A sua cor
49 Nascendo um espião
Notas iniciais
Severo finalmente se abre com Hermione a respeito de não sobreviver a guerra. Ele não é totalmente claro, mas deixa a possibilidade de sua morte evidente. Ela, obviamente, sofre com isso. No castelo, Draco se prepara para se tornar um espião a favor da Ordem.
— Não, Draco. – ele suspirou, irritado – Você está fazendo errado. De novo— enfatizou.
— Eu fiz exatamente do jeito que me mostrou! – retrucou Malfoy.
— O seu alvo está destruído, garoto?! Então você NÃO fez exatamente do jeito que eu te mostrei! – disse, avançando furiosamente na direção dele.
— Então para de gritar comigo e me mostra como faz direito!
— Você é igualzinho ao Potter. Fraco. Na verdade, pior. Você também é mimado. Seu pai sempre te deu tudo o que quis não foi, Draco? Para que serve tudo isso agora se nem conjurar um feitiço você consegue? – a voz de Severo era baixa e ferina, e seu olhar se detinha em cada músculo retorcido na expressão do menino Malfoy. Quando a veia pulsou ao lado da testa suada de Draco, Snape soube que acertara a ferida. Compará-lo com Potter e ainda colocar Lucius no meio era muito, até mesmo para um sonserino. – O que? Vai ficar emburrado como um primeiro anista? – Snape zombou.
— BOMBARDA MAXIMA! – um clarão explodiu há poucos metros, e à medida que ia diminuindo podiam ver o alvo destruído no chão.
Draco olhou o objeto em pedaços com incredulidade, incapaz de conter a surpresa para o que tinha acabado de fazer. Severo deu um sorriso quase imperceptível de aprovação, orgulhoso de seu afilhado pela primeira vez em todos os anos em Hogwarts.
— Registrando: isso é fazer direito. – disse Severo. – Foi... uma boa tentativa. – os ombros de Draco instantaneamente caíram, frustrado por não conseguir arrancar um elogio de Severo.
— O que? Eu acabei com o alvo! Nunca tinha executado um feitiço tão bem!
— Não é suficiente, Draco – disse, com um aceno no ar muito claro de “cala a boca” – Você não está aqui para me impressionar, está aqui para ter uma chance de sobreviver e salvar outras pessoas, bruxos ou trouxas. Seu esforço está sendo medíocre. Se quiser continuar nesse papel de espião duplo terá que me convencer. Tem muita coisa em jogo e eu não vou colocar tudo a perder porque um garoto mimado não sabe dar um passo sem um elogio.
Draco estava pronto para retrucar, mas sabia que seu padrinho estava certo. Muitas vidas estavam em jogo, e se ele falhasse não teriam chance nenhuma contra o Lorde das Trevas. Se ele descobrisse... Draco estremeceu só de pensar. Seria o fim. Tinha que manter a postura impassível para Voldemort, e ainda, demonstrar um preconceito e ódio que não faziam mais o menor sentido para ele. Além disso, ainda deveria ser exímio em qualquer execução de feitiço, pensando e agindo rápido. Pensar e agir rápido nunca fora um problema para ele, mas com tanta culpa, medo e pressão era extremamente difícil.
Somado a isso, as noites longas de insônia, horas tentando dormir por uma hora que fosse. Mas era só fechar os olhos que o pavor gelava seu coração, sempre com imagens de sua mãe sofrendo e pessoas próximas sendo mortas. E quando conseguia cochilar, o pesadelo mais corriqueiro era Dumbledore caindo da Torre de Astronomia, e depois o rosto dele aparecia branco, sem vida. Acordava sem fôlego, com o coração disparado, e uma terrível sensação de culpa.
Era em momentos como este que Malfoy tinha ainda mais certeza do caminho que queria seguir, e que o certo a se fazer era ajudar a Ordem. Essa era a última coisa que ele se imaginava fazendo, mas lá estava ele, dando tudo de si para derrubar Voldemort, salvar sua família e, sendo sincero consigo mesmo, salvar Hermione. Porque se algo acontecesse a ela, Draco sabia que Severo não se recuperaria, e seu padrinho não merecia ser infeliz de novo. Severo merecia ter uma vida plena com quem ele amava, ter finalmente a vida que ele nunca conseguiu ter. Com sorte, Draco pensava, teria uma vida feliz no futuro, depois de pagar por todo o mal que fizera com tantas escolhas erradas. Talvez até encontrasse alguém que o amasse como Granger amava Snape.
— Vou treinar dia e noite. Tantas vezes até que meu dedo sangre. Vou fazer isso dar certo, o senhor não precisa se preocupar. Não importa se eu viver ou morrer, que se dane! Mas vou salvar a minha família e proteger a Granger quando chegar a hora. Não me importa se o Potter morra ou viva, também, mas até que destrua o Lorde das Trevas vamos estar do mesmo lado. E nós vamos ganhar esta maldita Guerra. – e ele disse com tanta força, tanta convicção, que seus dentes estavam trincados. Suas mãos doíam fechadas em punho, as unhas furando a carne da palma da mão, os nós dos dedos ainda mais pálidos.
Internamente Severo ficou satisfeito com o que viu, mas não resistiu ao comentário.
— Você quase parece um grifinório falando, Draco. – Um sorriso malicioso cruzou os lábios finos.
