A serpente e a estrela
11 Votos perpétuos
Notas iniciais
O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Oh! meu amor!
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome [...]
Pétala — Djavan

Votos perpétuos
Capítulo 10
— Está amanhecendo e eu não consigo dormir. Parece que também não, tamudaei – Asmita disse, aproximando-se de Ikki que mirava o vale do grande império do topo da colina. – Seria um bom momento para me contares sobre tua história com o meu irmão.
O árabe suspirou, sentindo o vento frio do deserto açoitar seu rosto.
— Queres mesmo saber sobre isso? talvez tenhas mais motivos para me odiares depois que souber tudo. Não sei... Penso que devo manter tua adaga fora do meu pescoço. – Ele verbalizou calmamente, ainda mirando a paisagem.
— Há alguns dias, eu achava que estava sozinho no mundo. Devolveste-me algo que eu julgava perdido. Estou grato; agora eu tenho a ti para me lembrar de algo do qual havia esquecido. Creio que seja justo que me contes. Preciso desse sentimento que não alcanço há muito tempo, jovem príncipe.
— O que uma alma amargurada como a minha poderia oferecer a um mago do deserto? – o árabe indagou baixo, perdido na própria dor e fugindo de olhar para aquele homem.
Asmita. Sua semelhança com Shaka o perturbava. O mago o perturbava por algum motivo além da aparência também. Talvez o herdeiro do trono de Najah lhe lembrasse de quem ele era de verdade: um assassino por natureza; um monstro genocida. Sim, ele lhe lembrava aquela noite em que a cidade persa fora devastada. Sim. Ele o perturbava.
— Algo que pulsa com muita força em ti, jovem tamudaei.– Asmita continuou tranquilamente, sentindo a carícia do vento em seu rosto.
— E o que seria?
— Esperança. Podes não ter nada, mas tens tanta esperança que ela o sustenta. Por favor, conte-me tudo. Deixe-me recuperar nem que seja a sombra desse sentimento.
O moreno se virou para mirar o rosto calmo do persa e seus olhos azuis, bonitos, mas opacos.
— Certo, Asmita. Tu saberás de tudo. – Ele sorriu com o canto dos lábios, voltando a mirar o céu. O passado; ele sempre, seu único bálsamo.
Após aquele traumático ‘incidente’, é dessa forma que me refiro a nossa primeira tentativa de sexo, eu fui procurar Ágora. Era tão ingênuo que não tinha vergonha nenhuma de contar o acontecido, o que me envergonhava era ter machucado Shaka, isso sim me deixava completamente perdido.
Ágora, após saber se “o pequeno”, como ele chamava Shaka, estava bem, caiu numa gargalhada tão longa e entusiasmada que chamou atenção, contra minha vontade, de todos os guerreiros da arena. Era difícil para o ruivo entender como duas pessoas podiam ser tão tolas para achar que as coisas aconteceriam daquela forma tão simplória e sem preparo.
— Ikki, és muito menino! Achas que sexo entre homens é assim? Arriar as calças e enfiar o pau? – e ria novamente, chegando a ficar com o rosto vermelho. – Violet não...
— Ela se recusou.
Ikki falou e o outro se tornou sério.
— Recusou-se?
— Sim. Disse que tu eras louco por incentivar algo do tipo. Por que não me contaste do passado dela? Por que não me disseste que ela é uma exilada?
O mais velho não respondeu de imediato. Segurou uma mecha do próprio cabelo encaracolado e ficou brincando de enrolá-la no dedo.
— Não havia motivos para contar. Na verdade, eu tive uma intenção ao enviá-lo até minha irmã.
— Qual?
— Que ela segurasse o pequeno por lá. Que ficasse com ele para protegê-lo. Mas claro que havia a possibilidade de tu não permitires tal coisa.
— Claro que não! Eu nunca deixaria Shaka sozinho naquele lugar. É um bordel!
Ágora sorriu com certa tristeza.
— E o que achas que acontece a garotos bonitos como Shaka? Qual o destino dele se for descoberto, Ikki? Claro que O Chacal não o entregará a uma tribo para ser escravo comum. Com a beleza que tem, com aquela delicadeza de traços, ele acabará num bordel quiçá torne-se eunuco...
— Nunca! – Ikki o interrompeu, furioso, erguendo-se e encarando o outro como se fosse iniciar uma batalha. – O que dizes? Como ousas dizer tal coisa?!
Ágora observou o garoto com uma expressão ainda mais séria.
— Se forem descobertos – ele disse de forma lenta e cuidada. Sabia que qualquer palavra errada poderia valer sua cabeça – o que achas que acontecerá com ele? Ikki, tu podes ser um grande guerreiro, mas não és um deus para ir contra toda Karna em defesa de um escravo. Serão aniquilados.
