A serpente e a estrela
20 Noites orquestradas
Notas iniciais
Noites orquestradas
ليال دبرت
Capítulo 19
Não era um bom dia em Men-nefer. Faraó estava preocupado, Kanon ainda não havia mandado notícias da Babilônia, e Saga não tinha bons pressentimentos. Aioros tentava manter as coisas no lugar, a ordem tão necessária de Maat. Hades estava no grande palácio todos os dias, espreitando como a serpente que o grão vizir sabia que ele era. Naqueles dias após a viagem da comissão à Babilônia, o governador fazia-se cada vez mais presente, algo que incomodava Aioros. Não confiava nas boas intenções do tio do faraó, e Saga era ingênuo demais para perceber que não podia confiar em Hades. Devido a isso, há dias, Aioros não voltava para casa. Dormia e acordava no grande castelo, isso quando dormia; o clima nervoso lhe tirava o sono. Os generais agrupavam o exército com uma tensa expectativa, e eles esperavam impacientes que a mensagem chegasse, mas Kanon demorava, e essa demora consumia os nervos do grande Egito.
Saga estava inquieto, tenso, e quando estava assim, sempre procurava Shaka. O jovem ária conseguia acalmá-lo com suas histórias e seus carinhos.
O faraó estava em seu quarto naquela tarde. Preocupado, havia dispensado os serviços do dia e resolvido passar a tarde com Shaka. O nunefer lhe fez massagem com óleos aromáticos, relaxando seus ombros cansados, fazendo-o ficar mais calmo com suas histórias. Shaka era culto e conhecia muita coisa, além de ter uma fértil imaginação. Falava de culturas, mundos, deuses, como se fizesse parte de tudo aquilo. Saga fascinava-se com a forma calma de ele dizer as palavras. Gostava demais de Shaka, ele era seu alívio, seu momento de harmonia naquela vida de renúncias e compromissos.
— Adoro ouvir tuas histórias — murmurou. Estava com a cabeça apoiada nas pernas do loiro, que fazia uma lenta massagem em seu couro cabeludo. — És um contador de histórias mais talentoso que o mais talentoso que já ouvi. Digas me, contas histórias para mais alguém além do teu soberano?
Shaka parou a massagem por um tempo.
— Sim. Contei há um tempo ao príncipe Mu e à rainha Nefertari. Não sabia que não deveria.
— Não há problema. Mu é uma criança e Nefertari uma mulher. Não penso que eles possam roubar meu presente — Saga sorriu e Shaka suspirou:
— É triste para qualquer homem ser um mero presente, mesmo que um presente do grande faraó Saga Hórus. — disse e depois mordeu os lábios, não era um bom dia para aquela discussão.
— Tu sabes que não és um mero presente, Shaka. Não faças com que me sinta mal. Chego a pensar que este hematoma em teu rosto seja uma forma de me punir...
Shaka suspirou. Havia inventado que o hematoma fora fruto de uma queda. Não diria que fora um presente de Nefertari, era melhor não falar nada sobre seus encontros com a rainha, ao menos não por enquanto.
— De qual forma, poderia puni-lo me machucando, meu soberano? — indagou com certo escárnio.
— Maculando tua pele perfeita. Magoando-te, tu me magoas, Shaka. Sabes disso.
Shaka sorriu com desgosto. Hipócrita maldito! Mantinha-o prisioneiro dos seus caprichos e queria convencê-lo de que se importava! Naquele dia em especial, o jovem príncipe mostrava-se completamente revoltado com sua situação. Pensava em tentar fugir novamente, mas precisava ter calma, precisava esperar o momento certo. Uma tentativa frustrada o levaria à morte. Sua única saída tinha um nome perigoso: Hades.
— Perdoe-me, meu soberano.
— Não peças perdão. A culpa é minha, Shaka. Apenas minha. — Saga ergueu-se do colo do dançarino e fitou-o por um tempo. Os olhos verdes pareciam sugar algo no olhar azul do homem mais jovem. Ele levou a mão ao rosto de Shaka, acariciando-o de leve. — Tu não deverias passar por isso. Ninguém deveria.
Shaka franziu as sobrancelhas. Não entendia o que o faraó queria dizer, mas Saga não explicou, apenas se ergueu, colocou o nemés sobre os cabelos, pegou seu manto e deixou o quarto. O ariano então fez o mesmo. Voltaria para os seus aposentos, mas acabou encontrando Mu no caminho.
— Mu! — ele exclamou quando o jovem o abraçou e suspirou pesadamente em seu ombro.
