Notas iniciais
Olá, queridos leitores, tudo bem? Demorou um pouco, mas aqui está mais um capítulo. Perdoem possíveis erros, muitas vezes no calor da escrita, eu acabo por não percebê-los. Obrigada a todos que continuam acompanhando e comentando. Obrigada a Mililika pela imagem. Beijos a todos e boa leitura! Sion

Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

Karl Marx

Tradições — تقليد الفصل

Capítulo 14

Os dias passaram rapidamente após a volta de Jamila à fortaleza das serpentes negras. Abatida e triste, o esposo não a procurou, a tradição dizia que ele só faria isso num tempo determinado após o parto. Omã já desfilava ao lado da jovem Shyna, e a bela do Eufrates sabia que sua vida corria perigo. Ele não perdoaria sua falha como mulher.

Em alguns dias aconteceria a grande festa. Comitivas já cortavam o deserto em direção a Makkah, e o povo de Karna fazia seus preparativos.

Após a morte da necromante, Karna ficou em alerta. Espiões estavam por todas as partes, fazendo perguntas e procurando possíveis assassinos. Todos tinham medo de falar, os escravos andavam cabisbaixos e Omã nervoso.

Shaka andava recluso ao quarto. Ainda não havia conversado com Jamila sobre o bebê, temia ser ouvido, já que a grande esposa em seu período de convalescença nunca estava sozinha e também por superstição não podia receber a visita de homens. Shaka não era supersticioso, mas teve medo de visitar a amiga e algo de ruim acontecer a ela, por isso se mantivera longe no período indicado. Período que terminaria exatamente um dia antes da data programada para sua fuga e de Ikki. Ao menos teria a chance de despedi-se da amiga, embora não estivesse muito certo do seu destino.

Jamila, em sua convalescença, sabia que Omã já tinha uma nova favorita e que desfilava com Shyna pelas ruas como se ela já fosse a ocupante definitiva do seu leito. Vestida em tecidos finos e repleta de joias, a etrusca sorria, satisfeita. Todavia, para ela, ainda não havia segurança. Teria que afastar Jamila definitivamente e evitar que os olhos do Emir se voltassem para outra mulher. Uma em especial a preocupava, e Shyna não teria limites para manter o status recém conquistado.

Ikki, por sua vez, conversava com Ágora que era quem o estava auxiliando naquela arriscada empresa.

— Tu sabes que se forem capturados estão mortos. – Disse o ruivo, enquanto treinavam, para não levantar suspeitas. – O clã da serpente negra não aceita deserção.

— Sei. Por isso iremos na época das festas. Estarão todos ocupados demais e não darão por nossa falta até o dia seguinte.

— Sim, é o ideal. Shiva e eu os acompanharemos até a saída do deserto vermelho. Há uma trilha beduína que leva a um oásis em que poderão descansar e alimentar os cavalos. Depois chegarão até a Saubeia e a partir dali, Omã nunca mais os encontrará.

— Obrigado, Ágora. Serei grato para sempre.

— Certo, cala a boca e luta! – disse o ruivo o golpeando.

O que Ikki não desconfiava era que a nova favorita de Omã seguia-lhe todos os passos com cruel interesse. Seu orgulho de mulher ainda não havia superado a clara rejeição do rapaz, e a curiosidade de víbora a guiava para descobrir os motivos ocultos daquela paixão do jovem príncipe pela escrava persa. Havia algo em Shaka que a inquietava e pior: fascinava as pessoas, sobretudo, Omã, e isso era uma grande ameaça. A forma como ‘ela’ olhava o príncipe, como agia; a falta de medo... Sim, Shaka não tinha medo. Falava com Ikki como se ele lhe fosse um igual, algo que não era conveniente a nenhuma mulher naqueles tempos miseráveis. Isso enciumava Shyna, fazia com que se sentisse inferiorizada diante da “jovem princesa”, mesmo sendo ela a atual favorita do rei.

Shyna sabia que nunca poderia se dirigir a Omã com aquela intimidade e desenvoltura que ‘a jovem loira’ tinha com seu príncipe guerreiro. Inveja: combustível de muitas tragédias.

— Não gosto de Shaka — ela comentara com Omã, certa vez, depois de algumas semanas habitando o quarto do soberano.

— Por me dizes isso? — O Chacal indagou incomodado.

— Porque és o meu rei, e não lhe devo ter segredos. Aquela menina é estranha. Temo que ela tenha feito uso de feitiço para amarrar o príncipe.

Omã riu.

— Sentes inveja porque Ikki nunca a quis, Shyna. Mas, se desejas saber, eu também acho Shaka estranha...

