A sua cor
27 Cedendo, talvez?
Notas iniciais
Novembro chegou congelante, e a neve já começava a cobrir parte da floresta. Um mês havia se passado e as atitudes de Severo se resumiam à fortaleza; aquela em que ele criava para afastar qualquer sentimento que não a sua dor e culpa.
Mas os lábios doces da menina não lhe saíam da cabeça, e o cheiro floral estava levando-o à loucura; tudo cheirava a Hermione Granger – ou melhor, Hermione Snape; em todos os lugares havia a presença dela. No laboratório, seu método de rotular os ingredientes e poções havia sido substituído pela letra decidida e redonda da jovem bruxa; na sala, um livro sempre a aguardava sobre a mesa central; e na cabeça de Severo, bem... havia mel por todos os seus pensamentos.
Certa madrugada, ambos se encontraram fugindo dos pesadelos no laboratório. Hermione mexia no caldeirão de costas para a porta, mas a presença dele era marcante, ela nem precisava se dar ao trabalho de olhar para trás. Fugir não era necessariamente uma opção naquele momento para Severo, já que não queria parecer tão – ou mais – afetado pela presença dela.
Silenciosamente ele cruzou a sala e começou a preparar os próprios ingredientes sob a bancada, esperando que Hermione quebrasse o momento incômodo. No entanto, ela não o fez, e Snape decidiu que odiava vê-la tão silenciosa.
– Algum problema? – perguntou, evitando olhá-la e tentando transparecer frieza.
‘Sim, é claro que tem um problema!’, pensou ela, controlando o nervosismo. Como ele ousava perguntar com tanta naturalidade depois de quase um mês evitando-a? A pele de arambóia começou a ser picada numa velocidade mais acelerada e com mais intensidade, de modo que ficava claro que a jovem castanha estava descontando sua fúria na poção.
– Granger, o que há de errado? – perguntou, mais firme. Notando que Hermione só ficava mais estressada, ele segurou a mão dela, fazendo-a parar o movimento quase assassino. – Qual o seu problema com a poção?
– Com a poção, nenhum! Mas com você, todos! – explodiu ela, soltando-se da mão de Snape. – Quantas vezes mais vamos precisar ter essa conversa? Quantas vezes mais vamos precisar brigar pela mesma coisa? Por que você não pode simplesmente conversar comigo? Por que você não para de fugir?!
Ele tinha tantas razões para falar naquele momento... Mas estava começando a perceber que nenhuma delas – e todas juntas – eram fortes o suficiente para se equiparar ao que era ter Hermione por perto.
– Hermione, eu... – o que ele poderia dizer?
– Tudo bem, não precisa falar nada – suspirou, cansada – Não deveria ter ficado tão nervosa, eu só... – parou, não sabendo como completar.
– Tudo bem. – finalizou, soltando os ombros, resignado. Não adiantava mais fugir dela. – Porque está fazendo a Amortentia? – perguntou ele depois de um tempo, curioso.
– Não sei ao certo... – disse, sendo submetida à timidez – Eu não percebi realmente. – sincera e abismada com a situação vergonhosa. Mas antes que ela pudesse concluir, ele se moveu em direção ao caldeirão e habilidosamente preparou a poção, mal dando tempo para Hermione assimilar.
Quando terminou, Snape parou diante o caldeirão parecendo receoso ao inspirá-la. E ele se afastou tão rapidamente que Hermione não soube ao certo se ele realmente havia sentido algum cheiro com o vapor. Severo parecia ainda mais branco que o convencional quando suas costas encostaram na parede fria, os olhos negros fixos na poção.
– O que você sente, Hermione? – perguntou roucamente, olhando-a. A bruxa não estava entendendo mais nada, e confusa aproximou-se a passos lentos do caldeirão que soltava o brilho perolado.
– Eu... – hesitou, sabendo que sentiria o cheiro de algo associado ao bruxo. E se ele a recusasse? E se ele a achasse tola?
‘Que se dane!’
– Eu sinto cheiro de ervas, chá de camomila e... whisky de fogo. – revelou, sentindo as bochechas arderem e o coração bater mais forte.
Ainda de costas ela sentiu Snape aproximar, e fechou os olhos para esperar seu toque. As mãos pesadas pousaram no ombro da menina, enquanto os lábios curvaram próximo a orelha, sussurrando:
– Tenho agido de maneira estúpida. Perdoe-me. – pediu, com a voz baixa e rouca. E tão rápido quanto Hermione tentou reagir ele saiu do cômodo, deixando-a perplexa. E, mais do que isso, desejosa; desejosa por mais, pelo seu toque, por ele.
***
SNAPE
Estava ficando impossível fugir dela. E, no fundo, não sabia mais se realmente queria me afastar. Um pensamento egoísta me ocorreu quando pensei em jogar tudo para o alto e me entregar a todo aquele sentimento que estava me consumindo, ao desejo que seria minha perdição; tinha certeza que não sobreviveria a guerra, portanto, não seria um estorvo para a vida cheia de possibilidades de Hermione. Um pensamento horrível, eu sei, mas a ideia de finalmente ter um vislumbre de felicidade estava me deixando como um adolescente apaixonado.