— Ele irá se casar, Shaka — murmurou o príncipe egípcio como uma confissão.
O ária se afastou dele delicadamente e olhou ao redor.
— Aqui não é um local apropriado, príncipe. — ele disse e viu Defteros se aproximando. — Vá ao meu quarto, quando o palácio estiver vazio, antes disso não é seguro.
Mu queria muito falar com alguém, mas sabia ser prudente, então apenas assentiu com a cabeça e foi ao encontro de Defteros para suas aulas. Seu peito sangrava, mas ele aprendia a sofrer em silêncio, assim como todos da sua estirpe.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
A tarde amarelava o dia quando finalmente Pandora encontrou Aspros. Ele estava na grande casa de lanças, depois de ter passado o dia treinando seus homens. O exército estava em vigília no delta do rio e seus generais deveriam estar por perto; a guerra poderia se iniciar a qualquer momento.
— Princesa Pandora... — ele a cumprimentou, curioso, erguendo uma sobrancelha.
— Meu irmão — ela maneou a cabeça.
— O que desejas aqui? Não creio que seja adequado a uma mulher enfrentar o calor exaustivo de um dia quente aqui fora.
— Precisamos conversar, Aspros — Pandora foi direta. O plano que tinha precisava ser cumprido com brevidade, enquanto ainda estava quente.
— Estou ouvindo.
— Aqui não... — ela olhou ao redor — Hades está passando dias e noites no grande castelo e hoje fará uma breve viagem. Vá à minha casa, depois do grande jantar.
O general ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
— Será do teu interesse — ela disse e sorriu insinuante, saindo em seguida.
Aspros ponderou aquilo por um tempo. O Egito já estava mesmo pacífico demais. Era necessária alguma coisa para romper a ordem, e ele adorava!
Ao contrário do que muitos pensavam, o general não era simplesmente um fantoche de Hades. Aspros era um homem forte e ambicioso, que sabia exatamente aonde queria chegar dentro do reino. Diferente do irmão, pouco lhe importava ser bastardo do faraó e não ter o sangue real, ele queria poder, status. Não aceitava ser uma peça descartável dos jogos da corte e faria o possível para alcançar o que queria: uma vaga permanente no conselho de Saga, que lhe rendesse um castelo próprio, onde pudesse possuir escravos e dar uma vida decente à sua mãe e irmão. Era humilhante habitar aquela casa de concubina atrás do palácio, era humilhante ver Defteros servindo de babá ao príncipe Mu. Sua família, sua única família, eram Nájila e Defteros, embora Pandora sempre o tenha tratado bem. Sorriu. A mulher era bonita, insinuante, talvez a mais bela do Egito. Quando muito jovem, foi apaixonado por ela, mas qual homem do império não foi? Hoje, Pandora era apenas a esposa de Hades, sem nenhum poder político, já que fora preterida à rainha. Saga escolheu a doce prima Nefertari, a prima que não havia ocupado todas as camas da nobreza como aconteceu a Pandora. Hades conhecia a história da mulher, afinal ela já estava casada quando passou a ser amante dos irmãos, mas parecia não se importar, parecia que a desejava para algo maior. Ela era apenas um investimento.
“Talvez eu deva tomar esse tão caro investimento...”, Aspros pensou e então voltou ao trabalho. À noite, estaria no castelo de Hades.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Radamanthys foi acomodado num dos luxuosos quartos de um castelo tão monumental que foi capaz de impressionar até Kanon, príncipe do grande império do Egito. Não que as construções do seu povo fossem menores, mas ali, em um lugar tão bucólico, em que a água era abundante não apenas nas moções, as construções pareciam se harmonizar com a natureza. Havia árvores imensas nos pátios, arbustos em todos os cantos, disputando espaço com as pedras luzentes e coloridas que formavam desenhos de deuses e animais, cães, gatos, ovelhas e cavalos, que passeavam tranquilos, muito gordos e bem cuidados, acompanhados por homens e mulheres de pele escura como o ébano e de beleza estonteante.
A Babilônia naqueles dias era uma terra cosmopolita que abrigava desde loiros vindos do Norte às lindas deusas do Orun, dos confins da África. Kanon reparou nisso, nos minutos entre a sua chegada e o encaminhamento de Radamanthys para o luxuoso quarto. Era um lugar maravilhoso. Saga já lhe tinha relatado, mas somente vendo, ele fora capaz de mensurar o quão exótica eram aquelas terras.
Um sacerdote-médico limpou a ferida de Radamanthys e a costurou na superfície, pois, segundo ele, o ferimento já estava fechado por dentro, evitando contaminação e hemorragias. Ainda assim, o general não acordava, o que deixava o príncipe extremamente preocupado.
