Notas iniciais
Olá, amores, tudo bem? Ah, em fim, férias! E capítulo novo! A imagem no final do capítulo NÃO ME PERTENCE, créditos totais ao artista, pertence ao deviart:http://sailormiha.deviantart.com/art/baby-Shun-168825704 Beijos de coração a todos vocês, boa leitura e feliz natal

Vida e morte

Capítulo 13

Alguns dias se passaram e o dia da grande festa tornava-se mais real com as comitivas que seguiam pelo deserto em direção a Makkah. Ikki preparava-se para deixar Karna com Shaka, mas ele não sabia que o pequeno persa tinha outros planos; Shaka desejava que Jamila, a grande esposa, fugisse com eles. Em sua lealdade juvenil, ele entendia que não deveria abandonar a amiga naquele lugar sozinha. Afinal, quem iria protegê-la? Quem cuidaria dela?

E foi com tais pensamentos que numa tarde chuvosa, o loiro fugiu da fortaleza, e foi para o templo de Al-Uzza. Levou a oferenda duas pombas brancas mortas, como orientado por uma das concubinas árabes que gostava da fenícia e desconfiava de Zahira.

Shaka, envolto numa grande túnica negra, chegou aos pés da grande estátua e deixou a oferenda, seguindo para dentro do templo pela longa escada. Uma das sacerdotisas o guiou até o aposento da grande esposa. Jamila não acreditou quando o viu, mas sorriu, mesmo sua aparência sendo doentia e frágil. Shaka sorriu também e a abraçou.

– Eu precisava saber se estavas bem – o garoto disse.

– Shaka, como conseguiu chegar aqui?! – ela indagou e mirou as duas mulheres que vigiavam à porta. – Saiam, quero conversar com minha amiga em paz.

As mulheres saíram, mas trataram de avisar imediatamente a Zahira que a grande esposa recebia visitas.

– Não deverias ter vindo, elas estão me vigiando, não posso falar com Omã. Parece que faz parte dessa cultura estranha deles, eu só posso falar com mulheres até o parto, tem noção do perigo de vir aqui, garoto desmiolado?! – Ralhou a fenícia.

– Eu precisava saber como estavas! – Shaka disse e mirou o rosto abatido da mulher. – Pareces... doente...

Jamila mirou a porta e depois confidenciou baixinho:

– Todas as noites, Zahira me serve um chá e todas as manhãs, sinto-me péssima... Creio que ela esteja me envenenando e ao meu bebê, mas não posso falar com Omã, estou com medo...

– E por que bebes o tal chá? Não faça isso, Jamila! – Pediu o garoto, aflito.

– Eu não estava bebendo mais. Quando percebi o que acontecia, parei, colocava na boca e cuspia depois, mas ela desconfiou e começou a ficar comigo até que eu bebesse tudo. Estou com medo, mas agora falta pouco para o bebê nascer.

Shaka suspirou, preocupado.

– Ikki e eu iremos embora, Jamila. Eu precisava vê-la. Quero que venhas conosco – Shaka pediu, olhando nos olhos da mulher. – Não quero deixá-la...

– Aqui é meu lugar agora, Shaka. De uma forma estranha e até bizarra... – a bela do Eufrates sorriu triste – Omã, esse homem rude e cruel, me deu algo que teu pai com toda sua grandeza e bondade, mesmo me amando, nunca foi capaz...

– Estás comparando esse monstro... esse assassino a meu pai? – Shaka soltou as mãos da mulher e afastou-se dela, seu olhar mesclava irritação e desapontamento.

– Não! Shaka, não! Desculpe-me! Tu és muito menino para entender o que eu digo. – Adiantou-se Jamila, preocupada.

– Sou jovem, mas não idiota! Tu... Tu amas Omã? – indagou magoado, revoltado, enojado.

Jamila negou com a cabeça. – Nunca. Mas ficar em Karna agora é tudo que posso fazer. Como viajaria pelo deserto com essa barriga, criança? Ou com um bebê pequeno? Não há tal possibilidade...

O jovem persa sentiu algo se quebrar em seu peito.

– Adeus, Jamila – ele disse com lágrimas nos olhos. A fenícia também chorou.

– Adeus, Shaka. Peça para que Ikki cuide de ti, cuide muito bem.