O adolescente encarou-o por certo tempo, a respiração agitada, o rosto trêmulo, até que se sentou novamente ao lado do outro e levou as mãos aos cabelos num gesto de desespero.
— O que posso fazer, Ágora? Há tempos penso em fugir daqui com ele. Há tempos eu quero, mas sempre há uma missão, há algo que acaba me impedindo. Preciso esperar a época das festas da kaaba, quando todos irão a Makkah e poucos guardas ficarão nas muralhas.
— É a ocasião perfeita, meu príncipe – disse Ágora. – E não demora o dia da grande festa chegar. Os ritos da pedra negra duram três semanas. Quando todos voltarem, já estarás distante com o pequeno.
— Sim. Posso contar com tua ajuda, Ágora? – indagou o mais novo com os olhos cheios de esperança cravados no mais velho. – Sou forte, mas não conseguirei totalmente sozinho. Shaka não sabe lutar.
Ágora hesitou. Caso ajudasse e aquilo não desse certo, seria acusado de alta traição e enforcado ou algo pior: crucificado.
Todo e qualquer guerreiro tamudaei tinha pavor à arte macabra importada dos persas. Um crucificado era exposto na entrada da cidade e agonizava durante três dias, sendo devorado, muitas vezes vivo, por corvos e abutres. Era a pior forma de morrer existente. Mas como ele poderia negar algo a dois jovens apaixonados e dispostos a enfrentar o mundo por amor? A resposta que ele deu a Ikki levou-o a ter o primeiro desentendimento sério com Shiva.
— Isso é loucura, tu acabarás morto! Morto! – gritou o mais novo, amedrontado. – Prometemos que nunca faríamos nada que arriscasse nossas vidas, que seríamos discretos para não acabar como tua irmã! E agora, por estranhos, tu me trais!
— Shiva, ponha-te no lugar dos dois! – O mais velho segurou-lhe os cotovelos e mirou os olhos castanhos do rapaz. – E se fôssemos nós? E se um dia formos descobertos e precisarmos de ajuda como eles precisam agora para sobreviver? Sei que estás com medo...
— Para o inferno! Eu não estou com medo! – ralhou o adolescente.
— Estás com medo, sim! Mas eu juro por minha vida e a alma de todos meus ancestrais que nunca permitirei que nenhuma espada caia sobre ti, meu... amor. Nunca farei nada que o ponha em risco. Confie em mim.
Aquelas não eram palavras fáceis de serem ouvidas de um tamudaei. Shiva hesitou, mas acabou abraçando Ágora com força.
— Não suportaria perdê-lo, Ágora – confessou. – Por que não fazemos como eles? Por que não vamos embora?
— Porque ao contrário deles, gostamos daqui. Karna é nosso lar.
— É um lar que não nos aceita ou respeita – replicou Shiva com amargura. – Vale mesmo a pena ficar em tal lugar?
Ágora calou-se. Preferiu não responder àquela pergunta; até porque ele não tinha resposta.
Naquele mesmo dia, Ikki tomou Shaka pela mão e o levou novamente para aquela gruta no alto dos montes rochosos de Karna. Precisavam prepararem-se para a fuga.
— Por Mitra! Por que me fizeste subir aqui novamente? – reclamou Shaka, apoiando as mãos nos joelhos.
— Preciso ensiná-lo a usar a saif e a adaga – Ikki foi direto.
— Por quê? – Shaka indagou curioso, demonstrando que gostou bastante daquilo.
— Fugiremos no dia da festa da pedra negra e preciso que saibas defender-te minimamente. Não sei o que enfrentaremos, Shaka, preciso que consigas defender-te.
O loiro abriu mais os olhos e assentiu com a cabeça como uma criança curiosa.
— Vamos, tire a túnica – Ikki ordenou, e ele o obedeceu, ficando apenas com a calça folgada.
O moreno perdeu-se um pouco mirando o corpo branco e delgado. Nem entre as mais belas árabes ele viu uma pele tão perfeita. Balançou a cabeça como se fugisse de um encanto e começou a ensinar ao loiro as posições corretas de um combate, ao entregar-lhe uma saif.
— Precisa flexionar os joelhos e por um pé como apoio. A arma é leve, mas isso aumentará a força do golpe. Mova a espada assim...
E ele ensinava a um atento Shaka que repetia com precisão milimétrica as orientações do árabe. O persa possuía aquilo que chamamos hoje de memória fotográfica e uma disciplina invejável em tudo que fazia. Foi por esse motivo que aprendeu diversas línguas com muita facilidade e também conhecia de astronomia, matemática e arquitetura, afora as letras de vários povos. Não seria difícil aprender a arte de matar, embora ele não quisesse isso. Queria apenas ter como se defender, se necessário.
