A serpente e a estrela
12 O Grão Vizir: Olhos e ouvidos do Faraó
Notas iniciais
“O grão vizir, em muitos impérios, foi considerado o braço do Faraó, divindade solar e deus na terra, ser perfeito, e por isso também era adorado. O vizir era ‘a vontade do mestre, os olhos e os ouvidos do soberano’. O vizir do faraó ou grão vizir era também médico, escriba e arquiteto.” Egito – Larousse.
O Grão Vizir: Olhos e ouvidos do Faraó
Capítulo 11
Vizires, generais, nomarcas e escribas estavam reunidos no grande salão. Quando o faraó entrou tendo o grão vizir logo atrás, todos se ajoelharam e “cheiraram a terra” como era a praxe. Com um movimento de mão, Saga exigiu que todos voltassem aos seus lugares espalhados entre os encostos e canapés da grande sala em que acontecia a reunião.
O soberano estava irritado, sempre lhe irritava saber de revoltas sem sentido. Era um bom governante, sabia disso, e dera liberdades aos povos conquistados de forma que nenhum general jamais fez, por que eles se revoltavam contra si? Aquele que jamais deixava nada lhes faltar?
– Senhores – Aioros tomou a palavra depois que o soberano se acomodou em seu trono. – Como devem saber, há rumores de uma ofensiva da Babilônia às nossas províncias do outro lado do Nilo.
O burburinho que havia cessado recomeçou com a declaração do vizir e com um gesto do faraó o silêncio total foi restabelecido.
– Faraó deseja que uma comitiva diplomática seja enviada à Babilônia para saber diretamente de Hamurabi se o pacto firmado há dois anos foi realmente violado e se ele declara guerra ao Grande Egito.
– Não seria o caso de, em vez de mandar embaixadores, mandar soldados para proteger nossas terras? – Hades indagou, preocupado.
– Isso será feito, governador, depois que tivermos uma declaração de guerra da Babilônia. Não podemos nos precipitar – volveu Aioros, gravemente.
– Hamurabi e eu – faraó se manifestou mirando o tio – firmamos um pacto de irmandade. Não acredito que ele de fato tenha me traído.
– Achas que nossos mensageiros mentem, reverendíssimo? – indagou um dos nomarcas assustado. – Recebemos pedidos de ajuda de várias províncias além do Nilo.
– Aioros e eu analisamos muito essas informações e chegamos à conclusão de que talvez esses ataques venham de povos interessados em que o pacto entre Egito e Babilônia seja desfeito. Não podemos permitir que um engano ponha tudo a perder. Iremos à Babilônia. Qualquer ação egípcia só acontecerá depois de termos a palavra de Hamurabi.
– E quem irá? – Hades indagou achando aquilo uma oportunidade interessante. – Meu soberano, eu posso...
– Kanon. – O faraó falou, e o nomarca ergueu os olhos para ele, surpreso.
– Eu?
– É o único em quem confio para liderar a comitiva de embaixadores e ter uma franca conversa com Hamurabi, já que eu não posso me ausentar do Egito nesse momento e nem Aioros.
Hades trincou os dentes, irritado. Aquilo seria uma boa oportunidade de tecer relações com a Babilônia. Uma oportunidade que lhe era tirada. Todavia, ele ainda poderia influenciar Kanon naquela viagem.
– Eu o farei, meu irmão. – Disse o gêmeo mais novo com uma saudação respeitosa.
O grupo ainda discutiu mais um tempo até se dissipar indo cada um para sua província, alguns cheios de receios, mas confiando na sabedoria de faraó e vizir.
Aioros e Saga ficaram sozinhos, e o vizir achou que poderia finalmente questioná-lo.
– Achas que Kanon é a melhor escolha? – ele indagou, preocupado. Não confiava naquele que era conhecido como O que vem oculto; nunca gostara de sombras.
– É a melhor escolha. Não há outro. – Saga disse, cansado. – Desconfias dele?
– Não. Eu só considero o príncipe um tanto imaturo. Mas tu és o deus, a escolha é tua. – Disse Aioros e suspirou. – Se a diplomacia falhar?
