A serpente e a estrela

19 Esperanças desfeitas


Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Esse demorou, mas veio enooorme! Espero que gostem. Obrigada a todos que têm deixado manifestações de carinho aqui. Obs. Perdoem possíveis erros, revisei bem porcamente, pois o tempo anda bem escasso. Beijos a todos e boa leitura! Sion

Esperanças desfeitas

Capítulo 18

Os homens arrastaram Shaka para fora da masmorra e o jogaram aos pés de Zahira e suas sacerdotisas.

— Não é necessário machucá-lo. Prepararemos o ritual. — Ela informou, mirando o garoto com desprezo. — Ele deve ser imolado e oferecido aos deuses.

— O rei ordenou que o levássemos para as planícies e o matasse, mulher! — grunhiu um dos homens de Omã.

— Sou a sumo sacerdotisa de Al-Uzza e digo que seguiremos o ritual. Desejas uma maldição, soldado?! — cuspiu as palavras com autoridade, seus cabelos vermelhos e fartos revoando na noite densa.

O homem praguejou, mas permitiu que a mulher levasse Shaka para dentro do pequeno templo que havia no ádito dos castigos, ficando de guarda. Algumas das mulheres seguravam tochas, pois tudo era negrume naquela noite. O ariano seguia, exaurido de cansaço, sem forças para lutar, embora soubesse que precisava.

— Por aqui — Zahira disse, e ele foi empurrado para uma câmera pequena, onde havia um altar com várias representações de animais. — Profanaste nosso templo, nossas tradições, seduziste um príncipe de Karna. Terás de morrer, djin.

— Não sou um djin... Sou um príncipe — Shaka murmurou e ergueu o queixo, mirando Zahira nos olhos. — E eu não o seduzi... Eu o amei. Podem me matar, mas nunca me farão sentir vergonha disso. Nunca.

A mulher de cabelos vermelhos o mirou na penumbra por um tempo e então, com um movimento de cabeça, ordenou que as garotas saíssem, ficando sozinha com Shaka. O garoto ajeitou a postura, da forma que a dor em seu corpo permitia, e esperou o castigo.

— Podes sair — ela disse, e o loiro franziu as sobrancelhas, confuso.

De um canto escuro, Jamila apareceu e o abraçou.

— Shaka! — ela exclamou, entre lágrimas amargas — Eu sinto tanto...

— Jamila..., faltava tão pouco... Os deuses têm raiva de mim... — ele permitiu-se chorar no ombro da amiga.

— Oh, meu pequeno, que triste sina — Jamila soluçou.

— Não temos tempo — Zahira os interrompeu. — Temos que fazer isso agora, quando a maior parte dos homens estão no julgamento do príncipe.

— Julgamento?

— Não é como em Najah, Shaka — Jamila explicou. — Há apenas acusação e sentença. Tu precisas ir...

— Não posso ir sem ele... — o desespero estampou-se no rosto do garoto — Por favor, não me peças para ir sem ele!

— Escute! — Jamila segurou-lhe o rosto entre as mãos — Acreditas nele?

Shaka assentiu com a cabeça.

— Então sabes que Ikki sobreviverá e que irá encontrá-lo. Por favor, sobrevivas também. Espere-o. Os deuses me dizem que vossa história não termina aqui.

Shaka tentou engolir as lágrimas, pensar com coerência, mas doía demais abandonar Ikki ali sozinho.

“Sobreviva. Sobreviva. Não sei como, não importa como, sobreviva! Eu irei encontrá-lo, não importa o tempo que passe, eu o acharei e ficaremos juntos.”

Ele grunhiu de dor, mas assentiu com a cabeça, aceitando. Zahira lhe entregou uma túnica como a que Jamila vestia.

— Shaka — ela disse e inclinou-se, retirando do pescoço um colar de grandes pérolas vermelhas. — Pérolas do mar de Musandam. É lá que o vento noroeste sopra mais forte e por isso é chamado de mar de fogo. Somente suas águas produzem as raras pérolas vermelhas, nesse tamanho. Quero que fiques com ele — entregou o colar nas mãos do rapaz. — O príncipe o encontrará através dele.

Shaka mirou o belo colar por um longo tempo. Não podia imaginar como aquilo fosse ajudá-lo a encontrar Ikki, mas ao menos teria algo de valor durante aquela fuga. Pendurou-o no pescoço e o escondeu nas roupas sujas que usava.

— Saíam agora pelo subterrâneo. Ágora os espera com um cavalo. Ele irá tirá-los daqui, mas depois das planícies mortas, estão sozinhos. Sigam até a Saubeia, lá procurem um homem chamado Hasgard e diga que são exilados de Karna. Ele os acolherá — Zahira declarou nervosa, pegando um dos archotes da parede e entregando a Jamila.

Shaka estava confuso. Por que a malvada Zahira os ajudava? Por que ela sabia sobre Ágora?

— Vão, não temos muito tempo! — insistiu a mulher.