Ikki ficou satisfeito com aquela primeira aula, achava que Shaka seria capaz de se defender se precisasse. Estava mais tranquilo para esperar pela grande festa.
Alguns dias se passaram. Eu fui designado para uma nova pilhagem e voltei alguns dias depois. Se quando ele estava no harém, vivíamos sempre juntos, quando ele foi definitivamente para meu quarto, não nos separávamos por nada. Houve comentários no palácio, principalmente entre as mulheres. Ele recebia uma concessão que nenhuma concubina jamais havia recebido e as senhoras de Karna começaram a não gostar da situação, chegando mesmo a reclamar ao Emir que, como sempre, mandou todas ao inferno.
O rei Omã estava satisfeito comigo. Minha tropa era a mais feroz de todos os grupos tamudaeis, e isso despertava terror. Para o meu pai, apenas despertar temor interessava. Os celeiros estavam cheios, mais e mais escravos chegavam para aumentar o tesouro de Karna, então, claro que ele não se importaria com quem eu levava para o meu quarto. Eu tinha 15 anos, mas já possuía poder dentro do clã.
Shaka estava bem, e minha presença na fortaleza o deixava feliz. Sempre estávamos juntos após o meu treinamento que muitas vezes ele assistia da janela da torre com Jamila, sempre deixando rosto e cabelos cobertos para não desconcentrar os soldados. Ah... Como se isso fosse possível! Os olhos de Shaka desconcentravam todos nós, e eu ficava verde de ciúmes quando via os soldados perdendo a direção na arena.
— Prestem atenção, seus malditos! — ralhava e lançava um olhar irritado ao meu amigo que moviam os ombros sem entender minha raiva. Ele não fazia ideia que somente seus olhos eram capazes de paralisar os homens.
— Eu pedi para não saia?! — berrava com ele, pegando-o pelo braço e o levando para o quarto sempre que possível.
Jamila brigava comigo depois, dizendo que não era daquela forma que se tratava um amigo e nem muito menos um amante. Mas eu e Shaka não éramos amantes, éramos crianças descobrindo o amor e não sabíamos como deveríamos nos portar, era tudo instintivo.
Depois da nossa fracassada primeira vez, Jamila resolveu nos explicar as coisas, e explicava para dois jovens assustados. Ela falava de amor, ao contrário de Ágora que falava de sexo. E depois de um tempo, a sábia Jamila nos apresentou algo que nos deixou abobalhados e envergonhados, um livro chamado ‘Kamasutram’.
— Este livro trouxe comigo de Najah. Foi a única coisa que consegui salvar, e, embora as ilustrações tragam homens e mulheres, é bom para que saibam mais sobre a arte de amar... Aquilo que vocês tentaram fazer! – Ela disse, séria e atenta. – Bem, Shaka, leia e traduza para o Ikki, sei que acharão interessante.
— Não tentaremos mais, Jamila, eu juro! — Ikki falou em tom de promessa, e a mulher riu.
— Ah, farão sim. — disse maliciosa a concubina, deixando-os sozinhos.
O livro realmente nos deixou a par do que acontecia entre um homem e uma mulher, mas ficamos ainda mais confusos, afinal, éramos, os dois, homens. Bem, essas coisas ... Quem as respondeu foi Ágora, sem nenhum pudor e com todos os detalhes possíveis.
Nesse meio tempo, a gravidez de Jamila avançou e aconteceu algo que deixou Shaka completamente desconsolado: como era a tradição, chegou o momento de Jamila deixar a fortaleza, e os cuidados de Omã e suas servas, para dirigir-se ao templo da deusa Al-Uzza, senhora da fertilidade e dos partos, onde sacerdotisas cuidariam da Grande esposa. Era uma tradição, e a gestante teria todos os cuidados e regalias de uma rainha. O único problema era que entre as sacerdotisas da deusa estava Zahira e muitas das suas aliadas.
— Ainda falta muito para o bebê nascer, meu adorado! – Jamila argumentava com Omã, não querendo ir, mas nas questões religiosas o Emir não tinha tanto poder.
— É preciso, minha bela. Não compreendes, pois és estrangeira, mas isso garantirá força e saúde à nossa prole. – Ele disse, dando leve tapinhas no ombro da mulher. – Vai-te, elas cuidarão bem de ti até o parto.
Jamila não pôde argumentar. Seguiu o cortejo de mulheres vestidas de negros da cabeça aos pés. Na saída da fortaleza, seus olhos se encontraram com os olhos de Shaka, e o garoto ariano tentou alcançá-la, mas foi impedido pelo príncipe que o segurou fortemente pelo braço. Então somente seu olhar brilhante se conectou ao olhar cheio de medo da fenícia.
