A sua cor
29 24 de dezembro
Notas iniciais
HERMIONE
Quanto mais eu me aproximava, mais estonteada ficava. Não era bem uma casa, era mais um chalé. Rústico, no meio das árvores e das rochas. Era lindo.
Lembrei-me da primeira vez que vi meu novo lar ao desaparatar. Estava com tanto medo naquela ocasião... E então pareceu tão certo voltar! Não me imaginava voltar para outro lugar que não aquele; a casa de meus pais e Hogwarts sempre seriam o meu lar, assim com a Toca, mas morar naquele chalé era diferente. É como se ali a versão mais madura de mim tivesse espaço; e eu não me sentia repreendida perto de Severo. Eu só me sentia em casa.
Esperava que ele já estivesse no chalé quando eu chegasse, mas o silêncio me mostrou que estava errada – não que fosse diferente se Severo estivesse, de qualquer maneira; mas eu simplesmente saberia.
Soltei Bichento que já miava aflito e caminhei pelos corredores da casa absorvendo cada detalhe que eu tanto me surpreendi sentindo falta: a madeira, os livros, o cheiro de maresia nos fundos da casa e de orvalho logo na entrada. Mas a parte em que mais sentia falta era a sala; havia passado por ela tão rapidamente na ânsia de procurá-lo que nem me dei conta do bilhete que jazia logo abaixo de uma xícara de chá – o que indicava que Snape havia estado ali. Só a ideia de saber que há pouco havíamos compartilhado o mesmo espaço me causava calafrios... O quão tola eu poderia ser?
Hermione,
Planejei estar aqui quando chegasse, mas fui chamado.
Não se preocupe em ficar sozinha; está segura.
Estremeci com o bilhete. ‘Mas fui chamado’ ficava ecoando na minha cabeça enquanto cenas aleatórias perpassavam pelo meu imaginário. Decidi então que precisava me distrair, e só enfim me dei conta dos presentes de Gina – e o motivo dela ter nos presenteado. Era véspera de Natal... E eu estava sozinha.
– Se não me distrair, vou enlouquecer. – murmurei para o vazio. Por isso tive a ideia de enfeitar a sala. Estúpido, eu sei. Pensar em luzes de Natal quando tudo estava de cabeça para baixo. Mas o que eu podia fazer, afinal?
...
E assim passaram-se as horas; decoração pronta, banho tomado, poções organizadas no laboratório, chá fresco, e nada de Severo.
– Eu já deveria estar acostumada. – murmurei para Bichento, que lentamente se enrolava em frente a lareira. E adormeci.
***
SNAPE
Balancei a cabeça em negação quando entrei no chalé, e não sei se mais pela árvore no canto da sala ou pelo amontoada de pelos laranja que dormia em frente a lareira, alheio à minha presença. Lembro-me de ter questionado internamente o que estava acontecendo comigo, mas os pensamentos morreram quando vi Hermione adormecida. ‘É por ela’, sussurrei, perdendo-me ao olhá-la. Meus nervos me traíram quando a mudança de posição revelou parte da perna acima do joelho; a pele clara contrastando com as luzes de Natal davam um tom ainda mais íntimo aquilo tudo. E era delicioso.
– Que se dane! – falei, fazendo o gato saltar da posição confortável. E sem pensar duas vezes toquei o braço de Hermione, sussurrando para ela acordar.
– Severo? – murmurou, ainda sonolenta – Aconteceu alguma coisa?
– Sim, aconteceu. – sussurrei de volta, fazendo-a acordar de vez. – Você não pode passar a noite de Natal dormindo.
O olhar furioso que ela me lançou quase me fez arrepender da pequena brincadeira. Quase.
– Não faz mais isso! Quer me matar de susto?! – ela estava furiosa, e eu só consegui soltar um pequeno riso diante o ataque de fúria dela.
– Eu sabia que você podia sorrir... – ela disse com a voz doce, me fazendo parar para olhá-la. – Você está finalmente aqui?! – perguntou, com aqueles olhos castanhos brilhando; brilhando para mim.