— Por quê? — ele indagou, os olhos azuis brilhando de ansiedade.

— Ágora é meu sobrinho — Zahira explicou. — Eu sempre soube do amor dele por Shiva e todo medo que sente de um dia ser descoberto. Imagino que tenhas passado pela mesma angústia que acompanho em meu sobrinho desde que ele era um menino como tu és. Em Karna, os diferentes têm uma triste sorte...

— Então tu és tia de Violet?

Zahira franziu a testa.

— Conheces Violet?

— Sim. Ágora nos levou até ela uma vez — Shaka explicou. — Como pudeste sujeitar-te a Omã depois do que ele fez a ela?

Zahira sorriu, amarga.

— Podes ter te passado por mulher, jovem príncipe, entretanto tu não sabes nada da sina de uma fêmea em Karna. Mas sei que um dia entenderás. Não temos muito tempo para conversas. Vão os dois, vão já!

Shaka e Jamila a obedeceram, correndo em direção às escadas do subsolo, logo estariam longe da fortaleza. Mas o coração do príncipe estava apertado, sombrio. Não queria deixar Ikki, não queria arriscar-se a perdê-lo.

“Meu amor, prometa-me que vai conseguir... Eu sei que tu vais conseguir...”, rezava baixinho, enquanto corria com Jamila para as planícies mortas.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Dushara estava agitado e isso não era um bom sinal. Era o que Ikki pensava enquanto cortava a estrada que os levariam a Babel, o grande centro do império babilônico. Agora estavam perto e uma excitação os dominavam. Ikki tinha plenas esperanças de que finalmente sua busca chegaria ao fim. Precisariam tomar uma barca para chegarem à bela cidade de Uruk, cercada de canais, monumentos e templos. Era um lugar que fascinava os olhos de qualquer visitante. A arquitetura harmoniosa juntava-se ao clima ameno e aos movimentos tranquilos das pessoas. Tudo naquele lugar parecia seguir uma ordem ao mesmo tempo rígida e calma.

— Alto! Estrangeiros! — eles ouviram a ordem em acádio, idioma que tanto Ikki quanto Asmita conseguiam decifrar. Pararam os cavalos. Dushara relinchou em desafio, trotando ainda algumas vezes diante dos seis homens a cavalo que paravam à sua frente.

— Quem são? — o homem que parecia ser o chefe do grupo perguntou, adiantando-se duas trotadas sobre seu animal para mirar os três estrangeiros. — O que fazem na Babilônia?

— Viemos da Arábia e procuramos por uma pessoa — Ikki disse,engolindo em seco. — Um escravo.

— Um príncipe — Asmita se adiantou um pouco, falando com sua voz calma. — Um príncipe que foi escravizado por bandidos e vendido, segundo temos informações, para um dos teus templos.

O homem franziu as sobrancelhas um tanto desconfiado.

— Quem tu és? — Ikki indagou, percebendo o porte nobre do cavaleiro de cabelos e olhos negros.

— Chamo-me Shura, sou o capitão da guarda do grande Hamurabi e estamos voltando de uma ronda pelo vilarejo. Nós, babilônicos, não gostamos que invadam nossos territórios, árabes. — ele disse e os outros homens puxaram as espadas, o que fez Ikki levar a mão à sua saif e Aldebaran ao seu machado.

— Esperem! — Asmita ergueu a mão, os impedindo de prosseguir. — Não queremos luta. O que nos guia aqui é o amor, senhor capitão. — ele tirou o capuz, mostrando o rosto a Shura — Não somos ameaças ao teu império ou ao teu imperador, só precisamos saber onde o meu irmão está.

Shura arregalou os olhos e fez um movimento para que seus homens baixassem as armas, sem conseguir tirar os olhos de Asmita. Ikki percebeu isso e adiantou-se com Dushara.

— Tu o viste, não é? Sabes quem ele é? Onde ele está? Por favor! — indagou, o coração batendo forte no peito.

Shura continuou calado, mirando Asmita.

— A semelhança é incrível — ele murmurou.

— Ele é meu irmão mais novo. Por favor, nos leve até ele — pediu o ariano.

— Não posso. Mas os levarei até uma pessoa que pode ajudá-los. Venham comigo. Precisamos atravessar o canal de Babel e chegar a Uruk.

Os estrangeiros seguiram o grupo babilônico. Cheios de esperanças, eles caminhavam em direção à grande Babel, a cidade das delícias, a lendária cidade dos prazeres, onde todas as formas de luxúria eram permitidas.

Uma barca os esperava ancorada no grande canal. Shura disse algo ao barqueiro, na língua antiga, e ele rapidamente ajudou os viajantes a prenderem os cavalos e se acomodarem no barco, decorado com imagens de mulheres e serpentes em alto relevo. Asmita correu a mão pela madeira trabalhada, pensando que naquele lugar a menor das coisas exibia uma riqueza nunca imaginada. A ordem e a paz também pareciam reinar em Babilônia. Imaginava a que custo.