Jamila teve que se conformar com seu destino de mulher e seguir para passar o resto da gestação no templo de Al-Uzza como toda rainha tamudeia.
Desde então, Ikki concentrava-se na organização do seu plano de fuga, e Shaka sondava as mulheres do reino, querendo encontrar uma forma de visitar a amiga, que corria perigo, ele sabia. Nenhum homem poderia penetrar o templo, mas ninguém sabia que ele era um homem.
As batalhas vinham, as batalhas passavam, Ikki voltava para Shaka com cada vez mais conhecimento, cultura, informações, curiosidade que eram divididas exaustivamente com ele. Tentava saber tudo sobre o mundo para deixar seu mestre orgulhoso e também para saber qual o melhor lugar para fugir. Sempre que voltava, ele achava o persa triste. O árabe sabia que Shaka estava sozinho, isolado, mas não comentava sobre isso. Dizia que não havia motivos para preocupações, que Jamila era a Grande esposa e seria muito bem tratada. Beijava-o e acarinhava-o de forma que o ariano esquecesse os problemas. A grande festa se aproximava.
Era a noite da primeira lua cheia. Festa primaveril da colheita das tâmaras dos oásis e da abertura dos portos para o comércio de especiarias. Havia convidados no palácio, um povo estranho de um lugar estranho. As concubinas dançavam para entreter os visitantes, mas Ikki mantinha Shaka à parte. Eles transitaram um pouco pela festa, mas depois se refugiaram num dos poucos jardins que havia na fortaleza. Preferiam ficar longe das orgias de sexo e vinho que sempre acabavam acontecendo em festas como aquela.
— Meu pai vai beber até cair, quando for arrastado do salão, a festa acaba — disse Ikki com um sorriso sonolento.
— Não quer participar da festa? Há moças novas no harém — falou o loiro contendo o ciúme, sondando os sentimentos do outro. Na verdade, ainda não havia aceitado muito bem a vinda de Shyna, e depois das atitudes da garota etrusca, ele ficou ainda mais enciumado. Era um sentimento novo, estranho, e por isso ele não o entendia, embora o sentisse e se desagradasse.
— Não, não quero. – Ikki respondeu, apoiando a cabeça no ombro do loiro, ignorando os seus pensamentos. – Estou cansado...
— Jamila disse que dois homens não podem procriar. – Mas Shaka não daria trégua ao moreno. Quando ele queria, sabia ser impossível. – E que namoro, casamento e sexo só possuem um objetivo: a procriação.
— Como assim? – O moreno indagou, distraído.
— É errado você gostar de mim e eu de você. Não podemos procriar. — Shaka disse, sondando e externando um pensamento que já tinha há certo tempo. Na realidade, não entendia por que era errado, mas se Jamila dizia, ele acreditava. — Por isso quando seu pai descobrir quem sou, ele vai me matar ou me vender.
— Já disse que vamos embora daqui. Ninguém vai descobrir – replicou o árabe mal-humorado. – E daí que não podemos procriar? Eu não me importo com isso.
— Nem eu. – O loiro riu sapeca, mas depois ficou sério. – Quando?
— Breve, só preciso preparar algumas coisas – respondeu o moreno num suspiro.
— Mas e seu pai, sua família?
— Isso não importa.
Shaka descobriria mais tarde que os tamudaeis não tinham forte tradição familiar, e que ser filho do rei não garantiria a Ikki ser o próximo rei. Tudo entre eles era forjado no forno da força e brutalidade. Então, para Ikki era tão natural abandonar o clã quanto decepar a cabeça do seu progenitor.
Já Shaka, sentia uma falta absurda da sua família. Havia dias em que chorava baixinho à noite, chamava pelos pais e que se abraçava a Ikki com força. O árabe era mesmo tudo que ele tinha. Ikki não entendia aquilo; achava estranho ver um homem chorando. Os homens da sua tribo não choravam, e ele, quando bem mais jovem, sempre apanhava quando chorava até mesmo de fome.
Aos cinco anos, os meninos tamudeus deixavam suas mães e seguiam os homens para se tornar guerreiros. Poucos chegavam à idade de 12 anos devido às duras penas que eram impostas.
Ikki, entretanto, esquecia-se da realidade quando estava com Shaka como naquele momento em que a festa acontecia no grande salão, e eles estavam no jardim, abraçados, mirando a lua. Os homens se embriagavam com vinho quente e com a dádiva de Hassan, e eles ignoravam completamente o que acontecia ao redor, embriagados da presença um do outro.
— Shaka, se eu pedir uma coisa, você faz? – o árabe perguntou sapeca ao escutar a música gostosa que vinha do salão.