– Sim, estou finalmente aqui. – respondi, tentando controlar o sorriso que implorava para sair.
Não fosse o gato para quebrar o contato, teríamos ficado nos olhando por um tempo considerável. E se não fosse Hermione, teria o azarado por estragar o momento.
– Gostou? – questionou, apontando a cabeça para a decoração natalina. Incrivelmente, sim, eu tinha gostado. Nunca havia tido nada meramente parecido em casa, e por mais que Hogwarts fosse o meu lar, era diferente agora.
– Posso conviver por alguns dias. – é claro que eu não poderia deixar passar. Mas ela sabia que eu não estava falando sério. Hermione me conhecia.
– Já que está aqui, podemos comemorar o Natal – começou receosa – Digo, jantar, terminar de decorar a árvore e abrir presentes... – espera, presentes? Indaguei mentalmente, levantando a sobrancelha. – Não é nada demais, só para não passar em branco.
– Hermione...
– Nem pense em negar, Severo! É Natal... vai me dizer que não gostava de fazer essas coisas quando era criança? – eu nunca havia feito nada disso em toda a minha vida.
– Eu sinto muito, Severo... Você já havia mencionado sobre sua infância... Fui descuidada.
– Não há o que se desculpar, Hermione. Mas a bagunça natalina não é algo que me atraia.
– Não seja bobo! Só vamos jantar e trocar presentes... Não há nada de difícil nisso. – e pondo-se de pé, puxou-me para cozinha. – Você faz o jantar e eu coloco os presentes debaixo da árvore.
– Que divisão justa, Hermione... – alfinetei.
– Você prefere que eu cozinhe? – retrucou ela, num tom um tanto quanto sonserino.
– Céus, não! – e ela riu sonoramente. Merlin! Hermione seria – se já não era – minha perdição. Ou salvação. Ou tudo.
...
– Não acredito que o temível professor de poções, Severo Snape, já pegou detenção! – exclamou a castanha, rindo alto.
– E eu não acredito que a irritante sabe-tudo já teve pelos de gato por todo o rosto! – revidou ele, sorrindo maliciosamente ao vê-la corar.
– A culpa não foi minha! Teria dado certo se não fosse o maldito pelo de gato! – retrucou, colocando a mão na cintura. ‘Adorável’, ele pensou.
O ponteiro já alcançava as duas da manhã, mas nenhum dos dois pareceu notar isso; e mesmo se notassem, não faria muita diferença. Estavam ambos confortáveis no chão da sala, sobre o tapete – sim, ambos. Depois da terceira taça de vinho e da insistência de Hermione, Severo largou a habitual poltrona negra – bem como a capa – para juntar-se a ela; um pouco desconfortável no início, sua postura ainda era ereta mesmo sentando no chão. Mas depois de casos engraçados – da parte de Hermione, claro – ele foi se soltando ao vê-la tão à vontade.
O cenário parecia tirado de um conto de fadas para quem visse pela janela: neve caindo, luzes de natal envoltos num lindo pinheiro, lareira, presentes ao pé da árvore, risadas sinceras, vinho e duas pessoas; duas pessoas que dedicavam suas vidas para os outros e, por uma noite, estavam dedicando para si mesmos – e um para o outro.
– Já passa da meia-noite?! – exclamou ela, procurando o relógio.
– Ao que parece, já passa muito da meia-noite. – respondeu, surpreso pelo tempo ter passado tão rápido e pesaroso por não querer que a noite findasse.
– Os presentes! Temos que abri-los! — exclamou a bruxa, parecendo ainda mais adorável com toda aquela empolgação infantil. – Este é seu, em nome de Gina e Molly. Não pergunte, elas são assim mesmo – respondeu, rindo e dando de ombros enquanto desembrulhava o seu.
Ao abrir, Hermione começou a competir o rubor em sua face com o vermelho das bolas de Natal.
Severo vai adorar vê-la vestida assim!
Gina.
P.s.: O presente pode ser seu, mas garanto que Severo vai gostar mais!
‘Gina!’, exclamou Hermione enquanto rapidamente embrulhava de volta a camisola verde.
