Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Desculpe a demora para postar o capítulo. Demorou e ainda assim, foi díficil postar, ando sem tempo e ainda um tanto adoentada, então a inspiração não vem tendo espaço. Espero que gostem. Perdoem possíveis erros no texto, não consegui revisar direito. P.S. IMAGEM NO CAPÍTULO NÃO ME PERTENCE. CRÉDITO AO ARTISTA. Beijos e boa leitura! Sion Neblina

Traições

Capítulo 16

Quando acordou, Shaka sentiu o corpo dolorido. Já estava em seu quarto. Fora praticamente enxotado do quarto do faraó durante a madrugada, depois de passar o dia inteiro com ele, para convencê-lo de que lhe era fiel, e ainda assim não tinha certeza se fora bem sucedido. Saga estava com o humor terrível, e o nunefer até agradeceu quando o soberano o mandou embora. Sentou-se na cama, sentindo leve dor.

Uma grande pedra de quartzo polida ficava de frente à sua cama e ele mirou seu reflexo nela: a maquiagem formou vergões cinza em seu rosto quando escorreu junto com as lágrimas e havia algumas marcas espalhadas em seu corpo. Nunca antes, Faraó marcara-o daquela forma.

Algumas servas já derramavam a água perfumada na imensa tina de pedra e Shaka enrolou o cabelo no alto da cabeça, mergulhando e fechando os olhos, sentindo a água quente e aromatizada relaxar seus músculos doloridos. Tocou de leve os lábios rompidos por um pequeno corte, deixando pelos beijos violentos do soberano. Ele nunca beijava, somente quando queria algo em troca, apenas abria os lábios e permitia que o outro brincasse dentro da sua boca. Não beijaria ninguém. Nunca mais. Nunca um beijo de verdade. Seus beijos agora eram ardil e fel.

A sensação de humilhação o devastava. Mesmo por que era a primeira vez que Saga, o grande faraó, o tratava como um escravo, um prostituto, como ele falara. Antes ele era a joia, o Presente do Oriente. Naquele amanhecer, o que seria? Não era a primeira vez que ele usara de violência consigo, mas da primeira vez, Shaka tentara fugir, o que foi inadmissível, e fora punido como seria punida uma criança indisciplinada: a golpes de vara. Aquilo para os egípcios foi disciplina e não violência.

Deixou a banheira quase uma hora depois e se secou com o lençol de banho, feito com o mais fino algodão. Vestiu uma calça de seda amarela e lilás; seda da Ária, uma especiaria. Colocou os braceletes e vestiu o colete de igual tecido. Fez a maquiagem com o khol nos olhos, era a única que gostava, das demais não carecia e achava patético os homens que as utilizavam.

Depois de pronto e impecável, como deveria estar todos que estivessem a serviço do faraó, o loiro sentou-se e pegou seu alaúde começando a dedilhar-lo.

Os egípcios acreditavam que um de seus deuses, Thoth, inventara a música e que Osíris fez uso dela como parte de seus esforços para civilizar o mundo. Shaka aprendera a tocar cítara em Najah e harpa na Babilônia, mas ao chegar ao Egito, com Mu, apaixonara-se pelas cordas lamentosas do alaúde.

Estava tocando próximo à sacada, quando sentiu uma presença e virou-se. O administrador estava parado ao seu lado, mirando-o, como sempre, com cobiça e ironia.

— Bom dia, Olhos-de-estrelas.

Shaka sentiu seu coração dar um salto, mas controlou-se ao máximo para que seu rosto não aparentasse isso.

— Um apelido, Governador? — indagou com indiferença.

— Sabes bem que não é coisa minha. Este vem da tua temporada entre os tamudaeis. — Hades disse com um sorriso provocativo.

— Nunca estive entre os tamudaeis — replicou Shaka, sentindo o sangue gelar nas veias. Mu, só poderia ter sido ele! O príncipe era um traidor, não havia mais dúvidas.

— Não foi isso que ouvi — sussurrou o tio do faraó e se aproximou mais do dançarino. — E isso não vem ao caso agora. Sabes por que meu sobrinho mandou-me chamar tão cedo?

O loiro suspirou e soltou o alaúde.

— Ainda não vi o faraó depois que amanheceu — Shaka disse com frieza, evitando olhar o homem. Sentia-se ferido e vulnerável, não era um bom momento para um embate.

Hades deixou cair sobre ele seu olhar analítico, mas não maldoso ou inconveniente, apenas um olhar de admiração e desgosto.

— Mas com certeza o viu ontem à noite — chegou à conclusão, observando as marcas nos braços e pescoço do nunefer.

Shaka segurou um suspiro. Não encararia Hades. O que diria? Era melhor permanecer em silêncio e esperar que aquela raposa do deserto dissesse a que veio.