– Prepararemos o exército. – faraó declarou, firme. – Eu irei pessoalmente recrutar os midjais e tu irás comigo.
– Sim, meu soberano. – Aioros afastou-se, e Saga ficou olhando para ele em silêncio. O faraó estava preocupado e inquieto, mas precisava esperar com cautela. Esperava realmente ter feito a melhor escolha.
Horas depois, Kanon adentrava a casa de Hades. O governador andava de um lado a outro, pensando sobre que direção tomar. Queria ser ele a ir à Babilônia e manter relações com Hamurabi. Mas o vaidoso faraó tinha que escolher seu irmão estúpido e disposto a perder tudo por um prostituto estrangeiro!
– E então? Desejar-me-á boa viagem? – ironizou o príncipe que sabia muito bem dos sentimentos do seu preceptor.
– Claro que sim. Tanto desejo que já preparei sua escolta. – Sorriu Hades. Kanon franziu a testa quando viu sair de trás das colunas do salão a figura imponente de um dos generais do Egito.
– Radamanthys... – o príncipe sussurrou, mirando o homem que se apresentava em suas vestes negras.
Filho de uma escrava que veio do norte e de um nomarca egípcio, Radamanthys possuía uma aparência exótica naquelas terras: cabelos e olhos claros, combinando com uma tez levemente amorenada. Os traços finos e o olhar afiado sempre fizeram com que as pessoas se mantivessem distante dele. O jovem general era esquivo, calado e de uma brutal arrogância. Desde a infância, ele e Kanon não se davam bem, e agora Hades queria que o príncipe o tivesse como escolta; o governador só podia estar louco.
– Eu tenho minha própria escolta, Hades! – Kanon falou entre dentes.
– Sua escolta não conhece a terra entre rios como Radamanthys. Ele também é meu pupilo e eu confio sua segurança a ele. Não me negue essa paz.
Os olhos de Kanon encararam o olhar frio e cinzento de Hades, e o príncipe achou ver sinceridade ali.
– Se assim deseja, eu levarei esse estorvo comigo! – falou, caminhando para a saída, mas parou ao ouvir o risinho irônico de Radamanthys.
– Um homem crescido que precisa de amas, e eu sou o estorvo. – Disse o loiro, mas não deixou o outro replicar, assentiu para Hades e saiu por onde entrou.
O gêmeo do faraó sentiu vontade de seguir o general e fazê-lo engolir a ofensa, mas achou por bem ir cuidar dos preparativos da viagem; haveria tempo de fazer aquele homem arrogante engolir suas palavras.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Os raios alaranjados do crepúsculo cingiam o Egito numa atmosfera mística. No imenso jardim da alcova do faraó, Shaka observava a luz do deserto, deitado de bruços sobre uma longa espreguiçadeira de couro de vaca trançado, forrada por almofadas cheias de pena de íbis. O loiro estava nu, apenas uma fina toalha de algodão cobria seu quadril, enquanto ele brincava de virar o tornozelo do pé esquerdo, ornado por uma larga tornozeleira de ouro. Saga, deitado ao seu lado, distribuía beijos nos ombros e nas costas do ariano de forma lenta e distraída. Ele estava preocupado, e sempre que estava preocupado, Shaka era sua única alegria.
– No que pensas, Shaka? – indagou. Ele sempre fazia aquela pergunta.
– Penso na Babilônia e em algum motivo que fizesse Hamurabi quebrar a trégua. – Volveu o loiro, ainda mirando o pôr-do-sol.
– Isso não deve preocupá-lo. Não o quero preocupado. – Disse Saga, o segurando pela cintura e virando o corpo dele, de forma que Shaka ficasse de barriga para cima. – Tens somente que sorrir e dançar para mim. Acredite quando eu digo que sempre estarás seguro.
O loiro sorriu e levou a mão ao rosto do soberano. – Não é por mim que temo. Sabes que possuo pessoas a quem sou grato na Babilônia.
Saga sorriu com o canto dos lábios, deixando escapar certa ironia.
– Gratidão? Isso é tudo que teu coração pode sentir, belo da Ária?
