A sua cor

33 Relíquias da Morte


Notas iniciais
Enjoy!

– Harry, eu não acho que isso tenha alguma relação! – soltou ela, mais estridente que o normal.

– Não?! Então, Dumbledore te dá um livro que conta a história das Relíquias da Morte; depois, o símbolo aparece em todos os lugares, principalmente e mais surpreendente, no nome dele! A Capa da Invisibilidade é minha e eu acabo de descobrir que a Pedra da Ressurreição esteve comigo o tempo todo, bem aqui dentro do pomo! – gritou ele de volta – E você diz que isso não tem nada a ver?

– Não, não tem! – retrucou ela, cruzando os braços sobre o peito enquanto Potter bufava, nervoso.

– Você seguiu a sua intuição quando foi atrás do Snape... – provocou o bruxo, sabendo o ponto que queria atingir e ganhando o olhar irritado de Hermione.

– Eu não segui a minha intuição – torceu o nariz ante a palavra – segui a lógica!

– Ah é?! E qual lógica? A mesma que indicava que ele não era nada menos que um assassino?! Admite, Hermione! Pare de ser tão cética!

– Harry... – repreendeu Rony, ao mesmo tempo em que Hermione exclamou um sonoro “Eu não sou assim!”.

– É sim! Por isso tem medo de se entregar, especialmente agora que sabe que ele te ama.

– Para com isso, Harry! – e as lágrimas já embaçavam seus olhos – Você não sabe o que está dizendo! – soluçou – E o que isso tem a ver, afinal?!

– Não sei, diga você! – e sabendo que tinha extrapolado ao ver a amiga com o rosto inchado de tanto chorar, ele parou para respirar, tentando recuperar a paciência – O que há demais em acreditar na sua intuição as vezes? – falou mais suave – E também, não é como se tivéssemos opções mais tangíveis, não acha?

Quando a discussão parecia encerrada, e os três não tinham mais o que falar um para o outro, Hermione rumou barraca adentro. Ela não sabia o que a deixava com mais raiva: ter que admitir que Harry estava certo ou que ela havia, de fato, seguido a sua intuição ao aceitar ajudar Snape. Se fosse apenas pela lógica, não teria sido suficiente largar tudo para cometer a loucura de viver com ele, de casar com ele.

Não, Harry estava certo. Ela tinha medo. Medo de admitir tanto amor e de ser finalmente amada por Severo. Irônico, não? Mas é que tudo em Snape a fazia fugir do controle, tudo nele exalava mistério e intensidade e paixão. Tudo nela simplesmente aflorava. E ela tinha medo; de não saber lidar com tanto, com tudo, com o que transbordava. De repente a menina não lhe cabia mais, e ela que sempre se achou tão madura sentiu-se tão incongruente!

‘Droga!’, exclamou para si mesma. E agora não dava para simplesmente abandonar os dois amigos e voltar para Severo. O que ela diria? Tanto para eles quanto para ele?

– Hermione... – sussurrou o menino-que-sobreviveu, fazendo-a levantar o olhar – Me desculpe, eu não deveria ter tocado no assunto ‘Snape’ e...

– E eu deveria confiar mais em você... – interrompeu ela, fazendo-o soltar os ombros.

– Você não consegue se livrar do hábito, não é? – soltou ele, ensaiando um meio sorriso.

– Céus, não! – revidou, rindo sonoramente.

No fim das contas, Harry Potter estava lidando muito bem com toda a situação; especialmente considerando o fato de que ele era a única esperança do mundo bruxo, sabendo que ele era aquela linha tênue entre a paz e a destruição completa e, principalmente, tendo a noção de que muitos se perderiam nesse caminho.

E a todo instante em que Hermione olhava para os olhos do amigo, a conversa de Snape inevitavelmente lhe vinha à cabeça, e a garganta se fechava como quem recebe uma azaração. Tudo estava tão errado!