O loiro ergueu a cabeça que estava pousada no ombro do moreno para mirá-lo.
— O quê?
— Dança para mim?
— Eu não gosto... – negou o persa, torcendo os lábios.
— Mas quero vê-lo dançar...
— Minhas roupas não são apropriadas...
— Tira a túnica, fica só com a calça, ela não vai te atrapalhar.
— Alguém pode aparecer... – buscava saídas.
— Não aparecerá ninguém...
Shaka mordeu os lábios enquanto ouvia a música que vinha do salão e soltou um muxoxo.
— Certo, mas não ria!
— Não rirei! — falou Ikki, divertido.
O loiro livrou-se da túnica, ficando somente com a calça fina que era folgada nas pernas. Ikki ficou fascinado quando ele começou os passos graciosos. Os olhos do árabe se fixaram em sua linha do quadril e nos movimentos circulares que ele fazia. A barriga lisinha e branca se contraia em movimentos rítmicos que começaram tímidos, mas que aos poucos se tornaram mais confiantes.
O príncipe tamudaei parecia hipnotizado, os movimentos de quadril, pernas e braços eram todos medidos e sensuais e quando ele jogava a cabeça para o lado e para trás, seus cabelos longos espalhavam o cheiro do lótus que impregnava o ambiente e deixava-o meio tonto. A música sensual e enérgica continuava no salão, e Shaka parecia tão concentrado nos movimentos que nem percebeu quando o amigo se levantou do banco e aproximou-se dele.
O ritmo era lento, entontecedor ... Flautas, alaúdes, cítaras e tambores, criavam um clima místico que tornava os passos graciosos do loiro ainda mais impressionantes. A voz doce de uma mulher entoava uma ladainha harmoniosa que deslizava pelas curvas do corpo do ariano em ondas sinuosas, cortantes, lúbricas...
Era como se a luxúria tivesse envolvido o ambiente e de tal forma que o instinto mais primitivo começou a guiar minhas ações. Creio que meus olhos estavam dilatados como os de felinos à noite e eu sentia o cheiro de Shaka tão forte quanto um chacal sente o cheiro do sangue da presa na areia quente do deserto. Aquele cheiro de lótus estava me embriagando, me enlouquecendo. Sentia a excitação pulsando dentro de minhas roupas de forma tão intensa que era dolorido.
Quando Shaka curvou o corpo para trás como um arco, fazendo movimentos de mãos numa sensual coreografia, sentiu um braço firme envolver sua cintura e trazê-lo de volta à posição reta. Seus cabelos desceram sobre si como um manto de sol e seus olhos se encontraram com o brilhante e escuro olhar do tamudaei. Uma secura absoluta tomou conta de sua garganta ao sentir o calor do corpo de Ikki contra o seu.
O árabe tocou-lhe a boca, e o loiro fechou os olhos, ainda ofegante. Deixou que ele dedilhasse seus lábios cheios, para logo depois tomá-los como se fosse um demônio que o possuía com ânsia mortal e malévola. O loiro apenas gemeu e o enlaçou pelo pescoço, aceitando sua boca com o mesmo ardor de sempre. Seus olhos se encontraram enquanto as línguas continuavam dançando uma com a outra.
O luar claro iluminava os dois e tornava tudo místico, como um sonho, uma quimera.
O moreno afastou os lábios, sem perder o contato do olhar e passou a mão no rosto claro, puxando-o mais para si pela cintura, encaixando seus corpos perfeitamente; como se fossem parte um do outro.
O que posso falar a partir daqui? Eu o peguei em meus braços e o levei para o nosso quarto. Tudo foi tão diferente da primeira tentativa. Parecia que ela serviu para nos dar maturidade e a paciência que essa maturidade traz. Claro que as conversas com Ágora ajudaram, mas era algo além, era uma plenitude, algo místico, que guiava nossas ações. Nunca tivemos medos e nem pudores, nem mesmo na primeira vez em que tudo deu errado. Agora era como se nossos corpos entendessem que se pertenciam e que se completavam. Não precisamos de mais nada e nem lições para que tudo acontecesse de forma mágica.
Ele livrou o loiro das roupas com facilidade enquanto provava cada parte da sua pele alva. Shaka apenas ofegava e gemia baixo, estremecia e afundava as mãos nos cabelos escuros do amante. Ikki umedeceu os dedos com a própria saliva e quando fez entrar o primeiro, o loiro soltou uma exclamação surpresa e se agarrou às cobertas da cama. Seus olhos se encontraram, e eles estancaram tudo por um instante, apenas as respirações forte preenchendo o silêncio.
