A serpente e a estrela
18 Senhoras das sinas
Notas iniciais
A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino...
Zé Ramalho
Senhoras das sinas
Capítulo 17
Aiolia não se despediu de Mu, apenas vestiu-se e saiu, deixando um beijo nos lábios do amigo. Voltou para casa, caminhando devagar pela cidade, aproveitando o frescor da noite e o perfume de lótus que sempre tomava a cidade em noites como aquela. Como seria bom poder amanhecer nos braços de Mu, mas não era possível. Agora teria que seguir com a família para conhecer sua futura esposa. E assim fez.
Naquela mesma noite, toda o clã de Leontópolis seguiu para Saquaara, onde um grande banquete os esperava. Aiolia foi apresentado à família da noiva, que lhe foi muito amável. Todos pareciam satisfeitos com a possível união. Somente no momento da refeição, a donzela lhe foi apresentada.
Ela apareceu trajando um vestido branco, decotado, mas que traziam os seios cobertos, e tinha braceletes de ouro cobrindo os braços delgados. Sua tez era amorenada e suave, coberta por suaves sardas, que lhe conferiam um aspecto delicado. Os olhos eram castanho-claros, dóceis e determinados, os cabelos vermelhos e longos, revoltos como uma bela juba leonina.

— Aiolia, essa é Marin, tua noiva.
Aiolia sorriu para a moça, que sorriu de volta. Ele tomou-lhe a mão, e ela se aproximou dele de forma graciosa.
— Tu és mais bela do que imaginei — disse, sincero e gentil.
— Obrigada — Marin sorriu timidamente. Os belos olhos castanhos não se afastavam dos verdes de Aiolia, a curiosidade e o nervosismo eram perceptíveis nos dois. Não sabiam exatamente o que conversar e por isso ficavam mais entre olhares e sorrisos. Sinceramente, Aiolia gostara da moça, era bonita, tinha um olhar inteligente e vivaz e percebia que não era do tipo de mulher que esforça-se demasiadamente para despertar a atenção dos homens. Marin parecia tranquila, elegante e ponderada e isso o agradou, embora não conseguisse esquecer o vivido com Mu naquela tarde.
— Quer mesmo se casar comigo ou tua família impôs isso, Aiolia? — Marin perguntou, direta, quando depois do jantar, eles foram para uma das balaustradas do edifício de pedra que era a casa da sua família.
— Faço a mesma pergunta — Aiolia replicou, sorrindo.
Havia certa liberdade no Egito quanto à escolha para o casamento.
— Sim. Meus pais me falaram do interesse de tua família. Leontópolis sempre produziu homens fortes e poderosos, então eu aceitei. Exigi apenas algum tempo para conhecê-lo.
— Teremos esse tempo, tenha a certeza — ele sorriu.
Marin suspirou e mirou a lua que jogava seus raios sobre o Nilo.
— Então por que sinto que não estás feliz? Acaso eu não o agradei?
Aiolia entreabriu os lábios e corou sem jeito. Marin era uma mulher muito segura e direta, embora fosse tão jovem.
— O problema não é contigo, Marin.
— Se desposar-me não o agrada...
— Não, de forma alguma. Tu és adorável e tenho certeza que será uma grande esposa. Sei que com o tempo a amarei.
A jovem de cabelos vermelhos mordeu os lábios carnudos. Era uma das acompanhantes costumais da rainha e ouvia comentários sobre a amizade do noivo e o príncipe. Na verdade, hesitara por aceitar Aiolia como noivo por esse motivo, mas a mãe insistira para que não desse atenção a boatos tolos e que o clã de Mahes era próspero e poderoso, sendo um privilégio gerar seus filhos. A jovem resignou-se, mas não aceitaria uma posição passiva diante de traições do marido e achava que isso deveria ficar claro logo no primeiro encontro. Caso Aiolia tivesse dúvidas do que queria e de quem era, que arranjasse outra noiva. Olhando Aiolia, achava que fizera uma boa escolha, mas somente o tempo diria isso.