Shyna sorriu, mas seu sorriso morreu quando Omã continuou:

— Fascinantemente estranha. Caso ela não fosse um presente dado a Ikki, eu a teria.

O coração da jovem etrusca falhou. Deuses! Era uma maldição, só podia ser isso! Aquela garota estranha a perseguia. Mas não estava disposta a perder seu rei. Jamila estava fora da luta, Shaka não podia ser um grande problema.

— Sou mais bela que ela... — Murmurou, triste.

— Não disse que não fosses...

Shyna suspirou.

— Sim, ela pertence ao teu filho, meu senhor, e eu acho... Bem, nada devo pensar, nada que não seja agradá-lo — sorriu sonsa.

Omã a observou por um tempo, astuto. Não se enganava com aquela mulher. Ela não era como Jamila, não possuía a doçura da fenícia, mas talvez pudesse lhe dar um filho saudável.

— O que pensas? Fale-me.

— Acho-a uma rebelde que deve ser vigiada. — Shyna disse. — Depois do que nosso povo fez ao povo dela, não creio que devêssemos confiá-la da forma que o príncipe confia.

Omã calou-se pensativo, enquanto afagava um dos seios firmes da mulher.

— Então devemos transformá-la em uma de nós.

Shyna voltou-se para ele e viu um sorriso demoníaco exibir os caninos alvos e pronunciados do homem.

— Mas, meu senhor...

— Cale-se. Sei o que tenho que fazer. Não preciso dos teus conselhos. — O líder se ergueu da cama e começou a se vestir. Saiu do quarto e encontrou o filho na arena, treinando com afinco. Sorriu orgulhoso. Não precisava de mais filhos, Ikki era suficiente. Tão jovem e o melhor guerreiro que ele já havia visto lutar, melhor até mesmo que o grande Chacal. Omã admirava o filho e tinha por ele algo próximo a carinho na medida do possível àquele povo. Por isso, fazia-lhe as vontades por mais tolas que elas lhe parecessem. Ikki parecia amar a persa, e se ele fora tolo o suficiente de cair de amores por uma mulher, era melhor que a tivesse como esposa e assim garantisse que mais nenhum homem encostasse em seu leito.

Ikki informara a Omã sobre a morte do guerreiro e seus motivos. Omã sabia que caso Shaka fosse uma esposa tamudeia, nenhum homem se atreveria a insultá-la. Mas ali, ela era apenas uma concubina estrangeira e valia menos que um porco para quem quer que fosse.

Ele chamou o filho ao canto e apenas deu-lhe uma ordem:

— É chegada a hora de tu casaste, Ikki. Se quiser mesmo a menina persa, faça o ritual hoje, antes de seguimos para Makkah.

O jovem guerreiro arregalou os olhos e abriu os lábios, surpreendido por aquilo.

— Meu senhor-

— Não é o que desejas? Não tens mulher alguma além daquela moça estranha, então te case logo e dei-me netos que garantam nossa linhagem. Está decidido.

Dito isso, Omã saiu, sem deixar que o filho argumentasse. Ikki engoliu em seco. Não teria como se livrar daquela determinação. Teria que se casar com Shaka e fingir todo o ritual normalmente. Sorte que um casamento entre tamudaeis era algo simples: uma marca, testemunhas, e eles habitariam a mesma alcova, coisa que já acontecia. Nada de cerimônias e rituais complexos.

O príncipe árabe deixou a arena e foi contar as novidades ao jovem amante.

— Casamento? – Shaka indagou com olhos arregalados. – Como assim?

— Só um ritual de união. Algo simples. – Ikki falou, sem dar importância. – Elas vão marcá-lo, com uma pequena serpente negra, aqui... – colocou a mão no pulso do loiro, descendo o dedo massageando devagar. – É bem pequena, mas vai doer um pouquinho.

— E o que isso significa?

— Nosso casamento...

— Casamento?

— Se elas o aceitarem, tu torna-te membro do clã. Se elas o encararem e os espíritos disserem que és tu, serás marcado e eu também. Os mortos são os que ditam as uniões. Os antepassados de cada clã devem escolher o futuro da linhagem. – Ikki disse e engoliu em seco. – É só isso. A sacerdotisa nos marca e estamos casados.

— E se eu não for escolhido?

— Tudo fica exatamente como está. Nada muda. Mas isso é pouco provável.

— Mas eu sou um homem! – Shaka exclamou preocupado.

— Eu sei! – ele segurou o loiro pelos ombros o encarando. – Omã exigiu. Ele está desconfiado, eu sinto. Faremos tudo como ele quer, certo? Só precisamos aguentar por mais alguns dias, albi, confia em mim. Se me negasse, ele acharia que há algo errado.