O persa ergueu um pouco a cabeça, seu olhar frio recaiu sobre o soberano de forma concentrada como a bruma sobre o Nilo nas manhãs de inverno. – E o que gostaria que eu sentisse, meu senhor? diga-me e eu sentirei, afinal sou teu escravo...
Saga riu, deixando as costas caírem nas almofadas. – Tu és tão sarcástico...
– Eu não...
– Não mintas! – Saga prendeu os braços do loiro num rompante e olhou em seus olhos de forma dura. – Permito tudo, menos que queiras me fazer de tolo!
– Não tentaria nunca tal coisa, meu soberano. – Shaka falou entre dentes, seus olhos agudos sobre o faraó. – Só desejo que ouças o que de fato queres ouvir.
– Diga o que sentes por mim?
– Todo meu afeto e devoção. – Disse convicto, sem deixar de mirar os olhos do faraó.
Saga suspirou, relaxando a expressão. – Sabes que és o único capaz de me trazer um pouco de paz? – Ele indagou, tocando a pele macia do rosto do jovem loiro.
– E por que não tens paz, meu soberano? Seria por que teu coração por outro bate?
Saga engoliu em seco e riu de leve, coçando os cabelos fartos como um garoto acanhado.
– Beije-me, Shaka, beije-me e faça-me esquecer qualquer outro coração! – Disse, meio nervoso. Não gostava de falar dos próprios sentimentos.
– Faraó...
– Esqueça meu coração que é um tolo! – O líder declarou, olhando-o nos olhos. – Tenhas meu corpo que vibra por ti tanto quanto meu coração vibra por ele – pediu, prendendo novamente os braços do cortesão e tomando seus lábios com ardor.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Naquela noite, após o grande jantar no castelo de faraó, Hades voltou satisfeito para seu lar. O incômodo do dia cedeu a maravilhosos planos. A mente fervilhava em novas possibilidades, e ele aproveitaria muito bem as boas informações colhidas naquela tarde. Chegou tão feliz e satisfeito que teve uma noite ardente com a esposa. Apesar do seu jeito frio, ele amava Pandora, mesmo que a usasse também em suas tramas. Ela também não poderia reclamar, já que gostava tanto de poder quanto ele. Bem, ele precisaria dela novamente. Se o que estava pensando desse certo, não precisaria mais do idiota apaixonado do Kanon. Só precisava achar um jeito de descartá-lo sem levantar suspeitas. Era uma sensação estranha que trazia em si. Não queria o mal do afilhado, Kanon era como um filho para si, mas ele não podia ficar em seu caminho. Radamanthys precisava cuidar dele, e rápido.
Sorriu, já enxergando o futuro maravilhoso que o esperava e com lindos sonhos adormeceu.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
Amanheceu no vale do Nilo, Shaka tinha a mania de acordar cedo para mirar a última estrela no céu.
“Sempre me encontrará naquela estrela”, Ikki dissera enquanto afagava seus cabelos e via o dia nascer por entre os fios de ouro que ele enrolava nos dedos.
O loiro sorriu com essa lembrança e se dirigiu à sala de banho onde três servos já esperavam para prepará-lo para o faraó.
O primeiro passo era a higiene bucal que era feita com o bed, um tipo de sal dissolvido na água capaz de limpar completamente os dentes de resíduos além de deixá-los brancos e brilhantes. Depois disso, a boca era perfumada com a mastigação de bolinhas de mel. Após esse processo, Shaka deitava-se na câmara de banho e os servos o banhavam.
Havia banheiras em seu quarto, uma área particular, mas ele estava agora na casa de banho que ficava no andar superior. Ia para lá quando estava cansado demais para tomar o próprio banho ou quando precisava de um ritual de beleza especial. Todavia, não gostava muito, era por demais cerimonioso, e o loiro era rebelde. Sentia-se mais escravo, mais propriedade, naquele ritual. Contudo, estaria com Saga naquela manhã, sabia, e rendeu-se à sua condição de cortesão.