Enquanto o barqueiro remava pelas águas escuras e tranquilas, Ikki novamente mergulhou no passado que o levara até ali...

Morte por exílio.

Essa foi sua sentença naquela noite funesta de luar vermelho. Depois da crucificação, aquela era a pior forma de morte em Karna, e ele só escapara à crucificação por ser filho do Emir e por ter, segundo este, sido seduzido por um demônio que se metamorfoseou em mulher. Ainda assim, sua mentirosa ignorância não seria perdoada, e ele deveria perecer na noite gelada do deserto vermelho.

Para que a morte fosse certa, todavia, ele precisava estar debilitado, por isso, além de espancado pelos guerreiros da tribo, ele ainda foi ferido por uma faca no abdômen; caso sobrevivesse ao frio, os animais famintos se encarregariam dele.

Omã fez questão de ser ele a cravar a faca no ventre do filho, e embora ela fosse curta, ele a torceu até ouvir o rapaz gemer, então o segurou pelos cabelos e falou bem próximo ao seu ouvido:

— Tu és uma desonra ao meu sangue e apenas tua morte não aplacará minha dor. Farei questão de matar aquele demônio com o qual te sujaste. Farei questão de machucá-lo de formas tão vis que serias incapaz de imaginar...

— Estarás morto antes que possas tocar nele... — Ikki grunhiu, embora não tivesse nenhuma certeza do que dizia. Tudo era dor, não apenas dor física.

O emir se afastou e mirou o conselho de anciões ali presente. O líder do templo de Hubal encarou o jovem de forma terrível.

— Tens direito a uma última declaração, condenado.

O garoto sorriu, um sorriso que mesclava ferocidade e desespero.

— Vós todos estão mortos. Poderia perdoar o que fizeram a mim, mas não o que fizeram a ele. Eu voltarei e matarei todos.

— Voltarás? — Omã riu, mas estava intimamente incomodado. — Estarei rindo enquanto os chacais devoram tua carne morta no deserto vermelho!

Ikki riu, lembrando-se das palavras de um desconhecido e as proferindo com toda a convicção que sua alma ainda tinha:

— Atire-me aos lobos e eu retornarei liderando a alcateia — rosnou, olhando nos olhos do pai. — Não apenas o matarei, exterminarei toda a tua maldita linhagem, toda linhagem tamudeia, eu a riscarei da face da terra!

— Já chega! Que se cumpra a sentença! — o emir ordenou e imediatamente os guardas levaram Ikki para longe do templo, arrastando-o pela escadaria. Omã se aproximou de um dos guerreiros e sussurrou-lhe ao ouvido: — Cuide para que ele não chegue vivo ao deserto.

O homem então seguiu os guerreiros que levavam o príncipe. Eles deveriam colocá-lo num cavalo, com os braços amarrados e os olhos vendados, e levá-lo até o deserto. O guerreiro assassino seguiu atrás deles, mas foi interceptado por Ágora.

— Onde pensas que vai? Tu não fazes parte deste serviço — o ruivo indagou, desconfiado.

— Estou a serviço do Emir e tu estás me atrasando! — gritou o homem.

— O Emir não desrespeita as ordens de Hubal, estás mentindo — e Ágora puxou sua saif. Ele sabia bem que o emir de Karna não respeitava ninguém, nem mesmo os deuses, e sabia qual era o serviço pedido àquele guerreiro cruel. Não deixaria que isso acontecesse.

Eles iniciaram uma briga de espada que terminou com a vitória de Ágora e a morte do guerreiro assassino. Todavia, esse contratempo fez com que o ruivo não conseguisse alcançar Ikki e o príncipe foi levado para o deserto, onde deveria morrer.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Shaka e Jamila fugiam a pé, o mais rápido que podiam, o que não era muito, contra o solo pedregoso e as subidas escarpadas das planícies mortas. A vegetação ressequida e o luar vermelho que aparecia no céu não os ajudariam a escapar dos tamudaeis quando eles dessem conta da fuga do “djin”. Mas, não sabiam eles, havia um inimigo ainda mais cruel os espreitando: Shyna.

A bela etrusca desconfiara das intenções de Zahira, quando soube que o prisioneiro fora tirado da sua alcova, e encontrou a solução perfeita para ganhar uma fortuna e, ao mesmo tempo, conquistar definitivamente seu espaço em Karna. Shyna uniu-se a três guerreiros gananciosos, também filhos de Omã, que almejavam ascender a Emir um dia e odiavam o irmão preferido, e confabularam para vender o jovem persa e também a bela cortesã fenícia.

Shaka e Jamila achavam que estariam salvos quando alcançassem as montanhas e vislumbrassem a Saubeia no horizonte, mas os deuses quiseram que eles estivessem enganados. Quando eles finalmente conseguiram ultrapassar as planícies pálidas, os maeditas já os esperavam.

Era um grupo de três homens que acompanhavam Shyna e os jovens tamudaeis. Shaka e Jamila recuaram.