Passaram o resto da noite juntos, conversando sobre seus gostos, conhecendo-se. Aiolia sorria e segurava as delicadas mãos de Marin, embora seu coração estivesse apertado no peito e ele não pensasse em nada que não fosse a imagem inocente de Mu, adormecido, depois de fazerem amor.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Pandora terminou de fazer a maquiagem e a serva cobriu o colo delicado com um colar de pedras verdes e lilases que refletiam seus lindos olhos violáceos. Os cabelos negros como o ébano eram cobertos parcialmente por uma peruca de franja reta e os olhos agateados pelo khol miravam tudo com enfado e determinação. Os lábios rubros abriram-se num suspiro cansado e ela retirou um pouco da púrpura de thy com o dedo formoso. Usava um vestido negro reto que a cobria até abaixo dos seios duros que estavam pintados por tinta verde-escura e que desenhavam ramos que cobriam também seus braços, uma arte das escravas fenícias. Era a mulher mais bela do Egito, quiçá do mundo, e, ainda assim, não fora escolhida para rainha, mas, estranhamente, ela não invejava o destino de Nefertari agora. A prima era humilhada pelo ato do seu egocêntrico esposo. Entretanto, também não invejava o destino de Shaka. A tristeza do belo e alvo persa era evidente, embora ele dissimulasse como ninguém. Sua alma sensível de mulher o sentia gritar em silêncio em meio à toda aquela pompa, em meio ao esplendor que o deus-sol derramava sobre ele.
Pobre criança triste – pensava Pandora, enquanto dava os últimos retoques em seu traje. Onde estaria Hades?
Suspirou novamente, mirando o pôr-do-sol. Distante da sua beleza mística, a jovem princesa padecia de um mal terrível para as fêmeas de sua era: ela não conseguia engravidar. Há anos tentava dar um filho ao grande governador e não conseguia. Durante muito tempo havia partilhado a cama dos irmãos e usado os métodos da interrupção e do vinagre. Agora ela temia que isso a tivesse deixado estéril. Hades dizia que ela não deveria se preocupar, que assim como Nefertari, no momento certo, ela conceberia, mas a jovem princesa temia que a esterilidade fosse um castigo lançado por Ísis à sua geração. “Que Geb me ajude!” Pedia todas as noites, muito aflita, mas o deus parecia ignorar suas preces.
Naquela tarde, ela tomaria uma liteira e visitaria a prima. A rainha andava reclusa demais, deprimida, e ela deveria mostrar-se amiga, era como deveria ser. Mas antes, tinha que visitar os irmãos. Aspros estava na cidade, sabia, e seria interessante conversar um pouco com a ambiciosa Najila.
Ambição, isso parecia ser tudo que guiava sua família. Talvez aquele fosse um bom momento para gerar uma criança. Sabia dos planos do esposo e era de certa forma sua cúmplice. Não tinha coragem de falar com Defteros desde a armação do vinho. Shaka... aquele eunuco maldito estragara tudo!
Pandora estava sendo sincera quando dissera que não envenenaria Saga. Não, ele era seu sangue. No vinho não havia veneno, mas um filtro de amor, um filtro de amor que tinha por intenção enlouquecer Saga a ponto de... Deuses! Seu irmão era o faraó, aquilo era uma heresia. Todavia, Pandora amava Hades e faria tudo o que o marido pedisse.
A jovem foi desposada muito cedo, aos 13 anos, por um homem mais velho e sedutor. Com Hades, aprendera todos os segredos da magia sexual e cerimonial, com ele descobriu todo o vulcão que pode ser a sexualidade feminina, com ele tornou-se sacerdotisa de Bastet. Simplesmente o adorava e desceria ao mundo dos mortos e faria amor com o próprio Anúbis se assim ele pedisse.
Naquele dia, contudo, o passeio não era a mando de Hades. Não. Pandora queria cuidar dos próprios problemas, problemas que Hades sequer desconfiava.
Os escravos desceram a liteira de frente à casa de Nájila, que nada mais era que um palácio menor a alguns passos do estonteante palácio faraônico.
Nájila saiu e prestou reverência à bela princesa. Pandora realmente era o esplendor da realeza egípcia. Vestia um vestido verde com abertura nas pernas, deixando as coxas bem torneadas expostas e trazia os pés delicados calçados em sandálias de papiro. Os braços e os cabelos estavam ornados por arcos de ouro e todo o luxo do khol e da púrpura de tyr brilhava em seu rosto.
— Minha rainha! — Nájila cheirou o chão, fazendo Pandora rir levemente, vaidosa.
