A sua cor
28 Distância
Notas iniciais
– Já faz uma semana, Molly. E até agora nada de cartas. – disse a jovem, entrelaçando os dedos de maneira nervosa. – Não sei onde estão as pessoas mais importantes da minha vida – fungou, limpando uma lágrima com as costas das mãos – Não sei onde estão meus pais, Harry, Rony e... Severo.
Hermione não queria tocar no assunto ‘Rony’ com Molly, pois sabia que seria cutucar uma ferida muito grande. Não saber onde estava o filho e tendo plena noção de que ele estava correndo riscos era, no mínimo, doloroso. Mas a jovem castanha estava em posição de igualdade com a bruxa, já que ambas compartilhavam da dor de não saber o que estava acontecendo ou onde estavam seus amados.
– Eu repito a mim mesma todos os dias que Rony está bem, pois ele tem o Harry. E um está cuidando do outro, assim como seus pais. – respondeu uma chorosa Molly.
– Mas e Severo? Ele não tem ninguém. – e então a Senhora Weasley parou, entendendo o motivo mais forte da angústia da menina.
– Ele tem você, minha querida. – disse suave, naquele tom materno, enquanto limpava a lágrima que escorria.
– Mas eu não estou com ele agora... Do que adianta?! – mas antes que Molly pudesse responder, uma ave negra entrou pela janela da cozinha, pousando graciosamente sobre as costas da cadeira torta na ponta da mesa. Imponente e com movimentos calculados, a ave colocou a carta cuidadosamente na mesa enquanto olhava para Hermione, e tão leve quanto entrou ela saiu, fazendo a menina acordar do transe e pegar a carta imediatamente.
Embora e Senhora Weasley fosse um tanto quanto curiosa, decidiu que era melhor deixar a castanha lendo sozinha, já que bem lembrava como era inconveniente ler as cartas de Arthur, nos tempos de noivado, com a família a tiracolo.
Sozinha, os dedos trêmulos da bruxa tatearam a abertura da carta, revelando a letra que ela tanto apreciava.
Hermione,
Os dias têm sido conturbados, e a missão designada por Alvo tem encontrado muitos empecilhos. Não posso entrar em detalhes, é perigoso; mas quero que saiba que estou bem.
Preciso que prepare algumas poções, e creio que a Senhora Weasley não se importará em improvisar uma sala. – não seja tão sabe-tudo para perguntar o motivo de prepará-las.
Se quiser responder a esta carta, Hermes estará esperando até a meia noite nos arredores d’Toca. Não prometo respondê-la temprano, mas prometo ler assim que a carta for entregue.
Não faça nenhuma bobagem,
P.s.: Não pique; amasse.
P.s.2: Não seja teimosa e siga minhas instruções.
Hermione bufou com a carta em tom professoral de Severo, embora notasse resquícios de informalidade nela. Era uma carta para ser lida nas entrelinhas; na verdade, Severo era um homem para ser interpretado nas entrelinhas. Embora não houvesse nenhuma menção pessoal ou sentimental, ela sabia que o fato de Severo ter mencionado ‘sabe-tudo’ e dizer ‘assim que a carta for entregue’ era muito, o suficiente para ela sorrir abertamente. E sem esperar mais um minuto, começou a escrever a resposta.
Severo,
Controlarei meu ímpeto de ‘sabe-tudo’ e não perguntarei sobre a missão – por enquanto. No momento, só quero saber se está bem.
Hermione queria muito perguntar, queria muito saber. Mas seu ímpeto de sabe-tudo – incrivelmente – não superava sua preocupação com o homem, muito menos a vontade de fazê-lo sentir-se melhor. Decidiu que os momentos em que entrariam em contato um com o outro seriam apenas para lhe reconfortar, e prometeu a si mesma deixar as cartas com o tom mais leve que conseguia. Teriam muito tempo para falar sobre a guerra.
Começarei a fazer as poções assim que entregar a carta para Hermes. A propósito, é uma coruja bastante austera, e quase não parece com você. Quase.
Quanto a seguir as instruções, eu sempre as sigo. Só gosto de perguntar. E você, por ser muito rabugento, se recusa a responder.
Ela queria escrever mais, perguntar, dizer que queria ajudá-lo. Contudo, poderia estressá-lo ainda mais.
Parece bobo, mas sinto falta do seu mau-humor; de recolher suas xícaras – e não mais copos de whisky de fogo – de cima da mesinha central; de ter você por perto. Sinto sua falta. Entendo que não possa me responder sempre, mas não deixe de manter contato. Pelo bem da minha sanidade... e do meu coração.