— Eu disse que eles viriam — Shyna sorriu e encarou Shaka. — Falei que não conseguirias escapar, pequeno príncipe.

— Shaka, foge! — Jamila exigiu, puxando um punhal da própria perna, o que fez os guerreiros rirem.

— Não! Eu não deixarei mais ninguém para trás! — Shaka disse, encarando os olhos da amiga. — Tu me deste mais do que eu merecia, Jamila. Muito obrigado.

— Shaka...

— Corra, corra o mais rápido que puderes — ele murmurou para a mulher com um sorriso dolorido.

— Não... — Jamila soluçou.

O garoto pegou o colar que Zahira lhe presenteou e o partiu, depositando uma das pérolas vermelha na delicada mão da mulher.

— Ikki a encontrará... E os dois salvarão teu bebê. Por ele, Jamila, por ele, vá.

Jamila sentiu aquelas palavras com profunda dor, mas sabia que os dois juntos não teriam chances. Shaka estava machucado, não conseguiria fugir; sozinha, ela tinha chances de tentar resgatá-lo depois. Mas doía tanto deixá-lo.

— Corra, agora! — Shaka disse e correu também, só que ao contrário de Jamila que num salto desceu uma trilha pela montanha, ele praticamente se jogou sobre seus agressores. Sua intenção era apenas distraí-los enquanto Jamila fugia.

— Peguem-na! — Shyna urrou, e os três tamudaeis que a acompanhavam foram atrás de Jamila, enquanto os maeditas seguravam Shaka.

— Não podemos esperar — um deles gritou. — Aqui está teu pagamento por este, vamos embora. Sabes que os tamudaeis não gostam de maeditas. Não nos arriscaremos a ficar mais tempo no território de Omã, o chacal.

A mulher grunhiu de raiva, mas aceitou a bolsa com as pedras. Aquilo já era uma pequena fortuna, afinal, jurara que Shaka era um djin. De Jamila era daria fim assim que os homens colocassem as mãos nela.

Os maeditas amarraram e jogaram Shaka sobre um cavalo. Lágrimas deixavam os olhos do garoto enquanto ele via o horizonte da saubeia se afastar, o cavalo trotando na direção oposta. Direção oposta dos seus sonhos de liberdade e amor.

A descida escarpada da montanha fazia o cavalo sacudi-lo como o vento aos frutos das árvores. O desespero crescia no peito do jovem príncipe à medida que ele se afastava do ponto em que deixara Jamila. Rezava a todos os seus deuses para que ela conseguisse fugir e chegar à Saubeia. Sabia que Ikki a encontraria. Confiava que Ikki seria salvo por Ágora, Zahira e por ele mesmo. Ele pediu que sobrevivesse, Ikki também sobreviveria.

O homem que o conduzia era jovem, um gigante maedita, com certeza um filho dos Nefilins. De vez em quando ele olhava para trás, para se certificar de que a peça que comprara estava em perfeito estado. Depois de um tempo, ele tirou Shaka da posição em que estava, deitado de barriga, e o colocou montado ereto. O loiro ajeitou-se no cavalo, tentando manter uma postura digna, altiva como sempre. O homem sorriu e falou algo para o outro numa língua que o príncipe desconhecia, mas sabia que eles falavam a seu respeito.

Já era madrugada quando eles pararam na primeira cidade portuária e os maeditas entraram numa taverna para se alimentarem. Ali, as pessoas falavam a mesma língua que eles e todos olhavam para Shaka como se ele fosse um troféu. O príncipe sentia-se fraco, os ferimentos latejavam por seu corpo, os ossos doíam, mas ele não queria dormir. Precisava encontrar um jeito de escapar.

— Água... — ele pediu, mirando seu gigantesco companheiro de montaria, mas o homem franziu as espessas sobrancelhas, parecendo não entender, então ele repetiu: — Água, tenho sede!

— Akkuhar? — ele repetiu, pegando um vaso e mostrando a Shaka que assentiu com a cabeça positivamente. O maedita então chamou uma das serventes da taverna e pediu que ela trouxesse água para o rapaz. A mulher se aproximou dele e começou a servi-lo. O homem desatou a corda dos pulsos do loiro para que ele pudesse beber.

— Obrigado — Shaka disse à mulher e segurou-lhe a mão, fazendo-a estremecer de medo e se afastar. Os maeditas começaram a rir do espanto da jovem serva e não perceberam que o jovem príncipe havia posto uma das pérolas em sua mão. — Maeditas — Shaka disse a ela. — Salve-me.

O grandalhão, que ele soube depois se chamar Minotauro, ralhou com a mulher e ela se afastou, amedrontada. Depois ele jogou a Shaka um pedaço de carne, como se fizesse a um cão, mas o príncipe apenas olhou aquilo com nojo e virou o rosto, o que fez os dois homens rirem e começarem a conversar alguma coisa, como se escarnecessem dele.

