A sua cor
31 Do âmago
Notas iniciais
Em algum lugar na Floresta do Deão, o menino-que-sobreviveu intercalava a vigia noturna com seu amigo ruivo, que jazia dormindo na cabana enfeitiçada. O pescoço doendo pela posição e o olhar embaçado de sono, ele tentava se manter consciente. Até que algo se movimentou na floresta e o fez congelar.
– Não é possível... – sussurrou ele – os feitiços de proteção funcionaram até agora. Não é possível que alguém tenha nos encontrado.
Mas a luz brilhante brincou ao seu lado até seguir por entre as árvores, fazendo-o perceber que aquilo era real, e não apenas um sonho de seu estado semiconsciente.
Quando o impulso de seguir a luz prateada ficou impossível de ser contido, ele se levantou tão rápido que nem cogitou chamar Rony. Deslizando pela neve, a luz parou e se aproximou de Harry, fazendo-o perceber que era uma lontra.
– Hermione! – ele exclamou, feliz por saber que era algo familiar, que era o patrono da amiga. Mas rapidamente o animal continuou, fazendo Harry o seguir o mais rápido que podia. Finalmente a lontra o olhou intensamente, e tão inesperado quanto apareceu, ela sumiu.
Quando Harry se deu conta, estava nas margens de um pequeno lago congelado. Ele procurou inutilmente pela figura brilhante, mas a única que emergiu foi a que estava nos fundos das águas. Aproximando-se com cuidado, ele mandou a luz na ponta da varinha para o fundo, até que pode visualizar com clareza que se tratava da espada de Gryffindor.
Sem pensar duas vezes ele sacou a varinha e tentou um simples Accio, mesmo sabendo que não funcionaria. Quando enfim ele se deu conta de que teria que entrar completamente no lago congelado, apontou a varinha para a camada grossa de gelo e o fez se quebrar com um ‘Diffindo’. Devagar, colocou primeiro a ponta dos pés – e pode jurar que seu dedo havia caído depois disso; percebendo que seria doloroso de qualquer maneira, entrou na água de uma única vez.
Não bastasse o frio agonizante, a Horcrux em seu pescoço começou a enforcá-lo, fazendo-o perder os sentidos de vez. Potter podia jurar que estava morrendo, não fosse a voz doce que bem ao fundo gaguejava alguma coisa ininteligível.
– Vo-você es-está com-completamente louco? – perguntou a voz, que ele só conseguiu identificar depois de vestir as roupas espalhadas e amenizar um pouco o frio absurdo.
– Hermione, é você? – perguntou depois de um tempo, tirando os óculos para limpá-lo.
– É cla-ro que sou, que-quem mais poderia ser?! – disse retoricamente, daquele jeito Hermione de falar. Harry apenas sorriu, feliz por ver a amiga. – Merlin, sen-ti tanto a sua falta e do Rony! – exclamou a jovem, abraçando o amigo com toda a força que conseguia depois da experiência no lago.
– Mas o que você faz aqui? Como? E você trouxe a espada!
– Longa história, Harry... – disse a jovem, tentando mascarar a dor que a consumia – Mas espera, eu-eu não trouxe a espada, apenas vim... hum – hesitou – ajudá-los. Estava mais do que na hora de fazer isso... sinceramente, não sei porque não fiz antes.
– Não, Hermione, você... o seu patrono! – exclamou ele, fazendo Hermione parar de tagarelar.
– Harry, você sabe que eu não sou muito boa em conjurar patronos. – revelou quase num sussurro, timidamente, enquanto secava suas roupas com a varinha.
– Mas eu vi, Hermione! Estava aqui, bem aqui – disse decidido, apontando freneticamente para o lago.
– Harry, não sei do que está falando. – respondeu ela, confusa.
