A sua cor

32 A escolha de Hermione


Notas iniciais
Que saudade disso aqui!!! Devo dizer que amo esse momento de escrever as notas iniciais, porque isso significa que estou prestes a postar um novo capítulo... Sei que demorei, mas ficou impossível me dedicar à estória estando apertada com o fim de período - e também porque passei um momento de completa seca criativa. Tudo o que escrevia saía absolutamente ruim, e de maneira alguma eu postaria algo assim para vocês. Então, me desculpem pela demora. Mas agora... Vamos ao capítulo! Sinto em desapontá-las, mas ainda não verão Severo e Hermione próximos. Sei o quanto isso pode ser frustrante, mas não podemos ignorar o contexto e esperar que eles se isolem no chalé - embora eu gostaria de escrever exatamente isso haha Mas mesmo sem o nosso casal contracenando juntos, o capítulo é importante. Beijos e boa leitura!

– Então, deixa eu ver se entendi – retomou Rony, franzindo as sobrancelhas ruivas – Estava com ele esse tempo todo?!

– Sim. – disse Hermione, pela terceira vez.

– E ele não nos entregou a espada porque queria descobrir o plano de Dumbledore antes?

– Sim... – Harry respondeu dessa vez, percebendo que Hermione estava começando a se irritar.

– E quando ele descobriu que só Harry poderia fazer isso, ele entregou a espada? — onde Rony estava querendo chegar com aquilo tudo afinal?

– Sim, Rony, sim! Qual é o seu ponto?

– Eu não tenho ponto! – exclamou ele na defensiva – Só estava retomando para ver se tinha entendido direito.

– E a que conclusão chegou? – perguntou a jovem, suspirando.

– Bom...

– Ronald, ele está do nosso lado. Qual a dúvida, ainda? – suspirou a jovem, impaciente.

– Não é isso, Mione. – começou ele – Não é sobre ele estar do nosso lado ou não, mas os motivos que levam ele a isso. – Hermione franziu a sobrancelha, no fundo já sabendo onde aquilo podia dar – Não posso chamar o Snape de herói sabendo que ele só está tentando se redimir seja lá do que, de qual besteira ele tenha feito no passado.

E Hermione entendeu; e sim, Rony estava certo. Quantas vezes Hermione não se reprimiu seguindo o mesmo pensamento?

– Mas hey, se antes era por redenção, agora eu sei que não é. – completou o ruivo, entendendo o silêncio da amiga.

– Você sabe? — as vezes o jovem grifinório ainda a surpreendia por ter seus momentos de perspicácia. Ela sabia que o amigo era esperto – muito, na verdade – mas era difícil levá-lo a sério quando ele mesmo insistia em ser tão relaxado.

– Hermione, por favor. Está claro que ele... bem, que ele gosta de você – explicou o menino Weasley, se contorcendo diante o próprio comentário. – Você sabe... é estranho. E não acredito que estou falando isso, mas vocês dois... sei lá, combinam.

Hermione precisou parar um momento para entender que Ron não a estava julgando ou cuspindo ofensas, nem fazendo comentários ferinos. Involuntariamente ela se viu olhando para Harry, como que para confirmar se ela não estava louca; e com um sorriso cúmplice e um balançar de ombros ele apenas completou o pensamento de Rony.

– Em que momento isso aconteceu? – ela perguntou, chocada.

– Hermione, entenda, eu não sei se poderia conviver com ele. E tenho certeza que ele definitivamente não quer isso. – explicou o menino-que-sobreviveu.

– O nosso ódio mútuo é quase uma questão de etiqueta. – explicou Ron, fazendo a castanha revirar os olhos.

– Quanta bobagem, Ronald! – o menino sabia como irritá-la.

– O que queremos dizer é que seríamos tolos em não perceber que ele está do nosso lado; mas isso não é suficiente para me fazer gostar dele. Ainda é estranho...

– Ainda é bizarro. – emendou o ruivo, levando um cutucão de Harry.

– Bom – suspirou a jovem – de qualquer maneira eu não sei se vou voltar. – sussurrou, mais para ela mesma que para os amigos.

– O que quer dizer com isso?