— Ora, mulher, erga-se, sabes muito bem que não sou a rainha.
— Mas deverias ser. Ainda não entendo porque aquela outra moça...
— Negócios, minha mãezinha — Pandora beijou o rosto da mulher, enquanto entrava e sentava-se com ela num banco de pedra ornado com uma esteira e almofadões. — Soube que Aspros está em Men-Nenfer, gostaria de falar com ele.
— Aspros nunca fica em casa quando está em Men-Nefer, está sempre no quartel da guarda ou... com o teu esposo — Najila lançou um olhar desconfiado a Pandora, mas depois sorriu, chamou uma escrava e pediu que ela servisse ambas com cerveja-verde, o dia estava quente e a bebida era refrescante.
Pandora mordeu os lábios. Precisava falar com Aspros, o que queria somente o irmão poderia ajudá-la. Defteros nunca aceitaria, era bobo e honesto demais! Estava com medo, sabia que Aspros não era confiável. Era um cão de Hades, mas isso se devia mais à ambição que à lealdade.
— Pode dizer a ele que estive aqui e para que me procure o mais breve que ele puder? — ela pediu com um sorriso nervoso.
— Algum problema, minha querida? — Najila perguntou, atenta.
— Não, só preciso de uma ajuda do meu irmãozinho.
— Em outros tempos tu procurarias Defteros... Nunca se deu com Aspros... — a mulher devaneava, desconfiada. — Deve ser algo que achas que Defteros não faria... Não vais envolver meu menino em nada perigoso, vais?
— Não, Najila, claro que não — Pandora sorriu nervosa. — Bem, a cerveja fica para outro dia, preciso ver Nefertari, volto outra hora.
Ergueu-se e partiu, antes que a mulher pudesse retrucar. Precisava achar uma solução.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Nefertari estava ansiosa naquele dia. Oh dias miseráveis eram os que antecediam suas regras. Aprendera com as antigas a utilizar a medicina para se livrar dos incômodos, mas... e aquele outro incômodo que nada tinha a ver com desconforto? E aquele fogo que a tomava, que a fazia desejar coisas fora do alcance?
Quando o corpo clamava por alívio da sua vida de penitência celibatária, a bela rainha recorria aos carinhos de Shaka.
No começo, aquilo era uma provocação a Saga. Sentia-se feliz por saber que estava pondo a mão em algo que deveria ser somente do esposo. Mas depois, diante das palavras sábias, mesmo que indiferentes, e do olhar daquele menino, acabou sentindo real prazer na companhia do nunefer. Concordava com Saga que Shaka era raro, uma criança encantadora, e o protegeria se pudesse, o faria somente seu se pudesse.
Mirou-se na pedra polida, os cabelos castanhos e lisos serpenteavam sobre os seios nus e seu colo era ornado por um grande colar de opalas. Vestia uma longa saia azul, o corpo esguio mostrando-se gracioso no reflexo na pedra.
A escrava que mandara ir buscar Shaka, voltou minutos depois, sozinha, fazendo a rainha a mirar aborrecida.
— Onde ele está? — indagou, irritada.
— Perdão, senhora, ele disse que não vem. Não está disposto.
— Como não está disposto? Eu preciso dele! — irritou-se Nefertari. Não poderia ficar naquele estado... O que faria? Havia outros no castelo, mas ela não podia rebaixar-se a eles, só confiava em Shaka e ele se negava a ajudá-la.
— Onde ele está?
— Deixei-o no jardim, tocando alaúde, senhora. Ele não parecia mesmo bem.
— Irei até ele! — Nefertari disse, envolveu-se em seu manto e marchou para encontrar o dançarino.
Como informado pela escrava, Shaka estava sentado, dedilhando o alaúde, com um olhar perdido. Vestia apenas uma calça azul e ela podia enxergar algumas marcas roxas em seu torso bonito e branco.
— O que aconteceu? — a rainha indagou, surpreendendo o loiro que deixou o instrumento de lado e a encarou com um suspiro.
— O que faz aqui? — dispensou a reverência daquela vez.
— Não me responda com outra pergunta. Por que não foi me atender? Sabes que preciso de ti...
Shaka encarou os olhos inflamados da mulher.
