A sua cor
34 Escuridão
Notas iniciais
Snape
Sem saber como, acabei pegando no sono na noite seguinte a que Hermione se fora. Demasiado álcool, provavelmente. Por alguns segundos minha mente sonolenta não acordou para o fato de eu estava sozinho, de que ela não estava dormindo no andar de cima. Por esses mesmos segundos, minha mente estava calma com a ilusão de que tudo estava bem.
Mas tão breve quanto durou, eu acordei para a realidade. E, por Merlin, foi como se tudo estivesse acontecendo de novo: ela dizendo ‘adeus’, ela virando as costas e indo embora sem olhar para trás. Então decidi que precisava sair daquele chalé, daquela sala, daquelas lembranças. Decidi que limitaria minhas idas o máximo possível, talvez apenas para ver o gato.
E achando que não poderia ficar pior do que já estava, descobri que o imbecil do Weasley havia deixado o maldito retrato para trás.
– Inferno! Maldito inferno! Aquele garoto não sabe dar um passo sem fazer alguma bobagem? – estava tão furioso que os meus pensamentos não seguiam nenhuma lógica – Como vou saber onde estão agora?
– Acredito, senhor, que deverá confiar no Potter e no menino ruivo, assim como na sangue...
– Não ouse terminar essa frase, seu velho desprezível – interrompi, espumando ódio – Chame-a assim novamente e sairá voando dessa sala.
– Como ousa? Ninguém pode me tirar daqui!
– Acontece que eu posso fazer o que quiser nessa escola. E se eu decidir agir, você será o primeiro.
Mas o idiota estava certo. Não havia nada que eu pudesse fazer além de, claro, continuar desempenhando meu papel para o Lorde. E também esperar que ela estivesse bem, onde quer que fosse.
Em algum lugar da minha mente um outro problema queria emergir, mas haviam tantas coisas que eu simplesmente tentei sufocá-lo nos cantos escuros dos meus pensamentos. Mas era inevitável: e se o Lorde finalmente decidisse perguntar por ela? O que eu poderia fazer? O que eu inventaria para enganá-lo tão perfeitamente? ‘Merlin’, praguejei, implorando que a sorte estivesse conosco.
Mas não era exatamente o que cenário pálido mostrava. O céu era de um cinza angustiante, quebrado apenas pelo tom negro dos dementadores pairando em volta de Hogwarts. Era quase como se não houvesse vida ali. Das masmorras, via os alunos caminhando metodicamente para seus aposentos, e naquele momento detestei a figura que eu era para todos eles.
Vazio. Era o que eu sentia. Fechei os olhos e senti o ar gelado bater no meu rosto, cortante. Mas eu não me importava. Olhar para aquele lugar que considerei meu lar por quase toda a minha vida e senti-lo tão... frio? morto? incongruente? me fez imaginar se realmente havia esperança.
Os momentos com Hermione no chalé quase me fizeram acreditar que havia um futuro melhor. Quase. Só que o otimismo dela brigava com a realidade gritante: Comensais da Morte estavam mandando em alunos – crianças e adolescentes – há poucos metros de mim. E eu não podia fazer nada além de fingir algumas detenções e fazê-los escapar de sessões de tortura. Mas eu sabia que não conseguia salvar todos os alunos, especialmente estando eles tão rebeldes. ‘E com toda a razão’, pensei.
A verdade é que o mundo bruxo estava em caos, e eu me perguntava se isso tudo realmente ia acabar. E se acabasse? Quanta dor e perda não nos assombraria? Era difícil para mim acreditar num futuro tendo visto tudo o que ele era capaz. Tudo que eu fui capaz de fazer um dia. E tudo o que muitos aliados a ele fariam sem hesitar. As chances eram mínimas, eu sabia. Ri imaginando que Hermione me reprimiria por pensamentos assim. Hermione... Ela também não estava comigo. ‘Inferno’. Tudo estava fora do lugar. ‘Hermione...’.
– Porque você é tão calado? – ela me perguntou com aqueles malditos olhos castanhos brilhantes.
– Eu converso muito, Hermione... – respondi, sem olhá-la, mas sentindo sua curiosidade sobre mim. Adorava deixá-la curiosa.
– Não conversa, não. – rebateu, contendo o ímpeto de colocar a mão na cintura para soar ainda mais petulante.
– Comigo mesmo. – estava realmente me divertindo com toda aquela conversa idiota e leve.
– Isso não vale... – e quando ergui o olhar da poção, encontrei-a sorrindo para mim. ‘Merlin’, praguejei, tentando não demonstrar o efeito dela em mim.
Eram essas lembranças que ainda me mantinham lúcido. Quantas semanas se passaram desde que eu passei a não ter mais notícias? Uma, duas? Um mês? Não sei dizer... Mas era torturante.
E então aconteceu o que temia: o Lorde finalmente quis saber dela. Estava nervoso porque o tempo estava passando sem que descobrisse o paradeiro de Potter; e de alguma maneira ele sabia que algo estava errado, que alguém o estava traindo – e ele estava certo. Mas suas dúvidas nunca recaiam sobre mim. Eu era seu servo mais fiel. Eu havia matado Dumbledore. Eu tinha Hermione como prisioneira. Em qual brecha ele poderia ter dúvidas? Em nenhuma, era o que eu achava. Achava...