— Eu entendo! – Shaka disse e o abraçou com força. – Confio sim.

E foi assim que a cobra negra foi gravada na pele de Shaka e a mesma aliança foi queimada no pulso de Ikki. Algo rápido que tinha apenas as sacerdotisas como testemunhas, feito apenas para que todos soubessem, daquele momento em diante, que não deviam se aproximar mais da persa. Ela tinha dono. Sim, dono. Era dessa forma que funcionava entre os tamudaeis e suas “mulheres”.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Mu mirava o amigo com olhos curiosos enquanto escutava suas histórias.

— Não pensas em reencontrá-lo, Shaka? Digo, se fosse possível, deixarias meu pai, o Egito, deixarias tudo que tens por amor?

O loiro estreitou os olhos e recuou um pouco o tronco em alerta. Talvez estivesse revelando demais de si para aquele garoto, afinal, ele era o príncipe, era filho de Saga e poderia traí-lo. Precisava saber o suficiente de Mu para tê-lo nas mãos, assim não precisaria se preocupar. Também pensaria melhor em suas palavras.

— Ele está morto.

— Morto? — os olhos verdes do mais novo se arregalaram.

— Sim, morto e eu agora sou um pertence do teu pai — sorriu amargo.

— Tu não precisas ser isso a vida toda. Pessoas não são pertences, isso é errado. — Mu murmurou, fazendo Shaka erguer a sobrancelha.

— O que me sugeres?

— Que lutes para ser feliz.

Shaka se ergueu de onde estava.

— Nada sabes da vida, príncipe do Egito — falou calmo. — Volte para o teu quarto antes que teu pai perceba que se demora aqui.

Mu deu de ombros.

— Tudo bem, mas eu queria que soubesses que... Bem, eu acredito no amor e na liberdade...

Shaka sorriu sincero. Não entendia porque Mu despertava aquele seu lado, tão humano, que há muito ele excluíra de si.

— Também acreditei, Mu. Não me ajudou muito. Agora vá.

O príncipe deu de ombros e saiu. O cortesão mirou o sol do deserto e suspirou afagando o bracelete negro. A serpente negra, última lembrança do seu grande amor.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Já fazia alguns dias que Kanon e sua comitiva navegavam em direção à Babilônia. Uma barca havia saído dias antes para que sua chegada ao reino mesopotâmio não fosse uma surpresa, protegendo-o de possíveis hostilidades. O príncipe egípcio levava uma “carta” escrita pelo próprio faraó para o imperador da grande cidade entre rios.

Kanon sentia-se entediado, sempre se sentia assim quando fazia longas viagens e aquela em especial era terrivelmente enfadonha, já que estava sem o irmão ou qualquer um que lhe pudesse fazer companhia, a não ser o insuportável do general Radamanthys que nem ao menos se dignava a olhar em sua cara, passando o tempo inteiro dando ordens aos marinheiros.

O príncipe suspirou pela milésima vez e observou o mar calmo a frente. Gostaria de entender o que Hades pensava em fazer. Ele prometera o colocar no trono, mas qual seria o preço disso? Não podia conceber que Saga fosse ferido, mas como poderia chegar ao trono sem tirar o irmão do caminho?

“Seria necessário que ele abrisse mão do próprio direito...”

— O que disse? – Radamanthys que mirava à frente, debruçado sobre o parapeito do convés, indagou, virando-se para olhá-lo, as espessas sobrancelhas se franzindo.

— Estava falando sozinho, é o que mais faço, já que tu te recusas a falar comigo, querido companheiro de viagem. – Kanon provocou, fazendo o outro soltar um muxoxo e rir de leve.

— Minha missão aqui não é entreter príncipes mimados e entediados, Kanon Amon – ele disse com desprezo.

Radamanthys não era um nobre. Fora adotado por Hades na infância, filho de alguma escrava estrangeira com alguém da nobreza que não o quis. Também nunca se interessou em saber quem fora seus progenitores; aprendera com Hades que deveria preocupar-se com coisas relevantes e não com o passado. Fora educado e treinado para se comportar como um nobre e ascender na vida militar. Tudo isso ele fez e agora era um aliado poderoso e hábil para o grande governador.

— Que pena, talvez tu pudesses ser bom nisso, já que não és como general – replicou, espreguiçando-se.

— Quando voltarmos à Pátria, eu o desafio para uma luta de lanças. Adorarei humilhar a casa real. – Radamanthys sorriu, se afastando.

Kanon fez um gesto entediado de mão e estalou os dedos para que os escravos continuassem a abaná-lo, naquele dia terrivelmente quente.

