A serpente e a estrela

22 Alianças que se fazem, Alianças que se partem


Notas iniciais
Olá, leitores queridos, tudo bem? Desculpem-me a demora e boa leitura! Sion Neblina

Alianças que se fazem, Alianças que se partem

Capítulo 21

À noite, ao que parecia, sempre havia festa em Uruk. Kanon ouvia os tambores e o barulho que as pessoas faziam no pátio do castelo. Havia se banhado e comido algo no quarto, pois estava cansado e ainda preocupado com seu compatriota convalescente. Foi-lhe informado que Hamurabi já estava no castelo e que na manhã seguinte, ele lhe pediria audiência. Ficou grato por isso, pois estava cansado, cansado até mesmo para ir agradecer ao homem que salvou sua vida. Suspirou, deitando-se na cama de madeira, mirando o teto trabalhado com várias pinturas em relevo. Era um quarto suntuoso e exótico. As pinturas representavam cenas de sexo entre homens, mulheres e seres zoomórficos. Ele percebia que o sexo era o que guiava as ações daquele povo. Saga já havia lhe tido isso, quando estivera naquele reino há dois anos e voltara com Shaka, mas ele nunca pensaria que a luxúria estivesse inclusive nos cheiros e na paisagem.

Shaka... Quem seria aquele homem tão parecido com ele e capaz de cicatrizar feridas? Disse que eram irmão, e não havia mesmo como negar. Mas o que ele fazia ali? Quem de fato Shaka seria? Seria verdadeiramente um príncipe como ele dissera certa vez, antes de se calar de todo o seu passado?

Kanon suspirou e sentou-se na cama. Talvez devesse andar um pouco pelo castelo, saber mais sobre aquele homem, afinal, era um emissário, deveria descobrir coisas sobre aquele reino, se é que ele era realmente inimigo.

As cortinas coloridas farfalharam e o escravo que cuidava dos seus desejos apareceu. Era um garotinho, não mais que 12 anos, de aparência bonita, pele escura, cabelos lisos e longos, decorados com argolas douradas.

— Alteza, Hamurabi mandou presentes — ele falou num egípcio impecável, e Kanon soube o motivo de ele ser escolhido para servi-lo.

O menino deu passagem e duas figuras entraram no quarto, a primeira era uma bela mulher de pele escura e longos cabelos ornados com tranças finas e graciosas, presas com contas vermelhas. Ela cobria o corpo com um vestido braço decotado e curto, com fendas nas laterais e outra que ia do umbigo aos seios, seus olhos eram de um castanho claro e a boca era a mais bela e carnuda que ele já havia visto. A segunda, era um rapaz de pele mais clara, mas um tanto amorenada, cabelos longos lisos e escuros, olhos claros, e ele vestia apenas um saiote branco e levava colares no pescoço.

— Pode escolher qualquer um deles — disse o garoto. — Ou os dois.

Kanon mirou da mulher para o rapaz, lambendo os lábios, examinando-os com interesse. Eram lindos e pareciam possuir todo o erotismo daquelas terras, mas ele não estava interessado. Queria ficar sozinho, precisava pensar.

— Por favor, informe ao rei que não desejo diversão — disse, voltando a se deitar na cama. — Talvez amanhã na tal grande festa.

— Tenho certeza que o senhor vai adorar a festa, alteza — o garoto fez uma reverência e depois falando com os dois jovens em Arcádio, saiu, acompanhado por eles.

Kanon se ergueu depois de um tempo, franzia as sobrancelhas e resmungava algo ininteligível enquanto andava em direção ao quarto de Radamanthys. Sabia que ele já estava lúcido e hesitou se deveria procurá-lo, mas compreendia ser inadmissível não lhe agradecer por ter-lhe salvado a vida. O príncipe egípcio sentia-se confuso com todos os acontecimentos e sentimentos antagônicos brincavam em seu peito. Acreditava que havia algo maior naquele encontro, naquela ida ao poderoso império entre rios, mas não conseguia chegar a uma conclusão sobre o assunto e quanto mais pensava, menos conseguia resolver aqueles mistérios.