Deitou-se na mesa e fechou os olhos . Os três servos se aproximaram e começaram a depilar sua pele com pequenas pinças. Sorte não ter muitos pelos ou aquilo seria profundamente desagradável. Depois disso, eles massagearam seu rosto e braços com uma pomada perfumada de mirra, tirando o excesso em seguida com lenços de linhos, isso garantiria a maciez da cútis do “presente do Oriente”. Depois, colocaram um creme verde à base de malaquita nas suas pálpebras e desenharam uma linha de khol preto para alongar o contorno dos olhos, mas Shaka dispensava o pó de ocre nas bochechas e nos lábios, que davam um aspecto saudável à pele. Ele não precisava, e embora alguns cortesãos e sacerdotes usassem, ele não apreciava tanta maquiagem.
Sentou-se depois de devidamente tratado e foi envolto em um manto carmesim que protegia seu corpo perfumado pelo óleo essencial de flor de lótus, afinal muitos o chamavam assim. Seguiu para o quarto onde se vestiu na calça de linho, que era justa nas coxas e ficava mais larga à medida que descia por suas pernas. A peça trazia aberturas nas laterais que facilitava os movimentos de dança. Por último, ele colocou o cinto que cobria todo o quadril. A peça era trançada por palha de papiro e adornada com fios de ouro, presente do faraó. Os braços foram ornados com três braceletes de cada lado, tendo o bracelete negro de serpente entre dois de ouro. O persa prendeu os cabelos numa trança que chegava até o quadril, deixando a franja longa cobrir-lhe a testa e usou uma joia, uma pequena pedra azul em formato de gota, que colou sobre o sinal em sua testa. Mirou-se na grande pedra de quartzo polida que havia em seu quarto por um tempo; percebeu que crescera nos últimos dois anos. Seu corpo agora era o corpo de um homem, delgado, mas definido pela dança, ombros bem proporcionados no corpo esguio, cintura e quadril estreitos, pernas e nádegas roliças e firmes, e o contorno dos músculos dos braços e peito evidentes. Não era mais o garotinho franzino do passado e nem possuía mais aquela inocência. Tudo fora arrancado de si com violência. A família. A infância. O amor.
– Estás magnífico como sempre.
A voz do Vizir o surpreendeu, e o cortesão se virou. Ele estava parado na entrada do quarto; vestia o vestido que nada era mais que um manto vermelho que envolvia das axilas até os pés. Shaka se recordou que poucas vezes o vira sem aquele traje cerimonial. Sorriu de forma ferina, como nunca deixou de fazer para aquele homem que não fazia questão de esconder que não lhe nutria simpatia.
– Faraó já acordou? – indagou, caminhando na direção do único homem em quem Saga confiava cegamente.
– Sim, ele o espera, disse que teve um sonho e precisa que dances para ajudá-lo a elucidá-lo. – O vizir Aioros falou sério, vendo o dançarino o encarar nos olhos por um tempo, antes de passar por si e caminhar em direção ao quarto do rei.
– Essa função é dos sonhadores do Egito e não de um reles cortesão estrangeiro. – Falou Shaka com o desdém que sabia mexer com a arrogância do grão vizir. Era ultrajante ao supremo escriba do Egito pensar que o grande faraó se rendia de forma tão permissiva a um escravo, mesmo que Aioros admitisse que tal escravo fosse magnífico.
– Fale isso ao rei, eu apenas faço o que ele ordena, sempre. – Cortou ele sem gentileza ou agressividade.
Shaka seguiu pelo imenso corredor que dava no quarto do grande soberano. Quando o nunefer entrou, o faraó estava sentado numa poltrona feita de couro de boi. Como estava em seu quarto, ele não usava o nemés e em vez da clássica saia ou da tanga traspassada que mais parecia uma calça árabe, ele usava uma calça como a que Shaka vestia, porém sem o cinto ornado de pérolas e papiro que era uma jóia pessoal do dançarino.
O loiro sorriu ao enxergar seu senhor e, contrafeito, Aioros percebeu que era um sorriso sincero. Saga se voltou para ele com os mesmos olhos brilhantes de felicidade que sempre o recebia. Seus cabelos escuros dançaram por sua tez branca quando ele, mesmo sendo o senhor supremo de todo Egito, se ergueu e foi até o loiro. O Vizir perguntou-se: quem era o rei e quem era o escravo?