Em que momento deixei uma completa estupidez como essa me acontecer, eu não sei. Só sei que foi assim. E de repente me peguei olhando para ela trabalhando ferozmente em uma poção; ou bebendo o chá com a testa franzida, como se todos os problemas do mundo passassem pela sua cabeça em segundos; ou simplesmente lendo no chão da sala; ou sendo irritantemente adorável; ou interrompendo minhas frases. Enfim, tudo era sobre ela. E eu comecei a pensar porque não poderia ser sobre nós dois.
***
– Não se preocupe, meu jovem. Ela ficará segura. – disse o velho homem por trás dos óculos.
– Ela está sob minha proteção, Alvo. Não poderia deixá-la por tanto tempo! – Snape andava de um lado a outro na sala do diretor, fazendo Dumbledore acompanhar divertido a aflição do bruxo.
– Interessante... – provocou, fazendo Snape parar e fitá-lo.
– O que? – perguntou, amaldiçoando-se em seguida por perguntar.
– Seus sentimentos em relação à ela. – falou, fazendo o homem à sua frente bufar. – Por que não admite isso de uma vez, meu caro? Já não está na hora de deixar o passado para trás?
– Pelos céus, Alvo! O que você quer que eu diga? Que eu a amo? Ok, e se eu disser? Que diferença isso faz? Ela vai correr para os meus braços e viveremos felizes para sempre?
– Bem... sim! Por que não?
– Você está ainda mais gagá hoje. – respondeu, massageando as têmporas, recusando-se a estressar mais do que o necessário com o quadro.
– Severo, essa missão é muito importante. Você precisa deixá-la por esse tempo, aproveitar que Voldemort ainda não se interessou por ela! – e o nome do bruxo que tanto odiava o fez tremer de ódio e nojo, tanto por Lílian quanto por Hermione. E Dumbledore estava certo, a Toca seria um lugar seguro para Hermione enquanto ele estivesse ausente. Mas só a ideia de deixá-la por tanto tempo o atormentava... ‘Merlin! Como fui chegar a esse ponto?!’, praguejou.
– Vou dizer a ela. – disse, a contragosto, enquanto se preparava para sair; mas a vozinha curiosa do diretor o impediu.
– E como vocês estão agora? – perguntou por trás dos óculos.
– Não é da sua conta. – respondeu, resoluto.
– Ora, Severo! Vamos... não custa falar!
– Não há o que dizer Dumbledore. – disse, impaciente.
– Não mesmo? – provocou o ancião, fazendo Snape bufar enquanto saía da sala, farfalhando a capa negra.
***
– Pois eu acho que você deveria. – disse ela, com aquele seu jeito determinado.
– Pois eu tenho certeza que não deveria. – respondeu o bruxo, de mau-humor.
– Está um ótimo dia lá fora! – insistiu ela.
– Hermione, está nevando. – retrucou ele, fazendo a jovem bufar.
– Ok, então eu vou sozinha... – instigou ela, esperando alguma reação dele. Mas o bruxo só concentrou sua atenção ainda mais no jornal a sua frente, enquanto bebericava o chá.
Desde o fatídico dia no laboratório, a relação dos dois se limitou a conversas leves. Não se tocaram desde então, e Snape evitava a todo custo chegar mais próximo que um metro de Hermione. E ela entendia. Ter uma relação agradável com ele era muito, e quanto mais se conheciam, mais fortes ficavam os sentimentos – mesmo que não demonstrados, especialmente por Severo.
Mas o homem amava a jovem mulher insolente, irritante, petulante e todos os demais adjetivos que, carinhosamente, sua mente criava para ela, na tentativa vã de expulsá-la de seu coração. A verdade é que ele odiava a ideia de saber que poderia perdê-la a qualquer instante, e mais ainda, a ideia de fazê-la infeliz.
– Merlin! – praguejou o mestre de poções ao ver, pela janela, Hermione escorregar no gelo da escada.
– Será que eu não posso me desgrudar de você por um minuto sem que faça alguma bobagem?
– Foi um escorregão bobo, Severo – ralhou ela, rindo de si mesma enquanto limpava o gelo da roupa. Mas quando ela se deu conta, o bruxo já caminhava em direção à praia a passos largos. – Onde você vai?
– Você não queria andar sem rumo nesse frio congelante? Estou só certificando que nada vai acontecer no curto percurso. – devolveu, da forma Severo-Arrogante-Snape de ser.
– Se soubesse que seria fácil assim, teria escorregado antes... – provocou ela, ganhando um olhar lascivo do homem ao seu lado.
Alguns metros depois e Severo parecia realmente apreciar a caminhada, fazendo uma convencida e divertida Hermione quebrar o silêncio.