— Vamos atracar no último porto antes da Ur – Radamanthys, que já não estava tão próximo a ele disse alto. – Aproveite, meu príncipe, e vá a cidade, talvez encontre algo para entretê-lo, só tome cuidado – falou com sarcasmo e chamou dois soldados, que designou para a guarda do infeliz do “afilhado” de Hades. Se tinha algo que detestava era fazer papéis como aquele, mas não tinha jeito; fora uma ordem do seu senhor e teria que bancar a babá de Kanon enquanto fosse necessário.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

No Egito, o dia não seria diferente se o exército não estivesse se mobilizando próximo ao Delta do Rio. Mu observava aquela agitação da janela do seu quarto, o coração apreensivo com a possibilidade da guerra.

— Mu...

A voz forte do tio fez com que se afastasse, ajeitando os cabelos longos que estavam presos na ponta como sempre. Sorriu de leve, observando a expressão grave do outro.

— Aulas... – suspirou. – Vamos, Defteros, eu sei que tenho faltado.

— Assim como à escola dos escribas. Não demora que teu pai perceba e eu serei responsabilizado. – Disse o mais velho, contrariado.

Mu soltou um muxoxo.

— Por que temos que fazer tudo que ele quer?

— Por que ele é o deus? – Defteros indagou com sarcasmo.

— Shaka não faz o que ele quer...

— Shaka é uma péssima influência para ti, para mim, para qualquer pessoa. – Defteros disse, contrariado. Ainda não entendia a história do vinho e não tivera a chance de indagar ao nunefer de Saga sobre isso. Sentia que fora usado, e para alguém orgulhoso como ele, isso era imperdoável.

— Por que não gosta dele?

— Ele é estrangeiro, bonito e astuto como as serpentes coloridas que habitam a relva na parte sul do Nilo. Bonitas, mas venenosas demais, pequenas, delicadas, mas capazes de matar 100 homens com uma única picada. Fique longe dele, Mu.

— Não o conheces! – Mu riu. – Ele é meu amigo, e é uma pessoa adorável!

Defteros balançou a cabeça negativamente. Eles atravessaram o pátio e viram os militares se movimentando, logo atrás de Aspros que seguia altivo em seu cavalo, comandando o grupo a pé. O gêmeo mais novo sorriu ufano e recebeu um cumprimento de cabeça do mais velho, que seguiu.

Mu olhava de um para o outro com um meio sorriso.

— Deve ser bom ter um irmão... – ele disse, meio triste.

— Tu tens várias irmãs! – Desdenhou Defteros, apressando o passo.

— Não, não. É diferente! São filhas de concubinas, não me permitem me aproximar delas – o adolescente revirou os olhos. E mesmo se fosse permitido, tentariam me casar com elas.

— É uma concessão que os sagrados, como tu és, têm: poder escolher com quem quer casar, inclusive uma das irmãs que carregam o sangue dos deuses. Mesmo que estas sejam filhas de concubinas, elas ainda carregam o sangue do teu pai.

— Eu sei, mas eu queria ter um irmão como tu tens o Aspros, meu pai tem o Kanon, é diferente de uma mulher! É estranho que elas me vejam como um possível esposo e não um irmão. – Mu disse, pensativo.

— Realmente é – Defteros concordou, e eles chegaram à grande arena de treinamentos.

— Tu já escolheste com quem desejas casar-te?

— Não. Não gosto de mulheres, eu acho. – Mu falou com naturalidade, fazendo Defteros rir.

— Mas precisas delas para garantir a linhagem divina.

— A linhagem divina pode ser garantida por qualquer membro da família, não propriamente por mim.

— Mas é esperado de ti. O filho varão.

— Detesto esse título – resmungou o adolescente.

— Mas terás que carregá-lo, é a tradição.

Mu suspirou resignado. Odiava aquelas tradições. Não queria casar-se com uma das irmãs, queria casar-se com Aiolia. Todavia, nada disse, pegou seu arco e flechas e começou a praticar de imediato, enquanto Defteros checava lanças e espadas. Seria uma longa manhã de treinamentos com aquele principezinho preguiçoso.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Shaka estava no jardim. Estava preocupada com aquele rumor de guerra, embora pensasse que uma guerra, mesmo em vista de tantos perigos, poderia ser uma oportunidade de fuga. Mas para onde iria? Caso a Babilônia fosse inimiga, poderia pedir asilo a Afrodite. Todavia... E depois? Precisava pensar no que faria, caso a guerra irrompesse.

Cruzou as pernas que insinuava-se na abertura da saia vermelha que usava e girou o pé, algo que sempre fazia quando estava nervoso ou pensativo. Uma canção de soldado era escutada à distância, cortando o dia quente como uma navalha fria. Precisava pensar, pensar. Aprendera a sempre estar preparado, e era isso o que faria.

