A serpente e a estrela

21 Condenados pelo sangue


Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Mais um capítulo demorado, mas enooorme, tá vendo? Ele demora, mas quando vem, vem cheio de acontecimentos hehehhehe. Espero que gostem e comentem, me digam o que acharam. Beijos a todos que continuam fazendo parte desse universo fantástico e boa leitura! Visitem o blog! http://yaoifictions.blogspot.com.br/2016/02/a-serpente-e-estrela.html Sion

Condenados pelo sangue

Capítulo 20

A noite estava quieta no castelo. Faraó, nomarcas e vizires reuniam-se na sala de guerra, o que dava certa liberdade àqueles que não participavam do jogo político e preferiam os furtivos encontros numa sociedade que tinha o amor em segundo plano.

Mu estava sentado na cama, apoiado ao peito de Aiolia, que afagava seu ombro. O jovem militar trazia uma expressão pensativa e nem percebia que dali a pouco, o grande astro se ergueria, denunciando o que ele e o príncipe faziam na escuridão da noite. Aiolia tentava achar uma saída, mas não a encontrava. Seu casamento aconteceria em breve, caso não pensasse em algo logo.

— No que estás pensando? — Mu indagou. Ele também não conseguia dormir.

— Tu sabes.

— Sim, eu sei — suspirou. — Quanto tempo?

— Breve.

— E nos separaremos para sempre... — Mu sorriu, amargo. — Engraçado isso...

— Não vejo graça alguma.

— É irônico. Percebas como os deuses brincam com nosso sangue. Saga e Aioros separados por um título, e nós, da mesma forma.

— Não precisa ser assim... Vou pensar num jeito...

— E matar teus pais de desgosto? Melhor não. Faremos o que temos que fazer, Aiolia.

— Mu...

O príncipe virou-se para encará-lo.

— Eu morreria se algo acontecesse a ti. Saga não perdoaria uma traição como essa...

Aiolia franziu as sobrancelhas e mordeu os lábios, compreendendo as palavras do príncipe.

— Aioros me protegeria...

— Aioros seria a mão que ergueria a adaga. Não te engane, ele ama mais o faraó que a qualquer outro — Mu não temeu declarar.

— Tu não conheces o meu irmão.

Mu suspirou e sorriu, tocando o rosto dele. — Não vamos brigar. Prefiro que me ame, me ame mais e mais, enquanto ainda temos tempo.

Aiolia beijou-o, puxando-o mais para si. Ainda tinham algum tempo, antes que aquele dia definitivo chegasse.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

— Ninguém vai dormir neste palácio hoje? — Aioros indagou, já um tanto irritado pelo cansaço, encarando o faraó, que não parava de ler os mapas nos diversos papiros espalhados pela mesa de pedra.

— Já irei me recolher. Nossa viagem à Medinet el-Fayum será mantida? — Saga perguntou, ainda olhando os mapas.

— Se assim o senhor quiser, meu soberano — Aioros respondeu com um quê sarcástico, que sempre acabava saindo quando estava muito cansado e já não conseguia controlar sua personalidade expansiva.

Saga arrumou a postura e encarou o grão vizir.

— Saiam. Saiam todos. — disse aos demais conselheiros que ali estavam. Estes, logo abandonaram a grande sala. — O que há contigo?! — ele indagou, irritado, arrancando o nemés e jogando-o ao chão. — Achas acaso que estou menos tenso e preocupado? Por que pensas que apenas tu te importas?

— Estou cansado, Saga... — Aioros murmurou, passando as mãos nos cabelos castanhos.

— Acho que já nasceste cansado! — bufou Saga. — Nada que eu faça parece correto para ti, Aioros, por quê?

Aioros passou as mãos nos cabelos novamente, respirando fundo. Estava verdadeiramente fatigado e sem vontade de discutir naquele momento. Não queria uma crise emocional de Saga, até porque não sabia se conseguiria suportá-la sem dar um soco em seu rei.

— Saga, eu acho que necessitas de um banho e uma boa noite de sono. Partiremos cedo amanhã para verificar as revoltas em Medinet el-Fayum. Por favor, esteja bem.

Saga também respirou fundo e passou as mãos nos fartos cabelos. Estava mesmo fatigado de toda aquela tensão.

— Concordo contigo, grão vizir — ele sorriu, algo enigmático, que Aioros percebeu e ergueu uma sobrancelha.

— Então..., boa noite?

— Venhas comigo para meus aposentos. Quero tua companhia comigo hoje...

Aioros respirou fundo num cansaço evidente. — Meu soberano, isso é completamente inadequado...

— Apenas me obedeça. Vamos — Saga disse, adiantando-se e saindo da sala.

Aioros baixou o olhar e soltou um suspiro, mas seus pés demoraram a obedecê-lo, talvez pelo tremor das pernas. Ele ajeitou o manto e seguiu o faraó até seu quarto.

Havia quatro escravos ali, e assim que o soberano apareceu, eles baixaram o olhar com temor e o reverenciaram.

— Encham a banheira e perfumem a água, estou exausto. — demandou Saga, caminhando até a varanda e pedindo para que Aioros o acompanhasse com um olhar. Dali era possível observar a vastidão do império e sentir a brisa que balançava as palmeiras do deserto. — Sabes o que sempre invejei nos outros homens?

— Sei.

Saga riu. — Sabes tudo de mim, não é, Aioros? Talvez me conheça mais que eu mesmo.

— Não tanto.

— O que eu invejo nos outros homens?

— A liberdade.

— Claro — Saga suspirou. — Eu gostaria de ser um andarilho sem nome alguma vez. Poder andar pelas ruas sem que as pessoas temessem ou me odiassem.

— Esse é o fardo de todo grande líder, meu soberano.

— Também é o teu, Aioros?