Deixaram a taverna antes do nascer do sol. Shaka viu alguns barcos ancorados e pescadores que iniciavam as atividades. Sabia que se quisesse fugir, tinha que ser naquele momento. Após se fartarem de comida, seus algozes estavam sonolentos, teriam mais dificuldade de capturá-lo. Seus braços estavam novamente presos, mas as pernas estavam livres. Shaka balançou-se e deixou-se cair quando passou perto de um amontoado de trigo. Não soube como, mas ergueu-se rapidamente, mesmo com os pulsos presos, e correu, correu como nunca imaginou que conseguiria, ouvindo os xingamentos e o trotar dos cavalos dos seus agressores atrás de si, ao seu encalço. Desesperado, ele entrou pelo meio de tendas de vendedores. Queria chegar a um dos barcos, qualquer coisa que o livrasse daqueles homens, mas acabou tropeçando e caindo, alguém o ajudou a ficar de pé, mas não para salvá-lo, alguns homens o seguraram quando viram os maeditas se aproximaram. Ele tentava se desvencilhar, mas foi contido por um grupo de miseráveis que esperavam alguma recompensa por isso.

Minotauro apeou do cavalo e foi até ele. O rosto de Shaka estava sujo de lama e sangue, mas ele ergueu o queixo, olhando em desafio para o seu agressor. Viu apenas o homem erguer o enorme punho e depois tudo escureceu.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Amarrado e com os olhos vendados, Ikki foi banido de Karna sobre o lombo de um cavalo de má qualidade, fraco e faminto. Durante um dia e duas noites, seminu, ele vagou pelo deserto. Ser banido de Karna significava apenas uma coisa: morte lenta. Morte que chegaria, na melhor das hipóteses, com uma profunda desidratação ou, na pior, escorpiões, serpentes e os terríveis buracos de areias que tragavam os incautos, conhecidos como areias movediças.

Ikki contou pela claridão que insidia em seus olhos, mesmo vendados, que amanhecia quando seu cavalo caiu de exaustão e sede. Não morreria na primeira noite como pensado por Omã. Ele era mais forte que isso. Resistiu ao frio de duas noites e ao calor intenso de um dia inteiro. Precisava continuar sobrevivendo. Forçou-se a se por de pé, com dificuldade, e novamente tentou mover os braços presos para trás, mas não conseguiu. Todavia, a certeza de que tinha que continuar o fez prosseguir. Já era alta madrugada quando ele caiu novamente e deixou-se deitar de costas na areia fria. Estava extremamente ferido. As feridas abertas eram inundadas pela areia do deserto. Morreria em breve se não conseguisse se libertar daquelas amarras. Deitado de costas, ele conseguia enxergar pontos luminosos no céu e, assim, permaneceu estático, imaginando a luz das estrelas, imaginando os olhos de Shaka. Precisava continuar, havia prometido encontrá-lo, havia prometido salvá-lo. Não podia desistir e por isso rogou aos deuses que lhe dessem forças. Ele, que nunca foi religioso, pediu aos deuses que lhe salvassem para que pudesse salvar quem amava, pois o desespero já começava a abatê-lo e ele se sentia cada vez mais fraco. Foi então que Ikki viu luzes se aproximando, pequenos pontos luminosos tremulantes... Poderiam ser os olhos dos ghouls, que brilhavam na escuridão, mas por algum motivo, Ikki acreditou que eram as luzes da ajuda. As luzes mandadas pelos deuses para salvá-lo da morte, porque ele precisava encontrar Shaka. Depois poderia morrer.

Sentiu movimentos perto e um calor incidir sobre seu rosto, era alguém que se agachava e segurava uma tocha.

— É apenas um garoto — a voz masculina, calma e segura, disse e levou a mão ao rosto do tamudaei, retirando a venda dos seus olhos.

Ikki piscou e sentiu algo em seus lábios; era água, que ele bebeu avidamente até se engasgar e tossir. O homem ergueu sua cabeça, apoiando-a em suas pernas.

— O que fizeste aos tamudaeis para merecer tal punição, criança? — indagou a voz amiga. Acostumado a resgatar os proscritos tamudaeis daquele local, sempre que passava com sua caravana, o velho apiedava-se do garoto. Sabia que o deserto de Quim’ziQ era o local preferido dos tamudaeis, povo selvagem, para suas severas e cruéis punições.

— Vamos deixá-lo, deve ser um ladrão! Um assassino! — uma voz juvenil gritou, seu dono, acostumado a ver aquele tipo de coisa também.

— Não. É um menino assim como tu, Jabu. Vamos levá-lo conosco, cuidar dele e deixaremos a Hasgard a decisão do que faremos após sua recuperação.

— Não tens o direito de levá-lo conosco para a Saubeia, Zahid! Já não és um de nós!

O beduíno suspirou.

— Então ele irá para minha tenda, nos arredores da cidade, e Hasgard me dirá depois se devemos tê-lo ou não conosco. Agora ajude-me a levá-lo para a carroça. Não é bom ficarmos parados aqui.