Uma brisa fresca invadiu o jardim formoso e ela trouxe a presença fria de Hades. O persa ergueu-se do canapé em que descansava, exibindo toda sua altivez ariana ao governador, que sorriu. Eles se encararam, admiraram-se.

Hades achava Shaka lindo, perfeito, um animal raro com aqueles cabelos dourados e longos e aquele corpo alvo e esguio, parecendo uma peça de um marfim imaculado e raro. Os olhos eram como duas pedras preciosas e a boca, uma fruta madura sempre suculenta e vermelha. Sorriu de lado. Ainda assim, não o desejava como a maioria dos homens que frequentavam aquele castelo. Ele era bonito, mas Hades nunca sentira atração por homens, por mais belos que eles fossem, embora admirasse toda aquela mistura de santidade e sensualidade que Shaka era dono. Na verdade, lhe interessava, naquele caso, muito mais o cérebro que o corpo daquele belo estrangeiro. Descobrira que Shaka poderia ser a escada perfeita para sua ascensão ao trono do Egito.

— Governador – Shaka fez uma mesura, mais sarcástica que respeitosa. – A que devo a honra de vossa visita?

O loiro também analisava aquele homem perigoso. Ele o estava sondado há muito tempo. O observava nos jantares, aparecia de surpresa em seu jardim, fazia comentários que o incluía para chamar sua atenção. Só que Shaka não era nem um pouco bobo, percebia todo aquele interesse e sabia que não era o interesse sexual de Kanon, era algo bem maior, bem mais perigoso.

— Gostaria de escutar uma de tuas belas músicas. Não pedirei a honra de vê-lo dançar, pois sei que danças apenas para Faraó.

Shaka riu de leve com sarcasmo, encarando os olhos esverdeados de Hades.

— Como podes notar, não estou com nenhum instrumento. Não gostarias realmente de mais nada? – ele indagou andando até uma das imensas arcadas e mirando o dia claro.

— Shaka... – Hades disse lentamente, aproximando-se dele. Tocar-lhe-ia o ombro, mas recuou no gesto, lembrando-se de que ninguém deveria tocar nos “pertences” do faraó. – O que me dirias se eu lhe pedisse para ser meu aliado?

— Em quê? – o ariano investigou, sem encará-lo, mas sentindo um frêmito por dentro. Aquele homem era perigoso, e simplesmente cogitar ajudá-lo poderia custar sua vida.

— Tenho planos para o Egito, sei que deves saber – Hades se colocou na mesma posição que o persa, mirando o dia claro e a movimentação da cidade. – Tu és um homem forte e astuto, deves perceber que Saga está longe de ser o rei que o Egito merece. Meu sobrinho é frágil e passional. O Egito precisa de algo maior que um faraó, de um poder realmente divino que leve seu domínio aos confins da terra... Ele precisa de-

— De um imperador. – Shaka o interrompeu. – Tu.

— Mais que um imperador. Ele precisa de um deus...Um deus de verdade e único.

— Saga é o deus na terra...

— Os oráculos se enganaram. Meu sobrinho é incapaz de permanecer no poder, além do mais – Hades voltou-se agora para encarar o nunefer. – Esse título de divindade solar pode ser... revogado!

Shaka encarou Hades. Os olhos azuis atentos, o rosto sério.

— O que pretendes? O que queres de mim?

— Meus planos por enquanto são secretos. Mas preciso saber se poderei contar contigo...

— Em troca?

— Uma fortuna incalculável e a liberdade de deixar o Egito como tanto almeja.

O persa franziu a testa.

— Como sabes o que almejo?

Hades riu. – Não és tão discreto como pensas, jovem príncipe.

O loiro empalideceu e pigarreou, afastando-se do outro.

— O que descobriste a meu respeito?

— Não muito e nem me interessa. Preciso somente da tua ajuda se algum dia quiser deixar o Egito.

— O que queres que eu faça? – A pergunta foi um murmúrio.

— Saberás no momento certo. – Hades caminhou para a saída do jardim. – No momento certo, voltarei a procurá-lo, até lá, pense, belo príncipe persa.

Quando o homem deixou o jardim, Shaka voltou a se sentar no canapé, o coração batendo desacertado no peito. Como ele descobriu aquele detalhe do seu passado? Como? Na Babilônia? Não, não havia tempo de Kanon ter lá chegado e lhe mandado uma mensagem. Não, não. Aquela informação não chegou da Babilônia, mas quem?

— Mu?! – indagou-se, confuso. Precisava ter uma conversa com o amigo. Não acreditava que fora traído, mas não podia se esquecer que já não devia confiar nas pessoas. Por que fora confiar naquele garoto estúpido?