– Algum problema? – perguntou Severo, com a testa franzida. ‘Graças aos céus ele não viu!’, suspirou ela.
– Não! Nada demais... O que é o seu presente? – mudou de assunto, claramente envergonhada.
– Parece que as mulheres Weasley querem que escutemos música. – soltou depois de um bufo seco, estendendo o disco.
– Celestina Warbeck – pronunciou em voz alta, virando o disco da capa à parte de trás – Gina a adora! É sua cantora favorita.
– E porque cargas d’água elas me dariam um disco de uma cantora romântica tola? – perguntou com a testa franzida.
– Acho que elas queriam que me convidasse para dançar... – falou, não mais irritada com as peripécias de Gina, enquanto apontava para o cartão.
– Nunca. – respondeu ele, dando um gole na sua bebida.
– Não pode ser tão difícil, Severo! Vamos... – provocou ela, adorando vê-lo irritado.
– Nem pense nisso, Hermione. – sibilou ele.
Mas a bruxa já estava de pé, cruzando a sala para colocar o disco. Em poucos segundos a voz rouca da cantora já estava dominando a sala, fazendo Hermione se divertir com o claro incômodo de Snape.
– Desista, Hermione, eu não vou dançar. – disse para a mão estendida da jovem, fazendo-a revirar os olhos.
– Tudo bem... – e resignada, caminhou até a árvore para pegar o presente dele. Ainda de costas para o bruxo, lhe ocorreu a gravidade do que estava prestes a fazer. Iria entregar um presente que revelaria a Snape tudo o que ela estava sentindo por ele, tudo o que eles haviam vivido dentro daquele chalé.
– Hermione? – chamou a voz rouca atrás dela. – Tudo bem?
– Sim, sim! – ela tratou de se recuperar, e respirando fundo caminhou para próximo dele, sentando-se ao seu lado.
Flash back on
Hermione
– Vai ser estranho passar o Natal sem o Rony e Harry... – fungou Molly. E só então me dei conta de que já estávamos em dezembro.
– Natal?! – exclamei para ninguém, espantada por estar tão alheia ao tempo.
– Não se assuste, por um momento também perdi a noção dos meses. – falou ela, enfeitiçando a louça para ser lavada. – Mas farei como em todos os anos, como se todos estivessem aqui. – disse, apontando para o canto da mesa onde se amontoavam lãs e agulhas em meio a suéteres não acabados.
Sorri ao ver que o do Rony já estava pronto, dobrado logo ao lado das linhas inacabadas. Não importava se o dinheiro faltava, ou se a família era muito grande, todos ganhavam presentes na família Weasley. E pensando nisso, questionei-me a última vez que Severo ganhou um presente de Natal.
– No que está pensando, Hermione? — ecoou a vozinha da Senhora Weasley, com a expressão curiosa.
– Nada! Eu só lembrei agora que deixei uma poção cozinhando... – e desculpando-me, corri para o laboratório improvisado.
A ideia de um presente para o Snape veio num lampejo; não pensei se seria arriscado enfim me declarar através do presente, muito menos ser rejeitada. Não me importava, queria correr os riscos.
E entre o cozimento de uma poção importante e outra, dedicava-me ao presente dele. Foram necessárias incontáveis variações e testes, até enfim chegar ao resultado esperado. E o mais estranho é que eu não havia me dado conta de que tinha acabado de criar uma poção, mas que havia enfim terminado o presente de Severo.
Flash back off
– Porque a família Weasley decidiu me dar presentes? – questionou ele, com a sobrancelha levantada.
– Esse não é de Gina ou Molly... – começou ela, temerosa, fazendo-o para de bebericar o vinho para fitá-la. – Esse é meu...
– Hermione...
– Não diga nada. Eu quis... – cortou ela, desviando o olhar para a lareira.
Snape deixou a taça de lado e concentrou-se exclusivamente no embrulho improvisado. Ao tirar do papel, um pequeno frasco de vidro era revelado; dentro dele, um líquido meio avermelhado, meio esverdeado fez o bruxo arquear as sobrancelhas com a sugestiva mistura.
