A sua cor

38 Mansão Malfoy


Notas iniciais
Só... aproveitem!

Snape

Eu sabia o que tinha que ser feito. Também sabia como deveria agir. Mas algo dentro de mim estava ruindo, se quebrando, e eu não tinha o menor controle sobre isso. Tentava me concentrar em ser apenas o Comensal, o espião, o indiferente. Só que de repente todas essas máscaras não estavam ali; tudo que eu via e sentia era o rosto dela, o sorriso, os lábios perfeitamente delineados, os olhos castanhos, a pele macia que eu pude tocar... provar.

Os poucos meses que vivemos naquele chalé haviam sido minhas memórias mais felizes, porque era real, porque eu conseguia sentir que estava acontecendo. E, por Merlin, eu jurei que a protegeria, que a faria feliz – mesmo que eu ainda duvidasse que ela pudesse ser feliz comigo. Mas eu iria morrer tentando, se fosse preciso.

E foi me atendo nessa promessa que entrei na Mansão Malfoy. Tão indiferente quanto em qualquer outra reunião, mais controlado do que imaginava ser capaz. É por ela. É por ela... era o meu mantra enquanto virava pelos longos corredores de mármore que eu sabia de cor. E foi então que ouvi. Cortante. Um grito que nunca sairia da minha cabeça, que ficaria ecoando enquanto eu vivesse. Um grito de dor. Um grito dela. ‘Eu não consigo ser indiferente a isso’, eu pensava, ‘mas é necessário’, gritava minha consciência de volta. É por ela.

– Por favor, não! – a voz dela era carregada de dor. Minha alma estava em pedaços.

– Por favor? Achei que fosse uma tola grifinória. CRUCIOS!

Foi bem no momento em que pude finalmente vê-la, e ela estava se contorcendo no chão. Eu podia ver seus espasmos e as lágrimas que seguiam do canto dos olhos até as orelhas; podia ouvir os soluços e os nós dos dedos esbranquiçados. Podia ver o quanto Bellatrix havia a torturado.

– Qual o propósito disto? – ainda questiono como consegui continuar em pé depois que os olhos de Hermione se voltaram para mim, fora de foco, úmidos. Mas através da dor eu via o alívio que ela sentira ao me ver, e minha vontade de correr para abraçá-la era quase incontrolável.

– Severo... Vejo que chegou em boa hora. A sangue-ruim disse uma mentira atrás da outra. Veja só, ela contou que estava como sua prisioneira. – eu poderia matá-la ali mesmo, enforcá-la com minhas próprias mãos se fosse preciso.

– E está. – no entanto, foi a minha resposta. Fria, curta e direta.

– O Lorde teria me dito. – ela disse, confusa, não entendendo o motivo do Lorde ter escondido algo dela.

– Não teria, não, já que ele não confia totalmente na sua loucura. – destilei palavra por palavra, sentindo prazer no olhar decepcionado dela. Se eu não poderia matá-la, que pelo menos pudesse afetá-la. Vi seus dedos tremendo enquanto seguravam a varinha que apontava para Hermione. – Ora, Bella, não diga que tem a ilusão que o Lorde te deixa a par de tudo. – completei, sarcástico.

– Não seja ridículo! O Lorde faz o que bem entende, e é isso que importa. – concluiu, recuperando um pouco a loucura que lhe cabia tão bem – Mas se ela está aqui, quer dizer que fugiu. O Lorde não gostaria de saber disso, gostaria?

– Certamente que o Lorde não quer ser interrompido por futilidades como a fuga de uma sangue-ruim qualquer. – as palavras saíram da minha boca me cortando por dentro, e eu sentia o olhar de Hermione em mim. Eu não podia olhar para ela, não depois de dizer aquilo. Lembranças lutavam para vingar em minha mente... a voz de Lílian me repreendendo, se afastando. A voz doce e firme de Hermione... E eu sendo tão cruel.

– Mas ele tem que saber disso...

– e ele saberá. – a cortei, impaciente – Por mim, já que sou o responsável pela menina.

– E como você a punirá?

– Isso não lhe diz respeito. Mas certamente de um jeito bastante prazeroso... – insinuei, sentindo-me enojado logo em seguida. Quando dei a conversa por encerrada e já caminhava ao encontro de Hermione para desaparatar, uma terceira voz me fez parar.

– O que está acontecendo aqui? – era Narcisa.

– Veja só, Cissy! A sangue-ruim...

– Severo? – Lucius estava completamente louco, desesperado por uma chance de ganhar pontos com o Lorde das Trevas. Limitei meu cumprimento ao assentir, apenas. – Essa... essa é ela?! A amiga de Potter? A sangue-ruim?