“Você não vai morrer para que me sinta culpado, seu bastardo!”, pensava Kanon, sentado ao lado da cama do enfermo.
— Príncipe — o general babilônico apareceu na entrada do quarto, atravessando a cortina de fitas coloridas —, teu quarto está pronto, há uma terma, se desejares um banho. O rei está retornando de uma viagem, logo estará aqui. Um servo ficará ao teu dispor. — dito isso, o militar se retirou. Kanon ergueu-se e foi levado ao seu quarto por um servo que o esperava do lado de fora dos aposentos de Radamanthys.
Num andar inferior ao que estavam os egípcios, Ikki e Asmita foram direcionados a alojamentos menos suntuosos, mas nem por isso desconfortáveis ou desagradáveis.
Asmita aproveitou para tomar um banho, coisa que não fazia há vários dias, desde que pararam no último alojamento numa cidade portuária. Estava imundo e aproveitou muito bem a gigantesca tina de bronze que recebia água morna de duas jarras presas às paredes. Era uma tecnologia fantástica, mas não surpreendente vinda de um lugar cercado de água. Deveria haver tubulações que levavam a água do rio até uma fornalha subterrâneas que a aquecia e distribuía para as salas de banho do castelo. Uma simples alavanca de madeira fazia a água cessar. Asmita aproveitou também os sabões perfumados e óleos essenciais que havia ali, deixando a água somente quando se sentia completamente limpo e relaxado. Dirigiu-se então ao quarto e começou a se secar, vestindo-se com roupas que foram deixadas para ele: um conjunto de túnica e calça branca, de tecido rústico, que ele achou ser a mesma vestimenta dos servos. Mas o herdeiro do trono de Najah há muito havia se despido do orgulho. Orgulho não levava a nada, apenas deixava os homens cegos. Vestiu-se na calça, calçou as sandálias no lugar das botas pesadas que usara durante a viagem e se sentou na cama para enxugar os cabelos.
Ele estava de costas para a porta quando Ikki entrou. O árabe engoliu em seco, mirando as costas nuas do príncipe persa. Sua mente foi envolvida em um túnel de lembranças. Quantas vezes não entrou no quarto e encontrou Shaka daquela mesma forma. Ainda se recordava como ele se virava e sorria, antes de correr e o abraçar rindo como a criança sapeca e feliz que era.
Balançou a cabeça e pigarreou, tentando libertar-se das lembranças e fazendo-se notar.
—Oi, Ikki — Asmita revelou que já sabia da presença do outro. — Notícias do general egípcio?
— Está sendo tratado. Vim chamá-lo para comer alguma coisa. Aldebaran se preocupa com o fato de seres magro em demasia, segundo ele — sorriu levemente.
Asmita riu e se ergueu da cama, deixando a toalha ali mesmo e começando a vestir a túnica larga. Ikki também vestia roupa semelhante, as escravas solicitaram as roupas de todos para que fossem lavadas, dizendo simplesmente que “o magnífico” gostava de tudo muito limpo no castelo.
— Comer não é ruim, mas que não nos tornemos glutões — o persa replicou.
— Digas isto a meu companheiro que ama uma farta mesa — Ikki falou ao passo que eles andavam devagar pelo corredor amplo do castelo, um grande pátio aberto que dava para um gigantesco jardim cercado de fontes, onde vários tipos de aves repousavam. — Parece que tudo neste lugar é verde e água...
— Sim. Há uma áurea de tranquilidade, mas não te enganes, percebo energias agressivas dominando tudo...
— Energias?
— Sim. Nossos movimentos, pensamentos e até sonhos produzem energia e, às vezes, essa energia cria vida, vidas geradas de nós...
— Interessante... — o árabe sorriu, descrente.
— Cuidado, tamudaei. Se observares direito, há uma infinidade de serpentes venenosas escondidas nesse verde paradisíaco e crocodilos famintos nessas águas límpidas.
Ikki calou-se quando eles chegaram a um enorme salão, repleto de mesas cumpridas, onde vários escravos serviam iguarias perfumadas, vinhos diversos e frutas exóticas. O árabe aspirou o aroma, sentindo a fome aumentar. Uma jovem os guiou a determinada mesa. Aldebaran já estava sendo fartamente servido.
— Pensei que não viessem mais, experimentem o faisão, está uma delícia! Na verdade, a comida toda está boa, até mesmo os vegetais estão cozidos com especiarias, Asmita.