Quando ele entrou no cômodo, o general mirava pela janela, ele se aproximou sorrateiramente dele, percebendo que havia uma fogueira e uma grande festa no pátio e que era isso o que despertava o interesse de Radamanthys.

— Acho que teremos três dias de festa. É lua nova, época de plantio, eles pedirão as graças à mãe terra. — ele disse, perto do ouvido do outro, fazendo Radamanthys se sobressaltar e virar-se, encarando-o. Kanon sorriu levemente, sem saber exatamente como se comportar. — Não sabia que já podia estar de pé.

— Não devia, segundo o médico. Mas não sou homem de ficar enfiado numa cama o dia inteiro. — o general falou entre dentes, com seu jeito agressivo, caminhando com dificuldade até a cama.

Kanon quis ajudá-lo, mas ele se desvencilhou das suas mãos.

— Não preciso de sua piedade, alteza.

— Talvez precise da minha gratidão.

— Também não. Estava defendendo um membro da dinastia, não você.

— Que rude! Me deixaria morrer? — Kanon provocou, embora sua voz estivesse mais suave daquela vez.

— E com muito gosto. — Radamanthys se sentou na cama, apoiando-se na cabeceira, gemendo levemente com a fisgada que o ferimento deu. — Por que não está na festa? Sei que gosta demais dessas coisas mundanas.

— É, gosto. — Kanon respondeu com desdém. — Mas estou preocupado. Minha audiência com Hamurabi é amanhã e ele não aceitou falar o que quer que fosse comigo antes dela. Diz estar cansado e que deseja descansar essa noite, embora o castelo já festeje.

— Belo arrogante filho da puta, ele é — resmungou Radamanthys.

Kanon riu de leve. Será que aquele homem nunca tinha um momento de bom humor?

— De todo jeito, temos que esperar.

— Como conseguimos escapar? Eram muitos...

— Tivemos ajuda, é o que posso adiantar. — Kanon falou e se inclinou, aproximando o rosto de Radamanthys que o encarou, alerta. — Eu fiquei preocupado. Pensei que fosse morrer.

— Não morro tão fácil.

— Estou feliz por isso — ele disse, rompendo a distância entre os dois e beijando os lábios do loiro.

— Mas o q-?... — Radamanthys ainda protestou, mas seus lábios foram cobertos e beijados com intensidade, a boca aberta em surpresa dando a Kanon a chance de explorá-la, deslizando a língua e chupando os lábios. Contudo, foi um beijo rápido, logo ele se afastou, sorrindo, mirando o rosto espantado do general.

— Durma bem —falou o príncipe, erguendo-se e saindo do quarto.

Radamanthys apenas o encarava com os olhos e a boca aberta, completamente assombrado.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Os aposentos do rei ocupavam todo último andar do imponente castelo e possuíam, num dos jardins, uma ponte, que adentrava a mata densa atrás do prédio e terminava numa escada que seguia para um labirinto. Após o único caminho correto dentro do labirinto, havia um túnel que ninguém sabia onde terminava, sabia-se apenas que terminava num rio que tiraria o rei de Uruk, caso a cidade fosse invadida. Era um pavilhão imenso, com sala, sala de jantar, vários jardins, sala de armas, que era uma miniarena de luta, três salas de banho e o quarto de dormir. Naquele momento, o rei descansava em sua cama com dossel, tendo duas belas escravas o massageando com óleos perfumados, aliviando a tensão dos seus ombros, enquanto dois escravos o abanavam com longas folhas de palmeiras, embora a grande janela trouxesse a brisa do mar até eles.

Afrodite adentrou o quarto, sem ser anunciado e parou de frente ao rei.

— Por que me mandou chamar?

— Estavas ocupado para o teu rei?

Afrodite revirou os olhos.

— Amanhã é a solenidade do Estranho, tu sabes. Tenho muito que fazer no templo.

— Não importa o que aconteça. Eu chamo, tu vens — Máscara da Morte disse, estreitando os olhos.