Draco fez uma careta.
— Ainda tenho alguma dignidade aqui – brincou – Grifinória nunca.
— Bem, quase me fez pensar que tinha sido colocado na casa errada – provocou.
— Por favor – Draco bufou – o senhor sabe, não sou tão digno assim.
Severo sorriu, balançado a cabeça num gesto discreto.
— Conheço dois grifinórios que realmente são.
— Dois? – Draco zombou – Só consigo pensar na Granger. E não me olha assim, quis dizer que é a única que você considera. Eu só a acho irritante. E quem seria o outro? Dumbledore? – perguntou, curioso – McGonalgal? Não vai me dizer que é o Potter...
— Não é o Potter, embora o garoto não seja tão mal. Mas dificilmente seria considerado inteligente.
— Para alguém que só sabe usar “expelliamus”, ele não é mesmo. – Severo riu, e Draco o olhou espantado e maravilhado em ouvir a risada discreta de seu padrinho. Ele nunca tinha visto sequer um sorriso sincero. – Nossa, a Granger realmente fez um milagre aqui.
— Não passe dos limites, Draco. – avisou.
— Tudo bem, desculpe. – Draco riu.
— Agora continue. – e o mau humor estava de volta – Não vamos vencer essa guerra conversando. Concentração é crucial. Esqueça o mundo lá fora. Esvazie sua mente. Mantenha o foco. Esqueça qualquer outra coisa que não a varinha em sua mão e o campo de batalha. Equilíbrio e sangue frio são importantes aqui. Mantenha a postura e concentre.
A voz quase hipnótica de Snape mantinha Draco focado, deixando o mundo exterior de lado. Aos poucos o exercício fazia efeito, e depois de horas de tentativa sua mente estava em branco para qualquer pensamento que não o duelo. Ele se defendia dos feitiços lançados por Severo cada vez com mais precisão, e vez ou outra arriscava um ataque. Seu padrinho era infinitas vezes melhor que ele, claro, ou qualquer outro. E sendo o padrão Snape tão elevado, Draco sabia que treinando com ele estaria muito melhor que a maioria dos Comensais da Morte.
— Não cruze os pés assim se não quiser cair durante o duelo – avisou. O pé esquerdo vai na frente, e a mão não está firme o suficiente – disse, provando seu ponto ao acertar o braço de Draco com um feitiço, fazendo-o cair.
— Merda! – urrou apertando o braço machucado.
— Você vê, eu poderia matá-lo enquanto está aí caído e vulnerável. Se a Batalha fosse hoje, perdi as contas de quantas vezes você teria morrido. – zombou, olhando Draco de cima. – Novamente – sem ajudar o menino Malfoy a se levantar, ele deu as costas e se afastou, colocando-se em posição de duelo novamente. – Devo esperar você se levantar para duelarmos? Ou vai ficar deitado aí? Ninguém vai te dar a mão na guerra, garoto. Levante!
— Droga, Snape! Você deslocou meu ombro! – seus olhos lacrimejaram com a dor aguda e latejante. Severo apenas revirou os olhos, impaciente, lançando outro feitiço.
— Hey! – Draco rolou no chão, desviando. – Você quase me acertou!
— Engraçado, Draco, achei que era esse o objetivo. Você tem cinco segundos para levantar e ficar em posição de duelo.
Draco grunhiu enquanto se levantava, preparando-se para retomar o duelo. Severo não esperou um segundo a mais para começar.
— ESTUPEFAÇA!
Mesmo machucado Draco seguiu fazendo as defesas corretas no tempo certo, estendendo o duelo o quanto podia. Severo era majestoso em seus golpes e parecia não cansar da luta, enquanto Draco estava visivelmente exausto. Snape decidiu que aquilo estava durando demais e surpreendeu seu oponente com um feitiço simples, mas bem executado. Draco não conseguiu fazer a defesa a tempo e foi jogado alguns metros no ar, caindo na outra extremidade da sala com um baque surdo.
— Maldito. – disse, com uma careta de dor ainda mais intensa que a de antes. Quando conseguiu abrir os olhos, Severo estava pairando sobre ele sem um pingo de remorso ou preocupação em seu rosto.
— Não foi nada mal. – disse Snape com indiferença. – Dois minutos e quarenta e três segundos de duelo. Talvez você tenha alguma chance. – zombou, virando de costas para Draco enquanto sua capa farfalhava. – Esteja no meu escritório amanhã às 7 horas em ponto. – falou por sobre o ombro – Dez segundos de atraso e pode esquecer essas aulas. — e com um gesto discreto na mão direita a porta se fechou, deixando Draco sozinho no chão frio.
— Filho da mãe – xingou, escutando alguns ossos estalarem quando conseguiu sentar-se. Draco olhou em volta, reparando pela primeira vez na sala escura e fria. O chão era de pedra lisa, e as paredes de algum material mais pitoresco que ele não conseguiu identificar. Havia uma pequena janela cuja vista dava para o lago.
Ele suspirou, sentindo uma dor aguda no processo. Mas não se importou. Por mais que seu corpo doesse, nunca havia se sentido tão bem. E então ele tinha a certeza que mesmo não sobrevivendo a guerra, pelo menos morreria por algo digno.
...
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