A contragosto, Jabu ajudou a colocar o jovem quase desfalecido na carroça. E foi assim que Ikki conhecera o homem que o salvaria de muitas formas. O homem que o tornaria... Um homem. Não o homem que já era na tradição de força e violência tamudeia, mas um homem capaz de calmamente observar as estrelas e ser paciente para procurar sua estrela durante quatro longos anos.

Zahid cuidou dele e o alimentou, tratando de seus ferimentos como faria o mais amoroso dos pais. Com o passar dos dias, ele conseguiu acalmar o espírito revolto do jovem tamudaei, que só falava que precisava partir para encontrar alguém. Ikki estava profundamente angustiado e arisco. — Preciso encontrá-lo, ele está me chamando! — era o que dizia durante a febre e havia um desespero tão profundo em sua voz que o velho beduíno lhe ministrou a raiz-pimenta, uma raiz alucinógena que fazia sonhar, e o jovem do deserto finalmente adormeceu. Por quatro dias.

Nesse meio tempo, Zahid recebeu a visita de Hasgard, o poderoso senhor da saubeia, e seu filho.

— Onde o encontraste? — o líder inquiriu, aproximando-se do rapaz adormecido na tenda. Segurou o braço de Ikki e mirou a marca que ele trazia no pulso — É um tamudaei.

Aldebaran imediatamente puxou sua espada longa de dois cortes, mas Zahid ergueu a mão.

— Hasgard, sabes que não permito violência em minha tenda — ele advertiu. — Além disso, é uma criança.

— Um filhote de serpente ainda é uma serpente — disse Hasgard, desconfiado. — Além disso, se ele foi condenado ao deserto deve ter ofendido os deuses.

— Tamudaeis nunca foram conhecidos por sua justiça — Zahid replicou.

— Isso é verdade — Aldebaran concordou com o velho beduíno e recebeu um olhar de advertência do pai, baixando as vistas respeitosamente.

— Permitas que ele pelo menos explique o que aconteceu. Tu tens um filho, Hasgard... — insistiu o beduíno.

— E teu filho descansa com os deuses, Zahid, lembra-te — volveu Hasgard, observando o garoto mais uma vez com seu único olho são. Era uma criança, realmente, mas mesmo as crianças tamudeias eram terríveis. Saubeus e tamudaeis embora não fossem inimigos declarados tinham uma visão de mundo bem distinta e apenas se toleravam. A saubeia era uma cidade rica culturalmente, plantava e colhia, e achava desprezível a cultura de saques dos vizinhos. Contudo, possuía poderosos guerreiros, pois sempre esperaram que um dia a ambição e selvageria tamudeia se voltassem para eles.

— Trouxe provisões e elixires — o líder disse, sério. — Quando ele acordar, leve-o até a mim. Vamos, Aldebaran.

O jovem príncipe saubeu ainda mirou por um tempo o rapaz adormecido na esteira, antes de seguir o pai.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Algo pingava em seu rosto quando Shaka acordou. Não sabia o tempo que passara desmaiado, não conseguia mover um músculo, mas sentia a chuva intensa que caía molhar seus lábios ressequidos como uma dádiva dos deuses. Parecia que seus ossos foram quebrados e ele sentia uma dor aguda e sangue molhando-o entre as pernas.

— Ikki... — murmurou.

Tinha sido espancado e violentado pelo homem chamado de Minotauro. Raiva e luxúria o dominavam quando ele arrastou o rapaz desacordado para um galpão e o despiu, enquanto gritava palavras em seu dialeto. O homem que o acompanhava tentou evitar, mas o gigante estava enfurecido demais. Para sua sorte, Shaka só acordou de verdade pelas dores que tomaram seu corpo, durante o ato hediondo, e esse despertar era breve, logo ele desmaiava novamente.

— Ikki... — murmurou novamente, a mente ocupada em pensar no moreno, longe de perceber seu próprio estado. Seus olhos não conseguiam enxergar; tudo era escuridão e dor.

— Esse vai morrer antes da gente conseguir vender – dizia uma voz ressequida que ele não conseguia compreender muito bem, mas que falava numa língua que ele entendia e não era a voz de nenhum dos seus sequestradores. — Odeio maeditas! Seres incapazes de controlar sua luxúria! Veja isso? É um menino! Um menino!

— Não tem nada aí que o faça parar de sangrar? — agora falava uma voz feminina, um pouco mais preocupada — É muito bonito, daria um bom dinheiro se conseguíssemos fazê-lo sobreviver.

— Podemos vender a carcaça para aqueles miseráveis que gostam de fazer pactos com os ghouls — o homem continuou.

— Crueldade! — a mulher cuspiu. — Eu adorei estripar um daqueles porcos, pena que o grandalhão fugiu! É um garoto! Como puderam fazer isso com ele? Bestas degeneradas!