— Não sou um grande líder.

— Não? Às vezes acho que tu és mais respeitado que eu...

— Isso não...

— Sou apenas temido, Aioros. Tu és amado, isso é um fato. É o fardo dos deuses. Ser temido. A banheira está cheia, dispa-se e entre.

Aioros mirou o rei, surpreso.

— Meu soberano...

— Obedeça-me. — Saga insistiu, ele mesmo livrando-se do saiote que vestia e entrando na banheira. A água estava levemente fria, refrescante. O faraó suspirou, recostando-se à borda da banheira e mirando Aioros, sem dar nenhuma chance de ele fugir.

O vizir começou a despir-se lentamente, um tanto constrangido, evitava olhar o faraó, quando entrou na água, mas Saga, pelo contrário, fazia questão de examinar cada pedaço do corpo forte e bronzeado dele.

— Tu és tão lindo.

— Pare com isso! — o vizir retruncou com as bochechas coradas, mergulhando na água, de mau humor, o olhar baixo.

Saga riu.

— Adoro quando esqueces que sou o faraó.

— E se eu esquecer e mandá-lo para... — respirou fundo. Não estava sendo tranquilo. — Para Ammit?!

— Eu não iria a lugar algum sem meus olhos e meus ouvidos. Saga dizia, achando graça da cara enfezada do amigo. — Por que não vem aqui e faz uma massagem com óleo de jasmim nas minhas costas? Preciso relaxar, tu mesmo me disseste — provocou.

— Tu tens vários escravos que podem fazer isso. Onde está teu nunefer? — resmungou Aioros.

— Ciúmes?

— Não sejas tolo!

— Estou sendo?

Aioros calou-se. Saga moveu-se na água, aproximando-se dele.

— Saga... — o grão vizir murmurou quando o faraó segurou-lhe os cabelos e atraiu seu rosto, mas não pôde dizer mais que isso, pois sua boca foi tomada num beijo envolvente.

Aioros mergulhou naquele beijo com toda fome dos anos perdidos. Seu corpo projetou-se para frente por instinto, sendo amparado pelo braço do faraó que envolveu sua cintura, puxando o corpo moreno contra sua pele branca.

“O grão vizir vive para faraó e por faraó. O grão vizir não fará nada que possa prejudicar faraó. O império é menor que faraó, deus na terra. O grão vizir é a poeira aos pés de faraó.”

— Saga, pare! — Aioros o empurrou, afastando-se, o peito subindo e descendo rápido com a respiração ofegante. — Já cansei de dizer que não podemos fazer isso!

— Por quê?! — Saga ergueu-se, irritado, a água perfumada escorria por seu corpo nu, fazendo a pele clara brilhar sob as luzes das tochas. — Sou o faraó, eu posso tudo!

Aioros respirou fundo.

— Tu sabes o que algo assim significaria para nós dois! — tentou manter a razão. — Não podemos. Não podemos mais.

— Dane-se, Aioros! Tenho direito a ter o que quero! Não estou sob o jugo de convenções imbecis! — Saga irritou-se. — Por que não podemos, quando eu quero?!

Aioros o encarou, sorrindo de leve.

— Por isso. Não sou um brinquedo, nem um presente...

O rei entreabriu os lábios, incrédulo. Franziu a testa, mirando o outro, completamente pasmado:

— Por causa dele? Por ciúmes dele? — indagou, estarrecido, como se aquele fosse o maior dos impropérios.

— Não é por causa dele.

— Então por quê?! Não te entendo, vizir!

— É por tua causa, Saga. Quem tu és não me permite. Tu és o faraó e eu não sou um escravo. — Aioros disse com tristeza. — Posso me retirar, meu soberano? — ergueu-se também, baixando o olhar, submisso.

— Vá — Saga murmurou, perturbado. Aioros saiu da banheira e pegou suas roupas, começando a vestir-se. Saga baixou o olhar para as águas agitadas que cobriam parte de suas coxas, sua mente estava em total confusão. — Aioros..., sabes que... se eu quisesse... Se... não fosse quem sou...

—Tu és o faraó — Aioros lançou a ele um olhar duro. — Podes fazer o que quer, quando quiser, mas... não me daria nenhum prazer — a voz do vizir foi firme e cortante.

— Saia — Saga disse, ele mesmo saindo da água. Aioros tinha ciência de que suas palavras eram cruéis, mas as sabia necessárias. Terminou de cobrir-se com sua túnica e deixou os aposentos do rei sem olhar para trás. Estava cansado, iria para casa, entregue às lembranças. Era necessário lembrar, isso fortalecia sua decisão, mesmo que seu coração sangrasse...

Era um dia quente, um quente verão. Um dia antes de tudo. Eles deveriam ter treze ou quatorze anos, não se recordava direito. Saíram para pescar, desacompanhados, o que era extremamente proibido, afinal, Saga já era faraó e sua segurança, primordial. Mas Saga era adolescente também, e adolescentes são naturalmente rebeldes e curiosos.

Depois da pesca, não tão bem sucedida, eles resolveram descansar à sombra de uma tamareira, já afastados do grande Nilo.

— Imagine se essas lavadeiras — mirava algumas mulheres a uma distância considerável — sabem que este aqui, vestido nessa túnica simples, é o grande faraó?

— Grande porcaria... — Aioros provocou e levou um soco no ombro, gemendo e chutando a perna do amigo. — Filho de uma hipópotama!

Ambos riram e começaram a encenar uma luta, cada golpe sendo alternado por beijinhos rápidos. Até que a brincadeira se tornou mais intensa. Não se buscava mais a luta e sim o contato, e os beijinhos infantis passaram a ser mais sérios, mais molhados, mais profundos.

— Aioros... — Saga gemeu ao ter o corpo coberto pelo corpo do amigo. Aioros segurou-lhe os cabelos, afastando a franja que cobria a testa do mais velho.