– Você sente falta dele? – perguntou, sentando ao lado dela na cama improvisada. Hermione limitou a confirmação apenas com um aceno de cabeça. – Que Ron não escute isso, mas eu também sinto muita falta da Gina. – e por trás dos óculos seu olhar era tão intenso e carregado que Hermione podia sentir as emoções fluindo – Às vezes eu só queria que aquelas tardes em Hogwarts voltassem, que eu e ela pudéssemos ficar juntos sem nos preocupar com nada... – Hermione pensou que era o momento de falar alguma coisa com aquela abertura do amigo, mas logo percebeu que era o momento dele de desabafo – Quando nós fomos à casa da Luna, senti que estava tão perto dela, da Toca... Mas ao mesmo tempo era tão... distante.

Hermione viu o amigo caminhar para direções obscuras a medida que seu rosto ia se fechando. ‘Não, Harry... não vá por aí’, pensou ela, imaginando o que falar para tirar a conversa daquele rumo sombrio.

– O que mais você gosta nela? – foi uma pergunta aleatória, ela sabia, mas era uma maneira do amigo fugir dos ressentimentos.

– Gosto do jeito decidido dela; e de como ela não se abate nunca, sempre com aquele sorriso... É quase como se dissesse ‘não liga pra isso, nós vamos dar um jeito’. – o sorriso que ele abriu com a lembrança distante foi leve, nunca antes visto pela amiga – Ela me transmite segurança e conforto e, bem... ela é linda. – e com a expressão corada dele, Hermione aproveitou para pilheriar, recebendo um olhar ainda mais tímido por parte do amigo – Mas e você, o que viu nele? – cortou o assunto, balançando a cabeça para expulsar os pensamentos – Por favor não fale que foi a beleza...

– Harry! Não fala assim, está parecendo o Rony!

– Desculpa! – fingiu – Só estava tentando imaginar o porquê... – deu de ombros – Eu e o Rony estávamos criando algumas teorias ontem...

– Ah claro – compreendeu a amiga, lutando para não deixar o sorriso sair – E isso não é realmente da conta de vocês...

– Ah vamos, diga um motivo! – e Hermione decidiu brincar com ele.

– Tudo bem... Vejamos, adoro o cheiro do perfume dele.

– Argh! Hermione!

– E o nariz, então, é bem charmoso... – continuou, ignorando as caras e bocas de Harry.

– Ok, ok! Já entendi! Não pergunto de novo... – cortou ele, levantando-se.

– Mas logo agora que eu ia falar do beijo?! – mas ele já estava do lado de fora da barraca, provavelmente fingindo ânsias de vômito.

A jovem balançou a cabeça para o pequeno momento pueril, como se dentro dela houvesse espaço para sensações leves. Não havia. Tampouco para Harry e Ron, ou para todo o mundo bruxo.

Mas a pergunta ‘O que você gosta nele?’ a prendeu. O que ela gostava mesmo? Bem, ele era Severo Snape. Precisava de mais? O que Hermione mais gostava nele era simplesmente o fato de ser ele. Bastava. Era (mais que) suficiente.

E pensando em Severo, a vontade louca de ter notícias a assaltou. Certificando-se de que os amigos estavam entretidos, ela tateou a bolsinha que deixara com eles no dia do casamento e buscou pelo retrato. Ela precisava saber dele, falar com ele.

Depois de muitos minutos procurando em vão, ela sussurrou um ‘Accio’, mas o desespero a abateu quando nenhum objeto emergiu da bolsinha. Após várias tentativas frustradas, Hermione respirou fundo e disse a si mesma que os meninos deveriam ter escondido em algum lugar seguro.

– Hermione, está tudo bem? – perguntou o ruivo, assustado com a pálida expressão dela.

– Sim, está. Eu só – hesitou – bem, o retrato de Fineus está com algum de vocês?

– Deve estar na bolsa... – respondeu Harry, dando de ombros e voltando a atenção para aquecer as mãos geladas.

– Não, não está. – e o tremor na voz dela fez Potter finalmente encará-la, não notando até então que Rony estava muito calado. – Esse espelho não pode sumir. Não pode! – enfatizou ela.

– Calma, Hermione, nós vamos encontrá-lo... – reconfortou ele.

– Você não entende, Harry. Ele é o único meio que temos para pedir ajuda. O ÚNICO! – e levemente histérica, ela começou a andar em círculos, como se assim o pensamento fruísse melhor.

– Acho que o perdemos. – soltou uma voz isolada, tão baixa que Hermione precisou entender que não era só fruto de sua imaginação.