– Eu pedirei, cuide-se e cuide do bebê – o loiro voltou a se aproximar e a abraçou. Ambos deixaram lágrimas caírem. Shaka rezava aos seus deuses que a amiga ficasse bem. Jamila pedia o mesmo a Baal; que Shaka e Ikki ficassem bem e que fossem felizes.

As cortinas esvoaçaram e a figura imponente de Zahira apareceu. A mulher vestia uma bela túnica verde e seus cabelos vermelhos e cacheados estavam ornados por uma coroa cujo centro havia o desenho de um sol e uma estrela.

– Deves partir, jovenzinha – ela disse. – Mulheres de Karna não devem andar à noite sozinhas pela cidade e já anoitece. Acaso teu senhor sabe que estás aqui?

Shaka ficou sem voz por um tempo, mirando a mulher que o observava de forma ameaçadora.

– Sabe... – mentiu e só naquele momento, pensou que Ikki deveria estar louco o procurando. – Mas já estou indo! Só vim saber notícias de minha amiga e dizer que estou rezando para que ela tenha um bom parto.

– Sim, se aproxima – Zahira sorriu. – Vá. Que Wadd a guie de volta.

Shaka mirou Jamila e depois Zahira, indeciso. – No dia do parto, eu poderei vir? – Ele indagou.

– Sim, mas não poderá participar da cerimônia, somente as sacerdotisas – explicou Zahira e franziu as sobrancelhas, aproximando-se do garoto. – Shaka..., tua voz... Estás com algum problema de garganta?

O loiro sentiu-se gelar. Sua voz havia se tornado mais grave nos últimos meses, mesmo que não completamente.

– Já estou melhor. – Disse, sem jeito.

– Vá, que Wadd a guarde. – Zahira disse, o encarando.

Shaka assentiu com a cabeça, lançou um último olhar a Jamila, e partiu apressado do templo, mirando o céu de chumbo e torcendo para chegar à fortaleza antes do anoitecer.

Correu pelas ruas estreitas, cheia de lojas e pessoas, e chegou à fortaleza como saiu: pelos portões dos fundos. Mal sabia ele do clima tenso que dominava o clã das serpentes negras por causa do assassinato da necromante. As demais bruxas exigiam que o Emir fizesse algo e descobrisse o assassino, ameaçando lançar maldições eternas à cidade, caso nada fosse feito. Omã também era pressionado pelos clãs menores e supersticiosos, mas, até aquele momento, ninguém tinha pista do que ocorrera naquela caverna escura.

Ikki permanecia ao lado do pai o tempo inteiro com um semblante frio, impassível, acima de qualquer suspeita. O Emir prometeu que cuidaria do caso e acharia o assassino, embora isso pouco o interessasse. O que ele queria saber de verdade era onde fora Shaka. Certa concubina o havia avisado da saída ‘da persa’, e seus espiões souberam que ‘a menina’ tinha ido ao templo. Restava sondar se Ikki sabia dessa visita e se permitiu que ela saísse, caso contrário, faria de tudo para convencer o filho de que ele sofrera uma traição.

Shaka estava completamente ensopado pela chuva densa que caía em Karna quando adentrou as muralhas da fortaleza da Serpente negra. Ele corria pelos corredores, tentando desviar dos soldados que tomavam conta do castelo, mas quando estava chegando à alcova de Ikki, acabou se deparando com o próprio príncipe e seu pai.

O loiro parou, engolindo em seco, sentindo sobre si o olhar duro dos dois árabes.

Omã o examinou atenciosamente, e Shaka abraçou o próprio corpo arrepiado de frio, protegendo-se com a capa que usava, pois a túnica longa se colava em seu corpo magro e reto, deixando evidentes contornos nada feminis, por isso ele tentava se esconder ao máximo daquele olhar incisivo.

– Onde estiveste? Como ousaste sair das muralhas sem autorização? – Ikki indagou agressivo, caminhando até ele e o pegando pelo braço, arrastando-o até próximo a Omã que os observava com um olhar indecifrável.

– Eu fui-

– Cale-se! – o príncipe árabe exigiu, erguendo a mão, e Shaka arregalou os olhos, espantado. – Eu deveria partir todos os ossos do teu corpo, ‘mulher estúpida’! Mas terás o teu castigo! A castigarei como se deve, e aprenderás que estando em Karna, deves comportar-se como uma mulher de Karna! Para o quarto, já! – Ele esbravejou e empurrou Shaka para dentro do corredor de acesso ao quarto. Depois se virou para Omã. – Meu senhor, preciso resolver esse pequeno problema. Logo estarei contigo novamente.