— Saga..., nós não...

— Eu posso o que eu quiser... — o faraó disse, voltando a beijá-lo.

Aquela tarde... Ah, juventude... As lembranças de uma época que a vida havia levado embora cedo demais.

Aioros voltava para casa a pé. Não era tão distante e ele aproveitava para refletir. As ruas estavam silenciosas na madrugada, mas eram muito bem guardadas, não havia perigo.

Quando adentrou o pátio do castelo do clã Mahes, encontrou Aiolia no jardim. Sentado em um dos bancos de pedra, o jovem militar olhava o céu ainda escuro.

— Não consegue dormir? — o mais velho perguntou. Aiolia apenas suspirou e balançou a cabeça em resposta.

Aioros sentou-se ao seu lado.

— O que há com nós dois? — indagou com um sorriso triste.

— Há algo naquele sangue que nos puxa como um redemoinho, não é?... — Aiolia disse e encarou os olhos do mais velho. — Não quero me casar. Ajude-me, Oros.

Aioros mordeu os lábios. Conhecia aquele olhar, conhecia aquele pedido. Respirou fundo.

— O que eu poderia fazer, Aiolia, quebrar o coração dos nossos pais?

— Isso é tão estúpido! — Aiolia bufou, irritado. — O que importa quem fique por cima ou por baixo, isso não deveria significar nada... Isso é hipócrita! Todos sabem que o faraó dorme com um homem!

— Um escravo é menos que um homem...

— Acreditas mesmo nisso? Isso é imbecil! Ele não nasceu escravo, alguém o escravizou! Antes de ser um escravo ele era um homem como eu e você.

— Não importa — Aioros disse, resignado. — Seria desonroso para nossa família, ter dois filhos... submissos.

Aiolia riu, mas sua vontade era chorar. Tudo porque Mu era o príncipe, tudo porque sua família era nobre! Queria ser um escravo, certas vezes. Naquelas questões os escravos estavam mais livres que eles.

— E o amor que fique escondido pelos becos escuros do império! Eu deveria renunciar ao meu nome e vagar pelo mundo como um libertino!

— Ainda mataria a mamãe de desgosto. Aiolia, quer que lhe cuspam na cara como fizeram a Hórus?

— Não me importo, Aioros! Não sou o primeiro homem do Egito a amar outro homem, sou? E se for preciso receber pedradas por Mu, eu receberei! Não sou um covarde como você...

Estava dito antes que ele pudesse evitar. Aioros não replicou, apenas mirou o céu e soltou um suspiro.

— Acho que deve ir para a cama. Isso o ajudará a pensar melhor. — Ergueu-se e caminhou para a casa, parando uns segundo e declarando sem se voltar para o irmão: — Eu não vou envergonhar meu clã, Aiolia. Devia pensar melhor em suas obrigações como um filho de Mahes — e partiu.

Aiolia mirou o céu e rangeu os dentes num ódio impotente. “Foda-se nosso clã, Aioros!”, resmungou, mirando a última estrela que desaparecia no clarão da manhã.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

— Quando eu era pequena... Bem pequena..., sonhava com uma cidade branca, toda feita de pérolas do mar negro. Depois, quando já era uma mulher, sonhei em conhecer a Babilônia. Queria ter feito parte da comitiva de Saga, mas não pude. Dizem que é um lugar magnífico e sensual... — Pandora conversava, deitada no peito de Aspros. — Dizem que as mulheres andam nuas e raspadas.Deve ser interessante...

— Adoras as perversidades dos homens, irmã. Deveria ter nascido um.

— Os deuses não me deram essa graça.

— Caso houvesse dado, não poderias carregar o soberano no útero agora.

— Será que há algo em meu útero? Tenho medo do defeito não estar em Hades e sim em mim. E se eu for uma árvore seca, Aspros? — Pandora encarou os olhos do general. — E se eu nunca conceber? Isso é o estigma das mulheres...

— Hades não parece preocupado com isso.

— Hoje, não. Mas amanhã, se suas ambições se concretizarem, ele quererá um herdeiro. E serei descartada, caso não tenha um...

— Não será — Aspros afagou o rosto da irmã. — Quando conseguimos derrubar Saga, Hades será o meu braço direito, o grão vizir, e eu estarei no trono do Egito.

— Derrubar Saga... — Pandora se sentou na cama. — O que estão tramando?

Aspros se sentou também, arrependido de ter dito aquelas palavras, mas deveria confiar em Pandora, afinal ela era esposa, seria beneficiada pelos triunfos do esposo.

— Hades tem um plano. É tudo que posso dizer. Breve, as coisas mudarão no Egito, minha pequena rainha, e teremos o status que merecemos.

— Espero — a bela sussurrou, mirando a escuridão da noite pela janela. — Se ele não conseguir, darei o jeito de garantir meu futuro. Nosso futuro, irmão.

— E eu estarei ao teu lado. Sempre — Aspros beijou-lhe as mãos formosas.Pandora sorriu e deixou-se cair em suas sedas. Era uma pena que para conseguir o que precisava tivesse que prejudicar um dos seus irmãos, mas o que poderia fazer? Era uma mulher, frágil em seu tempo, precisava fazer o necessário.

Aspros ergueu-se da cama. O dia não demoraria a raiar, era hora de ir embora.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Era alta madrugada. Aiolia havia partido há algum tempo. O príncipe perdeu o sono, então se arrumou e foi para o quarto de Shaka. Precisava conversar um pouco e sabia que o escravo acordava muito cedo, isso quando ele não estava com seu pai. E, realmente, Shaka não estava no quarto, então ele apenas sentou e esperou no jardim, as emoções que gritavam dentro dele não lhe permitindo o sono.