— Shaka — ele começou com muito cuidado —, preciso de sua ajuda.

O loiro riu sarcástico.

— O grande governador busca a ajuda de um cortesão. Irônico isso.

— Preciso de algo que apenas tu és capaz de me dar. — Hades se sentou ao lado dele.

— O quê?

— O trono do Egito.

Shaka riu, balançando a cabeça, descrente.

— E como eu poderia fazer isso? Mais ainda, por que eu faria isso? — perguntou, sarcástico.

— Eu preciso me apropriar de certo pertence do faraó. Talvez seu pertence mais precioso... Mas só poderei revelá-lo quando tiver certeza de que estás do meu lado.

O loiro demorou a falar. Pensar em trair Saga era assustador. Todavia, não suportava mais viver ao lado dele. Levava dentro de si mágoa e raiva tão cortantes, que estas apagavam sua prudência naquele momento. Hades também era poderoso, muito mais astuto e inteligente que o sobrinho, talvez ele pudesse mesmo protegê-lo. Talvez se unir a ele não fosse um erro.

— Caso concorde e for descoberto, estarei morto. Espero que tenha realmente muito a me oferecer. — Shaka disse, encarando-o nos olhos.

— Oferecerei a ti tantas riquezas que serás incapaz de calcular. Dou minha palavra de nobre e em breve minha palavra de soberano.

— Riquezas não me interessam, governador. Sabes muito bem o que me fará ajudá-lo.

Hades sorriu.

— Sim, sei. Liberdade. Mas liberdade nada adiantará a ti sem riquezas. Prometo os dois. Serás um homem rico e livre, Shaka.

— O que quer? — Shaka estreitou o olhar, mas Hades sabia que aquela pergunta era um acordo.

— Em breve, meu belo nunefer, em breve. — O governador sorriu calmamente e retirou-se.

Shaka bufou, deixando-se cair no banco em meio às palmeiras. Estava acuado, ameaçado. Precisava fazer algo enquanto ainda podia.

Deuses, eu não suporto mais isso. Não suporto mais essa vida, preciso fugir daqui, preciso...! O belo rapaz da Ária fechou os olhos com força na tentativa de conter o desespero que o tomava. Caso se unisse a Hades e os planos do nomarca falhassem, estaria morto. E nunca mais o verei... Murmurou, sentindo-se perdido. Mas qual chances teria se não se aliasse àquele homem? Saga nunca o deixaria partir, nunca!

— Shaka?

A voz doce do príncipe se fez ouvir, mas quando os olhos azuis do loiro miraram os seus, Mu achou ver o olhar de um demônio. Os diamantes azuis de Shaka demonstravam uma raiva visceral e selvagem.

— O que-...

— Deixe meus aposentos, príncipe Mu — ele falou, voltando a dar-lhe as costas e crispando os punhos com tanta força que as veias dos braços soltaram visíveis. — Não podemos mais ser amigos.

Mu entreabriu os lábios surpreso.

— Shaka..., o que aconteceu?

— Não finjas que não sabes! — Voltou a mirar o príncipe, revoltado.

— Não, eu não sei! — Insistiu Mu, estarrecido. — O que fiz eu?

— Tu me traíste! Tu me vendeste! Contou meus segredos, meu passado! — Shaka cuspiu. — Como pôde? Eu confiei em ti!

— Não fiz isso! — os olhos de Mu se arregalaram, surpresos. — Eu juro que não fiz! Tu és meu amigo, eu nunca o trairia!

— E como teu pai sabe de tudo? — indagou, sondando. — Como ele soube do meu período em Karna, do meu amor do passado?

— Eu não sei, mas não fui eu, Shaka! — o príncipe se aproximou dele, seus olhos verdes demonstravam toda sinceridade do mundo, mas o dançarino estava perturbado demais para acreditar.

— Apenas tu sabias quem eu era... — devolveu o loiro entre dentes. — Fui um tolo...

— Shaka — Mu segurou-lhe as mãos e o olhou dentro dos olhos —, eu jamais o trairia. Tu és meu melhor amigo.

O ariano deu um passo para trás ao ouvir aquilo, libertando as mãos.

— Mu, eu... eu preciso ficar sozinho, por favor, alteza — sussurrou de forma contida, para segurar a vontade de apertar o pescoço do príncipe egípcio até que ele não mais respirasse. Não podia mostrar-se tão abalado, precisava de toda a cautela do mundo naquele momento.

— Acredites em mim, por favor — Mu pediu, desesperado.

— Estou muito confuso, preciso ficar sozinho. — Shaka insistiu, dando as costas a ele, afastando-se.