Omã ficou calado por um tempo sondando o filho com olhos felinos.

– Vá. – Disse somente, depois desse tempo, e se afastou, mas sua mente borbulhava em inquietações.

Ikki respirou fundo e entrou no quarto. Shaka já havia se livrado da capa molhada e agora tirava a túnica, enquanto o olhava meio ressabiado, como se tentasse adivinhar o que o outro faria.

– Ficaste louco de repente? – o moreno indagou. – Omã desconfia, será que tu não percebes do perigo em que te colocas, Shaka?! – Irritou-se, mas sua voz demonstrava mais tristeza. – Como posso protegê-lo assim? Como, se só fazes loucuras?

O ariano sorriu, caminhou até o príncipe e o abraçou.

– Perdoe-me, mas eu precisava ver Jamila antes que partamos. Eu apenas precisava saber se ela e o bebê ficarão bem, Ikki. Perdoe-me por isso, mas eu sabia que nunca me permitirias se eu contasse.

– Tu és extremamente teimoso! – Ralhou o árabe, mas acabou relaxando os ombros e se sentando na cama. – Como ela está?

– Doente. Zahira a está envenenando. Temos que ajudá-la. Tu precisas falar com Omã. Precisamos tirá-la de lá. – O loiro falou, aflito.

– Não podemos fazer isso, Shaka. Temos que esperar. – Ikki argumentou, preocupado.

– Ela não irá conosco, Ikki... – Shaka disse com pesar. – Ela ama Omã...

O árabe mirou o persa nos olhos.

– Ela tem o direito de escolher, Shaka.

– Eu sei, mas sei que ela está cometendo um erro.

Ikki enlaçou os ombros do loiro e beijou-lhe o rosto. – Vamos esquecer isso, em breve estaremos longe daqui, eu prometo.

Shaka assentiu com a cabeça e calou-se, resignadamente dolorido, mas esperançoso.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Babilônia, manhã. Asmita acordou com uma estranha sensação e ergueu-se, sentindo que o clima estava denso e o céu carregado, embora não pudesse ver. Quase nunca chovia naquela época do ano, o que o deixou com uma sensação de agouro. Faltava pouco para que chegassem a Ur, centro de poder do grande império. Mirou os companheiros de viagem; Aldebaran ainda dormia, envolto numa grande capa marrom, enquanto Ikki já estava acordado e preparava seu chá num recipiente pequeno, mas útil de metal.

– Asmita – ele murmurou, ainda prestando atenção ao fogo, sem mirar o príncipe de Najah –, pediste-me que lhe contasse minha história e eu contei, por que não conta a tua para mim, enquanto caminhamos?

Asmita continuou como se mirasse o horizonte. Ikki sempre achava estranha a forma como ele fixava o olhar opaco em algo, como se pudesse realmente ver aquilo com seus olhos mortos, mas ele sabia que não.

– Falas do período após teu povo ter me torturado e ferido definitivamente meus olhos? – Ele indagou, embora sua voz não possuísse rancor.

– Sim. – Ikki disse, também sem sentimentos.

– Fui salvo por um grupo de Avestas, seguidores do grande Zaratustra. Mas eles não puderam salvar meus olhos. Entretanto, me ensinaram a ver além do que o olho humano é capaz. Eles me ensinaram a ver com meus olhos espirituais, além de manipular os minerais e de me unir às forças da natureza. Isso faz com que tenha uma percepção maior do que as dos humanos comuns ou mesmo à de alguns djins. Dizem que Zaratustra era híbrido, um ser nascido da união de humanos e ifrits, mas ele nunca confirmou isso, apenas ensinou os Avestas a manipular a natureza ao seu favor.

– Qual forma de manipulação? – Ikki indagou, descrente.

Asmita se voltou para ele e estendeu a mão, mexendo os dedos de forma lenta, sem emitir nenhum som.

– Não se mexa... – ele murmurou. O árabe virou apenas os olhos a tempo de ver uma serpente próxima a si. A cobra provavelmente se preparava para golpeá-lo, mas foi contida por Asmita e agora se arrastava em direção aos dedos do senhor do deserto, como que hipnotizada.

