A sua cor
46 Dois curingas na guerra
Notas iniciais
Draco Malfoy pode ser mais uma grande cartada na guerra, mas Severo não gosta da ideia. Só de imaginar que o garoto viva os horrores que ele viveu é o suficiente para descartar a mais remota possibilidade. Mas se não for pelo menino Malfoy, o que pode acontecer com a Hermione? E pior, como Snape vai contar a ela que as chances de ele sobreviver a guerra são mínimas?
— Merda. – foi a única palavra que Severo conseguiu dizer quando chegou a sua antiga sala em Hogwarts. Ele odiava a sala do diretor. Não se sentia digno dela. Na verdade, a escola havia se tornado para ele um verdadeiro pesadelo; ao mesmo tempo em que era sua casa, era sua prisão. E em cada pedra, cada coluna, cada pedacinho de chão rústico, cada janela, o fazia sentir-se mal por tudo o que fizera, como se as paredes o recriminassem, como se o castelo não o quisesse ali.
‘Tolice’, ele sempre se recriminava. Mas, então, a cena do corpo de Dumbledore caindo da Torre de Astronomia lhe vinha à mente, como tantas outras coisas horríveis. Vozes que lhe pediam socorro, vozes que lhe julgavam, sons que ele não conseguia abafar, cenas que ele não conseguia apagar.
— Você precisa fazer isso. Precisa. O garoto vai dar conta... Ele precisa conseguir. – dizia incansavelmente para si mesmo, como se a repetição pudesse trazer uma solução, um milagre.
— Mandou chamar, senhor?
— Tragam o garoto Malfoy. – naquele momento a máscara era do Comensal. E uma hora antes era apenas Severo, o homem, magoando Hermione para tentar fazer o certo. Por que tinha que ser tão fodidamente difícil?
De repente a capa pareceu apertada e a sala tornou-se pequena demais. Era Severo Snape se dando conta que não era tão forte quando pensava que fosse, nem tão indiferente à vida e às pessoas. E, definitivamente, não à Hermione. Ele fechou os olhos tentando lembrar da imagem dela enquanto faziam amor, os lábios entreabertos, o rosto corado pelo desejo, as mãos macias percorrendo seu corpo, a voz suave sussurrando seu nome, o cabelo cheio espalhado pelo colchão...
— Inferno! – praguejou. Ele jamais descuidava de seus pensamentos assim.
— Senhor? – Malfoy. Como, por Merlin, ele começaria falando com o menino? Como pedir para que ele ficasse no meio da Guerra? Contra os pais?
Encará-lo foi o mais difícil, no entanto. Severo, obviamente já recomposto, meticulosamente postado ao lado da mesa, quase vacilou ao se deparar com os olhos cinzas levemente amedrontados, desamparados, muito parecidos com o que ele fora. As feições fragilizadas, nada congruentes com os traços aristocráticos, indicavam que o menino estava doente com as proporções que a guerra havia tomado e que ele, na sua ignorância e egoísmo, não havia se dado conta.
Um garoto.
Assim como Potter. Assim como tantos outros...
Assim como ele.
Merda.
— Draco. – Seu suspiro fora audível.
— Eu quero ajudar. Não quero mais isso. Eu... posso ajudar. – o menino se adiantou, no entanto, tentando mascarar sua angústia por um ato de bravura.
— Você entende o que acabou de dizer? O que isso implica? Como o coloca em risco? – o olhar de Snape era penetrante, muito firme, como se implorasse ao menino para entender o que estar no meio da guerra significava.
— Sim, eu sei. E eu quero fazer. Pela primeira vez realmente sei o que fazer. – Severo pode notar pequenas gotas de suor na testa do menino, passando pelas olheiras e pela roupa desalinhada. As mãos tremiam um pouco, provavelmente exaustas pelo movimento repetido de abrir e fechar os punhos.
— Você não sabe o que está falando, garoto...
— Eu não sei?! Eu estava lá, não lembra? – agora era Draco quem estava falando novamente, insolência e autoridade nítidas na sua voz. – Vi o que ele é capaz de fazer, e eu... eu... não sei! Por muito tempo eu queria, mas agora... matar crianças, pessoas inocentes... – o garoto tremia dos pés à cabeça; olheiras profundas contrastando com a pele extremamente pálida e doente.