— Tudo bem, eu voltarei mais tarde — falou Mu e saiu do quarto do amigo. Não entendia, mas Shaka estava nervoso demais, não insistiria em provocá-lo. Mais tarde. Mais tarde conversariam e tudo ficaria bem novamente.

Shaka socou uma parede, rangendo os dentes. Não acreditava que novamente deixara-se enganar pelos sentimentos. Deixara-se vencer pela falsa aparência de bondade do príncipe.

Idiota, idiota, tu és um grande idiota, Shaka Devraj, príncipe de Najah! Resmungou. Estava numa situação difícil, traído por Mu, sem a confiança de Saga, sob os olhos ferinos de Aioros e a fúria de Kanon. Precisava pensar num jeito de sair daquela situação e o melhor dos lados parecia ser mesmo o de Hades.

Voltou a se sentar impotente. Como tudo seria diferente se eles tivessem conseguido atravessar as águas escuras do mar vermelho...

A caravana avançava pelo deserto. Uma lua bonita iluminava à noite enquanto o multris os levava pelo desfiladeiro branco de Heber em direção à Saubeia. Deveriam chegar à grande cidade ao amanhecer do terceiro dia de viagem se não parassem, mas uma noite inteira sobre um multris não era uma vida a qual Shaka estivesse acostumado e ele logo demonstrou cansaço, dormindo com o rosto apoiado nas costas do árabe. Três noites e três dias os separavam da Saubeia e da liberdade.

Os jovens amantes, no entanto, não desconfiavam que para provar sua lealdade a Omã e por motivos que eles jamais seriam capazes de compreender, Shyna havia delatado a fuga. A etrusca talvez achasse que aquela era uma boa chance de ganhar a confiança do Emir e acusou Jamila de conspirar com “a princesa” de Najah à desonra do clã. Shyna pensava que àquela altura, os dois jovens não mais seriam alcançados e com aquele ato de lealdade, poderia conquistar o coração do rei e tornar-se A Grande esposa definitivamente.

Omã enfureceu-se. Contou-se posteriormente que ele rondou toda a caravana em busca de algum sinal de mentira dos lábios da bela etrusca e que lamentou brutalmente a traição do filho; traição que não ficaria impune. Logo, designou seus melhores cavaleiros para seguir em busca dos fugitivos e depois de localizar a trilha, ele mesmo resolveu ir atrás do filho. Ordenou que Jamila fosse amarrada e vigiada, levada de volta a Karna, e enquanto a caravana seguiria para Makkah, ele retornaria com as cabeças de Ikki e Shaka de volta ao conselho de anciões.

O Emir não tremia diante de deuses. Nem mesmo diante da poderosa pedra negra. Ele era O Chacal, mas, antes de tudo, era a cabeça da Serpente negra de Karna. Era o responsável pela ordem e era ele quem deveria zelar para que a ordem jamais fosse quebrada.

"Eu os acharei mesmo que eles se escondam nos confins da Terra! Eu os trarei diante do tribunal dos deuses e eles serão sacrificados diante da serpente!" Ele rosnou.

Ágora e Shiva viram silenciosos o Emir retornar sobre seu cavalo para Karna e seis guerreiros o seguirem. A caravana deveria continuar o caminho em direção a Makkah. Karna deveria ter representantes que servissem aos deuses. Shyna, cruel, resolveu seguir o Emir. O rei confiou em sua lealdade e a fez de imediato Grande esposa. O plano da bela etrusca dera certo.

Enquanto isso, os amantes finalmente atravessavam as montanhas brancas e chegavam ao primeiro oásis selvagem, local habitado por raposas do deserto e alguns elmultes, paquidermes grandes e pacíficos. Ali, deram bebida ao cavalo e resolveram pernoitar, mirando o céu claro pela lua.

O árabe estendeu a esteira e eles descansaram felizes, depois de alimentarem-se.

Sentiam-se livres e esperançosos, todavia, uma noite e um dia inteiro de cavalgada cobravam um alto preço a Shaka. Ele sentia as pernas e as nádegas doerem, mas não reclamou, apenas aconchegou-se no peito de Ikki e dormiu bastante sob a sombra de uma palmeira. Sonhou com Najah. Em seus sonhos, ele e Ikki despertavam na sua cidade. Ela já não era uma cidade branca, como os viajantes a chamavam, era uma cidade cheia de tendas coloridas e prédios vermelhos. Apenas o grande castelo era branco, moldado em pedra marmoa, e era de um dos quartos desse castelo que ele acordava e se espreguiçava, mirando pela janela o dia que chegava. Ikki acordava logo depois, o abraçava pela cintura e beijava-o no pescoço... sorria...