– Eu não sei! Eu-ele... nós dois... Não sei como pode funcionar. Ele faz de tudo para me afastar, mesmo gostando de mim. E nós tivemos momentos ótimos, e eu senti que pude quebrar várias barreiras da sua fortaleza. Mas por que ele continua me afastando?! – desabafou ela, finalmente olhando para os dois amigos que pareciam mais perdidos que o Longbottom na aula de poções.

– O que disse depois de ‘não sei como pode funcionar?’ – perguntou Rony, fazendo Harry conter um sorriso e Hermione levantar uma sobrancelha. – Como eu vou saber, Hermione? Você mesma disse que tenho a sensibilidade de uma colher de chá! – reclamou ele, fazendo-a sorrir finalmente. E o sorriso dela fez Rony relaxar, e o clima leve fez Harry soltar o riso contido.

Depois de minutos rindo sobre absolutamente nada, eles ficaram imersos num silêncio sufocante. Era como se sorrir viesse acompanhado de uma culpa inevitável. Eles simplesmente não se permitiam a felicidade plena quando tudo podia desmoronar.

– E o que faremos agora? – foi Rony quem quebrou a tensão.

– Nós temos algumas teorias, e agora que Hermione está aqui... – Harry parou para olhar a reação dela – Você está realmente aqui, Hermione?

A bruxa precisou de um momento. Não seria o mais inteligente a se fazer, definitivamente. Ficar era arriscado não só para ela, mas para o disfarce de Snape também. Só que os amigos pareciam tão... perdidos. Ela sabia que, no momento, eles precisavam mais da sua presença que Severo.

– Sim, estou... – a jovem odiou ter que escolher, mas decidiu que talvez esse tempo fosse necessário. Não bastava que Snape a amasse – embora isso fosse tudo o que ela mais implorava – mas que ele soubesse como lidar com isso. Lógica como era, Hermione sabia que amar de maneira errada poderia ser uma grande ruína. E ela já estava sofrendo muito para entregar ainda mais seu coração. E com mais convicção, ela completou – Sim, estou aqui agora.

***

– Onde está Hermione? – Lupin perguntou ao sair da lareira.

– Com aqueles dois cabeças ocas que ela chama de amigos. – revelou um Snape perdido.

– Você a deixou ir, então? – suspirou Lupin. – Entendo...

Silêncio.

– Os Weasleys te contaram, não é? Você veio aqui me julgar por tê-la deixado ir. Então, vá em frente. – ele disse, seco, mas sem o tom ferino habitual. Era como se Severo Snape estivesse sem forças.

– Bom, alguém certamente o chamará de idiota essa noite. Mas não será eu. – e quando ele disse isso, a lareira começou a expulsar pequenas chamas verdes.

– O que é isso? – perguntou Snape, finalmente olhando para cima.

– Minerva. – respondeu Lupin, dando de ombros.

– O que?! Você está louco? Eu não quero a Minerva aqui! Ela provavelmente vai falar na minha cabeça a noite toda! – e logo Snape estava de pé, ganhando um pouco da disposição até então perdida.

– Eu não pude evitar! – respondeu Remo, na retaguarda.

– Não pode evitar? – soltou ele, após uma risada seca. – Aposto meu último gole de firewhisky que foi essa sua língua intrometida que contou para aquela bruxa insuportável. – completou, avançando perigosamente para um Lupin irritantemente calmo.

– Isso não importa agora, porque ela já está aqui. E está impaciente para entrar. Só... acabe com isso de uma vez. Converse com ela.

E muito contra a sua vontade, as chamas revelaram uma mulher visivelmente irritada, de olhos expressivos brilhando por trás dos óculos e um pé irrequieto batendo sucessivas vezes no chão de madeira.

– Deixe-nos a sós, Lupin.

– Mas... – tentou rebater ele, recebendo um olhar incisivo em resposta. – Claro. – e resignado, caminhou de volta até a lareira e sumiu entre as chamas, mas não sem antes lançar um olhar penalizado a um Snape furioso.

– O que você quer Minerva?

– Por que você faz isso, Severo? Por que você afasta as coisas boas da sua vida? – ele ia falar alguma coisa maldosa em resposta, mas o ‘Shiu’ prolongado de McGonagall o fez calar. – Foi uma pergunta retórica. Pelos céus, Snape, olha pra você! Está horrível... e o que é isso? Isso é álcool? – perguntou torcendo o nariz.