O príncipe persa riu com o entusiasmo do guerreiro saubeu e sentou-se ao seu lado, escolhendo alguns vegetais e colocando-os num prato de barro pintado e decorado com símbolos do império.
— Quando o rei chegará? — Ikki indagou, ansioso. — Não tenho tempo para banquetes, preciso saber onde está Shaka!
— Precisamos respeitar o hospitalidade... — Aldebaran advertiu, encarando o amigo e baixando um tom na voz. — Não seria prudente ofender essa gente.Não agora, Ikki.
— Não estou me importando em ofender o rei, contanto que encontre Shaka! — o tamudaei falou entre dentes. Nenhum deles poderia mensurar seu desespero.
— O saubeu tem razão — Asmita replicou, calmo. — Pelo que percebo, não sairemos vivos se ofendermos Hamurabi.
Os dois guerreiros olharam ao redor e perceberam que, quase ocultos nas sombras, havia vários soldados armados ao redor do salão.
— A cidade é fortemente guardada, pois sofre ameaças desde sua fundação — explicou Asmita. — Hamurabi é um homem cuidadoso, inteligente e atento.
— Quem é esse homem afinal? — Ikki ralhou, entre dentes, tentando conter a impaciência.
— Ouvi dizer que é um jovem inteligente e sanguinário. Alguém que não poupa esforços quando quer algo e que sempre consegue o que quer.
— Se ele não me disser o que fez de Shaka, a única coisa que conseguirá será minha saif em seu pescoço antes que possa se desculpar.
— Cala-te. Acalma-te e coma. — Asmita ordenou num tom de voz mais forte do que ele costumava usar, surpreendendo os companheiros. — Não gosto dos espíritos famintos por sangue que o cercam agora, Ikki. Acalma-te e deixe-os sair de perto. Encontraremos Shaka.
Ikki achou melhor não retruncar, os anos o ensinaram a ouvir, embora fosse difícil. Mesmo muito jovem, não era mais o adolescente impulsivo e cheio de fogo do passado. Aprendera muito com Hasgard, aprendera muito com Zahid, aprendera muito com Violet. Suspirou. Estava há muito tempo longe de casa, mas a verdade era que sempre se sentiu um nômade, um exilado. Estaria sempre exilado enquanto não encontrasse a pessoa que era seu lar. Seu amor. Sua estrela.
A Serpente e a Estrela
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A invasão se deu na noite anterior. O Egito dormia tranquilo, e os faróis não deram conta da barca silenciosa que adentrava o território, afinal, ela trazia a bandeira e todos os emblemas necessários para entrar no Egito. Todavia, em vez de atracar no porto como as demais, a embarcação vinda de Lundi pegou um canal e adentrou o Nilo, indo esconder-se nos pântanos verdejantes do grande rio. A emboscada estava pronta.
Pandora estava nervosa. Mirava a grande lua que tornava seus passos menos ocultos do que gostaria. O castelo era todo silêncio, pois Hades havia, segundo disse, ido a Assuã, encarregado dos negócios do faraó. Precisava agir enquanto era tempo.
Suspirou, passando as mãos nos seios inchados, cobertos pela pintura dourada e mirou-se no espelho mais uma vez. Sabia que naquela época especial, as mulheres ficavam mais atraentes e que o cheiro também mudava. Durante vários anos, ela evitou sexo em seu período fértil. Nunca quis ser mãe, nunca sentiu o chamado da maternidade, embora soubesse que esse fosse seu destino, como era de todas as mulheres. Contudo, enquanto pudesse evitá-lo, faria. Vinagre, o desconfortável papiro, e, sobretudo, os “olhos de sobek”, o mais eficiente contraceptivo que existia — nada mais que fezes de crocodilo, purificada com ervas e mel e moldadas em forma de pequenos óvulos que eram colocados no colo do útero das mulheres que não queriam conceber. A alta alcalinidade das fezes do reptil matava a semente masculina e as ervas e o mel evitavam infecções —, foram usados durante toda sua vida sensual, mas agora, ela não apenas queria, precisava conceber. Descobrira um terrível segredo, segredo que Hades lhe privara e que, por isso, nunca o perdoaria. Um segredo que poderia colocá-la e a seu filho no trono do Egito.
Então, ela continuava esperando. Esperaria mesmo que fosse por toda a noite. Ele teria que aparecer, ela precisava do seu ambicioso meio-irmão.
Enquanto isso, na casa de Nájila, a pequena família agregada ao grande castelo de Men-nefer terminava o jantar. Najila resolveu recolher-se mais cedo e os gêmeos ficaram sozinhos, bebendo cerveja.