Com carinho,
Hermione.
***
Snape queria respondê-la imediatamente, dizer que sentia sua falta também, que gostaria de fugir com ela e esquecer toda a guerra. Mas ele não largaria tudo, tampouco Hermione. E por isso escreveu várias cartas, pensando apenas no momento em que poderia entregá-las a jovem mulher que dominara todos os seus pensamentos.
Todas as vezes que a tensão o consumia, ou que o ódio e amargura o dominavam, ele sentava e escrevia para Hermione, mesmo que não pudesse enviar. Era uma forma de senti-la mais próximo e de não sentir-se sozinho. ‘Será que era isso que Dumbledore tinha em mente, afinal?’, pensou o bruxo. ‘Velho manipulador!’, mas seu tom não era repulsivo, ao contrário, era divertido. Pela primeira vez Snape não se importou em ser manipulado.
...
Somente duas semanas depois Hermione recebeu outra carta, e já era quase Natal. Era sufocante a falta que ele fazia, e a jovem jamais imaginou que podia sentir algo assim. As poções a distraiam, mas de minuto a minuto ela olhava para a janela, na esperança de ver a ave negra pousando com uma carta no bico.
O clima n’Toca era triste. Triste e silencioso; algo que Hermione jamais esperou presenciar vindo dos Weasley. Molly se esforçava, mas o medo estava estampado em seu rosto. E toda vez em que ela mencionava Rony ou Harry, seus pensamentos subitamente iam para a conversa com Severo na praia. Mas antes que pudesse começar a chorar novamente, a ave negra pousou na janela com a mesma postura graciosa, fazendo Hermione tropeçar em todas os móveis até chegar nela para pegar a carta.
A letra fina a fez suspirar de alívio, sentimento há muito esquecido por ela. Até quando isso ia durar?
Hermione,
Ainda não posso falar com certeza sobre a minha volta, mas creio não demorar mais que três semanas. Saiba que seus amigos estão bem, apesar de terem se desentendido um pouco. Eles custaram a lembrar o que você disse a eles sobre não ficar tanto tempo próximo a horcruxe e isso acabou os afetando de alguma forma. Deplorável o quão oca são as suas cabeças. Sinceramente, como os aguentou todo esse tempo?
‘Idiota’, bufou Hermione, rindo.
Não vou perguntar como você está, pois já imagino que os ingredientes provavelmente têm sofrido com suas mãos nervosas; assim como a Senhora Weasley, que não deve estar mais aguentando sua voz estridente. Mas espero vê-la em breve – não por você, claro, mas pelo chá de erva doce.
***
SNAPE
‘Também sinto a sua falta’ era o que eu queria ter escrito ao final da carta, mas era muito difícil admitir isso. Não estava suportando ficar longe dela; e ao mesmo tempo que deseja vê-la, temia pelo dia em que a reencontraria, pois não sabia se conseguiria me controlar.
A missão estava em parte concluída, mas não necessitava mais ficar longe de casa – sim, era como eu gostava de me referir ao chalé – o que significava que já era seguro para Hermione voltar. E só com esse pensamento meu coração se expandiu, como se ele estivesse batendo depois de muito tempo.
Tentando deixar de lado a imagem de Hermione comecei a escrever a carta, dizendo que em menos de uma semana ela poderia voltar segura para o chalé. As frases eram curtas e diretas, mas nas minhas entrelinhas estavam carregadas de vontade. Vontade de amá-la.
***
HERMIONE
– Molly! – gritei, fazendo a Senhora Weasley sair em disparada pela casa.
– O que foi, Hermione? – perguntou assustada, com o pânico transbordando ao me olhar. Repreendi-me mentalmente por tê-la assustado; não era assim que se chamava uma pessoa em meio à guerra e cujo filho estava sabe-se lá onde, atrás de partes da alma de um assassino.
– Desculpe... É só que, bem... eu vou poder voltar para casa. – disse, calmamente, apontando para a carta em minha mão.
– Oh... – foi o que ela disse enquanto descansava no batente na porta.
– Sinto muito... – continuei, me aproximando, sem conseguir conter o sorriso.
