A sua cor

12 A Toca – parte 2


Notas iniciais
Mais um! (e com um bônus Severo Snape no final)

Ele estava sentado no jardim, olhando para o nada, com seu cabelo ruivo contrastando com a noite. ‘Desde quando Rony é tão temperamental?’, pensei.

– Rony... – o chamei, e ele não respondeu – por favor, deixe-me explicar.

– Hermione, sempre foi nós três. O Trio de Ouro... e está nos deixando pra ficar com o homem que matou Dumbledore!

– Deixando vocês? Ronald Weasley, eu estou aqui não estou?! – respondi, furiosa. Já tinha me mantido calma por muito tempo. – Não estou deixando ninguém! – gritei. Mas no segundo seguinte me arrependi ao ver a expressão assustada de Harry. Respirando fundo, busquei paciência e continuei. — Quando comecei com essa história não imaginei que o diretor pediria que me casasse com o professor Snape. Só que foi assim que aconteceu, e como todos nós confiamos em Dumbledore resolvi aceitar.

O olhar de Rony era mais calmo, mas ele ainda parecia magoado. Brigar não adiantaria e, sinceramente, era a última coisa que desejava. Eles estavam entre as pessoas em que eu mais confiava no mundo, e tínhamos tantas histórias juntos... Era horrível imaginar que eles poderiam partir estando ressentidos comigo.

– Rony, eu simplesmente odeio a ideia de não ir com vocês... – confessei, sentindo as lágrimas escorrerem.

– Então venha... – pediu Rony, se aproximando um pouco sem jeito.

– Rony... não dá. Já entrei nisso... já está feito.

Ele não disse nada, apenas me olhou se rendendo.

– Tem muita coisa que não se encaixa aqui. Você não está nos contando tudo... – ele disse, balançando a cabeça e se virando para sair.

– Ainda não terminamos aqui, Ronald! – disse, batendo o pé como uma criança contrariada.

– E o que mais quer falar, Hermione?! – ele gritou em resposta – Você está do lado daquele idiota agora! E Harry, como você não está bravo com isso?

– Rony, é a Hermione... – ele respondeu, dando de ombros. – Sempre confiamos nela, esqueceu? E isso sempre foi suficiente.

E foi o que bastou para o Rony finalmente relaxar. Pareceu pouco, mas significou muito. Mas antes que eu pudesse agradecê-lo, a voz preocupada da Srª. Weasley surgiu, acompanhada do Srº. Wesleay e de todos os outros. O que eu precisava agora...

– O que estão fazendo aqui fora?! Estavam conversando? Já está tarde e não quero que se cansem para o casamento! – ela disse, firme. Contudo, ao parar o olhar na expressão carrancuda de Rony ela hesitou, receosa. – Estavam brigando? Pelos céus, o que aconteceu agora?

– A culpa é minha, Srª Weasley. – comecei, a encarando. – Preciso contar uma coisa a vocês.

Assustados e curiosos, todos seguiram para dentro da Toca enquanto alternavam olhares questionadores. Foi uma situação terrível... Ter que se explicar para pessoas que são importantes para você tende a dificultar as coisas. Quando se voltaram para mim, sentia a tensão em todas as partes do meu corpo, e imediatamente abaixei meu olhar para as mãos. As observava tão fixamente que é como se eu fosse encontrar a solução para os meus problemas através delas. E então um pigarro do Srº Weasley me lembrou que a realidade estava bem a minha frente, e que todos ali mereciam uma explicação. Ou parte dela. E então comecei.

– Dumbledore me designou duas tarefas. Uma delas diz respeito ao que eu e Rony faremos junto com o Harry, e a outra... bem, a outra diz respeito ao professor Snape. – disse, finalmente.

– Professor Snape? O nosso professor Snape? Narigudo, oleoso? – perguntou Fred.

– Existe outro professor Snape? – respondeu Jorge, cutucando o irmão.

– Deixem ela continuar! – brigou Molly – Continue querida...

E então comecei com o mesmo discurso que havia feito a Rony e as reações foram diversas... Exceto por Gina, que permaneceu calada durante toda a conversa. E depois de muitas exclamações abismadas, perguntas e desconfianças, ela se pronunciou.

– Confio em você, Hermione. E isso basta. Se acha que está fazendo o certo, então o mais certo que temos a fazer é acreditar e aceitar. – e o que eu poderia falar? Agradeci num sorriso sincero e a abracei, entre lágrimas. Minhas, é claro, já que Gina raramente chorava. E era exatamente o seu jeito confiante que fez Harry apaixonar-se.