– Volte para o pântano, minha pequena amiga, aqui não há inimigos – o loiro disse, e a serpente desapareceu dentro da mata próxima. Asmita se aproximou de Ikki, sentando-se ao seu lado no tronco da árvore. – Essa manipulação.

O príncipe árabe estava estupefato. Nunca tinha presenciado nada parecido. Deuses! Era mesmo possível que aquele homem fosse o irmão de Shaka ou seria ele uma armadilha de um djin maldoso que tomara aquela aparência para confundi-lo? Diziam os antigos que o djins eram capazes de tomarem a forma dos pensamentos das pessoas e como todo homem do seu tempo, Ikki também temia essas histórias contadas pela tradição.

Ergueu-se do lado do loiro, porque a simples presença dele o perturbava. Ele parecia-se demais com o irmão e ao mesmo tempo era completamente diferente. Mas ainda assim, a aparência dele o atraía e aumentava sua saudade. Temia olhar demais para Asmita e ser enganado por sua própria vontade de estar com Shaka, até por que não seria saudável confiar demais no príncipe mais velho de Najah.

– Vamos seguir viagem – ele falou, brusco, sem mirar o loiro, começando a recolher suas coisas, mergulhando novamente aquele maravilhoso e triste passado...

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

As dores de parto começaram no terceiro dia da lua negra como previsto por Zahira. Quando o rei soube, ordenou que a cidade começasse o rito de nascimento que consistia em acender velas nas casas, para que a deusa Al-Uzza garantisse a saúde e longevidade da cria tamudaeia. No templo, velas cercavam a cama da grande esposa que gemia, na angústia do parto.

Assim que soube que o filho da amiga estava nascendo, Shaka quis voltar ao templo, mas Ikki o proibiu e deixou ordens para que ele fosse vigiado. No grande salão do castelo, os homens comemoravam a futura prole real. Bebiam vinho quente e cantavam felizes, mas o jovem persa se angustiava. Sabia que a amiga precisava dele, mas ele não podia sair da fortaleza. Shaka sempre foi uma pessoa profundamente intuitiva e pela escuridão estranha que cobria Karna, ele tinha certeza que não receberia boas notícias naquela noite.

O parto foi feito num clima fúnebre e durou horas. Jamila agonizou de dor até que o bebê finalmente foi arrancado de si. Mas para apreensão de todos, ele não chorou; nasceu em total silêncio, assim como a calmaria lúgubre que pairava sobre a cidade. O piar dos corvos e o roncar dos trovões, anunciando tempestades, foram os únicos sons sobre o templo de Al-Uzza enquanto todos esperavam que a criança chorasse.

Zahira tomou a dianteira e examinou o bebê, tratando de massagear-lhe o peito até que um choro fraco foi ouvido.

– É um menino – ela disse, mirando o pequeno ser. – Cuidem da grande esposa, vamos levá-lo ao conselho.

Jamila protestou com lágrimas quando a criança foi levada, mas estava fraca demais para impedir. Ela apenas chorava, pedindo que o filho não fosse tirado dela. A triste sina de mulher, novamente, ameaçava sua cria, e ela, como mulher, só podia chorar e lamentar sua sorte.

O conselho reunia-se à frente do templo e a criança foi exposta à luz da lua e cercada por ele para ser inspecionada. Orações foram feitas ao deus Dhu'l-Halasa, pedindo entendimento e para que ele revelasse, no céu sombrio, o destino daquele pequeno homem.

Depois de uma hora naquele ritual, o sacerdote supremo da cidade de Karna, senhor a mando de Manata, finalmente proferiu suas palavras:

“Pequeno, pálido, raquítico... Não serve.”

A sentença de morte da criança estava declarada. Todavia, isso não seria feito simplesmente jogando-a do penhasco como alguns anos depois em Esparta. Ali, na primaveril era da Arábia, numa cultura mergulhada em superstição e ignorância, era necessário um ritual; o ritual de extermínio. ‘A libertação dos imperfeitos.’

Karna acreditava que todos aqueles que nasciam em corpos imperfeitos respondiam às ofensas feitas aos deuses, e que a única forma de expurgar tais pecados era através da morte silenciosa, no abandono do deserto frio à noite.