— Não fui porque não quis. Nada me obriga a servi-la, minha senhora — falou friamente, erguendo-se do canapé e tencionando recolher-se ao seu quarto.
— Não me vires as costas, prostituto, pode ser tua ruína! — Nefertari ameaçou. Sentia-se humilhada naquele momento, humilhada mais do que toda a humilhação que era sua vida. Teria que rastejar a um escravo para que a satisfizesse? Não queria se sujar com outros, mas não aceitaria ser tratada assim por Shaka, quem ele pensava que era?
O loiro parou e voltou-se devagar, caminhando em seguida até a rainha.
— Se o faraó souber que me tocas... — sibilou e sorriu cruel — Ser a grande esposa não te livrarás de sua ira. Tu tens tantos dedos quanto eu, satisfaça-se sozinha! Hoje não farei parte dos teus jogos doentios, agora retira-te do meu quarto!
Antes que ele pudesse evitar, Nefertari estalou um forte tapa em seu rosto, recolhendo a mão em seguida, trêmula.
Shaka fechou os olhos e cerrou os dentes, antes de praguejar e tencionar devolver a agressão, mas respirou fundo e se afastou da mulher. Não faria aquilo, não perderia ainda mais os valores que possuía.
— Sai daqui...
— Shaka, me desculpe — Nefertari pediu, sinceramente arrependida.
— Fora! — Shaka gritou, andando em direção ao seu aposento.
Aquela tinha sido o ápice de um dia horrível! Sentou-se na cama e grunhiu de raiva. Será que não podia simplesmente ficar sozinho? Pensara que estava com sorte, pois Saga e Aioros, envolvidos com os rumores de guerra, o deixaram em paz, mas não! Nefertari tinha que aborrecê-lo, e pior, por que demônios, tinha se negado a ela? “Está ficando burro Shaka Devraj? Precisa de aliados e dispensa um dos melhores que poderia ter? Burro!”
Deixou-se cair na cama. Sentiu a cabeça latejar de dor, junto com o lado esquerdo do seu rosto, acertado em cheio pela mão da rainha.
Dor... Parecia estar destinado a ela...
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Eles foram amarrados como animais e levados de volta à Karna. Nunca entendeu por que Omã não o matou imediatamente, mas depois do susto que levou ao descobri-lo um garoto, o rei afastou-se dele, como se Shaka fosse um ninho de escorpiões, exigiu que um dos guerreiro o vestisse e amarrasse. Ele parecia chocado, mas um ódio latente brilhava em seus olhos insanos...
Omã sentia-se humilhado, traído, vilipendiado. Ele não só permitira que Ikki se casasse com aquele ser como desejara aquele maldito Djin. Estava convencido que Shaka não era humano era um demônio do deserto, enviado a Karna para destruí-la. Ele pisara em todas as tradições do seu clã, do mais poderoso clã de Karna, ele seduzira seu filho, o seduzira, ele não podia ser humano!
A dor do orgulho ferido era uma chaga no coração d’O Chacal. Ele precisava curá-la. Shaka precisava morrer, Ikki precisava morrer, mas morrer de forma adequada. Não os mataria no deserto, na frente dos seus homens, que depois alegariam que Ikki era um... Um simples degenerado. Precisava proteger a honra do seu clã e para isso, precisava que o povo acreditasse que Shaka era um demônio. Assim, a honra do seu sangue estaria intacta. Ikki morreria por se sujar com aquele ser, mas seria mais vítima que criminoso.
Fizeram todo o trajeto pelas montanhas brancas em silêncio. Shaka e Ikki trocavam olhares apavorados. O moreno tentava dizer com o olhar que tudo ficaria bem, mas sabia que nem ele acreditava nisso. Tentava pensar numa forma, em um jeito de ludibriar Omã, de provocá-lo, qualquer coisa que desse a Shaka a chance de fugir.
— Por que não lutas comigo, Omã?! — desafiou, uma estratégia desesperada. — Se eu ganhar, tu o deixas ir!
Omã não queria falar, estava tentando controlar a dor e a raiva que aquela descoberta lhe causava. Não sabia se terminaria aquela viagem sem cortar a garganta do filho se ele continuasse o provocando.
— Cala-te! O som da tua voz já é uma ofensa aos deuses! — volveu o Emir — Terás tua chance, não te preocupes. Farei questão de matá-lo devagar.