– Tudo bem, querida, pode sorrir... Alguma de nós merece uma boa notícia, não? – e em meio a lágrimas nos abraçamos. Pela primeira vez me permiti sentir esperança, e acho que passei um pouco desse sentimento para Molly, pois ela ficou tão feliz com a notícia quanto eu. Ela não sabia como, mas sabia que Severo estava cuidando de Harry e Rony. E consequentemente era como se ele cuidasse de todos.
Não nego que os motivos que motivaram Snape a servir de espião duplo foram um tanto quanto egoístas, mas sentia que por mais que ele se autodeclarasse culpado por tudo, havia mais que um simples desejo de reparação. Eu simplesmente sabia que ele tinha total capacidade de amar de verdade, como eu me descobri amando-o.
...
E assim, depois de noites mal dormidas e poções destruídas pela ansiedade, dia 24 de dezembro chegou, e com ele a chance de voltar para casa. Como Severo havia dito na carta, não seria necessário que ele me buscasse, e eu poderia aparatar sozinha tranquilamente.
A pedido de Molly, esperei Gina chegar em casa para o feriado. Confesso que precisava mesmo conversar com ela, ficar a par de toda a situação em Hogwarts. Infelizmente, as coisas eram sombrias por lá; os alunos estavam vivendo sob vigilância constante, e eram ameaçados de castigos cruéis o tempo todo.
– Mas Gina! Porque tentou roubar a espada? Não pensou que ela era falsa? E o Snape, não confia nele?
– Sim, confio! Mas eu estava desesperada... – revelou ela – me sentindo inútil por não ajudar o Harry. Sei que foi tolo, mas eu precisava arriscar. Não foi por não confiar no professor Snape, eu só...
– Eu sei. – completei. E eu sabia mesmo; sabia o que era se sentir inútil e querer desesperadamente ajudar.
Conversamos por horas sobre tudo: Hogwarts, Harry, Rony, a guerra e, claro, Snape. Gina não perdeu uma única oportunidade de alfinetar sobre o quanto ela estava certa sobre nós dois e sobre como eu fui tola em negar.
– E tenha paciência – aconselhou ela quando mencionei o quanto Snape era cabeça dura – e isso eu falo com propriedade. Veja o Harry! Eu o amo, mas tenho vontade de azará-lo na maior parte do tempo! – e rimos. Era tão bom conversar com ela! Fazia tudo soar um pouco normal... Como se não estivéssemos em guerra, como se eu não estivesse casada, como se fosse um menino qualquer e não o nosso ex professor de poções o assunto principal.
– E o beijo dele? – perguntou, aproximando-se com os olhos claros brilhando em expectativa.
– Gina, nem pense... nem sequer cogite perguntar sobre isso! – respondi, sentindo as bochechas arderem.
– Por favor, Hermione, não seja boba!
– Não! – enfatizei, caminhando em direção a porta.
– Ok, ok! Não precisa ir embora, não pergunto mais. Juro! – implorou ela, me fazendo rir.
– Eu realmente preciso ir... Preciso vê-lo, saber se está bem. – declarei, e ela rapidamente entendeu.
– Tudo bem... – e compreensiva, me abraçou – Feliz Natal!
– Feliz Natal, Gina. – devolvi, olhando pra ela e querendo dizer que tudo ficaria bem. As vezes ela me irritava por ser tão durona. – Ano que vem estaremos comemorando um Natal em paz.
– Sim... – vacilou – nós vamos.
E piscando infinitas vezes para não revelar as lágrimas ela caminhou pelo quarto, murmurando alguma coisa sobre presentes.
– Como conseguiu comprar presentes, Gina? – perguntei curiosa.
– Eu não comprei... Só fiz alguns ajustes. – disse, dando de ombros. – Mas não abra agora! E tem um para o professor Snape também, em meu nome e da minha mãe. Na verdade... os dois são meio que para ele – a última frase não foi mais que um sussurro malicioso que eu preferi ignorar. Um erro, claro. Gina não era para se ignorar.
– Obrigada, Gina. Mas eu não tenho nada para dar em troca...
– Bobagem! – ela me cortou – Sei que ficou todo esse tempo preparando poções e fazendo o presente do professor Snape.
– O que?? Co-como você-Ginevra Weasley! Como você sabe?
– Mamãe me contou! – eu já deveria ter imaginado. Eu havia sido tão aberta assim?! – Não a culpe, ela está feliz que vocês dois estão se dando bem. Isso facilita as coisas...
– Ou não. – revelei angustiada. Facilitava, sim, se a pessoa correspondia. Agora, se era unilateral... Só complicava tudo.
***
Fale com o autor