A sua cor
39 Draco Malfoy
Notas iniciais
Hermione
Não sei ao certo em que momento parei de me debater; também não sei ao certo em que momento a dor ficou tão forte que não sentia mais nada. Isso é possível? Bellatrix me torturou com feitiços que eu sequer conhecia, insistindo em respostas sobre o paradeiro de Harry. Nunca falaria, é claro, e de certa forma ela sabia disso. Só que o ato de me machucar era prazeroso para ela, quase excitante. Via seus olhos escuros brilharem diante meu sofrimento, e a cada grito sua risada ficava mais estridente.
Em algum momento tive minha força e coragem testadas, e finalmente entendi o que significava possuir cada uma dessas qualidades. Não tinha nada a ver com o fato de eu ser, desde menina, insolente e decidida; tampouco por pertencer a grifinória. Era muito mais que isso. Era ter, simplesmente, um motivo — ou vários deles – para querer continuar viva. Simplesmente sabia que não morreria. Bellatrix não teria esse gostinho. Não, pelo menos, naquele dia. E quando ela se deu conta disso, tentou mais e mais, até que a voz dele surgiu.
Minha consciência voltou como um choque, atenta ao som das vibrações que a voz de Severo causava. Instintivamente levei meu olhar até ele, e senti-me, mesmo que aliviada, envergonhada. Detestei a ideia de parecer tão vulnerável, fraca. Detestei a inevitável culpa que ele sentiria pelo meu estado – e detestei ainda mais ter proporcionado isso.
Se ao menos eu não tivesse saído do maldito chalé! Pensei no quanto havia sido tola... sacrificando um plano meticulosamente arquitetado por Dumbledore e perigosamente seguido por Snape a troco de ciúmes. Ciúme de uma história que marcava Severo mais por culpa que por qualquer outra razão. Simplesmente... eu não deveria tê-lo deixado.
A indiferente postura dele não me enganava; sabia que ali, em algum lugar naquelas feições vazias, estava o verdadeiro Snape. Um Snape que, confesso, não conhecia por completo, mas que estava comigo, tentando sair, submergir de todo o passado angustiante e escuro. Um Snape que aparecia para mim, apenas; e que eu amava.
Não sei como pensei em tantas coisas em um momento como aquele. Só fui me dar conta quando Malfoy me arrastou escada abaixo. Eu não sentia ódio, nem raiva, nem dor; estava totalmente alheia a ele. Só queria ficar sozinha para tentar pensar em alguma saída, e agradeci mentalmente quando enfim alcancei o porão escuro da Mansão, ouvindo a porta enferrujada trancar atrás de mim. E foi quando percebi que não estava sozinha.
– Hermione? – tentou a voz melodiosa de Luna, emergindo com seus grandes olhos sonhadores de algum lugar.
– Luna?! – não reconheci minha própria voz, estava feliz em saber que ela estava bem. Mas antes que pudesse fazer algum movimento em direção a ela, mais uma pessoa se materializou.
– Senhor Olivaras? – perguntei enquanto a figura velha e machucada se aproximava com dificuldade.
– Senhorita Granger, como eles pegaram você?
– É uma longa história, eu não posso falar agora... – falei apressada, instintivamente tateando pela bolsa – onde está a bolsa? Droga!
– Que bolsa, Hermione?
– A bolsa, Luna! Lá poderia ter algo que nos ajudasse, alguma coisa, QUALQUER COISA! – gritei, exasperada. Tudo tinha dado muito errado. Comecei a me desesperar, andando em círculos naquele lugar mal iluminado. Podia sentir o olhar preocupado de Luna, mas eu simplesmente não podia falar com ela naquele momento. Não poderia ouvir nada do tipo ‘vai dar tudo certo’, ou nenhuma frase típica dela, porque NADA estava dando certo.
– Hermione... – tentou, delicada.
– Não, Luna! Não tente me dizer que vamos sair dessa. Não tente me dizer que vai dar tudo certo! – retruquei, fazendo o senhor Olivaras recuar. Perfeito! – Sinto muito, não queria gritar com você, Luna. – suspirei – Já deve ser horrível o suficiente. E senhor Olivaras, me perdoe... Fui muito rude. – completei, de repente me sentindo fraca demais. Na minha explosão, ignorei a dor que ainda me consumia, os espasmos involuntários do meu corpo. Eu estava sentindo muita dor. Sentia que a qualquer momento poderia desmaiar.
Quando já estava quase desistindo de lutar contra os efeitos das múltiplas azarações e dos repetidos Crucios, senti algo caindo do meu lado. Não soube o que era até que alguém iluminou o lugar.
– O que você quer... – mas antes que eu pudesse concluir, ele pegou o objeto do chão e o entregou para mim. Olhei-o boquiaberta. – O que?
– Pega logo, Granger. Aí deve ter alguma coisa que diminua seus ferimentos.
– Eu não entendo...
– Droga, garota! Não temos tempo pra isso! Com sorte, tente alguma coisa que possa salvá-los, que possa salvá-la também. Eu não estou vendo nada... – e com um suspiro pesado, deixou o lugar, sumindo nas sombras.