– Minerva, aprecio a sua preocupação. Mas a qualquer momento o Lorde das Trevas pode me chamar e eu preciso estar apresentável. Então... – e esperando que Minerva percebesse a deixa quando ele pegou a varinha para se ajeitar magicamente, ela falou cheia de si.

– Não é de um feitiço que precisa, é de Hermione! Merlin sabe como fui contra esse casamento. Um despropósito sem tamanho era o que eu achava dessa ideia descabida de Dumbledore. – e sua voz vacilou um pouco ao pronunciar o nome do amigo, bem como o olhar de Snape perdeu o foco por alguns segundos. E balançando a cabeça como num tique nervoso, ela continuou – Mas tudo mudou quando vi vocês dois no dia da cerimônia. Estava tão irritada na ocasião... Só que não parecia que aquilo era forçado. Parecia muito certo...

Visivelmente incomodado com toda aquela discussão íntima, Snape se remexeu um pouco, dividindo o peso de um pé a outro. O olhar de Minerva era uma mistura de melancolia e... culpa? Preocupação? Isso tudo soava muito improvável para Severo.

– Não vou pedir desculpas por todas as minhas desconfianças, já que elas foram muito bem fundamentadas durante todos esses anos. Você passa bem longe da inocência. Mas espero ajudar daqui pra frente. Quero vê-los felizes, Severo. E quando eu digo isso, perceba, incluo você.

Dizer que Snape estava surpreso não seria suficiente; a relação com Minerva nunca havia passado do limite profissional e das formalidades diárias. A verdade é que a professora sempre teve suas desconfianças em relação ao bruxo sisudo, e a única coisa que realmente compartilhavam era o fato de silenciarem uma sala de aula só com o olhar.

– É muito improvável que eu sobreviva, Minerva. Não posso fazer isso com ela. – declarou quase num sussurro, como se doesse demais só pensar em Hermione.

– Mas pode fazê-la sofrer como agora? Por favor, Snape, não me irrite mais do que o necessário. A senhorita Granger é extremamente capaz de lidar com o seu gênio arrogante, como ela tem feito muito bem nesses últimos meses de convivência constante. Jovem, bela, inteligente, decidida...

– Velho, péssima aparência, rancoroso e grosseiro? Realmente, Minerva, fomos feitos um para o outro. – satirizou ele, fazendo a professora semicerrar os olhos em desagrado.

– Não seja dramático, Severo. Não suporto auto piedade. – e com um aceno rápido, os copos e xícaras levitaram diretamente para a cozinha, fazendo a mente de Severo girar com as lembranças.

– Hermione fazia isso... – pronunciou para ninguém em específico.

– Severo, posso perguntar uma coisa? – e ele arqueou a sobrancelha, como se dissesse: ‘Eu não queria que estivesse aqui e isso não a impediu de entrar!’ – O que você mais gosta nela?

E o que ele poderia responder? Ele gostava de tudo, basicamente. Os cabelos, nossa, os cabelos! Eram definitivamente a parte favorita de Severo; revoltos como sua personalidade. Mas também aquela gargalhada que preenchia e ecoava em todo o chalé, recheando todos os seus vazios. E a irritante mania em interrompê-lo sempre que possível? Sim, isso também era adorável.

Mas Snape sabia que não eram só esses detalhes. Era muito mais profundo que citar tudo o que ele amava – ou odiava amar – nela.

– Eu sou tão pouco, Minerva. Mas ela acredita em mim. E eu acabei tentando acreditar também. Ela me faz forte, ela não me culpa, ela não me traz angustia ou tristeza. – e nos olhos esperançosos de Minerva ele ignorou o constrangimento e tratou de continuar – Hermione me faz bem... – ‘me faz feliz, e eu a amo mais do que a mim mesmo’, era o que ficou na ponta da língua esperando para ser dito.

– Mas...

– Não posso perdê-la, Minerva. Mas não quero fazê-la infeliz.

– E quem disse que vai? — E ele apenas a olhou, bufando, como se dissesse: ‘Olha pra mim!’. – É difícil fazer alguma coisa entrar nessa sua cabeça dura!