– Hermione, eu estava sentado perto da cabana, vigiando. E de repente o seu patrono apareceu! E me trouxe até aqui... trouxe a espada! E agora podemos destruir essa horcrux! – o bruxo estava tão empolgado que Hermione decidiu não perguntar mais a respeito do tal patrono.
– Você quer fazer isso? – perguntou Harry, estendendo-lhe o colar e a espada.
– Não! Absolutamente! – respondeu rapidamente, dando alguns passos para trás.
– Hermione, você tirou a espada de lá... Acho que deveria ser você. – insistiu ele, com aqueles olhos claros grandes e brilhantes.
Talvez fosse realmente o certo a se fazer, talvez destruir aquela horcrux a faria sentir-se melhor de alguma forma. Então, repassando o filme de emoções que sua vida se transformara nos últimos meses, ela aceitou.
Tudo aconteceu muito rápido, mas pareceu uma eternidade para Hermione. Harry fez como o combinado e abriu o medalhão sussurrando alguma coisa em Ofidioglossia, e no segundo seguinte o maior temor da jovem se materializou a sua frente: Severo machucado; Severo sofrendo; Severo morto.
– Ele está morto, sangue ruim. MORTO. – era o que a voz sussurrava cruelmente, em meio a risadas agudas.
– Hermione! Não escute, você precisa fazer!
– Ele não vai viver... Não tem como ele sobreviver a isso! E quem disse que ele a ama? – e a risada ficava mais forte enquanto os olhos de Severo se fechavam lentamente, seu corpo caído num chão escuro.
– Hermione, você tem que fazer! Destrua! – gritava o menino, implorando por uma reação da jovem bruxa.
Mas o corpo caído num canto, esquecido e inexpressivo, frágil, vulnerável, era demais para Hermione. Ela só queria correr de tudo aquilo e procurá-lo, salvá-lo de um destino quase inevitável.
– Não! – ela gritava em meios aos soluços enquanto as imagens ganhavam ainda mais força com a sua fraqueza. E quando ela achou que não havia mais como reagir, a imagem de seu patrono veio em sua mente; e de repente tudo começou a fazer sentido.
Sua vontade de fazer parar todas aquelas imagens horríveis a fez tão forte que ela mesma duvidou que toda aquela determinação realmente existia dentro dela. E ter a certeza que ele a queria, não, que ele a amava, deixou tudo muito mais fácil.
Em um instante ela já estava avançando ferozmente até a horcrux, com a espada em punho e os olhos castanhos brilhando. No segundo seguinte as imagens que até então a atormentaram nada mais eram que sussurros distantes, até sumirem de vez; no chão, o medalhão jazia destruído.
Ela ficou um bom tempo parada olhando para o nada, respirando ofegante, tentando se dar conta de tudo que acabara de acontecer, até que uma mão amiga a tocou nos ombros, fazendo-a lembrar-se de que estava tudo bem. Quando Hermione enfim encarou Harry, pode perceber nos olhos claros um brilho diferente, que rapidamente foi interpretado pela bruxa. Ele sabia; Harry Potter finalmente entendia o que Severo Snape significava para a amiga. E ele não estava com raiva.
– Era dele, não era? – perguntou suavemente. – O patrono dele assumiu a mesma forma que o seu. – Hermione apenas assentiu, incapaz de formular alguma resposta coerente. – Acho que tem algumas coisas que precisa nos contar então... – completou ele, divertido.
– Sim, acho que tenho. Mas antes, eu mesma preciso entender tudo isso. – respondeu, um pouco distante.
– Não há muito o que entender, Hermione... Ele ama você. Eu realmente não consigo conceber isso, e acho que Rony não vai gostar nem um pouco, mas é a verdade. – de novo, Hermione apenas balançou a cabeça, tentando inutilmente esboçar alguma reação – Acho que nem preciso perguntar se é recíproco, não é?
– Você está de bom humor hoje... – riu ela, finalmente saindo do estado de torpor para cutucar o ombro de Harry.