– Meu Lorde... – cumprimentei, fazendo uma breve cordialidade enquanto sentia os olhos dele incidindo sobre mim. Nesse momento eu soube que algo estava errado; ele não ficava gastando energia tentando penetrar minha mente tanto tempo.
– Severo. – o olhar vermelho era aterrorizante. Embora já estivesse acostumado, tinha que admitir que não era agradável olhar para ele, estar tão próximo e desejar que estivesse morto.
Não sei explicar ao certo a minha relação com o Lorde das Trevas. Não o temia; acho que nunca senti medo, na verdade. Não dele. Minha vontade de ser alguém, de me sobressair, nublava qualquer outro sentimento.
Quando me tornei um comensal, minha necessidade em deixar aquele bairro ordinário, o sentimento de rejeição de Lílian, a culpa por tê-la magoado, de ser diferente daquele que se intitulara meu pai, enfim, deixar toda a minha vida estúpida, era tão grande que não percebi o que estava fazendo. Não pensei em mortes, não pensei em assassinatos, não pensei em como seria a vida como seguidor do Lorde, eu apenas fui... Cego pela ambição, pela ânsia de ser alguém notável, importante.
Precisou que alguém muito próximo a mim morresse para que eu enfim acordasse para tudo que tinha feito. Entendi, finalmente, o que Lílian quis dizer.
“Me chamar de sangue-ruim? Mas você chama todos com linhagens iguais a minha de sangue-ruim, Severo. Porque comigo seria diferente?”
– Severo, quero saber sobre a sangue-ruim amiga do Potter. – declarou, me fazendo acordar dos pensamentos que me perseguiam para cair em outro pesadelo.
– Meu Lorde? – nunca havia me esforçado tanto para soar indiferente.
– O que está acontecendo com você hoje, Severo? A sangue-ruim é tão divertida assim? A ponto de fazer você se distrair? Justo você? – sua voz tentava transparecer alguma diversão, mas eu sabia que ele estava tentando descobrir alguma coisa.
– Não toco nela, Meu Lorde. Já é o suficiente tê-la sob o mesmo teto.
– Mas sempre podemos nos divertir com gente desse tipo, não é mesmo?
– Claro. – e sorri. Sorri concordando com o que ele falara! Nojo era o que eu sentia de mim mesmo. Tanto tempo odiando meu pai e acabei me tornando pior que ele. E então tinha que sorrir como se estivesse adorando a ideia de machucar Hermione, de forçá-la. Existiu mesmo o tempo em que eu faria esse tipo de coisa?
– Sei que no voto jura protegê-la... – ele continuou, andando sorrateiro, como se estivesse prestes a surpreender uma plateia de rostos assustados – mas nada impede de termos uma conversinha, certo? E não será como se estivesse a entregando para nós, só vai acontecer de ela ser pega...
– Meu Lorde... – queria gritar, queria matá-lo, não queria mais aquilo, o disfarce, a vida dupla!
– Não se preocupe, Severo. Não sucumbirá ao pacto se é o que está temendo. Não ousaria perdê-lo... – e eu podia jurar que havia um silencioso ‘Não agora’.
– Quando? – precisava de tempo, precisava pensar.
– Em duas semanas. – e sua voz era baixa enquanto ele acariciava a cobra – No momento vou me ausentar do país.
– Posso perguntar por que o interesse na menina, Meu Lorde? – foi um grande erro perguntar, mas as palavras jorraram da minha boca sem que eu tivesse o menor controle. Ele me considerou com os olhos vermelhos brilhando em curiosidade, mas decidiu por falar.
– A menina é uma ameaça, de qualquer maneira. E se ela é assim tão amiga do menino vai ser muito útil.
– Se me permite dizer, senhor, não há como Potter saber que a amiga está presa... – estava ciente de todas as falhas no meu argumento, mas tinha que tentar, eu precisava tirar a ideia dele.
– Você está bem maçante hoje, Severo – interrompeu – Podemos não saber onde está o Potter, mas certamente ele sabe do que está acontecendo no mundo bruxo... Tudo que fica público, claro. E se ele não souber que a amiga é o preço e não vier salvá-la – e seus olhos brilhavam com a simples menção de matá-la – menos uma impura sujando o mundo dos verdadeiros bruxos, não é mesmo?
A partir dali tudo ficou no automático para mim. Ouvi coisas, dei falsas pistas, sorri quando tinha que sorrir, confirmei quando tinha que confirmar. Quando a reunião finalmente tinha acabado, procurei refúgio no único lugar onde eu ainda sentia alguma tranquilidade – apesar das lembranças: o chalé.
Os únicos sons que eu escutava eram os dos incontáveis béqueres sendo estilhaçados. Pela primeira vez eu não tinha a menor ideia do que fazer. Eu só sabia que precisava: 1) encontrá-la; 2) protegê-la. E, por Merlin, como?
Fale com o autor