Shaka voltou a fechar os olhos e a escuridão deitou-se novamente sobre ele. Só acordaria dias depois, numa rica tenda no deserto. Sua boca estava seca e sua garganta ardia. Ele tossiu forte e sentiu gosto de sangue. Nesse momento, um homem alto se aproximou. Era um mouro que usava uma longa e branca túnica de linho, adornada por um pesado colar de outro e pedras preciosas, brincos de argolas, botas e uma calça branca como a túnica. Seus cabelos eram raspados nas laterais e corriam no meio da cabeça apenas, brancos, presos numa longa trança que chegava até a sua cintura. Havia um desenho negro em sua face, o que tornava sua aparência ainda mais exótica e bela.

Ele se aproximou do ariano e, segurando-lhe a cabeça com delicadeza, levou um cantil de barro aos seus lábios.

— Beba, ainda está muito doente — a voz calma e forte falou, e Shaka sentiu os dedos longos e calejados massagearem levemente seu couro cabeludo. O menino fechou os olhos, sentindo-se confortado por aquele toque e deixou lágrimas descerem por seus olhos. O homem aumentou o carinho em seus cabelos com isso. — Fique calmo, ninguém voltará a machucá-lo, eu prometo.

— Eu... Eu preciso... — tentou falar, mas não conseguia, ainda sentia dor.

— Não fales. Usei uma técnica mágica em ti para curar seus ferimentos. Não haverá sinal do mal que lhe causaram, a dor irá embora completamente, mas por enquanto precisarás ficar quieto. A cura será completa e sem máculas, mas precisas respeitar os espíritos.

— Ikki... O Ikki... — Shaka balbuciava.

— Não sei quem é Ikki, mas se era um companheiro teu de viagem, provavelmente está morto. Tu não morreste por sorte. Os deuses o amam, criança, descanse. Em Babilônia serás feliz.

— Quem és tu? — Shaka balbuciou, fraco.

— Sou Krishna de Chrysaor, mordomo-mor de Hamurabi, senhor supremo de Babilônia e Síria. Ele agora é teu dono.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

A travessia do canal foi tranquila, embora muitas vezes os viajantes enxergassem gigantescos crocodilos repousando em suas margens. No entanto, eles não pareciam oferecer perigo naquele lugar cercado de jardins maravilhosos. Tudo no grande império era belo e fascinante, e Ikki imaginou se Shaka estaria bem e feliz ali. Tinha receios, medos que ele tentava demolir com a visão paradisíaca daquele lugar.

Deixaram a barca e foram guiado pelos soldados pelas ruas de pedra. Havia muita gente, e as pessoas cumprimentavam o grupo com acenos de cabeça.

— Estamos em Uruk, nossa capital religiosa — Shura explicou. — Babel é o centro político, mas o rei nunca fica lá, prefere seu castelo aqui, ao lado do grande templo. Só vai a Babel quando há conselhos. — ele explicou na língua dos mares, um dialeto compreendido por praticamente todos os viajantes.

— Por que estamos aqui? — Asmita indagou, curioso, mirando ao redor.

— Porque foi aqui que esteve aquele por quem procuram — explicou o militar.

— Esteve? — Ikki sentiu algo quebrando dentro de si. Fechou os olhos levemente. Estava mais uma vez enganado! Mais uma vez chegava atrasado! Como isso era possível?

Shura virou o pescoço para mirar o árabe.

— Sim. Ele já não faz parte da Babilônia, mas há alguém com quem devem conversar. O templo é no centro da cidade, temos que cavalgar um pouco ainda, não façam mais perguntas.

Ikki calou-se. Seu rosto continuava firme, mas Aldebaran e Asmita sentiam todo o desespero que o tomava. A esperança novamente esvaia-se, a incerteza tombava a alma do jovem mercenário.

— Fiquem atentos aqui. É um canal de fluxo estrangeiro — disse Shura. — Os Hulagus, às vezes, arriscam-se em adentrar o império quando as vítimas valem a pena.

Os três estrangeiros assentiram com a cabeça. Mas eles sabiam que não possuíam nada que chamasse atenção dos mercenários hulagus, embora Ikki carregasse uma fortuna nos alforjes sobre Dushara.

Eles seguiram em silêncio pela longa estrada, ouvindo o cantar de pássaros e o murmurar das águas que por ali eram abundantes. Então Dushara relinchou e parou seu trotar elegante. Imediatamente Ikki soube que havia algo errado, embora eles não enxergassem nada estranho.

— Esperem — Asmita pediu, concentrando-se. — Sinto cheiro de morte...

— O que queres dizer? — Shura perguntou, olhando ao redor, e Aldebaran adiantou-se ao grupo, vendo, entre algumas pedras longas, vestígios de luta e logo depois o primeiro corpo.

— Cadáveres! — exclamou o saubeu.

Asmita fechou os olhos e percebeu todos os sons e sentimentos ao redor; raiva, medo, gritos de ódio.

— Ali! — ele apontou, ainda de olhos fechados, para uma cadeia de rochas — dois homens estão em perigo!