— Meu senhor — Shaka o reverenciou com um aceno de cabeça que nada tinha de humilde, ele era o único que tinha coragem de olhar nos olhos do faraó, o deus na terra, sendo estrangeiro naquele lugar. — O grão vizir disse que sonhastes algo...
— Sim, sonhei. — Respondeu a voz grave do faraó e ele envolveu as mãos do dançarino com as suas. — Aioros, por favor, chame os músicos, sabe que penso melhor quando Shaka dança. Traga todos com os olhos vendados, não pretendo me vestir. Não tenho bons pressentimentos com esse sonho, preciso saber...
— Como desejar. — Falou o Vizir saindo.
O faraó voltou ao banco onde estivera, levando o belo cortesão consigo. Shaka sentou-se ao seu lado e esperou que o rei falasse.
— Shaka, tive um sonho muito estranho essa noite. Sabes que preciso manter maát, se perco o controle de maát, perde-se o reino.
— Sei. E o que o preocupa? Qual o sonho, meu senhor? — o jovem loiro franziu as sobrancelhas.
O olhar sério do faraó o mirou profundamente, e o loiro respondeu com a mesma altivez. Aquele era o homem mais poderoso do império e poderia esmagá-lo como a um inseto se quisesse. Contudo, Saga lhe tinha tanto carinho que às vezes, sentia-se culpado por não lhe dedicar à mesma afeição.
— Sonhei com uma batalha. Um leão, um Chacal e um leopardo estraçalhavam-se no deserto... – começou o faraó com o olhar distante. – Mas a luta não terminou. Uma serpente negra e gigantesca os envolveu, matando-os asfixiados.
Shaka sentiu a pele arrepiar-se com a brisa tépida que entrou pela janela.
– Isso foi apenas um sonho... – murmurou, concentrado e pensativo.
– Sonhos para nós egípcios são manifestações dos deuses, Shaka. Avisos, por isso preciso elucidá-lo. Quero que dance. Espere Aioros trazer os hinodos.
O loiro sorriu e levou a mão à serpente negra que envolvia seu braço.
— Esse bracelete, Shaka...
Saga comentou e isso fez o cortesão se voltar para ele com os olhos azuis muito atentos, protegendo a joia por instinto.
– É apenas uma lembrança – respondeu o mais novo.
– De algum amor?
Não houve tempo para o loiro responder. Aioros voltou minutos depois com os músicos vendados. Eles se posicionaram e logo a música começou a tocar.
Shaka ergueu-se e soltou os cabelos, como o faraó gostava. Seduzir Saga era fácil, tão fácil quanto seduzir todos aqueles egípcios idiotas. Faria com que ele esquecesse a história do bracelete?
Os passos sensuais e vigorosos do dançarino começaram. O vizir percebia o fascínio do rei a cada movimento de braços e quadril do loiro e tinha que admitir que ele fosse mesmo a joia do oriente, como muitos o chamavam, a matriz sagrada que traz aos homens o desejo...
A pele de alabastro e os cabelos de ouro eram algo tão exótico para os egípcios que ele não precisaria fazer nenhum movimento para que o endeusassem; seus olhos eram tão profundos e brilhantes que eram conhecidos como os olhos de estrelas, e ainda assim, aquele dançarino recebera dos deuses a sensualidade mais latente que poderia ter um corpo fosse ele de homem ou de mulher. Por isso corria a lenda de que Hórus e Hathór se amavam em seu corpo.
As mãos serpentearam uma na outra até alcançarem o alto da cabeça e depois descerem por seu corpo de forma quase obscena, enquanto o quadril efetuava movimentos circulares e os braços voltavam a descer, subindo pelos joelhos e se cruzando à frente do corpo para salientar o ondular do quadril estreito e da barriga perfeita do cortesão favorito do rei. As mãos em prece iniciam a dança que começa com a música de forma suave e que gradativamente torna-se mais vigorosa até exigir movimentos de pernas e colunas e não só o ondular do quadril.
O rei olhava fascinado enquanto o seu presente dançava de forma graciosa, com os olhos fechados. Perna ante perna, e mais um ondular de quadril, ele vai se aproximando até parar de frente ao faraó, para quem de fato era a apresentação. Abre os olhos e o mira com um olhar malicioso, continuando a dançar, sensual e sedutor como uma serpente.