— O que Pandora quer contigo? — Defteros foi direito como sempre era. Não confiava na meia-irmã e tinha medo que ela envolvesse Aspros em algo perigoso.
— Não sei. Deve querer o mesmo que quer sempre que o procura — Aspros disse, parecendo pouco preocupado.
— Estou falando sério, Aspros. Não sei se percebeste, mas as coisas estão estranhas. Sinto que algo irá acontecer...
— Parece Najila falando — Aspros riu e passou a mão de forma rude nos cabelos do irmão. — Vai acontecer sim! Se os planos de Hades derem certo, receberemos nosso castelo.
— Então estás mesmo com ele? — Defteros ergueu-se, nervoso. — Por todos os deuses, Aspros, eu não confio naquele homem!
— Eu também não. Mas ele é nossa melhor opção, Defteros. Confie em mim. Sei o que estou fazendo e, de todo jeito, tenho um segundo plano se este não der certo.
— Hades não é alguém para se brincar, irmão. Tenha cuidado.
— Eu terei. — Aspros sorriu e beijou a testa do gêmeo mais novo. — Preciso ir.
Defteros assentiu e viu o irmão passar pela porta, sem olhar para trás. Sentiu vontade de segui-lo, mas tentou acreditar que Aspros sabia o que fazia. Ele sempre sabia.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
A água escura derramava-se e tomava cada parte do disco solar desenhado no chão. Ele estava no centro do disco e à sua frente, Anúbis mostrava seus dentes afiados e lhe apontava seu cetro, ganindo num riso de cão. A água avançava e nela começavam a aparecer imensos crocodilos que nadavam sinuosos.
“Sobek-neferu, Sobek-hotep...”, uma voz suave sussurrava enquanto os crocodilos chegavam aos seus pés e mordiam seus calcanhares. De repente, não era mais um crocodilo, e sim uma imensa serpente negra. Ele soltou um grito de desespero!
— Por Rá! — Hades acordou sobressaltado, o rosto suado, o coração batendo forte. — Deuses... — murmurou, percebendo que ainda estava na estrada, mesmo sendo tarde. Havia voltado de Medinet el-Fayum, onde teve um encontro interessante e ainda faltava algumas milhas para chegar à Men-nefer. Iria direto ao grande palácio, precisava falar com Shaka ainda naquela noite, se possível.
Sorriu, sorriso que logo se tornou uma gargalhada. Estava na cidade de culto a Sobek, por isso o sonho. Não achava que devesse se preocupar, o cetro de Anúbis apontava para ele e dizia: Tu és o senhor do bem e do mal.
“Terei minha vingança...”, Hades murmurou. Finalmente conseguiria destruir Leontópolis e tomar aquilo que era seu de direito: o trono do Egito. O trono que fora usurpado de seu avô, da sua linhagem, por um filho de Maahes.
Relaxou nas almofadas que decoravam a cama sobre o palanquim carregado pelos camelos. Esperava ter sonhos melhores.
A Serpente e a Estrela
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Aspros parou no meio do grande salão e encarou os olhos da bela mulher quando ela finalmente virou-se para encará-lo.
— Feliz que tenhas vindo, irmão. — Pandora sorriu, aproximando-se dele e tomando-lhe a mão. — Vem, bebas comigo.
— Estou curioso. Por que me chamaste aqui depois de tanto tempo?
— Tu não ficas muito tempo na cidade, por isso raramente nos encontramos. Sempre visito Najila e Defteros.
— Eu sei. — Aspros pegou a taça que lhe foi oferecida e observou as unhas longas e pintadas de um vermelho fraco da mulher. Tudo em Pandora era sedutor e ardiloso. — Por isso estou mais curioso. Onde está teu marido?
— Hades precisou fazer uma viagem curta. Deve estar de volta em algumas horas, já falei.
— E foi por isso que me chamaste aqui? Te sentes solitária?
— Sim. — Pandora provou seu vinho e tomou o braço do general, levando-o para a sacada, para que mirasse a enorme lua no céu. — Aspros..., na verdade, eu nunca fui feliz desde que deixei nossa casa...
— Tua casa. A casa nunca foi minha e de Defteros.
— Não sejas ingrato. Tivemos uma infância feliz. Sempre fomos tratados como iguais, mesmo que não oficialmente. Nunca recebeste sobras. — Pandora suspirou. — De toda sorte, sinto falta daquele tempo. Hades está sempre ocupado com suas maquinações políticas e sou sempre deixada de lado.Estou cansada disso, sou irmã do faraó...