No quarto do faraó, o jovem nunefer estava com joelhos e mãos apoiados na cama enquanto recebia os movimentos intensos do corpo do faraó. Shaka apertava os lábios e os lençóis, rezando mentalmente para que aquilo acabasse logo, Saga estava especialmente selvagem e insaciável naquela noite. Sentiu o faraó se derramar em seu corpo com um grunhido e apoiar-se nas suas costas, beijando-as, e depois deitar-se na cama. Shaka fez o mesmo, deixando o corpo cair sobre os lençóis.

Um silêncio, quebrado apenas pelo agitar da respiração de ambos, era tudo o que havia entre eles.

— Tu já fingiste melhor, Shaka. — Saga disse com amargura, depois de algum tempo.

— Como? — Shaka indagou, depois de um suspiro.

— Já fingiste gostar de sexo comigo.

— Já fingiste gostar de mim... — murmurou com um leve desdém.

Saga calou-se, suspirando profundamente.

— Ainda não me perdoaste?

— Perdoar é irrelevante, meu soberano. Um escravo é irrelevante.

— Mas nasceste livre, não foi? Por que não me contas nada de ti, Shaka?

— Não há o que contar. Não há nada antes de ti, meu soberano.

Saga fez silêncio mais uma vez. Estava amargurado e não queria brigar com Shaka, mas se antes conseguia alguma compensação no calor dos braços do ariano, agora isso estava morrendo, estava morrendo porque simplesmente ele não estava conseguindo sufocar mais seus sentimentos. Aquele clima instável estava mexendo consigo, com suas ações, e ele se via perdendo tudo que lhe era precioso, inclusive, a amizade de Shaka.

— Shaka...

— Sim, meu senhor.

— Empreenderei uma viagem um pouco longa amanhã. Há revoltas em algumas províncias do império e preciso estar presente. Apenas o faraó será capaz de acalmar o povo.

— Rezarei aos deuses para que sejas protegido, meu senhor — Shaka disse, sentando-se na cama e ajeitando os cabelos. Sua voz era suave e fria. — Posso me retirar?

— Sim, pode — Saga disse suavemente. Sua mente estava distante agora, perdida no passado...

Shaka ergueu-se e caminhou para seu quarto. O castelo estava escuro e a cada passo ele relembrava os golpe de vara que recebeu depois de tentar fugir. Lembrava-se da expressão implacável no rosto de Saga, das palavras duras, lembrava-se de todas as vezes que foi usado...

“Nenhum pertence do faraó deve deixar os pés do deus...”, ele dissera antes de ordenar seu castigo, 10 golpes. “Tenham cuidado para não marcá-lo”. Terminou, antes de entregá-lo aos seus carrascos.

Shaka possuía sentimentos paradoxais referentes ao faraó. Muitas vezes o odiava, noutras pensava que fora uma sorte estar com ele, sabia que outros senhores poderiam ser bem piores, passara muito tempo entre os tamudaeis para saber disso, e ao mesmo tempo, gostaria de vê-lo morto por tocá-lo, por obrigá-lo a deitar-se com ele, por nunca perguntar se ele realmente queria, por tratá-lo como um objeto, um objeto de luxo, mas um mero objeto. Tentava pensar que havia escravos em situações muito piores, mas era difícil para Shaka ver-se como um escravo. Seu coração era livre, seu corpo também haveria de ser. Sua mente lógica tentava entender as razões daquele homem. Ele também não era culpado, foi moldado daquele jeito, ele também sofria, mas isso não era capaz de evitar sua raiva. Raiva que se tornava mais profunda com as novas atitudes do faraó. Saga estava mais rude, desde a descoberta dos seus encontros com Kanon, desconfiado e frustrado por sua situação amorosa. Isso interferia diretamente na forma como ele tratava todos ao seu redor. Houve um tempo em que jamais sentiria raiva ou ressentimento... Houve um tempo.

“Quando voltar a Najah, serei um rei diferente...”, Shaka pensava enquanto caminhava para seus aposentos, lembrando-se da beleza da sua cidade. Chegou ao quarto e encontrou Mu, sentado no jardim. O jovem príncipe sorriu para ele, mas seu sorriso morreu quando percebeu o quanto o amigo parecia sério e cansado.

— Preciso descansar, Mu — Shaka disse, caminhando para a sala de banhos. A grande banheira de pedra já estava cheia, então ele apenas derramou alguns óleos aromáticos na água, antes de se despir e entrar. Mu o acompanhou, sentando-se na borda e deslizando a mão na água.

— O casamento de Aiolia está próximo — ele disse. — A mãe dele resolveu adiantar os procedimentos. Os noivos receberão a bênção do faraó, assim que meu pai estiver de volta.

— Sinto muito, Mu.

— Não mais do que eu — Mu enxugou algumas lágrimas que teimaram em molhar seus olhos. — Mas preciso ser forte. É a obrigação dele. Ele precisa fazer isso.

— Conheci um homem que tinha a obrigação de ser um rei, líder do seu clã. Este homem abriu mão de tudo por amor. Não, Mu, eu não compreendo o que estão fazendo — Shaka retorquiu, sério. — Se tu amas Aiolia verdadeiramente e ele o ama verdadeiramente, não há porque haver casamento, haver coroação. A não ser...

— Não nos julgue, Shaka. Não vivemos em terras selvagens dividas em clãs! Meu pai nos caçaria e mataria Aiolia! Aliás... — Mu o encarou, magoado — Não foi exatamente o que aconteceu contigo e teu rei? Vai ver, desejas um destino igual ou pior para o filho do homem que o escraviza.

— Vingança não faz parte da minha natureza, Mu... — a voz permanecia fria, indiferente ao estado caótico dos sentimentos do adolescente.

— Mas já fez, não é? Ou não?