Chegaram ao deserto vermelho e os prisioneiros foram postos em carroças, dentro de pequenas jaulas. Ikki e Shaka foram empurrados para que sentassem ali, enquanto Omã conversava com um grupo de guerreiros e algumas feiticeiras, explicando o que acontecia. Todos olhavam para Shaka com olhos assustados e maravilhados ao mesmo tempo.
— Ele está... — Shaka murmurou — Ele os convencerá...
— Acharei uma saída, Shaka... — Ikki encarou os olhos apavorados do loiro — Por favor, confie em mim, acredite em mim, acharei uma saída.
Omã e seus homens voltaram a se aproximar deles e montaram em seus cavalos.
— Vamos levá-los de volta a Karna como os animais imundos que são! — disse O Chacal. — Aproveitem o tempo que têm juntos, ele acaba no momento que atravessarmos esse deserto.
Rapidamente a guarda de Omã o obedeceu, um deles montou no garanhão que puxava a carroça, e o galope ligeiro dos animais começou.
Ikki livrou-se das amarras em seus braços e depois ajudou Shaka a fazer o mesmo. Não foi difícil, os guerreiros sabiam que eles não tinham muitas chances, mesmo com as mãos livres. Os dois se abraçaram com força. Não choraram, embora os corações estivessem esmagados pela iminência da tragédia.
Chegaram a Karna quando o dia já amanhecia. A cidade já estava reunida, esperando os fugitivos. Os boatos já tinham tomado conta das ruas e sacerdotes e feiticeiras aguardavam pelo Djin perverso que conseguiu subverter o príncipe. Quando eles foram retirados da jaula, Shaka ergueu o queixo e encarou a multidão que o observava um tanto embasbacada. Era como se vissem um deus ou um demônio. Ele vestia apenas a calça negra folgada, os cabelos estavam soltos e emaranhados sobre o dorso delgado e nu. Sua aparência era de uma fragilidade incrível, mas sua postura demonstrava um espírito inabalável.
A multidão se acotovelava para olhá-los, Ikki também enfrentava os olhares de forma firme e segurou com força a mão do loiro. Isso fez o rei enfurecer-se, descer do seu cavalo e bater no príncipe com uma vara tomada das mãos de um camponês. Ikki caiu ajoelhado e tossindo com o golpe.
— Não! — gritou Shaka, mas em resposta, Omã se aproximou dele e o puxou do lado de Ikki, segurando-o pelo braço franzino com força e expondo-o ao povo.
— Este ser que olham com tanta admiração por sua beleza, na verdade não é humano, é um djin que veio trazer a degradação e a desgraça ao nosso povo! Foi capaz de seduzir meu filho, um guerreiro! e transformá-lo num hitita! É um Marid poderoso e deve ser mantido em isolamento para não seduzir mais ninguém até seu sacrifício. Ele matou a necromante! Ele precisa ser imolado no templo das dores para que o manto do mal e do azar não cubram Karna!
Todos pareciam assombrados e recuaram um passo. Os hititas eram temidos pelos tamudaeis por serem considerados homens amaldiçoados pelos deuses por suas práticas de magia e por desvirtuar a natureza. Em seguida, a multidão começou a gritar, concordando com o Emir. Gritavam sem parar: Sacrifício! Sacrifício! Sacrifício!
Omã sorriu, tinha conseguido que o povo temesse o menino loiro e o quisesse longe de Karna. Havia acabado com o fascínio temporário que a beleza angélica do garoto gerou. Shaka era um demônio, e todos precisavam acreditar nisso. Seu sangue estava protegido, a honra do seu clã estava protegida. Precisava agora apenas encontrar a criança aleijada de Jamila e eliminá-la.
— Ao cair da noite, meu povo, eu livrarei Karna desse mal e a paz e a prosperidade retornarão. Enquanto muitos de nós rezam aos deuses da pedra negra, eu estarei aqui, com minha rainha! — ergueu a mão e chamou Shyna, que apareceu vestida em púrpura como uma meretriz, mas exalando beleza, que fez o povo admirá-la. Ela se juntou a Omã, satisfeita. Ikki percebeu que a concubina não usava mais a máscara negra, aquilo significa que a partir dali, ela era esposa do rei. O plano da mulher tinha dado certo: era a nova rainha.