Shaka acordou sentindo os últimos raios do sol no rosto. A atmosfera era coberta pelos tons rosa e laranja do deserto e ele protegeu os olhos com as mãos, deixando escapar um sorriso satisfeito. Estendido sobre a manta azul, o corpo alvo estava quente ao contato com o crepúsculo. O Kohl negro que marcava os belos olhos estava levemente borrado, mas isso ao invés de enfeá-lo, só deixava sua aparência andrógina ainda mais atraente. Ikki se aproximou com uma cuia cheia da água límpida que os cercava naquele oásis oculto pelas areias escaldantes.

— Acho que deves estar com sede depois de uma cavalgada tão longa e de dormirmos tanto — disse o árabe, colocando a cuia perto dos lábios do amante.

Shaka se apoiou nos cotovelos e sorveu o líquido fresco, limpando um filete que escorreu por seu queixo.

— Estou sim com sede e um tanto dolorido, mas estou feliz.

O menino moreno sorriu. — Também estou feliz, Shaka.

O loiro esticou os braços para o moreno, que estava ajoelhado à sua frente. Ikki deslizou os dedos pelo peito esguio e nu. Ambos vestiam apenas as calças negras e folgadas. A mão grande e calejada do menino moreno subiu pelo pescoço do loiro até alcançar seus lábios, os penetrando com os dedos, que Shaka lambeu, fechando os olhos, completamente entregue à sedução do árabe.

O garoto ariano possuía uma sensualidade latente e que fascinava o árabe. Ikki sentiu seu membro endurecer apenas com aquele toque e rapidamente, afoito como qualquer adolescente, o expôs, puxando Shaka para si, arriando as calças do ariano com ansiedade, enquanto tomava seus lábios. Shaka gemeu e permitiu que ele separasse suas pernas e deslizasse os dedos úmidos para dentro do seu corpo de forma rápida e funda, para logo depois penetrá-lo com o falo hercúleo e pulsante. Foi rápido, estavam quentes e ansiosos e logo chegaram ao orgasmo, caindo suados nos braços um do outro. Divertidos, cansados, satisfeitos.

— Amo-te, amo-te muito... minha estrela.

— Também te amo...

Ikki rolou para o lado e o envolveu nos braços. Ambos ajeitaram as roupas e voltaram a adormecer, vencidos pelo cansaço da viagem. Quando Shaka acordou já era noite, alvas estrelas resplandeciam no céu escuro. Ele se ergueu, ajeitando a calça, já estava frio e um arrepio correu por seu corpo, fazendo-o procurar a túnica com os olhos e a vestir antes de ir até o pequeno riacho e lavar o rosto com a água fria. Tudo era silêncio, mas o persa percebeu que Dushara relinchava, o que despertou Ikki. O árabe levou a mão à sua espada, e foi nesse momento que uma sombra encobriu as estrelas e Shaka sentiu um forte puxão em seus cabelos o obrigando a ficar de pé. Gemeu, tentando se libertar e, virando o pescoço, deparou-se com algo que fez seu sangue gelar nas veias, o sorriso demoníaco de Omã.

Um grupo de mais ou menos 10 homens estava com o Emir. Ele levou um punhal ao pescoço de Shaka, o que obrigou Ikki a soltar a espada e mirar o loiro com desespero.

— Pensou que conseguiria escapar, minha cobiçada Estrela? — Omã indagou a Shaka. Embora naquele momento, ele ainda achasse que Shaka fosse inocente do crime de deserção; como esposa, era sua obrigação seguir Ikki. Mas Shyna contara a história do seu filho aleijado e a forma que “ela” espezinhou as tradições do seu povo, a princesa persa também merecia morrer.

Shaka, indefeso, observou enquanto os outros homens tamudaeis subjugavam Ikki. Seus olhos se encontraram com os olhos do moreno.

Ikki nunca saberia dizer como eles conseguiram alcançá-los. Segundo Ágora, Omã conhecia uma trilha por dentro das montanhas brancas, que lhe deu a vantagem de um dia em relação ao casal. Ikki, todavia, nunca soube se aquela era a verdade ou se o pai fora ajudado por algum djin maldoso do deserto. Ele tentou lutar, mas Omã tinha Shaka, não poderia correr o risco de vê-lo machucado, teria de achar um jeito de salvá-lo.

O ariano sentiu o desespero crescer em si ao mirar o sangue que escorria do nariz do moreno. Os tamudaeis o colocaram de joelhos enquanto seguravam seus braços os mantendo abertos como os de um crucificado.

— Solte-o, não! Solte-me! — Shaka tentava lutar contra a mão de Omã, que continuava a segurar seus cabelos com força.

O líder tamudaei fez o que ele queria, mas em resposta golpeou-o com tanta força no rosto que, ao cair, Shaka sentiu o gosto do sangue na garganta. Tossiu, pois o golpe causou-lhe falta de ar, e sentiu o líquido viscoso escorrer por seus lábios.