Shaka calou-se. A pergunta o fez mergulhar num passado recente, quando finalmente chegou à Babilônia, depois de dias de viagem. Hamurabi, o deus daquela terra exótica e selvagem, conhecido no campo de batalha como a própria morte.

— Sim. Uma vez.

— Conte-me.

Shaka suspirou. Não sentia sono, conversar com Mu era uma forma dos dias passarem rápidos e também de esquecer as dores que habitavam seu coração.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

— Hamurabi, rei de Babilônia.

Depois das palavras de Ikki, um grande silêncio tomou o pátio do palácio. O homem à sua frente ergueu uma sobrancelha e logo uma gargalhada tão alta quanto grosseira irrompeu de um dos cavaleiros que seguiam atrás do carro.

Ikki desviou o olhar para ele e viu todas as pessoas que ali estavam ajoelharem-se quando ele se aproximou. O tamudaei continuou observando o cavaleiro, que apeou e abeirou-se. Ele, Aldebaran, Asmita e o belo homem à sua frente foram os únicos que continuaram de pé.

O cavaleiro arrancou o elmo e jogou-o longe, exibindo sua feição morena e máscula. Ele usava um peitoral de bronze, onde se via o desenho de um crustáceo, preso por uma capa vermelha, um saiote e sandálias de tiras. Parecia um militar, um general, embora sua aparência fosse um pouco mais descuidada que a da maioria dos militares que eles conheciam. Os cabelos escuros e revoltos davam-lhe uma aparência feroz, assim com as sobrancelhas fartas e a barba por fazer. Os olhos violeta debochavam visivelmente de todos ali.

— É sempre mais fácil acreditar que um rei é bonito, não é? — ele disse, aproximando-se e postando-se ao lado o outro. — A beleza fascina e é por isso que o mantenho sempre comigo. Ele distrai meus inimigos — as palavras foram ditas de forma ferina, os olhos se estreitaram observando os forasteiros.

O loiro sorriu com o canto dos lábios, também os observando atentamente.

— Meu nome não é Hamurabi. Sou Afrodite, sumo sacerdote do templo de Ishtar, servo do grande rei. — ele apontou com o queixo para o homem ao lado.

— Perdão. — Ikki assentiu com a cabeça.

— Não se desculpe, se tu és amigo de Afrodite, eu... — Hamurabi desviou o olhar para Asmita. — Pelo grande Marduk! A pequena joia persa voltou do Egito...

Ikki sentiu um estremecimento ao escutar aquilo e Asmita o tocou no ombro levemente, pedindo prudência, aproximando-se do rei e retirando o capuz que cobria parcialmente seu rosto.

— Meu nome é Asmita, príncipe de Najah, procuro por meu irmão. — o zoroastro disse, dando um novo passo à frente. Hamurabi parecia muito interessado nele, mas Afrodite não tirava os olhos de Ikki.

— É incrível como tu correspondes perfeitamente à imagem feita por ele — falou o belo, observando a exótica cor dos olhos do moreno.

— Sabes onde ele está? — Ikki disse, engolindo em seco. — Preciso encontrá-lo.

Hamurabi olhou de um para o outro, confuso. Não gostando de ser ignorado.

— Quem é ele, Afrodite? E por que dirige-te a ele? — indagou, irritado.

O sumo sacerdote de Ishtar não se incomodou com o tom agressivo do rei.

— Dispense essas pessoas, meu senhor — ele disse, entre dentes. — Precisamos conversar com nossos visitantes.

O rei fez um gesto de cabeça aos seus soldados, que rapidamente dissiparam a multidão que os cercava.

— Entrem e me digam a que veio — o rei disse, sério, mirando os visitantes agora um a um, de forma perigosa. — Então o pequeno Shaka é um príncipe? É isso que querem dizer? Interessante...

— Sim, majestade. Um príncipe arrancado de nossa cidade por assassinos cruéis. — Asmita falou, desconfiado. — Onde ele está? Vossa majestade... falaste do Egito...

— Shaka já não é problema de Babilônia... — Hamurabi disse, impaciente, marchando com eles para dentro do castelo.

Ikki estancou o passo, mirando Aldebaran e depois Afrodite.

— Não?

— Não. Mas eu os aceitarei como hóspedes meus, essa noite, já que salvaram emissários do Egito. Seria muito ruim para o Império que um irmão de faraó morresse aqui. Sim, eu já fui informado — o rei continuou, chamando os convidando com um aceno de mão, talvez não percebendo que Asmita não o pudesse ver. — Ficarão essa noite e depois partirão. Não me interessa os problemas de árabes e persas. Não me incomodem até amanhã.

Ele se adiantou, acompanhado por seus soldados, mas Afrodite continuou parado ao lado dos estrangeiros.

— Meu senhor às vezes pode ser bem... complicado — ele disse. — Então, Asmita... — virou-se para o outro rapaz loiro. — Como conseguiu chegar até aqui, achei que estivesse morto. E você, tamudaei, por que esconde do rei suas verdadeiras intenções?

Ikki o encarou.

— Minhas intenções? — indagou, estreitando os olhos.

— Não me tome por tolo, eu sei de tudo. Shaka contou-me tudo com riqueza de detalhes. Você é esposo dele, não um mercenário à serviço do príncipe de Najah como contaram aos soldados. Não pense que somos ingênuos, fomos informados dos seus passos a milhas daqui. Temos vigilantes e mensageiros em todos os cantos do império. Então, agradeceria um pouco de sinceridade — esclareceu Afrodite.

— Temos? — Aldebaran indagou, irônico, era evidente que Afrodite não pertencia àquelas terras, e recebeu o olhar letal do belo homem à sua frente.

— Temos. — Afrodite repetiu lentamente. — Tu, quem és?