– O que disse?

– Acho que o perdemos, Hermione. Eu sinto muito. – continuou Rony, com a voz ainda mais baixa.

– Ron, como assim? O que você fez?

Rony olhou de Harry para Hermione, e sob o olhar furioso da amiga ele se retraiu.

– Enquanto estavam dormindo eu tentei convencer àquele idiota do Fineus a falar alguma coisa sobre Hogwarts... Perguntar se os alunos haviam sido liberados para o feriado e, claro, tentar arrancar alguma coisa sobre Gina. Acabei me distraindo depois que decidimos ir até o Srº Lovengood, e devo ter perdido.

‘Então é por isso!’, gritou Hemione mentalmente. Era por isso que Severo não os ajudou a fugir dos comensais que os atacaram logo de manhã, ele não sabia onde estavam indo.

– E agora? – a pergunta não foi para nenhum dos amigos, mas mesmo assim eles se viram obrigados a responder alguma coisa.

– E agora que nós vamos nos virar... – soltou Harry, exalando uma confiança sincera que ela não via há bastante tempo.

Mas não era só isso. E se ele pensasse que ela não o queria mais? E se ele pensasse que algo havia acontecido? Hermione temeu que antes da racionalidade pudesse vir a loucura, e ela teve que engolir a secura repentina em sua garganta.

– Hermione, me descul...

– Você não poderia ter perguntado pra mim, Ronald?! – estourou ela – Merlin! Quantas malditas vezes vou ter que dizer que Severo está do nosso lado? E que ele está cuidando de Hogwarts?! De todo nós, tenha certeza que Gina é a mais segura!

– E você não liga, não é mesmo? Aposto que queria o retrato para mandar algum recado para ele! Então porque não volta de uma vez? Não é com ele que quer estar?!

– Ron... – interveio Harry.

– Deixa, Harry! Deixa ele falar! Aposto que estava segurando isso! Então fala, Ronald!

– Tudo bem. Acho isso tudo um absurdo! É horrível imaginar você com ele, Hermione, é simplesmente estranho. Ele é o Snape, droga!

Hermione tremia de raiva. O modo como Rony falava de Snape lhe enojava.

– Hermione! – Harry gritou, mas já era tarde demais. Em poucos segundos o punho fechado dela já atingia o rosto do ruivo com toda vontade, com todo ódio – um ódio não necessariamente direcionado a Rony, mas ele tinha sido a gota d’água.

– Mas que droga, Hermione! – exclamou ele, passando a mão pela bochecha ardida.

– Isso, Ronald – disse ela, com o dedo em riste – é pra você se lembrar de que, se quiser continuar meu amigo, vai ter que aprender a conviver com o fato de que estou com Severo. – enfatizou – E isso vale pra você também, Harry. – compreendeu, fazendo Harry concordar enfaticamente – Não estou pedindo para gostarem dele, mas para serem no mínimo agradáveis. – ela ia se virar para sair, mas acrescentou uma última coisa – E eu não ia embora. Não poderia deixá-los... Eu só queria ter a chance de dizer isso a ele.

Certificando de Hermione não mais poderia escutá-los, Rony murmurou – ainda deitado no chão da floresta: — Ela realmente gosta dele, então...

– Eu disse a você – suspirou o amigo – E você tem que pedir desculpas ela.

– Desculpas? Se eu entrar lá agora ela me mata!

– Ron, é sério. Não podemos nos arriscar brigando, e eu não quero que Hermione tenha que escolher entre os amigos e o... – Ron focou o amigo, claramente curioso pela palavra que ele usaria para descrever a relação de Hermione e Snape – você sabe!

– Não, não sei. – retrucou ele – Marido, noivo, namorado? É estranho, você sabe que é.

– Isso não importa. Só importa o fato de que precisamos apoiá-la. – e então era o Harry Potter sério e sombrio dos últimos tempos que estava ali falando com o amigo, e Rony percebeu de súbito como havia agido de maneira idiota.

– Vou conversar com ela... – ele disse, resignado, enquanto aceitava a mão do amigo para levantar – mas não agora. – completou, ganhando um quase imperceptível sorriso de Harry.

***