O corpo desce, sobe, as pernas ondulam, os braços chamam ao som da música profana e sagrada ao mesmo tempo; a perna sai do solo por breves momentos, enquanto o quadril continua a bailar de um lado a outro num equilíbrio quase impossível. Os joelhos unem-se e apóiam o corpo que desce ao solo em sensuais movimentos circulares e volta a subir. Mãos e ombros efetuam movimentos graciosos e ondulantes, escravos da melodia quente e sensual tocada pelos hinodos. O pescoço curva-se para trás, deixando ver sua linha delgada e as perfeitas omoplatas que pareciam ter sido desenhadas. Os cabelos, como um véu dourado, serpenteavam, seguindo os movimentos eróticos do corpo. Mas nada chamaria mais atenção que o ventre, o abdômen perfeito como marfim que se retorcia como se não houvesse nenhuma sorte de osso nele. Aioros nunca vira nada do tipo em todos seus anos observando dançarinas e dançarinos em diversas cortes. O vizir percebia que nunca via Saga sorrir daquele jeito, ele só ficava com aquela expressão de êxtase e paz quando o ariano dançava.
A dado momento, Shaka deu as costas para eles, mostrando o belo desempenho do seu quadril agora por outro ângulo. Podia-se ver o movimento das nádegas perfeitas e firmes que subiam e desciam a cada golpe vigoroso que o quadril do loiro dava para cima, a cada ângulo de 360 graus que ele fazia, cada vez que seu pé deixava o solo para voltar novamente e girar à frente do corpo. Virou-se mais uma vez, os braços que se esticavam, iam-se buscar o faraó e voltavam para junto da pele alva novamente. O sorriso ladrão de almas que pairava nos lábios convidativos, como se ele vivesse fazendo um eterno becinho prepotente, era suficiente para deixar qualquer homem excitado. Era magro, não tinha a opulência de uma mulher e nem a envergadura de um guerreiro. Mas era uma combinação fascinante de virilidade e delicadeza num jogo estranho de ser e não ser que seria capaz de enlouquecer os deuses.
Aioros não gostava dele. Não, não gostava. Ainda assim, sentia-se excitado e fascinado ao vê-lo dançar. Era algo único, algo que transcendia os limites físicos da razão.
Quando a dança finalmente acabou, Saga aplaudiu o desempenho de Shaka que se ajoelhou entre suas pernas, o olhando nos olhos.
— Já sei o que meu sonho queria dizer — falou o faraó ainda de forma séria.
Aioros se aproximou, e Shaka se sentou ao seu lado, sentindo o corpo do soberano clamando por si, mas ignorando isso; precisava saber o que Saga pensava.
— O quê? — Indagou o vizir preocupado. — Essa forma de interpretação dos sonhos não é tradicional, meu senhor. Temos muitos sacerdotes e sacerdotisas que podem fazer isso de forma mais... confiável.
— É a única que preciso, Aioros. — sorriu o faraó. —Teremos estranhas visitações do Oriente em breve. Só não sei se para o bem ou para o mal.
— Como assim, meu soberano? — Insistiu Aioros.
— Não sei. — Confessou Saga, se erguendo — Mas devemos estar preparados. — Voltou-se para o vizir — Aioros, saia e leve os músicos, deixe-me com Shaka.
— Sim senhor. — respondeu o defensor de máat e com um bater de palmas chamou os músicos para que deixassem os aposentos do rei, aquela área privada que nem sua esposa poderiam entrar.
Shaka se aproximou dele e encaixou-se em seu colo, segurando-lhe o rosto com as mãos e examinado suas feições másculas que se mostrava tão preocupadas.
— O que o inquieta, faraó?
— Teus olhos, eles sempre me inquietam. — Falou o mais velhos encarando profundamente os olhos do dançarino — Não sou tolo, Shaka, há tanta tristeza em teu olhar... Talvez o brilho que o torne estrelas seja o brilho das lágrimas contidas...
O loiro tentou se erguer, mas o rei, mais forte, o deteve segurando seu pulso.
— Shaka, fale-me a verdade, o que escondes de mim?