– Gina está certa, minha querida. Apesar de eu ainda achar perigoso estar tão próximo a ele. – disse Molly, me lançando um olhar maternal.

– De qualquer forma ela não tem escolha agora. Vocês dois tem um pacto. – declarou o Sr.º Weasley, enquanto passava um braço em torno de Molly em consolo.

– Sabem... Não é tão ruim assim. Ele não é tão mau, nem tão arrogante. – falei, não me dando conta das minhas próprias palavras e me arrependendo imediatamente. O que foi isso, Hermione?

A sala ficou em silêncio por longos minutos, ninguém sabendo ao certo o que dizer. Contudo, não havia sido tão ruim quanto eu pensava. Sabia que seria um choque, mas não imaginava que eles aceitariam tão rapidamente. Só que nem toda a Ordem estava presente, e eram justamente estes que me preocupavam.

– Não sei se os outros aceitarão tão facilmente. – murmurei, cansada. – Lupim, Olho-tonto, Hagrid... continuei, levantando a cabeça. E então percebi que todos ficaram um pouco alterados, inquietos – O que foi? Eu disse alguma coisa...

– Não, querida. – interveio Molly – É que... – suspirou – Moody foi morto.

Fiquei estática. Queria saber como, o porquê, quando. Mas estava tão cansada e tão triste que simplesmente não tive forças.

– E quanto aos outros, não se preocupe agora. Pensaremos em um jeito de contar a eles. – disse Gui, com Fleur ao lado.

– Agora todos pra cama! Andem, andem! – gritou Molly, movimentando a todos. – E Hermione, querida, não se preocupe. – sussurrou, sorrindo de maneira reconfortante.

Depois que todos já haviam seguido para as suas camas, finalmente respirei aliviada. E então percebi que Gina ainda estava ali, e me olhava intrigada.

– Por onde vai começar, Gina? – perguntei, temendo o que ela falaria. No entanto, ela apenas sorriu e me puxou até o quarto.

– Que história maluca é essa, Hermione? – perguntou, perplexa.

– Gina, por favor... – pedi, exausta.

– Nem pense nisso! Você vai me dizer os detalhes que não contou para todos, Hermione Granger! – exigiu, determinada.

– Detalhes? Não tem detalhes, Gina. Só o básico... – menti, seguindo para o quarto.

– Então está me dizendo que está em um chalé há um mês com o professor Snape, olhando para a cara dele todos os dias, trabalhando com ele, conversando com ele e nada aconteceu? É isso? – tagarelou ela, enquanto me seguia.

– Gina, acho que está esquecendo de quem estamos falando... É sobre o Snape! Ele não conversa! Então, sim, é isso que estou dizendo... não há nada pra contar. E agora, se me dá licença, preciso dormir!

– Não! Por favor, Hermione, eu mereço pelo menos isso... – ela disse, juntando as mãos. Eu sabia que ela iria até o fim, e que não me deixaria em paz até arrancar alguma coisa realmente relevante.

– O que você quer saber exatamente? – perguntei, depois de um longo suspiro, no que ela reagiu extremamente animada.

– Bom, você o defendeu! – começou, sentando na cama enquanto eu fechava a porta do quarto. – E na frente de todo mundo! O que ele fez pra começar a gostar dele? – ela perguntou, de forma natural, como se me perguntasse ‘O que faz para deixar seu cabelo assim?’.

– Gostar dele?! Gina... Eu NÃO gosto dele, só estou dizendo que ele não é tão ruim quanto parece... Só isso. – respondi, tentando me convencer das minhas próprias palavras.

– E o que mais? – ela instigou, empolgada.

– Bom, ele me salvou. – falei, dando de ombros, tentando parecer casual.

– SALVOU? Como assim?!

– Bem... não foi nada demais. É que nós brigamos e eu agi de maneira estúpida... Me perdi na floresta e ele me resgatou. Só isso. – e ficou comigo durante a noite, e me acalmou durante um pesadelo, e me fez tomar poções..., pensei.

– Só isso? – repetiu ela, levantando uma das sobrancelhas – Você não acha que já é demais? Você mesma disse... é o professor Snape. – provocou.

– Eu disse, ele não é tão ruim assim... – respondi, ignorando sua provocação.

– E como vai ser? Digo, vocês vão se casar, certo? Não há nenhuma chance de... Ah, você sabe... De serem um casal de verdade?