— Não quer? — indagou o árabe, tencionando se afastar. Ele precisava daquilo, mas estava cônscio de que obedeceria a todo e qualquer desejo do amado.
— Quero — disse o loirinho. — É o que mais quero...
— Vai doer... — advertiu o moreno sem tirar os olhos dos dele.
— Não tem importância — murmurou Shaka. — Eu o quero, Ikki. Eu o amo.
Eles se beijaram, e o moreno baixou as calças e se encaixou entre as pernas do outro adolescente. Mais algum prepara, e começou a entrar no corpo dele sem desviar o olhar, viu quando Shaka fechou os olhos e mordeu os lábios até que um filete de sangue descesse, mas ele não gritou, nem mesmo gemeu como da primeira vez. Parecia estar preparado e cônscio do que fazia e queria.
Ficaram parados assim por um tempo, Ikki sentindo-se pulsar dentro dele, louco de vontade de se mexer, mas contendo-se, e Shaka de olhos fechados e com a respiração suspensa. Quando ele abriu os olhos, lágrimas brincavam pelos cílios longos, fazendo-os brilhar como se fossem gotas de luz. O árabe ameaçou recuar, mas as mãos do ariano o detiveram.
— Continue... — a voz juvenil saiu estrangulada pela dor e seus olhos continuaram fixos nos azuis do amado. – Eu o quero mais que tudo. Mais que minha própria vida, Ikki. Continue!
— Não quero machucá-lo de novo... – o moreno disse, a emoção forte retumbando no peito, mas o loiro sorriu, afagando-lhe o rosto, sem deixar de olhá-lo nos olhos.
— Eu quero que continue, estou pedindo... — murmurou Shaka de forma doce, mas imperiosa. – Não vai me machucar...
O moreno assentiu com a cabeça e arremeteu para dentro dele sem desviar os olhos do amado. Shaka gemeu baixo, mordendo os lábios, nas primeiras estocadas, misto de dor e um início tímido de prazer, mas não recuou. O loiro trançou as pernas no quadril moreno, soltando um leve gemido a cada investida do sexo poderoso na cavidade apertada. Ikki o preenchia inteiro e sorriu quando viu a dor se esvaindo a cada movimento até que apenas o prazer consumisse o amante.
Lembro-me do cheiro de suor, dos olhos dele sobre mim, escuros, dilatados de desejo, prazer, dor, gozo... Nossos corpos bailando com uma sincronia absoluta, ele se afundando em mim como uma espada me rasgando ao mesmo tempo em que me renascia, me transformava. A partir dali eu não seria mais menino; não pensaria e nem agiria mais como um menino...
Seus lábios em meu corpo marcavam minha pele inteira, queimava-a como brasas vivas. Não havia nada a temer naquele momento. Foi sublime, foi minha epifania, a partir dali eu soube que nasci para dançar para ele. E só para ele.
O loiro estava sentado agora no quadril moreno, os olhos presos nos dele, escuros. O desejo produzia uma dor aguda no corpo do árabe que pulsava, mas ele era paciente, mesmo com a pouca idade que possuía, ele queria que tudo fosse devagar. Era uma quimera, seu cheiro amadeirado se juntava ao odor de lótus do ariano... Era exótico... tóxico... aliciante... O gosto dos lábios, o toque das línguas... O calor.
O cheiro do óleo perfumando se mesclava ao odor delicioso e natural da pele de Shaka, e eu me embriagava nesse cheiro e nas novas sensações do meu corpo. Sentia-me tão intensamente vivo que naquele momento seria capaz de tocar as estrelas...
Shaka gemeu o nome do árabe de forma lânguida, mordendo os lábios com uma expressão de dor e êxtase e começou a mover o quadril à procura de mais conforto, mais contato. Os lábios semiabertos, os olhos cerrados.
Tudo foi tão diferente; tão perfeito. Era como se nossos corpos esperassem o momento certo. O momento que fora talhado pelo destino. Aquela noite de lua cheia, aquela noite de dança e alegria em que Karna comemorava sua fartura e poder. Aquela noite de magia, misticismo e superstição. Aquela noite em que uma mulher cantava ao som de tambores, alaúdes e flautas.
O ariano gemeu agoniado enquanto o moreno se movia com força para dentro dele, e jogou a cabeça para trás, transido também de um excruciante prazer. A voz doce e sussurrada era o incentivo de Ikki, e ele o obedeceu cegamente, entrando fundo. Segurando-o com força, marcando sua pele macia com os dedos, enchendo as mãos e elevando o corpo delgado para o próprio avanço, em saídas e entradas frenéticas. Perdendo-se na bruma de um prazer tão avassalador que desfaleceram...
Não havia horas, obrigações, universo... Só a carne, o cheiro, o toque... O gozo.