— Nada, meu senhor. — Respondeu desviando o olhar. — Estou aqui para satisfazer todos os teus desejos e não guardar segredos...
— Desejo que me fales do teu passado.
— Não há passado. — Declarou, encarando firme os olhos verdes do rei .— Eu só existi quando passei a servir ao grande deus na terra.
Saga continuou o encarando o que deixava Shaka desconfortável. Não gostava daquele olhar, não gostava que tentassem penetrar em seus mistérios.
— Por que não confias em mim? — o rei perguntou.
O loiro mordeu os lábios irritado. Saga achava-se realmente um deus, fora criado para pensar assim, Shaka sabia, mas isso não o impedia de odiar suas exigências. Odiava-o, assim como odiava o Egito e cada egípcio que existia ali, embora nunca demonstrasse isso. Não podia demonstrar seus verdadeiros sentimentos e sempre que o grande rei mostrava aquela preocupação sincera por si, sentia-se fraco, fraco e tentado a retroceder. Então a única forma de não sucumbir à fraqueza, era fazer-se lembrar exatamente de quem era, de onde estava e de quem era aquele homem. Ninguém menos que seu carrasco, o homem que o prendia aos grilhões da escravidão. Precisava odiá-lo. O ódio, tanto quanto o amor que sentia, era o que o mantinha vivo.
— Confio, meu senhor. Não há um passado, mas poderá haver um futuro se me concederes o que quero.
Estava dito. Imediatamente sentiu os músculos de o soberano enrijecerem e ele suspirar, soltando-lhe o pulso.
— Não posso conceder que parta. Tu foste um presente dado ao Egito e não a mim... Os deuses não me perdoariam. Pertences a Hórus e Háthor e somente eles podem deixá-lo partir.
Shaka teve vontade de gritar que não poderia ser um presente, pois não era um objeto, mas se calou, já tinha feito isso outras vezes e não foi muito bom para si. Apesar de apaixonado e bondoso, Saga ainda era o poderoso faraó e um soberano egocêntrico. Não era bom desafiá-lo, e ele já sentira na pele o quanto isso poderia ser ruim.
— Entendo — sorriu com ironia se afastando em direção à porta. — Estou me retirando, mas... — virou-se. — Hoje não poderei encontrá-lo em seus aposentos à noite. Estarei em vigília ritual. Dedicada à Háthor e Hórus.
A voz saiu ácida. Saga percebeu, mas nada fez além de sorrir com o canto dos lábios e deixar que ele partisse.
Aioros que voltava depois de conduzir os músicos mirou o faraó que também era seu melhor amigo. Não, precisava sempre se lembrar que Saga fora seu amigo, não era mais. Agora ele era o grande deus. Ele fora seu amigo até dar a volta nas quatro balizas*, depois dali, era apenas seu senhor.
Ainda assim, o vizir não conseguia se conter com o ultraje daquela relação despudorada entre Saga e aquele menino persa. Quando nem mesmo sua esposa e parentes podiam frequentar seus aposentos, Shaka ia e vinha como bem entendesse, gozava de privilégios que nenhum escravo ou concubina jamais gozaria e aquilo o irritava, porque não sentia recíproca no rapaz. Ao contrário, reconhecia-o ácido, sagaz, debochado e arrogante. “Qualidades” que não deveriam pertencer a um escravo, mesmo que este fosse também um sacerdote. Sacerdócio duvidoso, diga-se de passagem, pois o único templo que o jovem estrangeiro se dedicava era ao corpo do Faraó.
— Até quando deixarás que este cortesão brinque assim contigo, meu senhor? – não conseguiu evitar as palavras secas. – Quem é ele para dizer o que vai ou não fazer a ti, filho de Rá?
Saga deixou escapar um sorriso de canto sem muita preocupação.
— Ele me diverte, Aioros, e agrada o povo que o vê como um presente divino. Não gostarias de despertar a fúria do povo, não é?
— E sabeis que este presente andou conversando com teu irmão? — Aioros ignorou o último comentário e sua revolta acabou deixando-o revelar o ocorrido que já o impacientava há dias.