Não havia tempo para ficar pensando no comportamento atípico de Malfoy, e ignorando todas as perguntas que borbulhavam minha mente, tateei a bolsa em busca de algo que nos ajudasse. Procurei cegamente, eu nem mesmo me lembrava de tudo que havia colocado ali. Nem mesmo sabia se havia pego a bolsa certa; poderia ser a minha ou poderia ser a que havia dado para Rony e Harry no casamento.
– Droga! – gritei para o nada. Lágrimas teimosas escorrendo com facilidade até os meus lábios.
– Dumbledore?
– O que disse, Luna?
– Dumbledore! Era o olhar dele nesse espelho! — Por céus, Luna!
– Luna. – falei no meu tom mais calmo – Nós não temos pra isso... – avisei.
– É verdade, Hermione! Olha só! – insistiu ela, me fazendo olhar – relutante – para o pedaço de espelho. E foi quando os olhos brilhantes piscaram para mim.
– Nos ajude, por favor, nos ajude! – era irracional, eu sabia, mas tinha que tentar alguma coisa. E antes que eu pudesse bufar em descrença um POP me fez estancar. Era Dobby.
– Dobby?
– Senhorita amiga de Harry Potter? – perguntou, com aqueles grandes olhos esbugalhados.
– Dobby, você tem que nos ajudar, por favor! Você pode aparatar outras pessoas com você?
– Sim, Dobby pode. – meu alívio era tão grande que precisei fechar os olhos e curtir o pequeno segundo em que, finalmente, alguma coisa tinha dado certo.
– Você pode, por favor, levar a Luna e o Senhor Olivaras para a casa de Gui e Fleur? – foi o primeiro lugar que me veio à mente.
– Claro, senhorita, Dobby pode tirá-los desse lugar horrível.
– Obrigada, Dobby... mesmo. — e peguei as suas pequenas mãozinhas, tentando transmitir o quanto estava grata — Cabana das Conchas é o nome. Nos arredores de Tinworth. Agora vão! Rápido!
– Mas e você, Hermione? – sussurrou Luna – Não podemos deixá-la! E eu não posso deixá-lo.
– Eu vou ficar. – disse, decidida — Está tudo bem, vou ficar bem. ‘Severo vai me salvar...’, pensei. Agora vão! Rápido!
– Mas... – tentou ela.
– Nós nos veremos em breve. – garanti. E com um pedido mudo à Dobby, ele desaparatou, levando-os consigo.
Poucos segundos depois e uma voz indignada sussurrou atrás de mim.
– Você está louca, Granger? Completamente louca? Te dei carta branca para ir embora! O que ainda está fazendo aqui?! Merda!
– Malfoy, eu...
– Droga, Granger! Você entende que eles vão matá-la? Que Bellatrix irá torturá-la até que implore por isso?!
– Eles não vão! – gritei, me agarrando fervorosamente à ideia de que Severo pensaria em uma maneira.
– Vão sim! E nem o Snape vai poder protegê-la. – sentenciou, alguma coisa na sua voz que eu não conseguia detectar. Medo, talvez. Culpa, definitivamente.
– Espera... você sabe... bem, sobre o professor Snape? – tentei, fazendo-o assentir.
– Eu sei que ele não a torturaria. – declarou, fazendo o silêncio pairar sobre nós logo em seguida. – Você sabe que colocarei a culpa toda em você, não sabe? Que é preciso?
– Eu sei, e tudo bem quanto a isso. – dei de ombros, encarando-o decidida.
– Ela vai ficar furiosa com você, ela vai te torturar. É a diversão dela. – tentou ele, tentando me fazer entender o quanto havia sido tola.
– Bellatrix não vai conseguir me matar – era a minha certeza. Só queria viver aquilo tudo para estar logo nos braços de Severo. Ele suspirou resignado pela minha teimosia.
– Preciso te levar de volta, então. Fazer todo o teatro... Mas vou precisar contar o que aconteceu aqui. – disse ele, tentando soar arrogante e frio. Falhou miseravelmente. Draco Malfoy estava tão pálido que parecia estar doente.
– Eu sei. Faça o que tem que fazer. – foi tudo que disse, no entanto.
– Eu só... eu não queria. – ele tentou se justificar, envergonhado, a dor da incompreensão banhando suas feições aristocratas.
– Sim, você quis isso em algum momento e agora está pagando por sua escolha errada. Não pense que esse gesto é a sua redenção. Não é. Você ainda é um covarde mimado que fez todas as escolhas erradas. – eu definitivamente não facilitaria para ele. Mas a sua resposta me surpreendeu, a ponto de reconsiderar meu rancor.
– Então, só me dê a opção de começar a me redimir. – e o que eu poderia dizer? Era quase a história de Severo. – Vou machucar você. Isso precisa ficar convincente. – apenas encolhi meus ombros, não poderia ser pior do que já havia passado nas mãos de Bellatrix.
Quando achei que ele não falaria mais nada, sua voz ecoou do topo da escada:
– Ele vai cuidar disso depois. Eu sei que vai... – e sim, eu também sabia.
***
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