— E gostarias de ser esposa também.
— Já me conformei com a escolha de Nefertari, há muitos anos.
— Será mesmo, irmãzinha?
Pandora voltou os olhos violeta para Aspros e sorriu.
— Com meu destino sim. Mas minha linhagem pode ter um destino diferente.
— O que queres dizer?
— Faça-me um filho, Aspros. Garantas que o próximo na linha de sucessão seja nossa prole. Se assim for, terás tanto poder quanto almejas desde que nasceu.
Aspros arregalou os olhos e deu um passo para trás, afastando-se dela.
— Estás louca?! O que pretendes, matar Mu? — ele indagou, horrorizado com aquela possibilidade. — Amaldiçoar-se-á e a todos que compactuar contigo, mulher louca!
— Não pretendo matar ninguém, irmão. Muito menos aquele príncipe fraco e insosso que está apaixonado por um filho de Sekmet! — ela falou com desprezo. — Mu não quer o trono, tenho certeza que cedo ou tarde abrirá mão dele para correr atrás daquele garoto irmão do vizir.
— Saga o mataria...
— Não! —Pandora riu.
— Não? Um faraó que repudia o trono? Saga não o perdoará.
Pandora revirou os olhos. Por que os homens são tão idiotas?
— Ele o mataria ou exilaria, caso o jovem a quem Mu ama não fosse irmão de Aioros, o vizir e verdadeiro amor de Saga.
— Como sabes de tudo isso? — Aspros indagou, abismado. — Bruxa! Pandora, não me digas que estás consultando os mortos! Não me digas que tocaste naquele...
— Não, Aspros, não! — Pandora riu. — Não preciso do livro dos mortos para conhecer intrigas palacianas, meu amado irmão. Todos que são mais atentos sabem que, embora mantenha aquela linda e rara peça do Oriente como seu amante, que embora tenha se casado com nossa prima para manter a linhagem dos deuses, Saga Hórus de ouro sente o coração bater pelo nosso honorável vizir.
— Isso... Isso seria um... escândalo...
— Aioros sabe disso, por Saga, eles já seriam amantes públicos há muito tempo. Mas Aioros escolheu ser o grão vizir do Egito.
— Os sacerdotes não aceitariam!
— O faraó não precisa agradar a ninguém, ele é um deus! — Pandora suspirou. —O problema é o filho de Sísifo, o íntegro, venerável e santo vizir. Mas ele pouco me interessa esta noite, Aspros — voltou os belos olhos violeta decorados com o verde e o negro do khol para o general. — Hoje só desejo que me faças um filho...
Aspros passou as mãos nos cabelos, nervoso. Não confiava em Pandora, não confiava em ninguém e ao mesmo tempo, era uma proposta tentadora por um filho seu na linha de sucessão do trono do Egito. Mesmo que Mu subisse ao trono, se ele não tivesse filhos...
— Pandora...
Pandora afastou-se um pouco dele e desfez o laço da saia, deixando que ela fosse ao chão, exibindo sua nudez estonteante para o general.
— Não hesites. Faça-me um filho.
Como que hipnotizado, Aspros a puxou para si pela cintura e tomou-lhe os lábios em um sôfrego beijo. Pandora sorriu, envolvendo os ombros fortes do general com seus braços delicados. Aspros a ergueu pelas pernas, sentando-a no apoio da balaustrada, devorando-lhe o corpo exposto e desejoso sob o luar. Os planos da mulher estavam se cumprindo.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
O palácio estava silencioso demais. Era o que Shaka pensava. Havia três dias que Saga não o procurava e agora soubera que ele estava fora da cidade. Segundo os servos, ele fora visitar as obras de um novo templo em Assuã. Todos pareciam tensos, inclusive ele, que aguardava orientações de Hades. Estava ansioso por saber o que aquele djab queria consigo. Como escravo, Shaka tinha total ciência de que qualquer erro que houvesse no plano do governador, seria ele o elo mais fraco. Seria ele quem perderia a vida. Por isso, precisava ter cautela.
— Shaka... — a voz de Mu invadiu seus domínios e o nunefer passou a mão nos cabelos longos, preso numa trança folgada, e encarou o príncipe que se aproximava e sentava-se ao seu lado. Já o esperava há alguns dias, sabia que cedo ou tarde, o jovem apareceria para chorar em seu ombro.
— O que houve, Mu?
— Aiolia... — o príncipe murmurou — Ele conheceu a noiva... Ele irá mesmo se casar e nada posso fazer contra isso.