As sacerdotisas choraram e lamentaram o destino do pequeno. Até mesmo Zahira se apiedou no último momento. Mas os homens... Estes não. Estes eram impiedosos e inflexíveis em suas obrigações cruéis. A criança seria morta.

O canto no salão da fortaleza cessou quando um dos mensageiros sussurrou algo ao ouvido do rei. Omã pareceu aturdido por um tempo e então se ergueu, recolhendo-se aos seus aposentos, onde deveria rezar pela alma da criança. Ele não queria que seu rebento fosse sacrificado, queria ao menos ver o filho que fora gerado pela única mulher que realmente despertou algo em seu coração, após a morte da mãe do seu primogênito, mas não poderia ir contra as tradições. Era difícil ser um rei numa era tão miserável.

Todavia, as tradições em Karna, naqueles dias, estava aliada à política. Conselhos e sacerdotes não admitiam uma Grande esposa estrangeira e concubina e não admitiriam que entrasse na fila dos vários sucessores ao trono, uma criança de sangue misto. Se a criança era mesmo imperfeita ou não, pouco importava. Ela seria sacrificada na pedra branca do deserto vermelho.

O sacrifício dos “não perfeitos” era natural entre os Tamudaeis. A criança era levada para uma grande pedra entre ruínas místicas do deserto e sob a luz da lua, o recém nascido era abandonado ali, para ser devorado por ghouls ou chacais, ou simplesmente, morrer de frio durante a noite e, no dia seguinte, ser comido por abutres. Ela ficaria sobre Dhu'l-Halasa – a pedra branca – e era esse deus quem deveria decidir seu destino, melhor, a forma com que sua vida seria ceifada.

Cruel... Insano.

Depois da dor, a revolta e a decepção tomaram conta de Omã, e ele tentou controlá-la cortando a cabeça de alguns escravos. Nunca antes um filho seu havia sido rejeitado pelo conselho, e ele responsabilizava Jamila pela humilhação. Aquela criança não poderia ser sua! Fora traído! Essa era a única justificativa.

Essa foi a porta de entrada da bela e jovem Shyna que, ao vê-se rejeitada pelo príncipe, resolveu ascender a um posto maior que ‘a jovem persa’.

Shyna seria uma menina nos dias de hoje, mas, aos 16 anos, já era uma mulher vivida naquela época. Sua curta existência foi marcada por abusos e lágrimas. Sequestrada por um grupo de guerreiros árabes que invadiu a sua aldeia e dizimou-a, a jovem foi vendida a um bordel, onde cresceu sofrendo todos os tipos de violação e humilhações, até a chegada dos tamudaeis, um novo grupo árabe que fez com seus algozes o mesmo que eles fizeram à sua pacífica aldeia há oito anos.

Shyna de certa forma, sentia-se vingada por Omã, mesmo que soubesse que o rei de Karna era tão cruel quanto os assassinos de seus pais. Não era ingênua, mas em seu íntimo, essa sensação de ter a vingança saciada, causava-lhe uma inconveniente simpatia pelos tamudaeis, e ela queria fazer parte daquele povo.

Inicialmente, pensou que seria fácil seduzir o príncipe, afinal, ela fora dada de presente a ele. Contudo, Ikki nem ao menos quis presenteá-la com o bracelete de serpente. Parecia que aquele homem estava definitivamente enfeitiçado pela garota persa. Shaka acabou se tornando uma pedra em seu caminho; uma pedra difícil de ser retirada. Isso também provocou seu ressentimento de forma intensa. Na verdade, Shyna, Jamila, Zahira, Nerfetari, Pandora e Violet, peças femininas tão dissonantes nessa história, eram todas apenas mulheres tentando sobreviver numa época de trevas e misoginia. Época em que mulheres eram apenas objetos para o prazer e uso dos homens. Todas elas jogavam com as armas que possuíam para tentar sobreviver em época tão desgraçada.

Shyna foi uma estrategista que aproveitou a crise; a única mulher corajosa o suficiente para tentar consolar o rei em sua fúria e não retroceder com as primeiras bofetadas que tomou, acabando a noite na cama de Omã, sendo fodida como uma cadela. Dor... Humilhação. Raiva. Mas no final, ela conseguiria o que queria.

