A sua cor
30 Adeus
Notas iniciais
Snape
Eu era um idiota. Não, mais do que isso; era um completo idiota. Um tolo. Hermione estava ali, disposta a me oferecer uma vida mais feliz, e eu simplesmente a afastei com a pior coisa que poderia ter dito. Nem todas as grosserias do mundo a afastariam de mim, mas fui bem no ponto que a magoaria.
Minha vontade era colocá-la na cama e fazê-la só minha, para sempre. Fazer seus gemidos abafados se soltarem gradualmente, até se tornarem gritos de prazer. Receber todos os seus sorrisos e olhares brilhantes, render-me a ela por completo. Queria desesperadamente pedir desculpas, e desespero nunca foi uma atitude digna de um espião. Mas é isso o que acontece quando se deseja, quando se ama; oh sim, eu a amava. Ardentemente.
Mas estava feito; havia afastado a única pessoa que eu realmente amava; a única pessoa que realmente tinha a capacidade de me suportar e, mais do que isso, me fazer um pouco melhor. Nunca acreditei em toda aquela bobagem de pessoas que mudam pela outra, mas eis que me tornei a vítima da minha própria descrença.
– Acho que a minha presença aqui não é mais necessária. – ecoou a voz que há tempos me causava calafrios. Precisei de um tempo até entender o que ela estava dizendo, e só quando me virei e a vi pronta para ir embora é que me dei conta. Ela estava dizendo ‘adeus’.
– O que disse? – foi a única frase que consegui processar.
– Estou indo embora, Severo. – e aquela expressão cansada, pálida, não combinava com ela.
– E eu posso saber para onde? – Céus, eu não podia perdê-la.
– Vou me encontrar com Harry e Rony. – soltou, tão fria e indiferente que chegou a doer. Hermione não era assim.
– Você só pode estar brincando! – descartei.
– Na verdade, acho que é a primeira atitude sensata que tenho em meses.
– Hermione, eu...
– Não, Snape. Não precisa falar nada. Eu fui idiota, não deveria ter insistido em um possível relacionamento. De qualquer maneira, o plano deu certo: a Ordem confia em você, seu papel de espião duplo continua intacto, você-sabe-quem o tem como seguidor fiel, e eu vou estar ao lado dos meus amigos, de onde não deveria ter saído.
– Hermione... – eu não podia estar escutando aquilo, não podia!
– Ainda não terminei. Vou deixar Bichento n’Toca, assim você fica finalmente livre da nossa presença.
– Acabou?
– Sim, acabei.
– Então agora eu vou falar. De onde você tirou a estúpida ideia de que eu não a quero comigo? De que pensamento conturbado você chegou à conclusão de que vou deixá-la ir embora por uma briga tola?
– Briga tola?! – eu sabia que a tinha atingido, de novo. Mas de qualquer forma era melhor uma Hermione brava que uma Hermione indiferente. – Não foi uma briga sem sentido, Snape – e seu tom era baixo novamente – Não foi como das outras vezes, nas nossas discussões bobas. E eu não estou pedindo permissão.
– Você não po...
– Voldemort nem vai saber que fugi. Para ele ainda estarei como sua prisioneira, já que ele não pode me tocar devido ao seu pacto com Dumbledore. E fique tranquilo, não colocarei seu disfarce à prova; serei cuidadosa.
– Não estou preocupado com meu disfarce, Hermione! Inferno! Não seja tão mimada!
– Mimada?! Você sabe o que é ouvir da pessoa que ama o nome outra? – ama? Ela estava realmente falando em amor? Até então tudo isso estava subentendido, ela não havia verbalizado nada. E foi como um choque pra mim – Quase me esqueci, você sabe muito bem... Então não torne minha saída mais difícil.
Eu poderia dizer tantas coisas, fazer tantas coisas. No entanto, apenas a assisti diminuindo suas coisas e pegando o gato no colo. Assisti a mulher que amava saindo da minha vida, e a única coisa que consegui dizer foi:
– Você ao menos sabe onde eles estão?
– Você havia mencionado durante o jantar que eles seguiram meu conselho de se instalar na Floresta do Deão.
– Sim, havia me esquecido.
O silêncio era cortante, e eu não conseguia traduzir nenhum dos meus pensamentos em palavras. Ainda não acreditava que ela estava indo embora, eu só... Era demais.
– Ah, e... eu quase ia me esquecendo. Não precisamos validar nosso casamento. – confesso que não entendi onde ela estava querendo chegar – Isso foi só mais uma das loucuras do professor Dumbledore. Eu li bastante sobre pactos quando precisei fazer um, e eles tendem a ser bastante flexíveis dependendo da interpretação. E estou inclinada a sugerir que o diretor sabia muito bem da brecha em seu próprio pacto. Ele achou que seríamos felizes juntos – e fomos, pensei – e que a convivência forçada nos levaria a algum lugar além da guerra... Por isso o pacto de que nos casaríamos. Mas como isso não aconteceu, só estamos ligados ao pacto: eu o ajudei, você me protege, nos casamos... mas nada diz que precisamos consumar isso.
Eu não conseguia processar nada. E muito provavelmente ela interpretou minha inexpressão em indiferença. Mas era o extremo oposto disso; era se importar demais.
Quando pude pensar claramente de novo, Hermione já havia ido embora, me deixando com ecos da sua risada na casa vazia. Um copo que eu não tinha me dado conta de que segurava quebrou em minhas mãos, tamanho era o ódio que estava sentindo da minha própria estupidez.
É como dizem... Depois que você prova o gosto de alguma coisa muito boa, não sabe mais viver sem aquilo. Eu havia provado uma vida a dois, um bom vinho, conversas aleatórias e até uma decoração natalina; eu havia provado Hermione. E eu simplesmente não podia imaginar o que era não tê-la por perto.
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