– Acredite, a cor não foi intencional. – riu ela, tentando deixar o nervosismo de lado. E suspirando, explicou-lhe o presente. – Não é para se beber, somente para aspirar. Toda vez que tiver contato com o aroma dessa poção, lembranças boas virão a sua cabeça... lembranças daqui, de nós dois. – Hermione não falou que quando ele aspirasse também veria lembranças sob a perspectiva dela.
– Eu não conhecia essa poção...
– Ela não existia. – revelou ela, subitamente sendo remetida à timidez. Pela primeira vez não queria as atenções de uma criação. Queria apenas que ele gostasse e não a achasse metida.
– Você... criou uma poção.
– Bem, eu... acho que sim. – até então ela realmente não tinha se dado conta disso.
Snape não falou mais nada, apenas a mirou impassível. E quando ele fez menção de abrir o frasco, a bruxa o impediu.
– Não abra! Quer dizer... não agora – ‘enquanto estou aqui, na sua frente, vulnerável’, ela queria dizer. – Tem mais um presente... – e reunindo sua coragem grifinória, ajoelhou-se na frente do bruxo, colocando as mãos de cada lado do rosto sisudo.
Snape quase afastou-se da bruxa, no impulso; mas no fim decidiu render-se. Primeiro, Hermione beijou a testa; depois, cada uma das bochechas; e, no fim, os lábios. O beijo era casto, temeroso, inocente e inexperiente. Em algum momento Snape fechou os olhos, e quando a jovem afastou-se para testar a reação dele, o bruxo os abriu sentindo a distância. Não se importando com mais nada, ele a beijou; com força, com vontade, com desejo.
Deitando-a sobre o tapete, Severo testou cada uma das reações da jovem, perpassando as mãos por onde ele tanto sonhou caminhar. De olhos fechados, ela apenas se entregava a cada uma das sensações provocadas por ele, deliciando-se com os toques e carícias.
Ele deixou as mãos descansando na cintura de Hermione enquanto os lábios provavam mais dos lábios dela, descendo para o pescoço e colo. Devagar, os beijos começaram a fazer caminhos por cima da blusa de Hermione e descendo o vale dos seios. Ela arqueou com a sensação, mas não se opôs.
Desejando senti-lo também, Hermione começou a passar as mãos pelas costas do bruxo, até alcançar a barra da blusa e brincar com a pele recém descoberta. Tudo estava acontecendo em perfeita sintonia, até que a castanha fez menção de desabotoar uma das infindáveis blusas negras que construíam sua fortaleza.
Pareceu que o destino queria provocar o jovem casal, pois quando eles finalmente estavam se entendendo – no melhor sentindo – a lareira começou a soltar pequenas faíscas verdes, sinalizando que alguém estava prestes a irromper na sala de estar. Hermione olhou mortificada para Snape, imaginando quem poderia ter acesso a Rede de Flú do chalé.
– Merlin! – praguejou, pondo-se de pé enquanto estendia a mão para ajudar uma Hermione assustada. – É o Lupin. – e sem tempo para explicar, o lupino surgiu por entre as chamas, batendo a mão nos ombros para tirar os resquícios de pó.
Snape estava perfeitamente recomposto, e se fosse por ele Lupin jamais notaria qualquer indício de anormalidade. Mas Hermione entregava tudo; seu rosto absurdamente corado, assim como os repetidos movimentos nervosos para ajeitar a blusa amarrotada, indicavam uma sugestiva cena que não passou de maneira alguma despercebida por Remo.
O bruxo recém chegado levou o olhar até a árvore de Natal, depois passou para as taças de vinho, para logo mais correr pelos embrulhos de presentes, para enfim recair em Hermione; e então dela para Severo, e de Severo para Hermione, e de Hermione para o cabelo ainda mais revolto, e de Severo para a capa jogada no chão.
– Eu não queria atrapalhar... – soltou, entre divertido e confuso.
Hermione não tinha coragem nem de olhar para Lupin, quem diria então respondê-lo! Snape também parecia bastante desconfortável, mesmo sob toda a lendária compostura.