— Aldebaran, filho de Hasgard, senhor da Saubeia — respondeu com orgulho. — Caso queiras, chame-me de O Touro.

Afrodite o estudou por um tempo.

— Saubeus sempre falam em demasia — declarou depois disso. — Pois saiba, saubeu, que a vontade do rei está... — ele bateu na perna, mirando o outro seriamente — entre as minhas coxas. Venham, não vamos perder o banquete de Hamurabi. Estarão protegidos da ira do rei até amanhã, mas, depois disso, é bom que confiem seus destinos a mim.

Aldebaran engoliu em seco, Ikki mordeu os lábios, aproximando-se de Asmita.

— Cortarei a garganta dele... — resmungou.

— A única coisa que fará agora, tamudaei, é ficar calado. Eu resolvo. Ambos — mirou dele para Aldebaran — só disseram tolices até aqui. — completou e seguiu Afrodite para dentro do castelo.

Ikki e Aldebaran se entreolharam, mas não disseram nada, obedeceram-no.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Seu nome era Yhin Hamurabi, como entrou para a História o homem que estipulou o primeiro código de leis. Mas naqueles primeiros anos do seu reinado, o jovem, belo e sanguinário rei babilônico possuía outra alcunha: Máscara da morte. Tal vulgo fora adquirido por dois motivos: sua crueldade em combate e o elmo que usava e que possuía a forma de um crustáceo, o mesmo crustáceo que aparecia pintado em suas costas e na sua armadura, o câncer, como o chamariam os romanos, milênios depois.

Esse homem estranho, violento e cruel, mas estranhamente generoso e profundamente emotivo, fundou um dos maiores impérios e também um dos mais belos lugares do mundo, a luxuriante babilônia e seus jardins suspensos, grandes templos e palácios de pedras preciosas.

A cidade transpirava progresso e paz, e a sociedade era regida por leis fortes. Seus sacerdotes eram reverenciados como verdadeiras autoridades e respeitados como chefes de Estado.O grande sacerdote de Uruk pertencia ao templo da deusa Ishtar, deusa da fertilidade, amor, guerra e sexo, a bela senhora de pés de corujas. Ele era o segundo homem mais poderoso do império e, diziam muitos, talvez fosse o primeiro.

O templo da grande deusa era habitado pelo sumo sacerdote e vários sacerdotes menores, escravos, trazidos de todas as partes do mundo pelas conquistas de Hamurabi. Tais escravos eram escolhidos criteriosamente pelo sumo sacerdote e deveriam atender a específicos critérios: ser belo, de uma beleza que beirasse a perfeição; não possuir marcas, imperfeições na pele e ser jovem. O escravo que preenchesse tais requisitos tornar-se-ia um assinu, um prostituto sagrado do templo de Ishtar, um sacerdote que usaria seu corpo para atrair riquezas ao templo e à pátria babilônica.

Os assinus de Ishtar deveriam obedecer cegamente a seu sumo sacerdote, o homem que foi considerado uma divindade tamanha era sua beleza; aquele que era chamado de “Sedução do norte” e “senhor da beleza do universo” o sumo sacerdote Afrodite Dilmun. O homem escolhido por Hamurabi para cuidar do seu mais importante templo.

Quando Shaka chegou à Babilônia com a comitiva de escravos, ele não mais estava no camarote de Krishna. Seria estranho explicar aquilo, por isso ele foi colocado com os demais. Preso como bicho numa gaiola, o príncipe de Najah foi levado até a frente do grande templo para que passasse pela triagem de sempre. Krishna já sabia que o belo garoto seria escolhido por Afrodite, pois, dos belos que habitavam o templo de Ishtar, talvez somente o grande sacerdote se comparasse a ele em beleza. Além de tudo, para o mordomo-mor, o jovem possuía potencial demais para um cargo menor. Mesmo que Shaka estivesse muito debilitado, eles conversaram, o que deu ao babilônico a certeza de que ele não mentiu quando disse ser um príncipe. O menino entendia de matemática, astronomia e falava diversas línguas, além de conhecer a arte da escrita de vários povos.

O jovem ária mirou o grande monstro de pedra e a estátua da deusa que o adornava. Permaneceu quieto, o tronco ereto, dentro da gaiola, mesmo que ainda sentisse muitas dores, enquanto os outros dois jovens que com ele estavam, pareciam assustados.

O povo de Uruk começou a se aproximar e cercar as gaiolas com uma curiosidade ávida. Homens os cercavam e examinavam. Shaka protegeu o corpo seminu quando um deles tentou tocá-lo. Tudo que os garotos vestiam era uma espécie de subligaria de pano, presa por um cinto de couro cru.

— Tirem-nos das gaiolas! — os homens gritavam. — Queremos conhecê-los!

Krishna havia se afastado e entrado no templo, e seus guardas apenas advertiam a multidão a não tocá-los, mas se divertiam com as tentativas dos garotos de fugirem dos dedos indecentes que os cutucavam, espremendo-se no centro da gaiola.

Um dos homens enfiou a mão inteira na gaiola e passou a tentar apalpar o corpo de Shaka que se esquivava, apavorado. As lembranças dos acontecimentos recentes voltando como facadas em sua alma. Não conseguia deter as imagens do tal Minotauro o violentando, as poucas imagens que tinha, antes dos repetidos desmaios. Quando ele gritou de raiva e medo, a multidão começou a rir e a provocá-lo mais. Parecia ficar excitada com as reações de medo dos garotos.

— Tu és tão bonito – um deles disse. – Irei comprá-lo e farei de ti meu eunuco, coisa linda... Terei meu próprio assinu! — falou e todos riram.