A expressão relaxada de Saga mudou, tornou-se dura e irritada. Ele encarou o amigo de forma atenta e cortante.
— Tens certeza do que me diz?
Aioros suspirou. Era tarde, não poderia retroceder e nem mentir ao soberano.
— Já retirei Kanon da alcova de teu amante, e ontem os encontrei sozinhos na sala de refúgio.
Saga bufou e esmurrou o banco onde estava sentado, se erguendo nervoso.
— Eu o proibi expressamente de procurar por Shaka! Como ele pôde passar assim por cima das minhas ordens? Eu vou esmagar Kanon! Aquele peralta!
Aioros suspirou. Kanon e Saga viviam às turras desde a infância. Era notório que o gêmeo do soberano ambicionava o poder e faria qualquer coisa para destronar o irmão. Por isso, o vizir se preocupava com seu contato com o cortesão persa, aquilo poderia significar um banho de sangue dentro da família real do Egito ou, no mínimo, uma conspiração.
— E por que não se pergunta o motivo de Shaka o receber? Saga, sabes que não confio nesse rapaz. — Falou Aioros calmo e seus olhos verdes se encontraram com o olhar aborrecido do faraó. — Eu o vigio de perto exatamente porque acho que a qualquer momento, ele pode...
— Ele não seria tolo o suficiente para me trair — declarou o faraó irritado, dentro do seu egocentrismo de deus.
— Tolo eu sei que ele não é, muito pelo contrário, é astuto como uma serpente do deserto...
— Shaka não é mau... — resmungou o faraó, e o vizir riu.
— A melhor das serpentes sempre será uma serpente, meu rei.
— Shaka tem um coração bom — murmurou o faraó. — O que temo é a astúcia de Kanon... Ele pode aproveita-se da ingenuidade dele. Shaka é só um garoto, ele é como Mu. Por mais que se considere esperto, é apenas uma criança ingênua e apaixonada.
Aioros riu, permitindo-se sair da sua postura serena e adentrar o mundo do faraó não como seu vizir, mas como seu amigo.
— Apaixonada? Por quem, meu senhor?
Saga franziu as sobrancelhas incomodado. — Sei que não é por mim, não me tome por tolo, Aioros. Agora saiba que Shaka é um servo fiel, ele não me trairá nunca. Ele sabe que não pode.
Aioros voltou a se afastar, sentindo algo amargo na garganta.
“Tu colocas um reino aos pés de um cortesão e toda sua felicidade reside entre as pernas do dançarino. Ah, Saga, quisera eu que fosses como no passado, antes do poder fazer contigo o que sempre faz aos grandes homens: cegá-lo e entontecê-lo!”
O vizir balançou a cabeça e suspirou vencido.
— Desejo do fundo do meu coração que estejas certo, meu soberano.
Saga se voltou para o seu ministro e amigo de infância. Estendeu-lhe a mão e timidamente Aioros a segurou embora não gostasse de fazer aquilo, ninguém deveria tocar no faraó.
— Tu sabes o quanto tua amizade é importante para mim, Oros, e sabes o quanto confio em teus julgamentos. Não apenas por amizade o fiz meu grão vizir, mas por tua hombridade, justiça e bondade. Quanto a Shaka, bem, ele é algo meu, somente meu, entende? Ele é apenas uma fonte de prazer, entenda que preciso desse raio de luz como o Egito também precisa.
Aioros sentiu-se triste e cansado e por isso desviou o olhar do seu senhor e amigo para seus próprios pés calçados em sandálias feitas com tiras de papiro.
— Entendo — murmurou. — Permita-me me retirar, majestade. Eu continuarei atento.
Saga sentiu que o tom de voz de Aioros mudou e ergueu seu queixo para olhá-lo nos olhos.
— Disse algo que o aborreceu? — indagou, vendo a tristeza no olhar do Vizir.
— Não, meu soberano.
— Oros, estamos em privado, por favor!
— Não, Saga! — disse com mais veemência. — Por favor, se apronte para os rituais diários.
Saga soltou-lhe o queixo e o vizir saiu rápido, tinha muitos afazeres, talvez mais que o próprio faraó.
A Serpente e a Estrela
الثعبانوالنجوم
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