Omã o deixou e aproximou-se do filho, forçando-o a encará-lo, puxando violentamente seus cabelos. — Pensou que poderia me enganar, humilhar-me perante todos os clãs da Arábia? Mentiu ao teu rei, ajudou essa aí a espezinhar em nossas tradições, desertou! — ele gritou, revoltado. — Meu primeiro general, meu homem de confiança, um traidor!

Os olhos de Ikki estavam fixos em Shaka caído na areia, quando o loiro ergueu o rosto para mirá-lo, seus olhos demonstravam desespero e dor profunda. O sonho da liberdade, de uma vida de amor e paz chegava ao fim. Dali para frente tudo seria dores.

— Por favor, não o machuque... — implorou o menino árabe. — Por favor... A culpa é minha, mate-me, mas não o-... a toque! Por favor...

— Ela é uma rameira de harém e é como rameira de harém que será tratada! Os deuses me castiguem por eu ter permitido que tu te unisses a ela! Ela o enfeitiçou! — Bradava Omã, revoltado, batendo no peito enquanto praguejava.

— Omã, Chacal, meu rei, eu imploro — Ikki pedia, desesperado, via Shaka se arrastar no chão, tentando se erguer, tonto e sangrando, e sentia seu coração sangrar de desespero. — Deixe-a...

Omã encarou o filho com toda a sua raiva e fez um sinal para dois dos homens que ali estavam. Eles caminharam até Shaka e o ergueram do chão.

— Dispa-a, usarei esta prostituta até que ela perca os sentidos e aprenda que não se deve desafiar os deuses da Arábia!

— Não! — Ikki gritou, desesperado. — Meu pai, por favor, eu imploro piedade! Mate-me, mate-me, mas deixe-a ir... — Ele arfava de medo, de desespero. Estavam perdidos.

Omã não lhe deu ouvidos e como Ikki se tornou mais violento, gritando e atingindo seus homens, socando um, derrubando outro, ele mandou que os dois que seguravam Shaka ajudassem os outros a contê-lo. O moreno foi golpeado várias vezes até que caiu sobre a areia com um pé sobre sua cabeça e uma espada em seu pescoço.

Omã, sozinho então, encarregou-se de Shaka, o segurando pelo braço. O emir gemeu quando uma adaga atingiu sua coxa. Shaka, mesmo tonto, havia conseguido pegar a faca e o golpeou, mas foi derrubado por um soco.

O emir montou sobre ele e rasgou-lhe a túnica, começando a despi-lo. Shaka estava praticamente desmaiado e não resistiu, apenas Ikki grunhia e gritava. Então Omã terminou de despir Shaka e quando finalmente ele estava nu, o Emir soltou de perto dele como se recebesse a picada de mil escorpiões.

Na escuridão da noite, os guerreiros que ali estavam não entendiam o olhar chocado-horrorizado do Emir, que não conseguia tirar os olhos do corpo alvo e parcialmente despido à sua frente.

— Emir...? — um dos guerreiros indagou, mas a única coisa que o chacal conseguiu gritar foi:

DESGRAÇA! DESGRAÇA! DESONRAAAAAA!

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Mu não voltou aos aposentos de Shaka naquele dia. Estava triste e magoado devido ao amigo desconfiar de si, mas no fundo não era isso que o incomodava. Havia rumores pelo castelo e ele ouvira que a o clã de Leontópolis preparava-se para o casamento de um dos seus filhos e sabia que era Aiolia. Aioros nunca se casaria, em seu ministério celibatário de guardião do faraó, Regulus e Leandra eram pequenos demais para o casamento. Sabia que era Aiolia e isso devastava seu jovem coração. Mu reconhecia que esse era o futuro reservado ao amigo, assim como sabia qual era o seu, todavia, isso não aplacava o sofrimento.

Sentou-se no chão do seu quarto e tirou uma caixa feita com papiro trançado de uma pequena cômoda de pedra. Nela havia alguns brinquedos esculpidos por ele em pedra sabão. Gostava de fazer isso nas horas vagas, aprendera com um escravo, a técnica. Pegou dois dos brinquedos, um leão e um menino e colocou-os sobre a cama, observando-os pensativo. Apoiou-se nos braços e ficou assim por um longo tempo, perdido em pensamentos e sentindo grande melancolia, visceral e insolúvel. Aiolia casar-se-ia. Era o certo. Era imutável.