Shaka continuava fugindo dos dedos deles, até que percebeu que eles não parariam a não ser que fizesse alguma coisa. Quando o homem apalpou sua coxa, ele lhe segurou a mão, surpreendendo-o, encarando-o nos olhos. O jovem apalpou-lhe a mão, e o homem sorriu satisfeito, deixando cair sobre o garoto seu olhar de desejo, mas antes que ele pudesse comemorar a conquista, Shaka levou um dos seus dedos à boca e mordeu tão forte que o sangue logo verteu. O homem gritava e esmurrava a gaiola tentando se soltar, mas o loiro continuava a morder, rompendo a carne com fúria, quase chegando ao osso.

O povo começou a rir e gritar de divertimento enquanto o homem urrava de dor. A confusão acabou atraindo Krishna e alguns dos funcionários do templo. O mordomo-mor de Hamurabi correu até a carroça e viu o que estava acontecendo. O sangue descia pelo queixo e pescoço do menino loiro, tornando a cena assustadora. Naquele momento, o que ele julgou um santo, mostrou-se um belo demônio.

— Shaka, pare! — ele exigiu e o príncipe finalmente soltou o dedo do homem, cuspindo sangue e pedaços de carne.

— Seu puto, desgraçado! Eu vou matá-lo! – o homem gritava, segurando a mão ensanguentada e o dedo que faltava um pedaço e parecia quebrado.

—Eu avisei para não tocá-los, senhor! — os guardas logo começaram a se justificar.

— Krishna, eu exijo que abra essa gaiola e me deixe matá-lo!!! — grunhiu o homem, segurando a mão de onde o sangue continuava a verter.

— Cale-te, Kasa! Estes são pertences de Hamurabi, eu deveria decepar tua cabeça por tocar neles!

O homem engoliu em seco e recuou praguejando. Logo a multidão também se afastou, cochichando e olhando Shaka como se ele fosse um verdadeiro monstro mitológico.

— O que está acontecendo aqui?

Uma voz grave, mas sensual e imperiosa se fez ouvir. Shaka ergueu os olhos azuis para a escadaria. Um homem vestido numa túnica azul clara esvoaçante e com um grande colar de ouro reluzindo os raios de sol observava a situação. Todos silenciaram e lhe renderam reverência, começando a se afastar do local .

Era o homem mais bonito que já havia visto em toda a minha vida. Se tu o visses ... Nem a mais bela das sacerdotisas do Egito e nem mesmo a bela deusa Ísis se comparam a ele. O sumo sacerdote de Hamurabi era o mais perfeito dos seres da terra e por isso era adorado.

— Mais belo que tu? – Mu arregalou os olhos, achando aquilo pouco provável.

— Minha beleza, comparada à dele, está como o broto para o lótus maduro que espalha seu esplendor pelas águas do Nilo.

— Não consigo imaginar tal criatura.

— É impossível imaginar sem vê-lo.

— E o que aconteceu depois disso? – Mu indagou, curioso.

— Muita coisa...

Kasa voltou a se aproximar ao ver o sacerdote e falou, após lhe prestar reverência:

— Esse escravo queria devorar-me o dedo! Mate-o, grande sacerdote, deve vir de uma tribo de comedores de gente! — o homem exigiu, mostrando o dedo parcialmente arrancado a Afrodite.

Afrodite mirou o menino cujo queixo e lábios ainda estavam pintados com sangue babilônico.

— Por que fizeste isso? — indagou com seu jeito austero e imperioso.

Shaka o encarou sem medo. — Fiz e farei a qualquer um que tentar me tocar... – disse baixo, de forma ameaçadora.

O sumo sacerdote ficou mirando o garoto em silêncio e depois se voltou para um preocupado mordomo-mor.

— Muito bem, Krishna, eu fico com este.

— Sim, magnífico — assentiu Krishna, aliviado, e ordenou que os guardas abrissem a gaiola, tirando Shaka dela.

— Pode levar os demais, não me interessam — continuou Afrodite, mirando Shaka atentamente. — Venha, vamos para dentro do templo.

Krishna deu ordens aos guardas para que levassem os demais escravos para o destino que eles já sabiam e, com Afrodite e Shaka, entrou no templo. Logo os assinus cercaram-nos, curiosos com o novo companheiro.

— Preparem a tina do quarto branco – Afrodite disse, vendo os escravos correrem para obedecer-lhe. Ele então guiou Shaka para o quarto e solicitou que Krishna saísse.

— Por favor, magnífico, tenha cuidado com ele. Ainda está machucado — advertiu o mordomo-mor.

Afrodite sorriu com o canto dos lábios e lançou um olhar de lado para o negro.

— Krishna, lembre-se: ele não é Lalana, e não terá nenhum tratamento especial.

Krishna pareceu constrangido e apenas assentiu com a cabeça.

Shaka lançou um olhar amedrontado para ele, mas o senhor dos tesouros de Hamurabi, apenas sorriu de volta, como se dissesse que o garoto estava seguro, e deixou o templo. O sumo sacerdote pediu então que o garoto tirasse a roupa que vestia, ele seria banhado e inspecionado. Shaka fez, sendo guiado para a grande tina, onde foi banhado por dois escravos. Depois do banho, voltou ao quarto, onde Afrodite o esperava com duas mulheres. O loiro protegeu o sexo com as mãos, envergonhado, o cabelo longo protegia o resto do corpo arrepiado pela água fria.

— Inspecionem – ordenou o sumo sacerdote, e as mulheres se aproximaram dele. Uma segurou-lhe os cabelos, enquanto a outra olhava cada detalhe do seu corpo, num exame constrangedor, mas o persa preferiu não reagir naquele momento, poderia ser pior.

— Não há cicatrizes profundas — elas iam dizendo. — Um pequeno desenho de serpente no pulso. Pele boa e branca, não há marcas significativas, alguns sinais de nascença pequenos e escuros.

— Virgem?

— Não.

— Eunuco?