– Remo, aconteceu alguma coisa? – ignorou, indo direto ao ponto.
– Sim... – prolongando a vogal mais do que necessário, como se dissesse: ‘Isso aconteceu! Vocês aconteceram!’
– Remo. – avisou um irritante Snape para um Lupin que não tinha a mínima pretensão de deixá-lo em paz; não pelo menos nas próximas décadas, depois da cena insinuante.
Vendo que Snape parecia ficar mais irritado a cada minuto, Hermione decidiu intervir.
– Professor Lupin, aconteceu algo relevante? – e antes que Remo pudesse fazer alguma gracinha como resposta, ela continuou – Algo relevante com Harry ou Rony?
– Pelos céus, Remo, não há tempo para brincadeiras. Fala logo! – intrometeu o bruxo das vestes negras, no limite da paciência.
– Mas parece que há para vinho e presentes... – Lupin provocou de volta, enfurecendo Hermione.
– Pelos céus, Lupin, quando foi a última vez que Severo pode ter uma noite assim? Nem tente insinuar que ele está deixando qualquer obrigação de lado... – ela tagarelava sem parar, furiosa, fazendo Snape a olhar completamente alarmado. E a jovem só parou quando se deu conta de que Lupin estava rindo. E ruidosamente.
– Eu sabia! – gritou ele.
– Você está completamente louco? Sabia do que? – falou Snape, um pouco mais alto que de costume, tentando ocupar as mãos com alguma coisa que não a sua varinha. Porque ele tinha certeza de que se a pegasse, provavelmente estuporaria Lupin.
– Deixa pra lá... – respondeu Remo, depois de uma fungada nada elegante – Vamos ao que interessa. Mas antes, Severo, talvez você queira colocar a sua capa... – disse, apontando para o lugar onde ela estava. – É estranho conversar com você sem ela! – justificou-se depois do olhar impaciente de Snape.
– Fala logo, Lupin, antes que eu o coloque a força nessa lareira e me arrependa de permitido seu acesso a ela.
– Tudo bem, tudo bem... – e se recompondo, começou – Harry e Rony foram a Godric's Hollows hoje à noite.
– Eles são estúpidos?! – esbravejou Snape. – O Potter é um idiota! Ele simplesmente vai para o lugar em que o Lorde espera que ele vá!
– Harry está desesperado, Snape. Ele espera encontrar a espada, e faz sentido que ele tenha ido procurar lá...
– Um minuto que me descuido daquele moleque e ele me faz uma estupidez sem tamanho. – resmungou o bruxo.
– Você não poderia impedi-lo de qualquer forma... Eles ainda não confiam em você. – respondeu Lupin, calmamente.
– Não confiam em mim mas deixam a melhor amiga se casar comigo... – bufou ele.
– Eles sabem que não poderia fazer mal a Hermione, de qualquer maneira. – ele deu de ombros – Tem o pacto, afinal. E todos sabemos que Hermione morreria antes de deixar de fazer o que ela acha certo. – e sorriu para a jovem que até então estava quieta demais.
– Você sabia que eles iriam até lá, não sabia? – perguntou Snape, que já conhecia Hermione o suficiente também para interpretar seus silêncios. – Porque não me disse nada?
– Bem, era óbvio, não? – respondeu um pouco irritada. – De repente Godric's Hollows ficou ainda mais em evidencia para nós e, desde o casamento de Fleur e Gui, Harry estava convencido de que era para lá que deveria ir. Eu consegui convencê-lo a esperar nesse dia, mas sabia que não seria por muito tempo. E além do mais, ele precisa começar a procurar em algum lugar, não acham? – e com a pergunta, os dois bruxos se entreolharam como se soubessem de algo mais.
– Talvez seja a hora de entregar a ele, Snape. – sugeriu Lupin.
– Entregar a ele? Entregar o que para quem? – mas Severo parecia perdido em pensamentos. – Severo! – perguntou a bruxa mais uma vez.
– A espada, Hermione. A espada de Gryffindor.