– Granger? – era Malfoy, mas a voz dele não continha o escárnio habitual, muito menos o tom mimado. Ele estava realmente surpreso, com medo até. E nesse momento me senti ainda mais culpado por não tê-lo ajudado da forma que ele precisava, por não ter lhe mostrado que haviam outras opções. Ele não havia sido um menino sem escolhas, e no entanto ele havia escolhido o pior caminho. – O que ela está fazendo aqui? – me perguntou, tentando não transparecer a angústia em sua voz e falhando miseravelmente.

– Ela é minha prisioneira, Draco. – respondi, entediado.

– Draco, leve a garota lá para baixo – gritou Bellatrix, levantando Hermione pelo cabelo. Eu só conseguia pensar no quanto apreciaria o momento em que a faria sofrer como ela estava fazendo com Hermione. – Você não pode ir embora sem nos explicar algumas coisas... – continuou, olhando para mim, ainda não totalmente convencida.

– Acontece que eu posso, e eu o farei. – disse, simplesmente.

– Draco, pegue logo a garota ou eu juro que a mato de uma vez. – sibilou ela, me fazendo parar. Se eu discordasse, Bellatrix poderia realmente cumprir a promessa.

Assisti Draco caminhar relutante até o corpo inerte de Hermione. Vi sua expressão vacilar inúmeras vezes no curto percurso, enquanto todos pareciam alheios ao conflito do menino – exceto, talvez, Narcisa. Lucius estava submerso no próprio medo; Bellatrix na própria sede em satisfazer seu mestre. Quando Draco finalmente pegou Hermione, Bellatrix acordou de seu próprio transe e a empurrou sobre ele.

– Não precisa ter cuidado, Draco! Não seja tão fraco! – e então ele a arrastou sem cuidado, fazendo meu peito sufocar. Eu tinha que acabar com aquilo o mais rápido possível.

– Tenho mais o que fazer, Bellatrix, pode ser mais rápida?

– Por que ela é sua prisioneira? – suspirei, não escondendo minha frustração com aquela conversa.

– Não é da sua conta.

– Severo, nós precisamos saber. – o que Narcisa tinha a ver com isso? Por Merlin, eu poderia matar todos de uma vez.

– Não, não precisam. Ela é problema meu. E se sua preocupação, Lucius, é retomar sua varinha, já adianto que não conseguirá entregando a garota Granger. E Bella, se sua vontade é saber que ela será punida, já disse que será. Embora, a julgar pelo que vi, creio já ter feito boa parte do meu trabalho. – acrescentei, sorrindo.

– Isso ainda não está me convencendo... – sabia que precisava ser mais convincente para Bellatrix. Ela já havia se decidido que eu mentia há muito tempo, que algo em mim não soava verdadeiro, mas ela não conseguia entender o que era, muito menos tinha provas sobre isso. Então, qualquer mínimo deslize era motivo para ela querer me ver escorregar de vez. Temendo a resposta, resolvi perguntar de maneira direta:

– O que você quer, Bella? – a pergunta veio indiferente, suspirada, como se Bellatrix pudesse pedir qualquer atrocidade que eu faria sem pestanejar. Mas por dentro estava tremendo; podia sentir meu coração em pedaços.

– Quero vê-lo testando suas habilidades em Arte das Trevas na sangue-ruim. Pode fazer isso? Não é nenhum segredo que já teve... sentimentos – a palavra era tão repugnante para Bellatrix que ela não pode conter uma expressão distorcida, seguida por uma gargalhada histérica, ao pronunciá-la – sentimentos por uma trouxa. Não seria surpresa se isso acontecesse de novo.

– Está insinuando que tenho... – comecei, me aproximando dela, ódio exalando por todo o meu corpo. Quem era ela para comparar meu passado com o meu (inesperado) presente? – que tenho sentimentos por Hermione Granger? Aquela mesma menina irritante que me infernizou por anos? Amiga de um Potter e namorada de um Weasley? – tentei transformar minha raiva em deboche, como se a ideia fosse tão absurda que nem valia a pena revidar. Afinal, era exatamente isso que ela queria.

– Seria realmente ridículo, mas nunca se sabe... – retrucou, sabendo que eu estava muito perto de me enforcar. Não havia saída. De qualquer maneira Hermione sofreria, e eu decidi que seria melhor fazê-la sofrer menos do que pelas mãos de outro comensal. Eu tinha que fazer. Não havia outro modo. Eu tinha... Eu...

– Peça. – foi minha única palavra.

Notas finais
Vixe... O que será que vai acontecer?