— Não — Afrodite perguntava, enquanto mexia em um baú cheio de roupas.

Depois disso, as mulheres se afastaram, e Afrodite as dispensou.

— Qual o seu nome? – ele indagou ao garoto, jogando peças de roupas sobre a cama e o encarando agora.

— Shaka... – o jovem murmurou.

— Pois bem, Shaka, sejas bem-vindo à Babilônia. A partir de hoje, o templo de Ishtar será sua casa e aprenderá a prestar reverência à deusa. Por enquanto é só... isso...

Shaka estava tão machucado e cansado que após ouvir as primeiras palavras simplesmente desmaiou aos pés do sumo sacerdote, surpreendendo Afrodite. Quando ele acordou, estava deitado numa grande cama, cercado por vários rapazes belíssimos. Todos eles vestiam calças leves, coloridas, e usavam várias joias.

Shaka ergueu a cabeça e sentiu o corpo reclamar.

— Não se mova — disse um dos rapazes. — O magnífico disse que estás muito doente e deves descansar por um tempo.

— Onde estou?

— Na Babilônia, jovem da Ária! Não te lembras?

A voz era suave, mas grave. Shaka não viu seu dono antes que os demais se afastassem, então se deparou com aquele homem bonito novamente, o que reavivou suas lembranças. Ao contrário dos outros, ele usava calça e uma longa túnica azul clara tal qual seu olhos. Um cinto dourado marcava-lhe a cintura e ele era alto e esguio como ele imaginava os deuses, possuindo uma imponência intimidante apesar da aparência andrógina e delicada.

— Chamo-me Afrodite, sou o sumo sacerdote do templo de Ishtar. E agora teu mestre.

Shaka piscou confuso e com esforço se sentou na cama.

— Mestre? — perguntou, intimidado. — Mestre em quê? Armas?

Os outros rapazes riram, mas o sumo sacerdote fez um gesto de mão e eles se calaram.

— Agora tu és um assinu de Hamurabi e me deve obediência — ele foi direto, não gostava de rodeios e tinha muito a fazer com aquele rapaz.

— Eu não posso ficar aqui — Shaka protestou. — Eu tenho que...

— Não tens nada a fazer a não ser servir à deusa — cortou Afrodite com um olhar perigoso para o jovem. — Não tornes tua vida difícil aqui, garoto. Aceites tua posição de escravo e tudo correrá bem.

Escravo! A palavra ecoou em sua mente. Novamente era um escravo; sua fuga não trouxe a liberdade, somente a escravidão em outras terras.Cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo, tentando ser forte. Precisava ser forte, mas era tão difícil!

— Não posso ficar aqui — repetiu, resignado. — Ikki virá me buscar e ele o matará, matará todos vocês se ficarem em seu caminho.

Afrodite riu, revirando os olhos. Criança patética e ingênua!

— Ikki? Quem é Ikki?

— Ele é meu esposo — Shaka disse com franqueza, fazendo os rapazes se entreolharem e Afrodite franzir a testa.

— Esposo? Afinal de onde tu vens?

— Karna, a cidadela dos tamudaeis na Arábia.

— Tu não pareces árabe.

— Sou de Najah, um dos reinos que dividem a grande Pérsia. Meu reino foi atacado pelos tamudaeis, minha família inteira foi morta e eu fui levado como escravo para Karna. — falou em um único fôlego. — Ikki me salvou de um destino cruel. E me salvará novamente.

— Bem, rapazinho, mas enquanto esse Ikki não aparecer para salvá-lo, tu seguirás as minhas ordens. Descanse. Amanhã teu dia será repleto de novidades.

— Ainda acreditas nisso? Que ele virá salvá-lo? — Mu indagou, cansado. Uma lua nova brilhava no céu, acompanhada de uma estrela que a seguia, despedindo-se. A manhã já se fazia.

— Isso é apenas uma fábula, Mu. Um conto de homens que ousaram amar mais do que o mundo permite. Não me tome por tolo. Seria tolice acreditar que um amor assim existisse, não é?

— Eu amo Aiolia com toda força do meu coração.

— Será que ele o ama também? Não entendo o amor dos egípcios... Por que simplesmente não ficam juntos?

— Porque eu serei o faraó — Mu disse com tristeza. — Tu sendo escravo és mais livre do que eu, Shaka.

— Criança tola! — Shaka riu com amargura. — Eu nem mesmo posso sair dos limites deste castelo. Sou apenas um belo pássaro numa gaiola de ouro. Tu tens escolha, Mu. Só basta que os dois tenham coragem.

— O casamento está marcado. Aiolia fará o que precisa ser feito. Concordamos com isso. Não somos simples homens que podem dar vazão ao desejo que sentem. Estamos condenados pelo sangue! Assim como meu pai e Aioros. Mas por que dói tanto, Shaka? Como faço para parar? Para parar de doer?

Shaka mirou o amigo, condoído. Por mais que tivesse dúvidas da fidelidade de Mu, não conseguiu ficar indiferente. Puxou-o para si e o abraçou com força, deixando que ele chorasse em seu ombro tudo que ele podia. Ficaria ali com ele até que todas as lágrimas desaparecessem. Sentia a dor de Mu, sentia-a profundamente como se com ele dividisse bem mais que segredos. Ele era seu amigo, era o doce príncipe que não o olhava como um objeto. Às vezes, o elo não é o sangue; ele pode ser a dor.

A Serpente e a Estrela

الثعبان والنجوم

Notas finais
Nota: Os jardins suspensos da Babilônia foram construídos em reinado posterior ao de Hamurabi, mas como são maravilhosos, eu os inclui aqui. A palavra libertino usada por Aiolia não segue o conceito atual de libertinagem, o libertino no contexto da fic é uma pessoa sem clã. Beijos e até o próximo! Sion