“Calma, Shaka, precisa se acalmar e pensar direito, calma.” Respirou fundo. Conseguiria encontrar uma resposta para aquilo. Mas de algo tinha certeza: nunca deveria confiar em Hades.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

A sensação era de que eles estavam andando em círculos e que não conseguiriam deixar aquele pântano nunca. Ikki já se mostrava irritado, Aldebaran, cansado. Apenas Asmita mantinha-se tranquilo.

— Há algo de errado! O pôr-do-sol se aproxima e continuamos aqui! — o saubeu disse ao senhor dos desertos. — Será que não estamos na direção errada?

— Estamos na direção certa. — Disse o guia e continuou avançando.

Depois de alguns minutos de caminhada, eles saíram do pântano e chegaram a um campo aberto. Era incrível como o verde cedia à planície seca que ao que parecia era o caminho para Ur.

Asmita caminhou com mais velocidade, deixando os dois árabes para trás. Ikki e Aldebaran se entreolharam curiosos, antes de seguir o senhor do deserto. Ele avançava por uma passagem estreita pelo meio de duas grandes montanhas rochosas, puxando cuidadosamente os cavalos pelas rédeas.

— Venham, venham rápido, há patrulhas na estrada. — Avisou o persa, vendo os dois homens arrastarem seus cavalos na mesma direção que ele levava o dele.

A escuridão iniciava a cobrir o céu, eles passaram pela sombra da montanha que criava aquela interessante galeria e então chegaram aonde Asmita os queria levar: um cemitério.

— Esse é o único lugar seguro para passarmos a noite? — Ikki interrogou. Não gostava de cemitérios. Mesmo há muito tempo longe dos tamudaeis e sua cultura de ignorância, ele ainda trazia fortes sentimentos das suas raízes étnicas.

— É o mais próximo e há algo nesse lugar ... — disse Asmita, andando pelo local como se procurasse alguma coisa, então ele aproximou-se de um amontoado de pedras que marcava um túmulo. — Aqui... — ele murmurou e caiu de joelhos sob o olhar dos outros dois. — Foi aqui...

— O que está dizendo, Asmita? O que há aí? — Ikki indagou, receoso.

— Shaka...

Ao ouvir aquilo o coração do príncipe árabe falhou.

— Shaka...? Não pode ser... Não... — Ele foi enfático. Não era verdade, Shaka estava vivo, ele sentia.

— Não, tamudaei, ele não está aqui, mas ele passou por aqui... Sinto suas lágrimas nesse túmulo... Foi o túmulo de alguém que ele amou... Sinto sua dor... — Asmita disse, abraçando o próprio corpo coberto pelas vestes negras, uma expressão de sofrimento tomando-lhe o corpo como se estivesse sendo ferido.

Ikki mirava-o sem entender, mas uma grande angústia o tomava.

— Levante-se — o puxou pelo braço. — Ele não está aí, ao menos ele não está aí! — disse aliviado, abraçando o guia com força, nem percebendo o gesto. Queria apenas consolá-lo naquele momento.

Asmita respirava forte, a sensação foi muito intensa, ele conseguira conectar-se com os sentimentos de Shaka naquele momento de dor. Quem fora aquela pessoa que o loiro havia enterrado? Um homem, sabia. Mas não diria aquilo ao príncipe árabe, ele não precisava saber daquilo. Não precisava despertar-lhe os ciúmes e o medo. Que ele permanecesse forte e determinado como se mostrava, mesmo sendo tão jovem.

Afastou-se de Ikki ainda perturbado, e percebeu que o outro também se mostrava constrangido.

— Vamos acampar aqui. Nenhum Hulagu entrará num cemitério à noite, é o lugar mais seguro. — O loiro disse, tratando de amarrar seu cavalo.

Ikki e Aldebaran concordaram mudamente e o saubeu saiu para procurar gravetos que pudesse utilizar para fazer uma fogueira. Ikki se sentou ao lado de Asmita, sem fitá-lo.

— Eu tenho algo a lhe dizer — o moreno disse, mas na verdade hesitava em passar aquela informação, talvez fosse cedo, deveria esperar até ter certeza das intenções de Asmita.

— O que seria?

— Quando encontrarmos Shaka, ele vem comigo. Mesmo sendo seu irmão mais velho, tu não tens mais poder sobre ele.

O loiro riu de leve.

— Isso é ele quem decidirá, tamudaei. Mas respeitarei a vontade do meu irmão.