– É agradável, não? Como costumava fazer nos corredores de Hogwarts.
– Eu monitorava os corredores, Hermione, atrás de alunos insolentes como você e seus amigos. – revidou, irônico, fazendo-a rir abertamente.
– Você não ri nunca?
– Não, não tenho motivos para sorrir tendo que dividir um chalé com a irritante-sabe-tudo. – comentou irônico, ganhando um cutucão da bruxa.
– Ainda vou descobrir como fazê-lo sorrir... – desafiou ela, sorrindo, enquanto enroscava seu braço no do professor.
Hermione não sabia lidar com pessoas, e sua infância ilustrou bem isso. Não fosse por Harry e Rony, poderia estar sem amigos ainda. E Severo conseguia ser pior que ela em relações sociais. Então um dos dois teria que ser mais insistente, e a bruxa percebeu que, obviamente, seria ela.
Sempre que podia se aproximar dele, Hermione via a chance de quebrar suas barreiras. No início ele fugia, depois passou a não negar, então a bruxa sentia-se cada vez mais encorajada. Ela pegava todos os silêncios e transformava em ‘Sim, Hermione, eu deixo você se aproximar’. Mas a bruxa podia jurar que por trás dessa permissão silenciosa havia uma súplica ainda mais quieta: ‘Mas por favor, não me machuque’. E não, ela nunca poderia machucá-lo.
...
– Muito frio... – gaguejou ela, tremendo, enquanto aquecia-se em frente a lareira.
– Sua ideia tola de caminhar no meio de um nevoeiro. – interveio ele, entregando-lhe uma xícara de chá.
– Não seja tão dramático. – retrucou, pegando a xícara com dificuldade.
– Hermione. – ele a chamou, cortando o silêncio. Pelo tom de voz dele a jovem já sabia que era algo sério. – Eu preciso que vá até A Toca. – disse, calmamente.
– Até A Toca? Sim, claro! Quando? – mas o olhar dele era intenso, e ela captou que não era uma simples visita até os Weasley.
– Preciso que fique lá por um tempo. – completou, calmo, como se testasse as reações dela.
– Porque? – perguntou, deixando a xícara de lado.
– Eu só preciso que não me desobedeça. – cortou, impaciente, percebendo tarde demais a impropriedade do seu comentário.
– Desobedeça? – sim, ela estava furiosa – Eu não sou mais sua aluna, Severo, então não use esse tom de voz comigo! Tente se abrir e me contar os seus planos e eu verei o que posso fazer... – respondeu, levantando-se abruptamente.
– Porque você tem que complicar tanto? – indagou, passando as mãos nervosamente pelo cabelo negro.
– Eu?! Só estou pedindo que me fale o que está acontecendo para que eu possa te ajudar! Merlin, Snape, quando vai entender que estou com você? – e foi o suficiente para ele se acalmar.
– Você pode me ajudar indo até os Weasley e ficando por um tempo lá. – disse do modo mais calmo e suave que conseguia.
– Você vai fazer algo que te coloque em risco?
– Não. – respondeu, rápido demais.
– Não acredito em você. – e os braços cruzados sobre o peito revelavam a angústia crescente, enquanto os olhos marejados fugiam para a lareira.
– E se eu prometer que vou me cuidar? – perguntou, enquanto aproximava-se temeroso.
– Por quanto tempo?
– Um mês.
– Um mês? Eu pensei que seriam alguns dias!
– Hermione, por favor, seja compreensível. Eu só quero que fique segura, onde poderão protegê-la. Ninguém conseguiria chegar até aqui sozinho se fosse preciso, e eu não vou correr o risco de retirar as proteções, muito menos permiti-las a outra pessoa. Está segura aqui, mas sei que não aguentaria ficar sozinha por tanto tempo sem fazer bobagem. – e as mãos fortes pousaram nos ombros da jovem, como que a forçando olhar para ele.
– Você mandará cartas? – perguntou com a voz embargada, ainda recusando-se a olhar para ele. E neste momento o coração do homem se encheu, transbordou de felicidade por saber que ela estava preocupada, por saber que ela ansiava notícias.
– Sim, eu mandarei. – respondeu, recuperando a compostura.
– Quando? – perguntou, finalmente encarando-o.
– Amanhã à noite.
...
Nesta noite, ao contrário das demais – como vinham fazendo ultimamente – Hermione não ficou na sala lendo na companhia de Severo. A bruxa estava com raiva por não poder ajudá-lo, por não poder ajudar ninguém. E estava temerosa por ele, por saber que Snape provavelmente se exporia mais do que o convencional.
Só que dormir nunca foi tão difícil, já que a jovem sabia que ele estaria na poltrona com o olhar perdido sobre a lareira. Desejou deixar toda a paciência de lado e ir atrás dele, dizer o quanto queria que ele ficasse bem. Mas se conteve, rolando na cama até o sono vencer a ansiedade.
***
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