— Nós dois livraremos Karna de uma maldição! Sentenciou o Emir. — Honrem Shyna como a nova Grande esposa do Emir de Karna, a cabeça da serpente negra!
Todos urraram, o líder conseguiu seu grande intento. O povo acreditava em tudo que o seu forte líder dizia e a imagem poderosa e ostentadora de Shyna causava ainda mais efeito.
Sob o urro da multidão, Shaka e Ikki foram arrastados para dentro da construção negra que era o ádito dos castigos. Shyna sorriu vitoriosa ao ver os dois entrarem.
— Graças a ti, minha amada, consegui alcançá-los — falou Omã, tomando-lhe a mão enquanto o filho e o ariano eram jogados de joelhos no chão de pedra. Ali, Omã os exibiria como criminosos e daria suas sentenças.
— O que fará com esses imorais, meu amado? Eles não merecem manchar o solo de Karna com sangue imundo — falou Shyna com um sorriso satisfeito nos lábios. — E a outra meretriz? Ela também precisa ser seriamente punida, é cúmplice nessa imundice — completou, mirando Shaka com ojeriza. Saber que ele era um garoto, fazia com que se sentisse ainda mais humilhada. Seus olhos da serpente miraram Shaka, deixando toda sua inveja e veneno recaírem sobre o menino. Odiava-o, odiava-o com profundidade por ele ter ficado com aquilo que ela cobiçara desde que chegara à fortaleza de Karna: o príncipe Ikki. Odiava-o por perceber que havia algo entre ele e o herdeiro de Omã que nunca conseguiria na vida: afeição verdadeira. Algo que nunca conheceu.
— Ikki é um homem de Karna, será julgado por nossas leias — falou Omã. — Quanto ao djin imoral, será sacrificado nas planícies pálidas após a floresta das penitências. As sacerdotisas da deusa cuidarão disso.
A mulher alargou ainda mais o sorriso e caminhou sensualmente até Shaka e segurou-lhe o queixo sem delicadeza.
— Tão belo... O mais belo do harém de Omã — ela disse. — Terás o pagamento por tua beleza. Que teu sangue aplaque a fúria dos deuses de Karna!
— Não! — Ikki gritou, tentando libertar-ser dos homens que o prendiam. Shaka também lutou para chegar até ele, mas ambos foram contidos.
Os dois estenderam as mãos em desespero, seus dedos tocando-se, apenas as pontas.
Shyna se aproximou do príncipe árabe, mirando-o nos olhos.
— És o único culpado por tudo isso — sussurrou-lhe ao ouvido. — Não o sacrificarei, quanto a isso não se preocupe. O destino dele será pior: será vendido à raça mais deplorável de homens dessa terra. Eu o entregarei aos maaditas, eles pagarão muitas pedras por um djin bonito como ele... É um povo que compra jovens belos para servirem aos seus desejos carnais... A morte... Ah, ele desejará morrer...
O moreno estremeceu, seus olhos voltaram-se para a mulher. Ele exalava ódio e desespero.
— Faça isso e eu a matarei, Shyna. Não a pouparei por ser mulher — prometeu o moreno, cheio de ódio. — Podes salvar tua vida, ajudando Shaka a escapar...— Os olhos do moreno eram suplicantes — Por favor, eu imploro, faço o que quiser...
Shyna riu debochada com aquela ameaça.
— Agora é muito tarde. Estarás morto antes do próximo entardecer, jovem príncipe, e quanto ao seu amado... Ah, será imolado vivo, todos os dias! — ela sussurrou e lambeu-lhe a orelha, afastando-se dele em seguida.
— Levem-nos daqui! Tirem esses porcos das vistas do rei! — ordenou e voltou para o lado de Omã, que conversava baixo com seu conselho. Teria que resolver o sacrifício e a execução ainda ao anoitecer.
Os soldados ergueram Ikki e Shaka do chão e saíram arrastando os dois. O príncipe lutou para chegar até o amado, e os guardas que o prendiam, talvez ainda por certo respeito, o soltaram temporariamente. Ele correu até Shaka, jogando-se no chão à sua frente e o abraçando. Ambos estavam de joelhos agora, com os torsos nus, feridos, sangrando, trêmulos de desespero. O abraço foi forte...Necessitado, infeliz.