...
– Você sabia onde ela estava o tempo todo e não disse nada?! Deixou o Harry e o Rony perambulando a ermo procurando pela maldita espada e você simplesmente não disse nada? – ela estava furiosa, apenas não sabia distinguir em que sentido: a segurança de Harry e Rony ou o fato de ele, novamente, ter escondido o pequeno detalhe dela.
– Dumbledore não me contou qual seria a finalidade dela, Hermione. Eu descobri no tempo em que fiquei ausente; era parte da missão. Fui tolo, mas queria saber o que Dumbledore tinha designado a vocês antes de entregar a espada a Potter. – respondeu, parecendo exausto de repente.
– Porque você não confia em nós?! – a tristeza em sua voz era evidente.
– Claro que não, sua tola. – ele respondeu tão rápido que a assustou, finalmente a encarando – Mas você sabe, tanto quanto eu, que Dumbledore tende a designar missões não muito fáceis aos outros em nome do ‘Bem maior’. – ironizou ele – Eu só queria saber se o fardo não era muito grande... – completou quase num sussurro, visivelmente desconfortável.
Quando Hermione enfim percebeu que Snape realmente se preocupava com Harry, sentiu seu coração se aquiescer ao comprovar de uma vez por todas que ela estava certa, que ele não era uma pessoa má. Não que ela já não soubesse, mas isso só ficava ainda mais evidente a cada dia, a cada atitude. Só que essa mesma linha de raciocínio inevitavelmente a levou para um lado mais obscuro: porque ele continuava tentando proteger o Harry com tanta veemência? Sempre foi evidente o ódio mútuo dos dois, mas Hermione ficou pensando se ainda era sobre redenção. Se fosse, tudo bem. Mas e se ainda era sobre Lílian? E se sempre fosse sobre ela?
O nome de Lílian ficou ecoando em sua cabeça de uma maneira tão dolorosa que era quase físico. Pensar na mera possibilidade de não ter o mínimo retorno do sentimento que nutria por Severo era, no mínimo, esmagador.
Hermione sabia que naquele momento Snape e Lupin conversavam sobre algo muito importante, e que ela precisava prestar atenção; mas eram só vozes abafadas num plano de fundo. Seu pensamento principal era tentar controlar o sentimento de perda que a cada segundo ficava mais tangível.
– Hermione, você está bem? – perguntou a voz educada de Lupin, que a olhava preocupado. A bruxa sabia que Snape também a fitava intensamente, mas a possibilidade de ela olhar de volta era nula.
– Sim, professor. – gaguejou – Estou bem. ‘Eu preciso sair daqui, eu preciso me livrar desse olhar, eu não posso falar com ele...’ era o que a jovem pensava quando começou a andar nervosamente pela sala.
– Você não parece bem... – pontuou Remo, aproximando-se dela.
– Eu estou. – cortou ela – Vamos definir logo isso. Eu acho que a espada deve ser entregue logo; na verdade, eu não entendi ainda porque já não está com ele. – alfinetou, olhando diretamente para Snape. O bruxo, no entanto, devolveu a irritação dela com um finco na testa, como se dispusesse de toda a sua energia para tentar entender porque ela estava tão nervosa.
– Bom... – pigarrou um Lupin deslocado – então está decidido. Snape, você pode conjurar seu patrono e entregar a espada a Harry? – perguntou o lupino, virando-se apressadamente para a lareira ao perceber a tensão iminente que ele, definitivamente, não queria fazer parte.
– O que?! – ‘Patrono? Snape pode conjurar um patrono?’, pensou a jovem, perplexa.
– É melhor que Snape não encontre os meninos pessoalmente... – explicou Remo – você sabe, eles não se dão muito bem. – completou, dando de ombros.
– Não, eu quis saber sobre o patrono. Você pode conjurar um patrono? – perguntou ela, não tirando os olhos de Snape nem por um segundo.
Lupin estava numa eterna dança entre saber se ia embora ou não. Achou que seria melhor deixar os dois conversando a sós, mas ficou calculando quais eram as chances de um desastre acontecer deixando dois gênios tão intempestivos numa área de poucos metros quadrados.