Fora da fortaleza, começava o cortejo que levaria a criança para o deserto. E Shaka o acompanhava envolto em uma capa, escondido de todos. Ikki ainda estava no salão com os outros guerreiros e pensava que o rapaz estivesse no quarto, mas o loirinho era mais engenhoso do que imaginava o príncipe árabe e com a ajuda de uma das concubinas, conseguiu distrair os guardas que vigiavam o corredor e escapar pelo subsolo da fortaleza.

O garoto ária tremia por dentro. Desde o momento que soubera da cruel sentença, ele pensava no que fazer para evitar aquilo. Era apenas um bebê, um ser inocente que seguia silencioso para a morte. Para Shaka, esse fato era inconcebível, e ele não permitiria, mesmo que colocasse sua própria vida em risco.

Eles atravessaram as muralhas e seguiram pela trilha que levava ao deserto vermelho. Era uma caminhada longa na escuridão da noite, aplacada apenas pelas tochas dos sacerdotes. Shaka ocultava-se nas sombras, seguido a certa distância, querendo ficar o mais oculto possível.

Acompanhou, escondido atrás de uma rocha, o ritual que oferecia a criança aos deuses em sacrifício e depois viu o pequenino ser abandonado sobre a pedra fria, enquanto o cortejo seguida entre lamentos de volta a Karna.

Shaka esperou por um tempo até que ele não mais pudesse vê-lo e então caminhou até a pedra e observou a criaturinha de pele pálida. O persa sentiu seu coração se enternecer como nunca e imediatamente, tirou o bebê daquele lugar frio, o protegendo com sua manta. Assim que o segurou contra o peito, a criança começou a chorar, dando sinal de vida.

– Sn... está tudo bem, eu vou cuidar de ti – murmurou condoído.

Com muito cuidado e muito lentamente, Shaka começou a retornar à fortaleza. Contava com a festa no salão para não ser visto ao adentrar pela passagem secreta que Ikki lhe mostrara. Se seguisse pelo pé da montanha e entrasse pelo subsolo da fortaleza, ele não seria visto.

Entrou na fortaleza com muito cuidado, indo de imediato para os aposentos do príncipe e rezando para que a criança não chorasse. Assim que entrou, pegou um lençol e envolveu o recém-nascido, colocando-o em um cesto debaixo da cama. Não sabia o que fazer e nem como alimentá-lo, por isso precisava encontrar Ikki; ele lhe ajudaria a pensar em algo. O príncipe árabe deveria estar no salão com os outros guerreiros. Embora não houvesse mais comemoração e alegria, com certeza os homens beberiam por toda a noite.

Shaka sabia que não deveria ir ao salão, todavia, era um caso urgente, teria que encontrar o amado antes que o bebê começasse a chorar e colocasse a sua e a própria vida em risco. Cobriu-se novamente com a capa e saiu em direção ao funesto festejo. Havia muitos homens ali, e ele não conseguia encontrar o amigo. Ficou perambulando pelos cantos e corredores, na esperança de encontrar Ikki em algum lugar.

– Oh! Olha quem veio nos divertir! – recebeu uma puxada no braço ao passar perto por uma das mesas, mas ele rapidamente se desvencilhou e correu, olhando para os lados, entrando em um longo e escurecido corredor. Precisava voltar para o quarto, ao que parecia, Ikki não estava mais ali.

Correu pelo corredor, mas foi alcançado por um dos homens do salão e foi jogado contra uma parede com violência.

– Sua cadela! Vou ensiná-la a não rechaçar, Akumani! – ele gritou, já obviamente ébrio. Os olhos do guerreiro levavam a Shaka lembranças da noite da tomada de Najah, e ele engoliu em seco.

– Solte-me! Ou contarei ao príncipe tua insolência! – protestou, mas o homem apenas soltou uma gargalhada.

– Não deverias estar aqui! Ele não poderá reclamar! No mais, eu sempre quis foder uma vadia persa! – replicou o bruto e enfiou as mãos dentro das roupas de Shaka que lutava para se livrar dele, mas o homem era mais forte.

Ele continuou a apalpar o corpo do loiro, até que sua mão conseguiu tocar a intimidade do persa, e o guerreiro deu um passo para trás aturdido, como se houvesse posto a mão num vespeiro.