A paixão os dominou por completo, fazendo as peles arderem e os corpos convulsionarem, apanhados por um orgasmo tão intenso que fez com que perdessem momentaneamente a conexão com a realidade.
Quando abriu os olhos, Ikki percebeu que Shaka havia adormecido em seus braços. A pele macia ainda estava corada, e ele respirava levemente ofegante, mas parecia desacordado. Tocou-lhe o rosto com carinho, e os olhos azuis de negros e inexplicáveis cílios se abriram para ele. Shaka sorriu e afagou o rosto moreno e suado.
— Amo-te — murmurou o loiro e beijou os lábios carnudos suavemente, mais um roçar de lábios ofegantes que um beijo. O moreno percebeu que o corpo dele tremia um pouco sob a brisa da madrugada que entrava pela janela. A música havia parado, a festa acabava no salão. O cheiro de sexo mesclado aos odores próprios dos amantes permeava o quarto. Eles estavam deitados agora, abraçados e cansados, mas plenos, felizes, inteiros.
— Também te amo... — murmurou Ikki e fechou os olhos. — Você é meu, Nur, só meu.
— Sim, sou teu, Ikki. Para sempre – Shaka murmurou e sorriu.
O árabe sorriu também, tocando-lhe o rosto novamente. Havia uma felicidade, um brilho intenso e verdadeiro nos olhos de ambos. Um brilho de paixão e encantamento.
O que posso dizer daquela noite? Foi única. Inesquecível por vários motivos. Foi a primeira vez que nosso amor experimentou sua face carnal com toda a entrega e intensidade que o sexo pode dar aos sentimentos verdadeiros. E ‘aquela noite’ não foi por curiosidade e luxúria como da primeira vez; foi como se fôssemos guiados por uma força primitiva àquele momento de encontro. Encontro de almas. Algo que transcendeu a matéria, algo que pertenceu à nossas existências de forma perpétua. Silencioso voto eterno.
Mu se ergueu de onde estava, um tanto incomodado, o rosto afogueado sob a luz tênue do crepúsculo, os olhos úmidos.
— Falas de um jeito, Shaka – ele disse. – Deverias ser poeta e não sacerdote de Háthor – disse, tentando conter a própria emoção. As palavras do amigo falavam a si com uma força desoladora.
— Incomoda a forma como relato essa história? – O loiro disse com um sorriso desdenhoso. – É apenas um cântico, Mu. Como disse. Não se trata de uma história verdadeira. Uso a mim mesmo como personagem para uma ilusão. É bom sonhar um pouco. Fingir que também fui capaz de viver um amor verdadeiro.
O mais novo sorriu tímido.
— Não me enganas. Sei que estas coisas aconteceram contigo em algum momento. Só não sei como chegaste aqui; como chegaste a escravo do Egito.
— Isso é história para o próximo ato. Mas digas-me, por que te sentes assim hoje? Percebo-te agitado – o loiro falou, atento como uma serpente.
Mu passou as mãos nos cabelos longos que eram presos na ponta por tiras de papiros incrustadas de pedras preciosas.
— Sinto-me estranho. Eu... – os olhos verdes se voltaram para o dançarino que ficou parado, sem nenhuma expressão. – Eu sinto que posso gostar de alguém mais do que seja adequado. Apenas não sei qual o tipo desse sentimento.
— Eu sei. – O estrangeiro disse tranquilamente.
— Sabes? Como sabes? – surpreendeu-se o príncipe egípcio.
Shaka fez um gesto de desdém com a mão e voltou a se sentar no grande divã que havia em seu jardim, sob um longo e ostentoso caramanchão.
— Os egípcios são muito óbvios, meu príncipe. Só não entendo qual são teus medos. Tu és o jovem-faraó. O que pode ser maior que isso?
— Minhas obrigações. Meus pais nunca permitirão que eu viva um sentimento inadequado. Aqui no Egito, os filhos não têm direito a escolha.
— Em parte alguma eles têm, Mu – tornou Shaka, pensativo.
— O que posso fazer?... – murmurou o mais jovem com os lábios trêmulos.
— Então fuja. Fuja do Egito.
O jovem-faraó o mirou surpreso.
— Eles me caçariam até os limites da terra – concluiu triste. – Ninguém da casa real pode deixar a casa real sem a autorização dos deuses.
O dançarino se ergueu e aproximou-se do jovem, o mirando com profundidade. Mu sentiu-se preso dentro dos diamantes dos seus olhos.
— Então esqueças este sentimento e vivas a vida que escolheram para ti. Ou vivas este amor com intensidade e silêncio, pequeno príncipe.
Os olhos verdes de Mu marejaram e ele mordeu os lábios, abraçando o loiro, deixando-o completamente surpreso.