– Achou que eu não teria nenhum pensamento feliz, Senhorita Granger? – perguntou Snape, com aquele tom que há muito tempo Hermione não ouvia. E que não foi bom escutar de novo.
– Não foi isso que quis dizer, Snape. – devolveu, claramente irritada – Só achei que, bem, comensais – hesitou, testando a reação dele – não conjurassem patronos.
– Comensal. – repetiu ele, pausadamente – Estava me perguntando quanto tempo ia aguentar até que jogasse o lixo em cima de mim.
– Eu-eu não estou julgando! – falou Hermione, exasperada – Eu só não sabia que tinha uma lembrança feliz...
– Sinto em desapontá-la, Hermione, mas por mais horrível que eu possa parecer ainda tenho capacidade de guardar lembranças.
– Você tem que distorcer tudo o que eu digo?! Você me disse que sua vida era infernal, que não gostava do seu pai, que foi uma criança infeliz; então que tipo de lembrança pode ser tão boa?! ‘Não diga Lílian, não diga Lílian, por favor, não diga’, ela implorava mentalmente.
Pelo visto a jovem castanha havia realmente se tornado uma exímia oclumente, já que Snape não mais podia ler o que se passava na cabeça dela. Só que ela sempre foi uma pessoa fácil de ser lida, apesar de tudo, muito transparente; e independente disso, ele a conhecia. E podia ver nos olhos cor de mel o que ela mais temia em escutar; e foi nesse temor que Snape viu a chance de deixá-la livre de qualquer sentimento que ela pudesse ter em relação a ele.
– Lílian. Lílian é e sempre será minha lembrança mais feliz.
Dizer que o coração de Hermione se desintegrou naquele momento ainda era pouco. Talvez, se ela estivesse pensando melhor, poderia perceber que era só mais uma das técnicas dele de ‘Como afastar outro ser humano’ / por Severo Snape. Só que não dava para ser racional naquele momento. Tudo que ela podia fazer era reunir toda a energia restante, juntar os cacos, desejar um boa noite e caminhar para o quarto. Para então se desmanchar sobre o travesseiro.
E foi exatamente o que ela fez. Talvez a voz não tenha saído tão firme quanto ela gostaria, mas pelo menos não houve lágrimas. Não na frente dele.
...
– Severo, porque você fez isso? – perguntou Lupin, surpreso.
– Você sabe como é não se sentir merecedor de um sentimento, Remo. – sim, ele sabia – E além do mais, ela é muito jovem; isso jamais daria certo. – concluiu, virando as últimas gotas de vinho.
– Sim, Snape, eu sei. Mas também sei o que é ter alguém que te ama para mudar tudo. E olha para mim hoje! Tenho uma esposa e, em poucos meses, terei um filho; e eu só espero sobreviver a tudo isso para ficar com eles. A verdade é que cansei de não me achar merecedor, Severo. Está mais do que na hora de você fazer isso também. – a voz de Lupin era serena, quase um convite para Snape pegar todos os conselhos e rumar para o quarto de Hermione, beijando-a com tanta vontade quanto fosse possível.
– Você não fez as coisas que eu fiz.
– E você não sabe o que é ser, literalmente, um monstro. Um monstro que mataria a própria esposa sem hesitar. E no entanto, estou me arriscando. Minha vontade de fazer minha família feliz supera qualquer coisa; quero ser melhor por eles a para eles. – insistiu, complacente. Como Severo não disse nada, Lupin soube que era a sua deixa.
Snape queria, sinceramente, conversar com o bruxo que tão facilmente o aconselhava. Mas o que ele poderia falar? Que era ele quem tinha medo? Que era ele que não sabia como lidar com todo aquele sentimento? De que tinha receio de querer Hermione sempre e pra sempre?
Lupin paraceu escutar todos os pensamentos loucos que passavam naquela cabeça tão cheia de dores e marcas, e antes de sumir por entre as cinzas completou – Não tenha medo de digerir todo esse amor. – E se foi.
...
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