Ikki assentiu. Não tinha dúvidas de que Shaka escolheria ficar consigo, embora não fosse isso o que de fato queria dizer a Asmita. Contudo, continuaria calado até que alcançasse a capital babilônica. Esperava encontrar Shaka lá e resgatá-lo. Sentia que sua busca estava finalmente chegando ao final. Conseguiria reencontrar sua estrela.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Aiolia andava devagar no calor do dia no Egito. Já havia cumprido suas obrigações e agora voltava para casa, onde passaria alguns dias. Estava entediado porque, por sua idade, fora deixado para trás nos treinamentos daquele dia. Aspros dissera que preparava algo para ele e seu general em chefe concordara, deixando-o sem ter o que fazer. Pensou em acompanhar a comitiva do faraó para a caçada, mas não estava muito animado para isso.

Entrou em sua casa e viu a refeição posta na grande esteira de junco. Sua mãe o olhou torto e nada disse. Ele lavou as mãos e se juntou à família, começando a comer em silêncio. Quando terminaram, sua mãe o levou até a sala de ócio e sentou-se com ele em um dos canapés.

— Aiolia, chegou o momento de escolher uma esposa. — A mulher falou, direta, fazendo o jovem arregalar os olhos.

— Mas, mãe... O exército...

— O exército não vai atrapalhar em nada. Precisamos de uma prole e você sabe que ela não virá de Aioros e sua dedicação incondicional ao deus.

Aiolia mordeu os lábios, tudo que não imaginava que lhe fosse pedido tão cedo, embora ele soubesse que cedo ou tarde isso aconteceria. Seu destino era ser o que seu pai foi no passado: comandante dos exércitos do Egito, e sua família não abriria mão desse posto. Tudo era uma questão de status. O posto seria disputado por pessoas de peso com certeza, como Aspros, irmão bastado do faraó, e Radamanthys, filho adotivo do governador. Mas seguindo uma tradição familiar, e isso era muito importante entre eles, o posto deveria ficar com um militar da terra dos leões, se ele o quisesse.

— Eu... não penso em me casar, mãe. — Respondeu cabisbaixo.

— Pois deveria. Está na hora. — A mulher se ergueu e pegou um papiro dentro de um vaso de barro e entregou-o ao filho. — Aqui estão o nome de todas as famílias importantes. Veja uma que tenha filhas de acordo com a tua idade e escolha. Teu irmão fará uma visita a eles e proporá a união. Não é complicado.

— Sim, senhora. — Foi a única coisa que Aiolia disse, pegando o papiro e fechando com força na mão. — Posso me retirar?

— Sim, vá descansar em seu quarto, farei o mesmo. — Disse a mulher e deu um suave beijo na testa do filho, que saiu da sala.

Nedis mirou as costas forte do seu caçula e suspirou. Não queria que ele se perdesse. Ouviu alguns comentários maldosos no castelo da rainha, entre suas damas, sobre a amizade de Aiolia pelo príncipe e não gostara nem um pouco. Não que a incomodasse que ele tivesse experiências sensuais com outros garotos, isso não era nenhum problema. Mas ela não queria que ele repetisse a história do irmão, que acabasse tão devotado ao jovem-faraó que não se importasse com mais nada além dele. Suspirou resignada, trataria do casamento do filho o mais rápido que pudesse, antes da possível guerra irromper e tudo se dificultar.

Aiolia assim como todos os filhos dos nobres frequentava escola dos escribas, mas ao contrário de Aioros nunca se interessou pela escrita. Era um bom matemático e um ótimo estrategista, mas sua erudição terminava aí. Nunca chegaria a grão vizir, ela sabia, e esse era o único posto suficientemente importante para uma vida de renúncias ou de dedicação exclusiva a um homem. A mulher suspirou, não lhe agradava aquela amizade com o príncipe Mu. Já observara aquilo no passado e não queria presenciar o sofrimento de mais um dos seus filhos.

“O outro sofrerá para sempre, Aiolia. Que eu pelo menos salve a ti.” Ela pensou, enquanto entrava na cozinha para dar ordens aos servos.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Havia um posto avançado do Império Babilônico antes da entrada em seu território. Era a ilha de Lundi. Nenhuma embarcação chegaria ao grande império sem que antes ali atracasse, pagasse os impostos devidos e dissesse as suas intenções. Por tal motivo, a pequena delegação egípcia foi detida para averiguações assim que adentrou a faixa marítima pertencente ao maior império mesopotâmico.

Radamanthys imediatamente ordenou que o comandante do navio descesse e apresentasse os devidos documentos, necessários para que eles tivessem permissão de adentrar aquele reino, e foi falar com alguns oficiais. Kanon permaneceu deitado em seu canapé, sendo abanado pelos dois escravos que o acompanhavam, enfadado ao extremo com aquela viagem sem sentido. Era evidente que não havia perigo e que nada aconteceria ao Egito. Hamurabi não era idiota de iniciar uma guerra que não poderia vencer jamais.