– Que diabrura é-!... – não completou a frase.

Shaka estremeceu quando a ponta de uma espada curva irrompeu o peito do homem que arregalou os olhos e abriu a boca muda, por onde escapou um filete de sangue, antes de ele desabar no chão, morto.

O persa ficou um tempo mirando aquilo, chocado, mas logo a sensação de alívio o tomou e sua consciência pacifista sucumbiu à necessidade de segurança e, aos poucos, morte e violência começavam a se tornar algo banal para o ariano, de tanto que ele as presenciava naquele lugar.

Quando o corpo finalmente caiu, Shaka enxergou o rosto sério e taciturno de Ikki. Ele vestia seus trajes de guerra, o rosto pintado com a cobra negra, realçando os olhos muito azuis e profundos.

– Ikki! – jogou-se nos braços dele, aliviado. – Eu precisava tanto encontrá-lo! Que bom que me achou!

O moreno o interrompeu, pondo a mão em seus lábios. Ele retirou a espada do corpo do homem e saiu empurrando Shaka em seguida, pelos corredores da fortaleza, de forma bruta, sem dizer nada, até que finalmente chegaram ao quarto.

– Por todos os Djins do deserto, o que fazia lá, Shaka?! – Ikki esbravejou. – Ele iria violá-lo! Pior, o mataria por você ser um homem, depois de violá-lo! Como você é estúpido, persa!

Shaka se encolheu com a raiva do moreno e fez um bico emburrado. – Não fique bravo, eu precisava encontrá-lo, é muito sério!

– Cala a boca! Eu não quero ouvir sua voz! É um teimoso! Um teimoso sem jeito! – Ikki esbravejava, irritadíssimo com as atitudes do loiro. Não tinha jeito! Não conseguia domá-lo, mandar nele e, com isso, protegê-lo! Era a única forma de proteção que ele conhecia e sem ela... O jovem árabe ficava perdido e preocupado.

– Ikki, me ouve, eu-...

– Eu estou com vontade de... – aproximou-se do outro, respirando forte como um touro bravo – Se aquele desgraçado...

– Ikki...

– Não! Não diz mais nada! – o moreno o abraçou com força – Eu morreria, Shaka, eu-...

– Não aconteceu nada, calma... – o loiro murmurou, afagando-lhe a nuca. – Eu estou bem, eu te amo...

O moreno se afastou um pouco para em seguida tomar-lhe os lábios com paixão, paixão que foi retribuída por Shaka, até que o árabe o ergueu nos braços e o jogou na cama.

– Ikki, espere! – pediu, levando as mãos ao peito do guerreiro. – Preciso dizer algo, quero dizer, mostrar algo...

O moreno franziu as sobrancelhas e viu Shaka rolar para o lado e puxar algo debaixo da cama. Ikki ficou estático ao perceber que naquele cesto ressonava tranquilamente um bebê.

– O-O que é isso?! – ele exclamou como se houvesse sido picado por serpentes, afastando-se do loiro e ficando de pé. – Não me diga que é o que estou pensando, Shaka!

– É – o loiro confirmou. – É o bebê da Jamila, eu não deixaria que o matassem.

– É a tradição! Ele é um defeituoso, um aleijado! – rosnou o moreno e encarou o outro com dureza. – E vamos devolvê-lo exatamente ao lugar de onde você o tirou! À pedra branca do deserto vermelho!

– Não! Isso não é justo! – Shaka gritou, indignado. – Ele é apenas um bebê! Ele não tem culpa das tradições estúpidas do teu povo horroroso! Ele não é um aleijado! Veja! Ele é apenas um bebê pequeno! – os olhos do loiro marejaram.

Ikki respirou fundo para não perder a cabeça. Parecia que o persa estava disposto a enlouquecê-lo.

– Isso não está em discussão aqui. Eu vou devolvê-lo ao deserto. Entregue-me o cesto, é uma ordem. – Disse entre dentes, de forma feroz, ao menos tentava. Não sabia ser rígido com Shaka e essa era sua maior fraqueza.

Mas o loiro apenas apertou mais o cesto contra o peito, negando com a cabeça.

– Não faça com que eu tenha que tirá-lo de ti, Shaka... Não faça isso com nós dois... – Advertiu, os sentimentos revoltos, o coração apertado.