— Sabias que isso aconteceria. Logo serás tu. — Shaka disse, mirando o príncipe, sem piedade. Ainda estava magoado com Mu, pessoa que ele achava ter entregado a Hades seus segredos. Não conseguia odiá-lo, mas seu sentimento fraternal pelo jovem egípcio agora estava contaminado pelo rancor.
— Mas dói... dói muito... — Mu falou quase num gemido, ignorando o tom pouco amistoso do persa. Shaka era a única pessoa com quem poderia conversar sobre aquilo.
— Fujam.
O egípcio ergueu os olhos grandes para o loiro que o mirava de forma séria, como uma máscara de mármore.
— Não podes falar sério, meu pai me mataria.
— Eu fugiria. Como fugi uma vez.
— Conte-me mais da tua história, meu amigo. — Mu segurou-lhe as mãos, os olhos úmidos, devorando o rosto impassível do dançarino. — Quem sabe a coragem que tiveste não visite a mim e o amor me torne louco o suficiente para desafiar o poder de meu soberano.
— Louco... — Shaka murmurou com um sorriso amargo e saudoso ao mesmo tempo. — Conheci um homem louco o suficiente para perder um reino. Um homem que trocou ser rei... por uma estrela.
— Uma estrela?
— Um astro distante, impossível, insensível e que ele jamais deveria tocar! — Shaka suspirou. — Um nobre e um escravo.
— Tu.
— Eu, príncipe de Najah, descendente da nobre linhagem de Sohan, um escravo. Ele, um ser rude, ignorante e violento..., meu senhor.
— E mesmo assim tu o amaste.
— Não só amei como amo de todo o meu coração. Sempre amarei.
— Conte-me um pouco mais...
Shaka passou os dedos no rosto de Mu. Não tinha mais por que se calar. Hades sabia seu segredo, quantos mais saberiam? No mais, para eles, seria apenas mais uma história.
Havia uma grande caravana acompanhando o mordomo-mor de Hamurabi em sua excursão pelas terras da Arábia. Almutes gigantescos puxavam carroças-gaiolas cheias de escravos enquanto eles atravessavam o deserto em direção ao porto de Alabarth.
Estranhamente, Shaka não ocupava uma gaiola como acontecia aos outros pobres homens e mulheres comprados pela Babilônia. Ele ocupava o palanquim de krishna que, na verdade, era uma carroça de madeira polida, decorada em ouro e marfim, puxada por dois dos grandes paquidermes.
O carro possuía todo o luxo que era de se esperar para o homem que cuidava do tesouro do grande império: um rico canapé sobre um longo tapete felpudo, cercado por almofadas coloridas, decoradas por figuras místicas. Shaka estava deitado no canapé enquanto o mordomo-mor lia algo num longo pergaminho amarelado numa folha de pazir. Ele examinava tudo com muita atenção e vez por outra tomava de um palito molhado numa tinta de heras negras e pontuava coisas no pergaminho.
— Durante muito tempo escrevemos no barro — ele disse, percebendo que Shaka o observava, mesmo sem olhá-lo. — Mas aprendemos com povos mais avançados a técnica de criar esse material a partir de folhas de pazir, uma planta que nasce nas áreas secas de Ur.
Shaka apenas o encarava em silêncio, os olhos perdidos, a mente ardendo de aflição.
— Por que estou aqui? — indagou finalmente.
— Porque eu quero.
— Por que tu queres?
Krishna finalmente ergueu os olhos para ele, examinando-o atentamente.
— Tu me lembras alguém. Faz 10 anos que não vejo um rosto como o teu. 10 anos que não vejo tanta pureza e ao mesmo tempo tanta determinação. És raro, menino, mereces um raro destino.
— Não há destino para mim sem ele — Shaka murmurou sem desviar o olhar. — Liberte-me, deixe-me procurá-lo.
— Menino, este amigo teu deve estar morto...
— Não diga isso!
— Por que? A morte faz parte deste mundo, é inevitável. Hoje, amanhã, ela sempre vem, pequeno.
— Então prefiro morrer também. E não morrerei antes de vê-lo novamente. Eu prometi sobreviver por ele.
Krishna apenas o encarava num misto de divertimento, admiração e piedade.
— Então eu o ajudarei a sobreviver. E não há maior chance para que sobrevivas que indo comigo para a Babilônia.
— Como um escravo novamente? — Shaka riu amargo — Eu nasci príncipe...
— Conte-me tua história, pequeno.
—Os tamudaeis de Karna pilharam e queimaram minha cidade, mataram minha família e me levaram como escravo...