– Nós destruímos uma horcrux e você está aqui conosco... Acho que posso sentir um pouco menos de tensão por alguns segundos. – ele deu de ombros.
– Sim, você pode... – respondeu Hermione, complacente – Agora vamos... aqui está congelante.
***
Snape estava pouco se importando para o que Molly e Arthur fossem pensar; na verdade, ele mal pensou. Mesmo odiando Rede Flú, foi a escolha do bruxo para chegar até A Toca, já que naquela altura era se expor demais uma aparatação. E quando deu por si já estava saindo da lareira d’Toca, com uma Molly raivosa e um Arthur confuso esperando.
– Eu vim buscar o gato. – falou simplesmente, fazendo o casal de ruivos piscar inúmeras vezes com o absurdo dito.
– Você-você veio até aqui por Bichento? – perguntou o Srº Weasley, abismado. Mas arrependeu-se no segundo seguinte ao receber o olhar mais digno de Severo Snape.
– Basta me dar o animal e não comentarmos sobre isso. – falou seco, evitando olhar para a Senhora Weasley.
– Não. – soltou ela, como se negasse um doce a uma criança. Severo precisou de um tempo para entender que Molly estava, de fato, negando alguma coisa a ele.
– O que? – ele perguntou, aproximando-se perigosamente da mulher.
– É isso mesmo que ouviu, Severo. Hermione deixou Bichento aqui, então ele está sob minha responsabilidade. – soltou, decidida. E sua fala foi tão convicta que bastou apenas um dedo indicador em riste para a ousadia ficar completa.
Snape apenas bufou impaciente, olhando para um Arthur assustado como se dissesse: “Fale para a sua mulher entregar a porcaria do gato!”.
– Molly, querida, Bichento parece sentir falta de casa. – tentou ele.
– Ele sente falta da dona, e se ela o deixou aqui, é porque é aqui – enfatizou ela com as mãos – que ele deve ficar!
– Eu não acredito nisso – resmungou Snape.
– Senhora Weasley – tentou ele, pronunciando o nome dela por entre os dentes – é muito difícil entender que o gato é meu?
– Ele não é seu, é da Hermione! – rebateu uma Molly nervosa.
– Hermione e eu somos casados, então é comigo que ele deve ficar! – praguejou Severo, não percebendo o quão ridículo estava aquilo tudo. E em algum lugar entre os dois bruxos que brigavam pelo gato estava Arthur, provavelmente rindo internamente da cena peculiar, mas não ousando se intrometer.
– Então por que ela não está com você?
– Porque eu sou um imbecil! Agora me dê o gato.
Molly estava relutante, mas o modo como Severo insistia a fez parar por alguns segundos. E ela só se tocou do quanto buscar Bichento deveria ser importante para ele quando Arthur passou a mão em seus ombros, como se dissesse: ‘Tudo bem, Molly, ele vai cuidar de Bichento.’
– Tudo bem – começou ela, mas sem deixar o tom de aviso – Só que faremos um trato. – e antes que Snape pudesse falar alguma coisa, ela continuou – se ele não quiser ir, você o deixa em paz.
E com um assentimento mudo, Molly estendeu Bichento para os longos braços do bruxo, esperando o momento em que o gato miaria em desagrado. Mas para a surpresa de todos – e inclusive do próprio Severo – o gato não só aceitou seu colo como se aconchegou nele, claramente satisfeito e confortável.
Com um olhar convencido, Severo encaminhou-se para a lareira com o gato no colo, desaparecendo logo em seguida pelas chamas verdes.
...
– Parece que somos só nós dois... – sussurrou, vendo o gato se embolar no tapete – Você tem uma dona muito cabeça dura – continuou Severo, sentando-se na poltrona, recebendo um miado em concordância. – E eu sei, sou um completo idiota. – mas dessa vez, Bichento nem precisou concordar, bastou apenas aquele seu olhar de desagrado para Severo entender.
***
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