– Por favor, Ikki... – as lágrimas deixaram os olhos do loiro. – É teu irmão... Por favor... Dê uma chance a ele...

O moreno pareceu hesitar, não pela palavra irmão, aquilo não significava muito para ele, mas pelas lágrimas nos olhos do loiro.

– Eu não me importo com isso, Shaka... Não sei o que ser... irmão. – Confessou, aflito. – Por favor, isso só nos trará problemas, mais problemas.

– Mas eu me importo... Vocês mataram meu irmão... – as lágrimas escorreram pelo rosto de Shaka – Ele pode ser nosso irmão... Posso ter um irmão de novo... Jamila é como uma mãe pra mim... Não o mate, por favor, dê uma chance a ele...

– Irmão... – Shaka disse no presente, o olhar um pouco perdido. – Parece que sentirei falta do Asmita para sempre...

Mu sorriu de leve e segurou a mão do escravo, que o encarou.

– Eu imagino que sim – o jovem-faraó falou, emocionado, e baixou o olhar. – Shaka, se tu quiseres... Podes me chamar de irmão...

O nunefer riu e levou a mão ao rosto do príncipe. Tão adorável, tão bondoso. Mu lhe fazia pensar em como estaria o pequeno príncipe árabe. Estaria vivo? Estaria bem? Tinha esperanças que sim.

– Sim, Mu, tu serás o irmão que eu não mais possuo.

– Obrigado, meu amigo! – o nobre egípcio abraçou o cortesão, feliz. Não tinha uma boa relação com suas irmãs, eram princesas mimadas; o mais próximo que tinha de um irmão era Aiolia, que crescera com ele, e ficava feliz por Shaka também ser seu amigo.

– Sim, sim, sejamos irmãos, mas acho que agora precisas ir, logo teu pai estará de volta. – O persa o advertiu.

Mu sorriu, beijou o rosto do amigo e retirou-se do jardim, deixando Shaka mergulhado em seus próprios pensamentos.

Ikki estava parado de frente ao loiro, ainda não sabia o que fazer, mas já tinha uma certeza: não teria coragem de levar aquela criança, que Shaka já parecia amar tanto, de volta à pedra branca. Teria que pensar no que fazer.

– E o que achas que devemos fazer com ele? Ele precisa se alimentar ou morrerá de qualquer jeito!

Shaka sorriu, aliviado com as palavras do moreno, mas ele realmente não tinha ideia de como alimentaria o bebê.

– Ama de leite! – disse, lembrando-se dessa prática do seu povo. – Leite de mãe é tudo igual, precisamos encontrar uma mulher que tenha um bebê, só isso.

– Precisamos não, tu ficarás aqui, eu vou levar a criança. Ficarás no quarto e não sairás por nada, nada, Shaka, entendido?

– Sim, eu prometo. – O garoto persa estava feliz demais e não teve mais receio de entregar o bebê ao amigo. Mirou aquele pequeno e tranquilo ser que dormia no cesto, sem se incomodar com a discussão deles, o que parecia incrível. – O nome dele é Shum...

– Shum?

– Sh de Shaka, o u de Horuk e o m de Jamila. Pensei agora! – riu, animado.

– Certo, certo! – Ikki riu e mirou o bebê, o rostinho ainda inchado, o corpo pequeno e frágil. Sentiu simpatia por ele, era o único sentimento que pensava ter, naquele momento. Então se cobriu com sua capa e saiu da fortaleza, montando num cavalo e indo à vila mais próxima procurar alguma mulher que tivesse criança de peito. Não foi difícil encontrar, e ele pagou uma boa quantia em moedas para que a mulher ficasse com a criança e nunca revelasse sua origem ou a mataria. Ikki, mesmo muito jovem, já era temido, então a mulher aceitou calada e adotou o pequeno rebento de Omã.

Ikki poucas vezes voltaria depois disso para ver o irmão, mas antes de fugir de Karna, garantiu a sobrevivência do garoto por muitos anos. A mulher parecia bondosa, e ele realmente confiou que ela cuidaria do pequeno, Shaka também. Quando finalmente reencontrou aquela criança, Shum tornara-se Shun, mas isso pouco importava numa cultura sem tradição escrita, foi apenas uma questão de pronúncia.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Obrigada a todos que leram e comentaram. Beijos e até mais! Sion Neblina