Ainda se recordava da infância, quando lhe era permitido brincar na terra dos leões. Antes de tudo ficar diferente; antes de Aioros se tornar alguém sério demais para brincar com ele e Aiolia. Não sabia o que havia acontecido ao grão vizir, assim como não sabia o que acontecia com seu pai, às vezes. Sua mãe... Nem sabia se poderia chamar Nefertari de mãe, ela era tão jovem! Foi amamentado por uma escrava hebreia, cuidado e educado por escribas e eunucos mdjais... Nunca teve uma família, melhor, tivera uma família quando lhe era permitido ficar no meio dos leões, com o clã de Leontópolis. Tivera uma família quando tudo era diferente e a casa real e a casa dos leões mantinham relações estreitas, mas isso foi há muito tempo, quando ainda era um garotinho.

Mu suspirou, sentindo os olhos molhados, mas recusando-se a deixar as lágrimas caírem. Aquele era o fluxo, ele tinha que aceitar.

Antes que a vontade do Eterno se manifestasse como impulso criador, existia uma base que vibrava em estado latente, um abismo líquido, sem início, sem fim nem direção. Nesse abismo, repousava as almas primordiais e a humanidade era apenas uma. Na infância, o príncipe ouvia as amas dizerem que as almas faziam todas as partes desse líquido e por isso estavam interligadas eternamente. Essa história, de certa forma, consolava Mu; ele e Aiolia estariam interligados sempre. Sempre seriam parte um do outro. Sorriu e permitiu que uma lágrima descesse.

Aiolia chegou ao castelo naquela tarde e foi direto para o quarto do amigo, dessa vez sem se preocupar se Aioros o veria ou não. Também estava angustiado, aquela seria a noite em que conheceria sua noiva, alguém que para ele tinha apenas um nome e características familiares, isso era o que aparecia nos livros de família. Sabia, entretanto, que a moça era uma virgem de 16 anos — às vezes no Egito, os casamentos poderiam ser realizado entre jovens e viúvas ou mesmo mulheres mais velhas, se fosse conveniente. — e que ela tinha “ancas largas e seios para dar leite”, esses foram os atributos que impressionaram sua mãe. Não importava se a garota fosse bonita ou não, não importava se ele gostasse ou não dela, o importante era que ela lhe desse filhos saudáveis e corajosos.

Aiolia estava dividido entre cumprir o seu dever familiar e mandar todos para o inferno e ficar com a pessoa que de fato gostava. Todavia, mesmo se fizesse isso, não tinha garantias de que ficaria ao lado de Mu. Ele era o príncipe, futuro faraó, brevemente seria ele a ter que desposar alguém. Sabia que muitos homens casados mantinham concubinas ou consortes, mas isso não se aplicava a ele, pois a única pessoa que desejava era o homem que seria o futuro faraó. Nunca poderia imaginar Mu, o príncipe, numa condição como essa, ele não merecia, ele estava num patamar alto demais, e Aiolia precisava manter os votos da família; caso se negasse, seu clã ficaria marcado.

Parou à porta da alcova do príncipe e o viu debruçado na cama com os dois brinquedos nas mãos. Lembrou-se de quando eram crianças e brincavam com aquelas peças feitas com esmero por Aquin, o eunuco fenício de cabelos lilases como os de Mu, mas Aquin possuía olhos violeta e pele morena e não alva como a do príncipe. Ainda assim, Aiolia sempre os achou parecidos, a mesma beleza delicada, o mesmo rosto mimoso de olhos grandes... Pobre Aquin, sua beleza foi sua maldição, morto por uma senhora que tinha ciúmes do marido. Envenenado como gostam as mulheres.

— Mu... — sussurrou, ainda sem se aproximar, fazendo o príncipe ter um sobressalto e se erguer, indo até ele.

— Aiolia... — Mu devolveu o sussurro, aproximando-se do amigo e jogando-se em seus braços num braço apertado, intenso, cheio de sentimentos — Eu já sei. — Sentenciou.

— Perdoe-me. — Aiolia beijou-lhe os cabelos. — Não posso escolher...

— Eu sei.

Permaneceram abraçados por longos minutos. A sentença era aquela: Aiolia se casaria. Mu seria faraó. As tradições no Egito continuariam as mesmas, eternas, imutáveis, violentas.

— Ela é bonita? — indagou o príncipe, curioso.

— Não sei, mas com certeza não será bonita como tu és — o militar sorriu.

— Mentiroso. Assim que tiveres o corpo voluptuoso de uma fêmea na tua cama, esquecerás de mim... — disse, triste.

— Não se tu não me permitires esquecer.

Mu afastou o rosto para encarar os olhos verdes do amigo. Corou, entendia o que Aiolia queria dizer, mas seria aquilo certo? Não! Não devia ir adiante; tal atitude só os deixaria cheios de mágoas e mais saudades.

— Eu não sei... Posso adoecer de saudades... É difícil para mim, Aiolia.

— É difícil para mim também, Mu. Gostaria de viver em outra realidade, mas não é possível.

