A sua cor
10 A reação de Hermione
Notas iniciais
– Granger, está parecendo um dos fantasmas de Hogwarts. O que foi que eu disse para deixá-la assim? – perguntou Snape, franzindo a testa para a reação de Hermione.
– O que o senhor disse sobre... sobre o Harry. – gaguejou ela, pálida, com os olhos marejados.
E então ele percebeu que havia contado demais.
– Granger... – começou, tentando contornar seu erro.
– Ele vai morrer?!– ela indagou, exaltada.
– Eu... Granger... É o único jeito. – disse, se esforçando para manter a frieza habitual.
– Desde quando Dumbledore sabia disso?! Desde quando o senhor sabe disso?!
– Alvo me contou no mesmo dia em que revelei meu patrono.
Snape realmente não sabia como agir. Podia não gostar de Harry, mas entendia como Hermione estava se sentindo. Ela estava lutando para não chorar na frente dele, e percebendo isso Severo teve que reconhecer o que não queria admitir nem em pensamento: que Hermione Granger era uma pessoa forte. Forte e... diferente.
Engolindo o soluço que tentava sair e controlando o lábio que tremia, ela disse:
– Mas o diretor não deixou essa parte nas lembranças que estavam na penseira.
– Ele queria que soubesse no tempo certo.
– Tempo certo? – ela perguntou, levantando-se. – Desculpe, mas não acho que tenha tempo certo pra isso! – e batendo a porta, a jovem bruxa saiu do escritório para chorar longe de Severo Snape.
...
‘Inferno!’, gritou o homem das vestes negras, batendo a mão em punho na mesa. ‘O que eu faço agora?’, sussurrou, enquanto esvaziava a garrafa de whisky de fogo no copo a sua frente.
– Eu não faço nada. – murmurou para si mesmo, mal-humorado. – Não vou consolá-la! Muito menos por causa do seu amiguinho arrogante.
No entanto, enquanto sua mente dizia ‘não’, suas pernas o guiaram para procurá-la. ‘De novo’, disse irritado. ‘E em menos de 48 horas’, completou. E quando estava quase se convencendo a deixar Hermione de lado e voltar para sua bebida, ele a viu caminhando para a praia. Acompanhando-a com o olhar, Severo a viu sentando-se na areia e, no segundo seguinte, já estava caminhando ao seu encontro.
O céu estava tão cinza quanto no dia anterior, e o mar tão agitado quanto a situação no mundo bruxo. O vento, ainda mais cortante na orla, completava o cenário pálido, quase preto e branco. Quase... Pois no meio de toda aquela monocromia havia uma jovem de cardigã rosa claro, com seu usual jeans e cabelos castanhos cacheados presos em um rabo.
Sem entender ao certo o que estava fazendo, ele caminhou um pouco mais para alcançá-la, até que parou ao seu lado. Os dois continuaram olhando para o mar, ou talvez para lugar nenhum, evitando a presença um do outro. Presença esta que estava começando a se impor de maneira significativa para ambos. Quem observasse a cena de longe poderia considerá-la bastante peculiar: o contraste entre o preto o rosa, entre o homem amargo e a jovem otimista, entre os cabelos lisos e negros e o castanho cacheado.
– O que mais me deixa assustada é que, de certa forma, eu já imaginava isso. – ela declarou, finalmente, fazendo a voz sobressair o barulho das ondas. – Sobre o Harry... – continuou, ainda olhando para o mar.
Snape apenas a encarou, pedindo que continuasse.
– Essa ligação dele com você-sabe-quem... O fato de conseguir falar com as cobras... A relação dos dois é inegável. E depois que comecei a estudar sobre as horcruxes, sobre dividir a alma... Enfim, a ideia surgiu na minha cabeça. Mas a considerei tão absurda que preferi ignorá-la. – hesitou, limpando a lágrima que escorria. – Eu... eu devo contar a ele?
Snape a considerou por um momento, pensando no que ela havia perguntado.
– Melhor não. Ainda não é o momento.
– E vamos deixá-lo enfrentar tudo isso para no fim... – vacilou – morrer.
Era realmente absurdo, e ele sabia. Mas o que poderia ser feito?
– Granger, isso realmente foge ao meu alcance. Mas tudo o que puder fazer para auxiliá-lo e protegê-lo, eu farei. – disse, sincero, enquanto se virava para voltar ao chalé. Tomando consciência de que tinha acabado de revelar para irritante-sabe-tudo que faria de tudo para proteger o garoto, ele alargou os passos, tentando sair de perto dela o mais rápido possível. Mas quando já estava se afastando, a voz calma de Hermione o atingiu.
– Eu sei que fará. – ela disse, decidida – Não tenho dúvidas disso. – e se levantando para alcançá-lo, continuou – Entenda, não estou irritada com o senhor. Talvez com o diretor, ou comigo mesma, ou com tudo isso. Mas não com o senhor.
Estático com as palavras da menina, e também com o modo que elas foram ditas, ele apenas assentiu, deixando um pensamento sobressair: ‘O que está acontecendo comigo?’.
***
Hermione
Depois do que aconteceu na floresta, seguido pela conversa na praia, as coisas haviam mudado um pouco. Nos dias que se passaram eu e Snape nos evitávamos ao máximo, e isso era evidente para nós dois. Os motivos de ele querer se afastar de mim eram óbvios: ele me odiava. Por ser amiga do Harry, por ser grifinória, por ser irritante e, principalmente, por ter me metido na vida dele. Mas os motivos pelos quais eu o evitava não pareciam muito claros. Nas breves ocasiões em que nos esbarrávamos pela casa, limitávamos nossa conversa a um cumprimento formal – da parte dele, é claro, pois antes que eu pudesse responder ele saía bruscamente. Tão típico... e tão irritante! ‘Mas porque mesmo eu me importo?’, era a pergunta que ficava na minha cabeça.