O príncipe ficou em seu tédio, chupando uvas e sendo abanado pelos escravos. Mais ou menos 20 minutos depois, Radamanthys retornou com uma expressão não muito feliz.

— Eles ainda estão examinando nossos papéis, isso é ridículo! Eles se acham os detentores dessa parte do mar! — Bufou o militar. — Mas hão de cair diante do nosso império!

— Nosso império? — Kanon riu. — Tu és um bastado, filho de uma escrava estrangeira. O Egito não é teu império.

Radamanthys engoliu aquele desaforo cerrando os punhos, mas apenas lançou um olhar ameaçador ao príncipe e se afastou para o outro lado do navio. Kanon se ergueu, pensava que deveria ter ficado calado; era melhor ter Radamanthys por perto, brigando consigo do que ficar sozinho com aqueles escravos que nem falavam sua língua.

— Ei, sabias que não podes dar as costas a um membro da família real? — Provocou.

— Não perderei meu tempo conversando com um homem esnobe e mimado que vive a sombra do irmão e que não tem nenhum conhecimento militar. — Olhou-o de soslaio e sorriu com sarcasmo. — Queres saber a verdade? Tu me enojas, Kanon Amon.

Kanon sorriu com desdém, fazendo um gesto com a mão. — Não posso me sentir ofendido por um estrangeiro.

— Não sou um estrangeiro, eu nasci no Egito! — Radamanthys se irritou, encarando o príncipe nos olhos. Odiava todo aquele deboche dele, odiava aquele sorrisinho cretino que ele sempre exibia, isso desde que eram crianças.

— Filho de uma serva estrangeira...

— Não ouse falar de minha mãe...

Kanon riu abertamente com deboche.

— Eu sou um príncipe, tenho o sangue dos deuses, posso falar o que eu quiser!

— Ora, seu... — Radamanthys ergueu o punho e Kanon arregalou os olhos, espantado, mas a chegada de um oficial babilônico os interrompeu.

O homem mirou os dois e falou algo em uma língua que os egípcios não compreenderam, mas isso despertou a atenção de Radamanthys que baixou o punho lentamente: aquela não era a linguagem babilônica.

— Senhores, devem me acompanhar. Infelizmente o navio de vocês não pode seguir viagem. — Volveu o militar, esforçando-se a ser compreendido.

— Como não? — O loiro indagou irritado. — Sabem com quem estão falando? Este é o irmão do faraó! — apontou para Kanon que moveu os ombros com uma expressão provocadora que dizia: Ah, então agora eu sou o irmão do faraó?

— Não importa quem são! — o homem disse com mais violência. — Não poderão avançar. Recebemos um alerta de pirataria, esse navio não sairá de Lundi até nossa decisão.

Radamanthys bufou e Kanon resmungou algo. Era o que faltava, ficar atracado naquela ilha maldita.

— Príncipe, vá para o seu gabinete, eu resolverei isso! — Radamanthys demandou, fazendo Kanon rir.

— Gabinete? Não! Aquilo deve estar um inferno, eu vou voltar para o meu camarote! — Falou dando as costas ao militar.

— Espere, alteza! — o babilônico impediu o príncipe de prosseguir. — Ah uma grande e confortável casa para os hóspedes de honra de Hamurabi aqui na ilha. Com certeza seremos repreendidos se deixarmos um príncipe do Egito passando calor dentro de um barco. O senhor e sua guarda podem nos acompanhar, serão muito bem acomodados.

Kanon mirou Radamanthys que assentiu com a cabeça.

— Vamos levar nossos pertences. — O loiro disse e deu ordem aos escravos que levassem tudo que pertencia ao príncipe para a dita casa.

Kanon estranhou aquele conformismo do militar, mas foi com sua guarda pessoal para a bela casa, resmungando devido ao contratempo. Reclamaria sobre aquilo com o próprio imperador. Quando ele já estava longe do seu campo de visão, Radamanthys retirou os bolsos um saco com moedas de ouro.

— O restante virá quando estivermos numa balsa para a Babilônia — ele disse e então seguiu a comitiva do príncipe.

Na escuridão do porto, o barco egípcio era ocupado por mercenários do Hulagu.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE PASSARAM POR AQUI, LERAM, DEIXARAM REVIEW, RECOMENDARAM, MANDARAM MP, OU SEJA, DERAM QUALQUER SINAL PARA A AUTORA. E AOS FANTASMINHAS, PODEM APARECER, EU NÃO TENHO MEDO! :D BEIJOS A TODOS! SION NEBLINA