– Minerva, vai embora, sim? Eu realmente preciso me preparar.

– Tudo bem, eu vou. Mas antes preciso saber como eles estão...

– Estão bem. É só o que posso dizer. – antecipou ele, prevendo que Minerva o bombardearia de perguntas.

– E o que eles farão agora?

– Eu realmente não sei, já que Dumbledore me deixou de fora do plano. Mas certamente Hermione sabe o próximo passo. E eu estarei lá para protegê-los se é o que quer saber. – e num assentimento mudo, Minerva despediu-se com um olhar materno pairando sobre o homem cabisbaixo.

Seguro de que ninguém mais o perturbaria, Snape permitiu-se entregar a angustia e raiva contida, que foram traduzidos em vômitos ininterruptos. Há muito Snape decidiu que não choraria, que não derramaria lágrimas, então era provável que seu corpo não mais reconhecesse o hábito natural de extravasar pelos olhos. Mas os espasmos mostravam que ninguém poderia ficar imune ao sofrimento e à inevitável vontade do corpo de transbordar aquilo que sufoca.

***

– Você o que?! – perguntaram os dois meninos em uníssono.

– Isso mesmo que ouviram – respondeu impaciente – quero ir vê-lo. E antes que eles fizessem alguma outra pergunta, Hermione continuou – Tudo gira em torno dessa marca! E quando vocês me contaram que ela estava no túmulo, em Godric’s Hallow, bem... só fez mais sentido. Ou melhor, não faz sentido, mas tenho certeza que quer dizer alguma coisa.

– Você acha seguro? – perguntou o jovem por trás dos óculos.

– Harry, nada é seguro. Mas nós temos que ir para algum lugar, certo? – e sob o olhar nada convencido de Harry, ela prosseguiu – Nem mesmo Snape conseguiu ver ligação nos contos infantis de Dumbledore. Todos nós estamos completamente perdidos, e precisamos nos agarrar a qualquer possibilidade! – intensificou a jovem, certa de sua teoria.

– Hermione está certa, Harry. Nós temos que tentar...

E numa concordância quieta, o trio de Ouro rumou para a próxima fonte de esperança, desejando que a sorte estivesse com eles e as provas aleatórias realmente fizessem algum sentido.

...

Enquanto os dois amigos subiam a colina, deixando uma Hermione ofegante para trás, ela aproveitou a chance para finalmente pensar em tudo o que tinha acontecido em tão pouco tempo. Horas atrás e ela estava comemorando o Natal – sim, comemorando – com seu marido. Estavam rindo e discutindo hipóteses da guerra, poções, feitiços; estavam criando uma dimensão para que pelo menos aquela noite fosse perfeita. E ela tinha sido de qualquer maneira.

E então, o patrono. ‘Merlin’, ela praguejou, parecendo finalmente se dar conta de que, por céus, ele a amava! E não havia como negar isso, já que agora seus patronos tinham a mesma forma. E o que ela estava fazendo? Por que ela não tinha voltado imediatamente para os braços dele? ‘Sua bendita mente lógica, Hermione!’, repreendeu-se. E de repente os olhos começaram a arder, no mesmo momento em que a garganta parecia querer se fechar. Sua vontade era de fazer todo o caminho de volta e correr para os braços dele. ‘Vai ser arriscado aparatar, mas a Toca não está muito longe’, maquinou ela, ‘vai ser estranho aparecer e pedir para usar a lareira deles?’.

– É aqui! – gritou Rony, empolgado, fazendo Hermione sair dos pensamentos desesperados para alcançar os dois amigos.

– Sim, definitivamente, é aqui. – brincou Harry, permitindo-se um sorriso enquanto olhava para a casa peculiar.

Os três pareciam igualmente nervosos com a ideia de bater na casa de alguém que só haviam visto uma única vez para pedir ajuda. Mas o que poderia ser feito? E para o desagrado do trio, a porta de entrada surgiu mais rápido do que poderiam imaginar, e segundos mais tarde um homem ainda mais esquisito que todo o conjunto irrompeu à entrada.

– Senhor Lovegood? – tentou Harry, com a voz hesitante – Precisamos de ajuda.

***