Espantando o professor da minha mente, revisei mais uma vez o que precisava levar para A Toca.
– Os livros, a barraca, as poções... — recitei pelo que deveria ser a centésima vez todos os itens que havia colocado na bolsa e, me convencendo que estava tudo certo, segui para a sala.
Olhei ao redor para dizer a Snape que estava saindo, mas não havia sinal dele. Não deveria me importar, mas não queria sair sem avisá-lo. ‘O que? Hermione, ele não liga!’, sussurrei, rindo da minha idiotice. Caminhando então em direção à porta, uma voz fez meu coração gelar. A voz que eu não escutava há dias...
– Já vai? – perguntou depois de um pigarro, parecendo hesitante.
– Sim... – respondi, tentando esconder a reação que a voz dele me causou. – Acho que tenho tudo que eles podem precisar aqui na bolsa. Espero não estar faltando nada...
– Revisou tantas vezes essa bolsa nos últimos dias que é impossível estar faltando alguma coisa. – ele disse, deixando um leve sorriso irônico escapar dos lábios.
‘Mas espera... como ele sabe disso?’, perguntei mentalmente. E creio que minha expressão revelou minha pergunta mental, porque ele procurou consertar sua frase rapidamente...
– Porque a senhorita é assim, Granger. É provável que tenha conferido essa bolsa mais vezes que os caldeirões explodidos por Longbottom.
Eu ri, e abertamente. E dessa vez não tive medo de ser repreendida, ou mesmo intimidada, pelo olhar dele. Olhar este que sequer foi lançado. Ele apenas me deixou rir, e não pareceu se importar de ter dito algo realmente engraçado. O ambiente foi então preenchido por um longo silêncio, e logo nossos olhares se encontraram. E a intensidade do momento me fez perceber que Snape era um homem de muitas camadas. E eu sequer imaginava o que poderia encontrar caso quisesse descobrir.
– Tem certeza que não vai ter problema aparatar? – perguntei, quebrando o silêncio.
– Não vai aparatar sozinha, Granger. Vou levá-la. – ele declarou, voltando ao modo habitual.
– Mas, senhor, é perigoso! A Toca certamente está com feitiços protetores poderosos! – respondi, estridente – Não pode se aproximar de lá!
– Tampouco posso deixá-la ir sozinha, Granger. Eu não posso entregá-la ao Lorde, mas isso não quer dizer que outro Comensal não possa. Por mais que ele não tenha interesse na senhorita por hora, não é conveniente arriscar.
– Mas, senhor... – tentei argumentar, irritada.
– Granger, ainda insiste em discutir comigo? – respondeu, parecendo se divertir com a minha indignação, mas ainda com a típica expressão impassível. E então esqueci de que estava brava... Ele havia me desarmado.
– Sim, eu ganhei algumas discussões! – respondi, num fingido aborrecimento.
– Fui vencido pelo cansaço! Porque fica absolutamente irritante quando quer alguma coisa. – disse, tentando me atingir.
– Então eu poderia ser irritante agora... – respondi, entrando no jogo.
– E eu lhe pegaria a força. – e de novo fui desarmada.
Sem saber o que responder, abaixei a cabeça rapidamente e segui para porta, murmurando por sobre o ombro: — Espero o senhor aqui fora.
***
Snape
É claro que ela estava me evitando. E é claro que eu a estava evitando. Sempre muitas perguntas, o jeito autoritário, exigente. E depois um sorriso... ‘Como ela pode ser tão cheia de possibilidades? É difícil acompanhá-la’, pensava.
Não gostava da proximidade que estava desenvolvendo com a menina. Vê-la inconsciente havia me despertado algo que ainda não conseguia explicar, e até que eu pudesse entender o que estava acontecendo achei mais prudente me afastar. Porém, observá-laconcentrada nos inúmeros livros que se espalhavam pelo seu quarto estava se tornando um vício. Todos os dias ela conferia os itens e poções que levaria para o Potter inúmeras vezes, e era no mínimo engraçado poder vê-la tão compenetrada. ‘Se não fosse por ela, os dois cabeças-ocas não teriam sobrevivido nem ao primeiro ano em Hogwarts’.
E assim chegou o dia em que Potter faria 17 anos, e como combinado ela iria até A Toca. Decidido a não deixá-la aparatar sozinha, suspirei e resolvi enfrentá-la. ‘Inferno, Severo, é só uma menina!’, sussurrei pesadamente.
Quando a encontrei na sala, ela já estava saindo. Algo dentro de mim tremeu com a possibilidade de vê-la sair sozinha, e rapidamente me fiz presente na sala. Um pouco hesitante, Granger se virou para me encarar, e toda a indiferença em que pretendia tratá-la evaporou. Por mais que eu tentasse, eu simplesmente não conseguia mais ser indiferente a ela. E isso eu ainda não entendia.
***
– Granger, não-faça-nenhuma-bobagem. – disse Snape, entredentes.
– Sim, senhor, não farei. – respondeu Hermione, não mais se irritando com o jeito exigente dele.
– E mais uma vez, não fique para o casamento. Volte para casa na manhã do dia primeiro. Certificarei de que possa desaparatar sem problemas.
– Tudo bem... – respondeu.
– Ótimo. – disse, preparando para ir embora.
– Professor Snape... – ela chamou, fazendo-o olhá-la – Obrigada. – e acenando com a cabeça em resposta, ele se foi.
***
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