Ikki a Aldebaran rapidamente bateram com os pés nas barriga dos seus animais e dispararam, sacando espada e machado. Shura ficou incrédulo por um tempo, mas, em seguida, ordenou aos seus homens que os seguissem, percebendo finalmente os cadáveres que eram de homens de uma escolta babilônica.

— Que diabo... — ele murmurou, seguindo os árabes e encontrando mais soldados.

Aos pés de uma montanha, Kanon, armado apenas com um punhal, era cercado por um grupo de aproximadamente cinco homens. O olhar feroz do príncipe egípcio era escarnecido pelos homens que tentavam, ao que parecia, capturá-lo. Atrás de Kanon, apoiado na encosta, jazia Radamanthys, desacordado, sangue escapava de seus lábios e encharcava a roupa negra que ele vestia.

A guarda babilônica havia sido atacada por um grupo aproximado de 10 hulagus. Cinco jaziam com a guarda de Hamurabi, mortos pelo general egípcio, mas o jovem loiro não foi páreo para os dez, fora gravemente ferido, tentando defender o sangue real do seu império.

Agora, sozinho e praticamente desarmado, Kanon tentava enfrentar o grupo remanescente. Jamais se entregaria e, ao mesmo tempo, tentava proteger o loiro que havia salvado sua vida.

Os hulagus perderam a paciência, um deles, que aparentava ser o líder, ergueu um pesado machado, mas antes que ele pudesse deferir o golpe, a saif de Ikki fez machado e mão caírem por terra. O homem gritou, segurando o punho cerrado de onde o sangue esguichava. Seus companheiros se precipitaram contra o grupo que chegava e uma nova luta se iniciou. O embate durou apenas alguns minutos antes de os últimos homens do Hulagu serem mortos.

Asmita, que não participou da luta, aproximou-se do príncipe egípcio que agora estava ajoelhado com Radamanthys pousado em seus joelhos.

— Estão bem? — ele indagou para um Kanon pasmado.

— Shaka? — em meio àquele momento caótico, ele não conseguia perceber as diferenças entre os irmãos arianos.

— Não. Sou irmão dele, meu nome é Asmita.

Kanon mirou do jovem loiro à sua frente para o loiro deitado em suas pernas.

— Por favor, ajude-o, ele está muito ferido.

Asmita levou a mão até o peito de Radamanthys e fechou os olhos, concentrando-se. A ferida era profunda e ele não conseguiria curá-la sozinho, todavia, ajudaria. Sussurrou alguns palavras e suas mãos sugaram os vestígios de germes e areia que estavam dentro do ferimento e estancou a hemorragia, fazendo movimentos circulares sobre o tórax do general.

— Ele ainda precisa de cuidados, temos que levá-lo a um local adequado.

Nesse momento, Ikki e Aldebaran se aproximaram. Kanon reconheceu o homem que o havia salvado. Na verdade, ele ainda era um garoto.

— Preciso agradecer pelo que fizeste por mim. Peça-me qualquer coisa. Também és parente de Shaka? — indagou, mesmo que não houvesse semelhança entre o rapaz e os irmãos loiros.

— Sabes onde ele está?— Ikki indagou, desesperado — Eu sou...

— Não! — Asmita o interrompeu, erguendo-se e pondo a mão no ombro de Ikki. — Ele é apenas um mercenário que contratei para me ajudar a encontrar meu irmão.

Ikki mirou o persa, desconfiado, mas Asmita apertou mais forte o seu ombro, pedindo para que ele não o contradissesse e confiasse em suas palavras.

— Justo — Kanon disse. — Ajude-me, por favor.

Aldebaran o ajudou a erguer Radamanthys e colocá-lo deitado sobre um dos cavalos. Nesse momento, Shura se aproximou, depois de haver empilhado os corpos e queimado. Ele mirou Kanon e fez uma reverência rápida, assombrado com sua presença.

— Faraó, o que fazes?... Quero dizer, perdão, não sabíamos que viria... Hamurabi...

— Não sou o faraó — Kanon explicou, o que deixou o militar ainda mais confuso. — Sou o príncipe Kanon Amon, irmão gêmeo do faraó Saga Hórus. Eu e meu general viemos em missão de paz e fomos atacados em tuas terras.

— Esses bandidos que os atacaram não são babilônicos. São uma escória de piratas que, de vez em quando, conseguem se infiltrar em nossas fronteiras, pedimos perdão por isso. Nós os guiaremos a Uruk, lá estão nossos melhores médicos, não te preocupes, teu amigo ficará bem. Agora vamos, por favor, alteza.

Kanon concordou e eles seguiram em direção ao exuberante centro de Uruk.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Gente, por que sou tão má? Nossa, odiei os acontecimentos desse capítulo mas... Bem, tentei dar veracidade a história, uma história cruel, muito cruel, é verdade. Espero que sobrevivam a ele, quebrados como eu, mas... Respira e continua!! Beijos a todos e obrigada mais uma vez pelo carinho! Sion Neblina 07/09/2015