mais o amigo – não o vi mais, mas ficou acertado quais seriam nossos próximos passos.
– É isso que não consigo entender, Hermione! Ele é um assassino! Ele matou Dumbledore... Estou tentando manter a calma e confiar em você. Mas isso é loucura! Não posso te entregar de bandeja pra ele! É-é-é... loucura!
– Harry – ela disse, calma, se aproximando dele – eu entendo como isso deve estar sendo difícil para você. E como isso será difícil para todos. Mas é muito importante que acredite em mim e me ajude a contar para todos no momento certo. Vocês dois podem fazer isso?
Os dois bruxos se entreolharam e depois de longos segundos assentiram.
– Obrigada – ela disse, sorrindo.
– E quando vai ser? O... casamento. – perguntou Potter, relutante.
– Daqui uns dois meses, no máximo. Provavelmente em setembro. Não podemos nos arriscar agora, já que Snape está muito visado pela morte de Dumbledore. E até lá ninguém pode saber. Ninguém da Ordem, nem a Gina e... – hesitou antes de continuar – muito menos o Rony.
Harry a olhou indignado, mas depois compreendeu.
– Mas o que vou dizer a ele? Nós íamos atrás das horcruxes, lembra? Como vamos fazer sem você Hermione? Isso não é um passeio pelo mundo em busca de antiguidades. Estão atrás de nós! Não podemos ficar no mesmo lugar por muito tempo!
– Não se preocupe com isso, vou ajudá-los sempre. Já pensei em uma forma de passar a vocês as informações necessárias quando precisarem. Vou aproveitar esse tempo para aumentar o estoque de poções, já que o Snape não poderá fazê-las com frequência, e também pesquisarei o que for necessário para enfrentarmos o que vier. Não se preocupe, Harry. Estaremos juntos como o Trio de Ouro. Sempre.
– E onde vai ficar então? – Minerva perguntou, um pouco impaciente.
Hermione hesitou em falar, levantando a sobrancelha como se dissesse: não se espantem!
– Hermione, onde. vai. ficar? – o bruxo perguntou pausadamente.
– Dumbledore nos presenteou com uma casa. – ela disparou.
– ‘Nos presenteou’? Você e quem mais?!
– Ora, Harry! Quem mais? – ela respondeu, brava. – Snape, é claro.
– Mas ainda não são casados! – repreendeu Minerva.
– Professora, não é como se esse casamento fosse real. Bem, ele é. Faremos o voto e o que tiver de ser feito. Mas não somos um... casal. – ela disse, se contorcendo diante a palavra ao se imaginar com o mestre de poções.
Harry já estava furioso de novo. Imaginar sua melhor amiga com o homem que mais repugnava depois de Voldemort era demais.
– Você está estragando sua chance de ser casar com alguém que ama, Hermione! Por favor, desista disso! Não será necessário, podemos fazer isso dar certo sem ele!
– Harry, por favor! Se perdermos essa guerra não terei a chance de ficar com ninguém! – ela respondeu, sem paciência – E você sabe muito bem que casamento nunca foi um assunto muito importante para mim!
– Então porque se casar? Não pode ajudá-lo de outra forma? – ele questionou.
– Dumbledore nos fez assumir um pacto de que nos casaríamos quando todo este tumulto inicial de sua morte cessasse. O casamento bruxo é uma forma de mostrar a todos, na hora certa, de que Snape tem minha confiança. Além de ser uma forma de ele não negar minha ajuda.
– Isso não faz sentido... Porque Dumbledore os fez pactuar que se casariam? Porque então não fizeram um pacto de que se ajudariam, apenas? Porque precisa morar com ele?!
– Fiz as mesmas perguntas, Harry. Mas Dumbledore não respondeu. Disse apenas que ‘na hora certa nós saberíamos’. Snape bufou, estressado com os enigmas do diretor, e eu tentei argumentar, em vão. – ela terminou, cansada.
– Não vamos mais prolongar esse assunto, por favor. Hermione parece estar certa do que quer. E se Dumbledore disse que Severo era a chave, então cabe a nós acreditar. – disse McGonalgal, contra a vontade. – Saiba que sou profundamente contra, Senhorita Granger. Mas que espero, sinceramente, que isso funcione. – concluiu, levantando-se. – Falarei com Severo para que ele não torne a convivência de vocês insuportável – ou mais, pensou ela.
– Obrigada, professora. E Harry, confia em mim.
Minerva sorriu, mas o amigo apenas a olhou e se virou para ir embora. No entanto, parou sob a soleira da porta e disse:
– Você sabe que confio. E também sabe que vou te apoiar. Mas isso não quer dizer que estou de acordo. Vou precisar de um tempo para assimilar isso. – e, se virando para ela, continuou – Se cuida, Hermione. Por favor.
– Eu estou segura, acredite. Preocupe-se com você e com Rony. E professora, obrigada mais uma vez.
Minerva assentiu, sorrindo, e perguntou com certo pesar:
– Quando vai para a casa de Alvo?
– Hoje à noite. – ela respondeu, sentindo o estômago se revirar com a ideia de ficar tão próxima de alguém que era tão temido e detestado.
***
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