Mu sorriu de lado, cheio de tristeza.

— Somos homens. Temos que cumprir nossos deveres. — Sentenciou.

— Eu te amo — Aiolia disse e levou a mão ao queixo do príncipe numa carícia singela, antes de tomar-lhe os lábios num beijo que era puro sentimento.

Mu correspondeu ao beijo, levando as mãos aos cabelos rebeldes do militar, sorvendo dos seus lábios com todo o desejo, com a força da paixão que os unia. Não foi muito difícil que o desejo sobrepujasse a razão e que rápido e inesperadamente as parcas peças de roupas e joias deixassem os corpos jovens que clamavam pelo sexo ainda não descoberto, mesmo que naquela idade, muitos adolescentes como eles já fossem casados. Mu e Aiolia, filhos da nobreza, esperavam “a pessoa certa” para a união e por isso ganhavam preciosos tempos para ser o que de fato eram: jovens.

As mãos fortes do militar dedilhavam a pele clara e macia do príncipe, com cuidado, tocando-o nos locais que sabia provocar prazer, graça recebida por serem iguais, apesar da inexperiência.

Mu gemia e ofegava sob as carícias intensas, os beijos, a voz, a respiração de Aiolia. Não importava se no dia seguinte ele estaria casado, não importava se nunca mais fossem se tocar, o que importava era aquele momento que seria eternamente único na vida deles.

Não houve grito quando seu corpo virgem foi violado, apenas um tremor e um leve ofego, antes que ele cerrasse os dentes no ombro do amante e apertasse com mais força seus cabelos.

Os corpos entraram em êxtase juntos, os dedos entrelaçados, os lábios próximos, o olhar febril dentro do olhar do outro, a respiração ofegante se confundindo e depois... o sorriso, a constatação de que eram um do outro, de que se amavam e que fariam parte um do outro... Para sempre.

O sol estava se pondo quando Aioros retornou ao castelo e soube que Aiolia estava com o príncipe. Ele então caminhou para a alcova de Mu. Os quartos no castelo eram na verdade pequenos apartamentos com um jardim na entrada, uma saleta de visita e a parte privada com o quarto de dormir, banheiros e termas. Ele adentrou a alcova devagar, tentando ouvir alguma coisa, mas tudo era um silêncio acolhedor trazido pela brisa fria do final de tarde, o que o lembrava que aquele vento saía do mar e cruzava desertos até soprar as palmeiras do grande castelo.

Puxou a cortina lentamente, desvendando o quarto e mirou o par deitado na cama, as mãos entrelaçadas, assim como os corpos.

Ao contrário do que pensou, não foi exasperação que sentiu ao encontrá-los daquele jeito, prova cabal de que haviam experimentado o amor, Aioros sentiu uma espécie de nostalgia e viu-se sorrindo, levemente emocionado, emocionado de uma forma que seu cargo de grão vizir já não comportava.

Uma das pernas de Aiolia jogava-se sobre o quadril de Mu, enquanto a outra posicionava-se entre as pernas delgadas do príncipe, os corpos encaixavam-se com uma simetria apaixonante, e o grão vizir resolveu sair dali sem incomodá-los. Não teve coragem.

O passado. Passou a mão na testa, enxugando o suor. Melhor ir para sua moradia, cuidar de banhar-se, vestir uma túnica — odiava aquela roupa pesada que tinha que vestir o dia inteiro — e preparar-se para o banquete da noite. Mas as lembranças vinham como salteadores...

— Tua pele é tão clara... — seus dedos brincaram com a tez de Saga. Estavam deitados sob a tenda armada na densa savana. O faraó queria capturar um leão nas terras de Mahes e levá-lo para seu castelo. Queria de preferência um filhote para criá-lo como animal doméstico, mas aceitaria um adulto jovem também, de preferência uma fêmea. Todavia, como estava muito calor, os servos e escravos continuavam tentando capturar o animal, enquanto ele e Aioros se refugiavam na tenda para descansar um pouco. O jovem faraó tinha uma pele muito clara e delicada e não deveria ficar exposto ao sol, era o que diziam seus conselheiros.

— Nunca gostei tanto de sol quanto tu... — Saga devolveu com um sorriso, segurando a mão de Aioros e beijando-lhe os dedos com um suspiro. — Sinto tua falta, Oros. É tão raro nos vermos agora...

— Tu és o faraó, Saga. O que sou? Apenas um jovem escriba...

— Um jovem nobre, meu amigo... Possuis sangue real, Sísifo é primo de meu pai...

— Sim, um parentesco distante que não diz nada — Aioros riu. — Não posso ficar o tempo todo no castelo, tenho minhas obrigações e tu as tuas...

— Sou faraó, se eu quiser, retiro de ti todas as tuas obrigações e o mantenho com a única obrigação de estar ao meu lado.