— Shaka, estou com medo! Sei que é tolo um homem dizer isso. Sei que seria motivo de vergonha para meu pai, mas... Eu não quero abrir mão dos meus sentimentos. Não quero abrir mão de Aiolia.
Shaka o abraçou também, com força e sinceridade, e Mu chorou em seu ombro. Ele deixou que chorasse o quanto quisesse. Não podia ajudá-lo com nada mais que isso.
Tenente Aiolia. Sim, o ariano já sabia daquela história. O jovem militar e Mu eram amigos de infância; natural que se apaixonassem, pois sempre estavam juntos... Seus pensamentos foram cortados no momento em que seus olhos encontraram o olhar verde-cinzento de um homem. Novamente, Hades estava parado à entrada da sua alcova. Mas o administrador não entrou dessa vez, ele havia sido convocado para uma reunião com os nomarcas das regiões mais importantes, países vassalos e vizires. Algo sério ocorria no Egito e o Faraó precisava agir.
Então Hades apenas sorriu, malicioso, e seguiu para a grande sala onde um burburinho já havia se iniciado antes da chegada do faraó e do grão vizir.
— Do que se trata? – indagou com sua frieza característica.
— Rumores, rumores de invasões em algumas províncias. – Kanon encarou Hades com firmeza. – Muitas invasões. Precisamos reforçar as fronteiras e mandar embaixadores aos aliados.
— Não acha que pode ser precipitado? – Hades questionou preocupado.
— É melhor nos precaver. Não podemos arriscar um levante agora. Não nesse momento em que estamos expandindo nossos domínios – replicou um dos nomarcas ali presente.
— E o que será feito? – o governador indagou atento.
— Esperemos o grão vizir e faraó.
Hades calou-se e se acomodou em volta da grande tábua.
Em seus aposentos, após dispensar Mu, Shaka andava de um lado a outro, sabia que algo acontecia, algo importante, algo que talvez mudasse as coisas no Egito, ele tinha esse pressentimento.
Sentou-se e seu olhar pairou no céu claro da tarde africana. Algo aconteceria.
Longe dali, Ikki também observava o céu enquanto conversava com Asmita.
Depois que descobrimos o sexo, por algum tempo nossa vida tornou-se mais alegre e esquecemos as tensões da vida militar e vigiada de Karna. Estávamos sempre ‘namorando’, como dizia Shaka, essa palavra também não existia entre os tamudaeis. Mas era como teu irmão chamava nossos encontros furtivos durante o dia. Não havia mais obrigações para mim, eu deixava a arena a qualquer momento que os anseios do meu corpo clamavam por ele. Ele também não tinha mais tempo para desenhar, dançar ou às vezes até dormir. Mas riamos o tempo todo, plenos de uma felicidade estranha para a fortaleza de Omã, sempre acostumada ao silêncio. Estávamos sempre aos beijos pelos cantos e acabamos perdendo um pouco da discrição que geralmente tínhamos. Não era raro que eu esquecesse os treinamentos e fosse atrás dele fosse onde ele estivesse para beijá-lo, erguendo a máscara que ele usava e não me importando com quem estivesse ao redor. Beijos profundos, gulosos, que despertavam rigores e também inveja. Nunca se viu tanta paixão no reino tamudaei, ao menos não uma paixão tão... Não consigo achar a palavra...
— Limpa? – Asmita tentou, enquanto observava a noite. Eles acampavam naquela madrugada, depois de muito caminhar pelo terreno rochoso da Babilônia.
— Sim. Uma paixão diferente da forma animal como os homens do meu povo tratavam suas amantes. Uma paixão que não subjugava, não humilhava e que carregava uma ternura desconhecida aos tamudaeis.
— Meu povo chamava isso de amor.
— Amor... – Ikki repetiu – Shaka me falou disso muitas vezes, e eu nunca consegui compreender. Como eu não conseguia entender, um beduíno do deserto resolveu me ensinar.
“Ikki, o amor é uma coisa que a espada não pode ferir, o fogo não pode destruir, que as águas não podem maltratar e que o vento de meio-dia não pode secar.” *
O moreno suspirou. – Agora eu sei o que é.
— O que aconteceu a meu irmão, Ikki? – Asmita disse, a voz neutra, sem demonstrar nenhuma afetação com a história contada. – Acredito que o amavas, mas onde ele está agora?
O árabe respirou fundo e mirou o céu mais uma vez...
— É o que me pergunto, persa. É a única pergunta que me faço...
Mirou o céu pontilhado de estrelas.
Por ser exato, o amor não cabe em si
Por ser encantando, o amor revela-se
Por ser amor, invade e fim...
http://letras.mus.br/djavan/11338/
Continua...
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