Severo esperou que o menino se acalmasse, pensando em como ele entendia o garoto em todas as angústias. Nem todo jovem tem discernimento, e muitos se deixam levar com facilidade. Somado a isso, uma estrutura familiar faz toda a diferença. Apesar do amor dos pais, da união dos Malfoy, Draco crescera no preconceito, nos valores da riqueza e do poder, do purismo. Seria muito mais fácil se o garoto nunca tivesse se tocado em como aquilo era ruim, mas ali estava ele, a um milímetro de cair aos prantos, tentando se manter racional para ajudar todos aqueles que, até então, odiava – ou que fora induzido a odiar.
Quase como uma resposta ao pensamento de Severo, Draco finalmente falou:
— Ainda odeio o Potter, sabe? Mas isso, essa guerra, vai além. Ainda odeio essa escola e odeio Dumbledore por toda o seu maldito altruísmo! – cuspiu ele, lutando para não quebrar justamente na frente da pessoa que deveria convencer – Mas... o que eles estão fazendo lá. Eu... não posso mais fazer.
Severo suspirou. O que mais ele poderia dizer ao menino?
— Você sabe que vou protegê-lo? Você não vai ficar desamparado.
— Sim, eu sei. Tem o voto e...
— Não é apenas sobre isso, Draco. – Snape estava mais pálido que o habitual, revelando a perda de um equilíbrio que ele mantinha impecavelmente há 20 anos. Draco olhou para o Severo, realmente olhou, e não foi preciso dizer mais nada. Ele sabia que seu padrinho faria de tudo para protegê-lo e isso o reconfortou, mas o que Snape não sabia era que o menino também estava disposto a fazer o mesmo. Disposto a não deixar Severo Snape morrer.
— Então só me diga o que fazer. – disse, decidido.
E, sim, Severo Snape ensinaria Draco Malfoy a ser um espião duplo.
...
— Isso é tudo que posso repassar agora – Severo disse, finalmente, depois de quase duas horas de conversa. – Descanse e esteja aqui no mesmo horário amanhã a noite.
— Sim, senhor. E...
— Não é necessário dizer nada. Apenas vá. Serão longos dias daqui para frente. – embora estivesse quase expulsando o garoto da sala a voz não possuía a malícia habitual. Estava mais para “estou muito cansado de tudo isso e quero ficar sozinho” – conceito que, diga-se de passagem, Draco entendeu muito bem.
Mas quando ele deu as costas e estava quase alcançando a porta aquela curiosidade insistente praticamente gritou em sua cabeça, e ele não pode evitar quando as palavras começaram a sair uma atrás da outra.
— Senhor, aquele dia... na Mansão. A garota Granger... – Draco pode sentir a tensão no momento em que mencionou a grifinória.
— Ela está bem. – cortou Severo, incapaz de olhar para o menino de volta.
— Eu sei que ela está... eu só... bem, não quero ser invasivo mas...
— Então não seja. – Draco sabia que tinha ultrapassado a linha, mas simplesmente não podia deixar de perguntar o óbvio.
— O senhor gosta dela? – “Péssima ideia, Draco. Péssima ideia”, pensou o sonserino quando Snape praticamente lançou uma imperdoável nele.
— Você pode ser meu afilhado, Draco, e podemos estar na mesma missão, mas isso não lhe dá o maldito direito de intrometer na minha vida pessoal. — Malfoy sentiu, mais do que ouviu, as palavras ditas pausadamente na voz assustadora de Snape, mas se permitiu um sorriso interno ao constatar que estava certo ao final de tudo. Estava claro que Severo Snape estava caindo de amores pela bruxa mais irritante de Hogwarts.
— Desculpe, senhor. É só que... bom, é estranho. Não estranho que estejam... juntos – ele adiantou ante o olhar ferino de Snape – mas que pareça certo, de alguma maneira.
Snape olhou chocado para o garoto que, até algumas horas, estrara apavorado em sua sala, e que agora estava zombando dele!
— Draco. – ele sabia que não tinha saído tão assustador quanto desejava, e que Draco não estava dando a mínima para as suas repreensões ameaçadoras, mas ele tinha um nome a zelar afinal de contas! E estar apaixonado pela melhor amiga de Harry Potter, grifinória, ex aluna, e vinte anos mais nova que ele era, para dizer o mínimo, absurdo. Mas mais absurdo foi a “aprovação” do garoto. Snape estava se lixando para o que pensavam dele, exceto Hermione, mas seria tolo se negasse a surpresa da aceitação fácil do menino Malfoy.
— Já estou saindo, senhor. Estarei aqui logo cedo. Boa noite.
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