Os olhos escuros de Saga interrogavam os claros de Aioros. Ele procurava por um sim que nunca veio.

— Seria ótimo se fosse possível — Aioros disse com um risinho cínico. — Não nasci para ser um consorte. Tua esposa, A grande esposa, deu-te um filho. É ela quem deve estar ao teu lado o tempo todo.

— Aioros, sabes que não foi escolha minha! — Saga irritou-se, sentando-se sobre a cama dobrável em que ambos descansavam. — Não queria isso, tu sabes, ah, por Hórus! Tu és quem mais sabe disso!

— Não o estou culpando, Saga... Eu só não consigo ser... indiferente... — Aioros deixou um suspiro triste escapar. — Bom, acho melhor continuarmos a caçada...

— Não! — Saga o segurou pelo pulso e o manteve no mesmo lugar, levando a outra mão ao queixo de Aioros. — Fique aqui... Tu és a pessoa mais importante para mim, Aioros, não me abandone como todos fizeram...

— Não o estou abandonando, só penso...

Não terminou a pergunta, Saga o beijou e ele correspondeu entregue como sempre. Levou as mãos aos cabelos negros do faraó, saqueando sua boca com a mesma fome que ele assaltava a sua.

— Desculpe interromper, soberano...

Alguém adentrava a tenda sem pedir licença. Saga fechou os olhos e praguejou baixo, já Aioros ficou imóvel, branco como uma lótus ao luar, era seu pai quem acabava de entrar na tenda.

— O que desejas, Sísifo? — indagou Saga, tentando parecer forte. Tentando, aos 14 anos, parecer o que de fato era: o faraó.

— Capturamos um filhote fêmea. Queremos saber se é do vosso agrado, na verdade esse filhote foi rejeitado pela mãe e estava vagando sozinha, meu soberano. — Sísifo disse. Seu semblante continuava tranquilo.

— Rejeitado? — Saga sorriu de leve, encarando Aioros que não se movia. — Então ficarei com ela, devemos ter algo em comum.

Saga deixou a tenda e Sísifo também. Até a volta para casa, eles não deram uma única palavra sobre o acontecido. Somente depois do jantar, quando o filho mais velho se refugiou solitário no jardim é que o patriarca de Leontópolis aproximou-se dele.

— Eu avisei que essa amizade ainda iria feri-lo, não avisei? — Sísifo disse ao filho ao ver o menino tão triste em seu jardim.

— Desculpe-me a fraqueza, meu pai — pediu o mais jovem e teve os cabelos afagados pelo progenitor.

— Aioros, deves entender a partir daqui que homens como Saga, que estão destinados a serem deuses na terra, nem sempre agem da forma que consideramos corretas e ainda assim, suas atitudes são louváveis. Não crie esperanças fúteis ou tolas, pois, ao final, ele fará o que tem que fazer e se isso deixar seu coração em frangalhos, ele não se importará. É a missão que ele tem nesse mundo.

— Eu sei, mas dói... — o menino de 13 anos deixou escapar uma lágrima e envergonhado a limpou rapidamente e se ajoelhou aos pés do progenitor. — Perdoe-me, meu pai.

— Erga-se, Aioros — pediu Sísifo com carinho e firmeza. — Tu és grande demais para ficar de joelhos. Ajoelhe-se apenas aos pés do faraó e a mais ninguém.

Aioros se ergueu lentamente, ainda enxugando o rosto. — Lembrar-me-ei disso, meu pai.

— Sim. Agora pare de chorar e volte aos estudos. Tu ainda serás um grande homem, meu filho. Um grande homem.

Um grande homem. Alguns anos depois, com a morte de Shion, Aioros tornou-se o grão vizir, o maior do Egito, depois do faraó. E a partir disso, ele dedicou-se a sepultar todos os sentimentos que o uniam a Saga. Toda aquela paixão adolescente foi sepultada... viva. Permanecia latente, sob controle, mas... às vezes ele sentia uma angústia tão profunda que achava que morreria. Entretanto, não poderia voltar atrás, ele aceitou, aceitou aquela vida, aceitou renunciar aos seus sentimentos por aquele cargo monástico, simplesmente porque... Simplesmente porque não confiava em ninguém para cuidar de Saga. Ninguém melhor que ele mesmo.

Deixou o quarto do príncipe e voltou para casa. Talvez nem mesmo aparecesse para o grande banquete noturno.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
BEIJOS A TODOS QUE PASSARAM POR AQUI. UM OBRIGADA ESPECIAL A TODOS QUE ESTÃO COMENTANDO. MUITO OBRIGADA MESMO PELO CARINHO! ATÉ A PRÓXIMA! SION NEBLINA