— Os tamudaeis não fazem escravos. — Krishna replicou. Andava muito tempo pela Arábia para conhecer todos os seus clãs, dos mais civilizados aos mais selvagens como os tamudaeis.
— Eles pensaram que eu fosse uma menina e o Ikki me protegeu. Ele é filho do líder do clã e me ganhou de presente.
O mordomo-mor franziu as sobrancelhas. Não conhecia muito das tradições tamudeias, mas não achava que elas admitissem que um príncipe do clã se relacionasse com outro homem. Começava a entender melhor o drama do belo branco à sua frente.
— Vós fugistes.
— Tentamos. Fomos capturados e... agora sou teu escravo.
— Meu, não. Da Babilônia.
— Não importa. Eu deveria estar na Saubeia, se eu estivesse na Saubeia, ele me encontraria.
— Se ele estiver vivo e quiser encontrá-lo, isso acontecerá, não importa onde estejas. Eu li uma vez sobre homens que atravessaram mares e desertos para encontrar aqueles que amavam. Se esse homem de quem falas com tanta paixão o amar com igual intensidade, ele o encontrará. Confie.
— Eu confio. Ele me encontrará.
Krishna assentiu com a cabeça. O garoto ainda estava muito machucado, mas tinha uma força de espírito como pouco viu na vida. Ele lhe lembrava alguém importante e, contra a vontade, o poderoso senhor dos tesouros da Babilônia sentia-se simpático a ele.
— Descansa, pequeno. Precisas recuperar tuas forças.
Shaka concordou e caiu num sono profundo que só foi perturbado quando eles chegaram ao grande navio. Todos os escravos foram acomodados nos porões, que apesar de tudo, estavam limpos, menos ele. Ele seguiu com Krishna para o seu gabinete. Os soldados que acompanhavam o mordomo-mor pareciam surpresos que ele estivesse na companhia de um escravo, já que isso não era do costume do poderoso homem. Mas ninguém seria capaz de fazer perguntas, apenas seguiam as ordens, e a ordem agora era içar velar em direção à Mesopotâmia.
A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
Ikki, Asmita e Aldebaran ainda estavam no grande salão de banquetes quando escutaram burburinhos pelos corredores. Servos movimentaram-se, atraídos pelo barulho das rodas de madeira. Era evidente que um grande carro puxado por cavalos velozes se aproximava.
— Ele chegou! Ele chegou!!! — diziam as pessoas e abandonavam seus manjares para correr até a frente do grande castelo. Os forasteiros acharam por bem segui-los e viram algumas das belas mulheres de ébano abrirem um tapete de ramas até a porta do grande carro. Um homem alto, um daqueles heróis fantásticos da África, pulou da condução dos cavalos e abriu a porta. Os servos prostraram-se, mas os visitantes e os militares continuaram de pé. Ikki viu com atenção quando um pé alvo, calçado em sandálias de tiras pisou graciosamente o tapete. Seus olhos subiram do pé para o tornozelo ornado por uma peça de ouro cheia de guizos, percorrendo a perna coberta por uma calça curta azul, ornada por um longo cinturão dourado, indo perder-se um pouco na barriga alva e nua, dona de gracioso umbigo, que ficava exposta devido ao farfalhar do longo roupão azul que ele usava. Os olhos do forasteiro então chegaram ao rosto mais incrivelmente simétrico que ele já havia visto.
Um mensageiro dos deuses, era isso que aquele homem de alvos cabelos e olhos tão límpidos quanto os mares calmos de verão parecia. Ele direcionou seu olhar firme aos visitantes e começou a caminhar até eles enquanto a multidão sussurrava:
Oh, belo! Oh, sagrado! Oh, profundo mistério!
Ikki franziu as sobrancelhas quando percebeu que o homem mirou Asmita por alguns instantes, mas, estranhamente, não conseguiu ler nada em seus olhos. Depois de analisar brevemente o persa, ele o mirou diretamente. O belo homem se aproximou até que seu corpo estivesse há centímetros do árabe, que pôde sentir seu perfume doce e exótico.
— Ikki, o tamudaei — ele disse e sua voz era incrivelmente forte e masculina, muito diferente da sua aparência divinamente delicada.
Por alguns minutos, o árabe não soube o que dizer, mas depois, achou por bem ser educado e cortês com o único homem capaz de ajudá-lo em sua busca. O único capaz de fazê-lo finalmente encontrar sua estrela.
Inclinou-se e fez uma reverência, antes de pronunciar com respeito:
— Hamurabi, rei de Babilônia.

A Serpente e a Estrela
الثعبان والنجوم
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