– Gina! O que você está falando? Está louca? Claro que não! Jamais me casaria com alguém como ele por livre e espontânea vontade, como diriam os trouxas... Arrogante, rancoroso, grosseiro... E esses são os melhores adjetivos que consegui selecionar. – disse, implorando mentalmente que Gina acabasse com o assunto.

– Pensa, Hermione... Vocês dois são muito inteligentes, metódicos, invasivos, adoram poções, amam ler... Você não o teme e parece enfrentá-lo muito bem... O professor Snape cometeu sua quota de erros, mas você foi capaz de passar por cima disso para morar com ele...

– Morar com ele, Gina, é diferente de ter... de ter algo com ele! Ele já foi um comensal, humilhou a mim e ao Harry todos esses anos e... ele deve ser uns vinte anos mais velho que eu!

– Se Dumbledore deu uma segunda chance a ele, não tem motivos para você não dar. E quanto a humilhar, bem, é o jeito dele... e o Harry não gosta de Snape desde o primeiro olhar! Eles se odiaram de cara! A culpa não é só do professor... E quanto a idade, é o menor dos problemas, já que a sua idade mental está beirando os cinquenta! – brincou ela.

– Você é louca, Gina! Nunca ouvi tanta bobagem em tão pouco tempo... Nem mesmo do Rony. – disse, sorrindo. – Mas agora me diz... e aquela troca de olhares com o Harry mais cedo?

– Nós nos beijamos... – respondeu, dando e ombros e levantando da cama.

– O QUE? Vocês voltaram?!

– Não... Ele ainda continua com a mesma ideia idiota de me proteger... – suspirou, com a voz fraca.

– Gina...

– Está tudo bem, eu entendo... Mas não vou desistir dele... Vou esperar o tempo que for preciso. – concluiu, decidida – Mas não fuja do assunto... O foco de hoje é você! – ‘Céus, ela não cansa!’, pensei.

– Gina, vamos dormir, ok? Já passa das três horas da manhã... Estou exausta. Por favor... – implorei.

– Ok... Mas amanhã conversamos mais! – respondeu, bufando. – Boa noite, Hermione.

– Boa noite, Gina... Nox.

Repassei os acontecimentos do dia mentalmente, e sorri diante os resultados. Eu realmente amava a todas aquelas pessoas, e se alguma coisa acontecesse a qualquer um deles uma parte de mim morreria. E foi aí que pensei nele. Era estranho, mas de certa forma já estava me acostumando a morar naquele chalé. Por mais que Snape ainda me intimidasse, parecia tão certo... E então comecei a pensar em todas as coisas que a Gina tinha falado com tanta naturalidade e que eu evitava pensar. Não queria admitir que... eu gostava dele. Não da maneira como Gina estava insinuando, claro, mas eu gostava de saber que ele estava bem. ‘Droga. Isso não pode significar boa coisa.’, pensei.

– E ele é bem bonito. – declarou uma vozinha vinda no nada.

– Droga, Gina! Não estava dormindo? Você me assustou...

– Desculpa... – respondeu, rindo.

– E quem é bem bonito? – perguntei, impaciente.

– A pessoa que estava pensando, provavelmente. O professor Snape.

– Gina... – pedi, já estressada.

– Ok, ok! Boa noite...

***

Snape

Tentava me concentrar nas poções, mas uma sensação incômoda de que eu estava esquecendo alguma coisa me inquietava. Deixei a sala e vaguei pela casa, pensando no que não estava em ordem ali. Ignorei a porta do quarto dela e desci as escadas, rumo a poltrona. E na mesa de centro, dois copos de whisky brigavam com a decoração. ‘Granger...’, pensei. A menina havia mudado toda a minha vida de maneira drástica. Desde que o pacto foi feito, comecei a me sentir responsável por ela... como uma obrigação. Mas depois do incidente na floresta, vê-la machucada me fez perceber que talvez não fosse só um pacto que nos ligava. ‘Estou bêbado de novo’, bufei, culpando a bebida pelos meus pensamentos estranhos.

Era madrugada e eu estava pensando nela. ‘Idiota’, me repreendi mentalmente, ‘Ela nem deve ter lembrado da sua existência durante todo o dia, Severo’. E os meus pensamentos insistiam em me trair. Quanto menos tentava pensar na Granger, mais era surpreendido pela forma como ela, de repente, estava em tudo.

***