“Queríamos que nossas almas saíssem e encontrasse a alma d’outro, para que nada conseguisse nos separar... Doía tanto... Tão intensa e profundamente...”
A multidão enfurecida calou-se diante daquilo. Os guardas ficaram estáticos, presenciando aquele abraço destruidor e desesperado, sem reação.
Ikki segurou o rosto de Shaka entre as mãos e, mirando profundamente seus olhos, disse:
— Sobreviva. Sobreviva. Não sei como, não importa como, sobreviva! Eu irei encontrá-lo, não importa o tempo que passe, eu o acharei e ficaremos juntos. Eu o encontrarei. Eu o encontrarei. Eu juro pelo sol eterno que aquece o deserto que estaremos juntos novamente ou morrerei tentando, Shaka. Eu o procurarei por toda a minha vida, por todas as vidas que eu vier a viver, até estarmos juntos de novo.
Shaka deixou as lágrimas caírem.
— Esperarei por ti, esperarei que me salve... — murmurou entre as lágrimas. – Eu esperarei, Ikki, mesmo que isso dure toda a minha existência. Sobreviverei... Não sei como, sobreviverei para estar contigo novamente ou morrer tentando...
Eles se beijaram e, naquele momento, até os cruéis tamudeus se apiedaram do jovem casal. Mas isso não caberia a Shyna, nem muito menos a Omã, que grunhiu de raiva, sacando sua espada e ameaçando os soldados que logo trataram de capturá-los novamente.
— Levem-nos daqui! Tranque-os em celas separadas! Que nunca mais eles se vejam, mantenham esse djin isolado para que não seduza outros!
— Eu me encarrego deles, meu senhor — Ágora disse, adiantando-se e segurando o braço de Shaka. Não mirou o jovem loiro, Ikki, ninguém. Fazia apenas o que tinha que fazer.
Sendo arrastado de forma violenta, Shaka continuou olhando para Ikki, seus olhos não deixaram os dele, até que o tiraram do seu campo de visão.
Naquela mesma noite, o príncipe seria considerado um traidor e sentenciado à morte. Shaka deveria ser sacrificado para aplacar a fúria da deusa mãe, insultada pelo casamento degenerado autorizado pelo rei. Shyna, todavia, tinha outros planos para ele, queria vendê-lo aos maaditas por vingança e ambição. Temia Omã, mas sua ambição também era grande e ela contava convencer as sacerdotisas ambiciosas, dentre elas, a desonrada Zahira, a compactuar com seus planos.
Shaka foi jogado num galpão escuro e fétido. Mas não chorou, simplesmente fechou os olhos e deixou sua mente vagar pelas terras férteis da Mesopotâmia. Terras que um dia retornaria. Não queria chorar ou sentir desespero. Ikki o salvaria. Ele tinha certeza, ele confiava. Não morreria daquele jeito, aquela não era sua sina. Não era. Eles se encontrariam e seriam felizes novamente.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
A embarcação aportou em Ur, e Kanon e Radamanthys foram conduzido pelos soldados de Lundi até uma gigantesca e luxuosa casa à margem do mar mediterrâneo. Era apenas uma casa de almirantes, mas era de uma suntuosidade incrível. Um homem alto, vestido numa toga de linho branco, aproximou-se deles, com uma expressão séria e uma tábua de argila nas mãos.
— Príncipe do Egito? — Ele falou com muita dificuldade, Kanon apenas assentiu com a cabeça, e Radamanthys começou uma conversa com o homem na língua local.
O príncipe mostrou-se incomodado com aquilo, mas não havia o que ser feito. Não falava acádio muito bem e esperava, ao menos, que o rei Hamurabi falasse sua língua, o que faria bem ao seu ego. Realmente, ter Radamanthys como intérprete não lhe fazia nada bem, não o considerava confiável.
— Eles providenciarão um carro e seremos escoltados até o grande castelo. Já estão nos esperando, vamos — Radamanthys disse com um sorriso de lado, adorava a cara de paspalho que o príncipe exibia naquele momento. As palavras dele na noite anterior ainda queimavam seu orgulho e ele se controlava para não dar uma grande lição naquele homem.
O almirante os levaram até um suntuoso pátio, onde havia vários carros puxados por cavalos belos e bem tratados. Kanon percebeu com surpresa que havia apenas mulheres entre os escravos que cuidavam daquele estábulo gigantesco. Belas mulheres de peles negras como a terra do Nilo, cabeças nuas e túnicas curtas, exibindo pernas torneadas e atléticas.
— Há apenas escravas na Babilônias? — ele indagou a Radamanthys, que riu de lado.
— Não. Há homens também, mas eles preferem mulheres para alguns serviços mais delicados. Cuidar de carros de bronze e cavalos velozes exige certa delicadeza. Coisa que é difícil para egípcios entenderem. Tu não entenderias a força dessas belas.
O desdém na voz do loiro irritou o príncipe.
— Ei! Tu também és egípcios, não te esqueça!
— Agora sou?
Kanon não respondeu, bufou e seguiu, ignorando as provocações do militar.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Zahira encarava Shyna enquanto a nova Grande esposa lhe explicava a importância de não deixar o sangue de Shaka manchar o solo de Karna.
— Devemos entregá-lo aos maaditas, eles sabem o que fazer com esse tipo de demônio, se o sacrificarmos nas planícies, seu sangue imundo contaminará nossas águas e nossa terra, Karna cairá em trevas. Como sacerdotisa de Wadd, sabes que não minto, Zahira.
— Nossas tradições dizem que ele deve morrer nas planícies — disse a sacerdotisa. — Por que devo acreditar numa estrangeira usurpadora? Wadd é a senhora das sinas, se assim ela ordena os sacrifícios, assim eles serão.
— A usurpadora aqui é a maldita fenícia! Eu apenas a desmascarei. Ela também deve ser morta! Ela é cúmplice em toda essa sujeira. Por favor, me ajude a livrar Karna! — Shyna fingia uma postura humilde, na tentativa desesperada de convencer a mulher a ajudá-la. Sem ela, tudo seria mais difícil.
— Não. — Zahira disse, firme. — O garoto djin será morto nas planícies pálidas como manda a tradição tamudeia e tu não estarás lá, não és uma mulher de Karna, não és uma sacerdotisa de Wadd, não és uma Grande esposa. És apenas uma meretriz, bem pior que a fenícia, e logo O Chacal saberá o erro que cometeu ao aceitá-la. Tua vagina é maldição para um homem!
Shyna silvou como uma verdadeira serpente. Sua vontade era voar no pescoço daquela mulher e apertá-lo até que ela parasse de respirar, mas estavam no templo, não podia fazer aquilo. Zahira, todavia, teria sua paga. Ela seria a próxima da sua lista, assim que eliminasse Jamila.
Shyna viu seus planos de fortuna frustrados. Estava tão irada que seu humor se tornava cada vez mais perigoso. Livrar-se-ia de Shaka, Jamila, Zahira e até de Omã quando tivesse poder suficiente. Eles não perdiam por esperar.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Shaka estava sozinho e não com a leva de escravos que geralmente eram negociados nas feiras de Magan todos os dias. Estava isolado naquele lugar úmido e fétido nos porões do ádito dos castigos. Abraçava os próprios joelhos esfolados e doloridos, temendo pelo futuro de Ikki, ao mesmo tempo que confiava em sua força. Precisava sobreviver, salvar-se, pois confiava na promessa do amado. Mas como?
Ouviu o barulho da porta pesada se abrindo e logo algumas tochas iluminaram o ambiente. Ele se ergueu confuso e viu quatro homens entrarem. Eram um grupo de guerreiros.
Shaka forçou-se a sentar na pedra fria, embora tudo doesse. Os homens se entreolharam. Seus rostos pareceram ainda mais sombrios iluminados pelas tochas bruxuleantes.
— O que fazem aqui? O que... onde está Ikki? — gaguejou nervoso.
Um deles se adiantou, enquanto Shaka recuava até suas costas baterem na parede úmida e pegajosa.
— O príncipe está morto. Foi sentenciado à morte. Não há mais ninguém para protegê-lo agora...
Shaka ficou lívido e tentou achar uma rota de fuga enquanto via os homens pendurando os archotes e se aproximando cada vez mais dele.
— Não... — murmurou, olhando para os lados nervoso, mas não havia como escapar. — Não!
Gritou quando eles o seguraram e o arrastaram sem delicadeza. Estava perdido.
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A Serpente e a Estrela
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