Afrodite respirou fundo e sorriu com ironia.

— Sim, senhor, meu rei — e fez uma reverência.

— Quem é aquele homem e por que falas aos sussurros com ele? — Afrodite franziu as sobrancelhas e Hamurabi sorriu sarcástico. — Pensaste mesmo que eu não notaria?

— Homem? Eu vi algumas crianças aqui hoje — Afrodite disse com desdém, aproximando-se e sentado na cama, ao lado do rei, sem lhe responder a pergunta. — De quem falas? Do irmão de Shaka ou dos mercenários que o acompanham?

O rei manteve-se calado, examinando o amante.

— Mande-os embora o mais rápido possível, não quero problemas com o Egito.

— Eles salvaram o príncipe e o general. Com certeza, estes quererão agradecer e darão informações de Shaka.

— O príncipe persa com certeza quer o irmão de volta. Sabemos que Saga não aceitará isso. Guiá-los ao Egito será como guiar essas crianças à morte, como tu bem disseste.

— Piedade agora?

— Prudência. Não quero desafetos com os egípcios. Já sabes por que o irmão gêmeo do faraó está aqui?

— Ainda não. Não me foi autorizado falar com ele, majestade.

— Não o quero falando com ninguém, nem mesmo com aquele árabe imberbe que ficaste cortejando...

Afrodite soltou uma gargalhada de deboche.

— Ciúmes, meu rei?

— Tenho ciúmes de tudo que me pertence.

— Não me atrai muito os homens mais novos — Afrodite desdenhou, subindo na cama e montando nas pernas do rei. — Prefiro os homens mais velhos e poderosos...

Máscara da Morte sorriu, apesar dos seus 27 anos, ele já era considerado um homem maduro e se sentia bem mais velho do que sua idade. Já havia passado por várias batalhas, desde os 12 anos, e visto mais do que boa parte da humanidade. A vida adulta começava cedo no mundo antigo.

Ele deslizou as mãos pelas pernas de Afrodite, por dentro da calça folgada que ele usava, deliciando-se na pele suave, coberta por pelos finos e macios.

— Quero que goste apenas de um homem mais velho e poderoso.

Afrodite sorriu e o beijou, afagando-lhe os cabelos rebeldes, sentindo a barba áspera arranhar-lhe o rosto. Afastou-se.

— Vamos resolver isso? — sugeriu e puxou o rei para a sala de banhos, pegando sabão e lâmina. Hamurabi sentou-se numa poltrona e recostou-se, enquanto o sacerdote passava a barra espumosa em seu rosto. Relaxou, Afrodite era o único homem em que ele confiaria para colocar uma lâmina perto do seu pescoço.

O belo sacerdote começou a trabalhar, esfregando a barra, que era uma mistura de óleos vegetais e amido, no rosto do rei, para em seguida usar a lâmina, uma espécie de adaga.

— Não sente curiosidade sobre a vinda dos egípcios? — indagou com suavidade.

— Não. E não vejo momento mais inoportuno. O tal persa não deve saber o paradeiro do irmão.

— Por quê? Ele iria para o Egito e nossos problemas acabariam.

— Há rumores de guerra, Afrodite. O mundo não é a paz do teu templo.

— Como se eu não soubesse... Esquece-te de como cheguei aqui?

— Não. Mas tu pareces esquecer, às vezes.

— Não posso esquecer aquele inferno, Ham... Ainda tenho pesadelos — ele murmurou, pegando uma toalha e limpando a pasta do rosto do amante.

— Sei que quando viste Shaka, foi como se ver novamente, não foi?

— Sim — Afrodite sorriu levemente. — Jovem, selvagem, cheio de ideais e esperanças — suspirou. — Uma pena no que o transformamos...

— E o que poderíamos fazer por um pobre menino escravo, Afrodite?

— Tu? Nada. Eu, talvez...

Máscara da Morte soltou um muxoxo, tomando a toalha da mão dele e ele mesmo terminando de limpar o rosto, indo até a tina d’água e o lavando.

— Escravo. Escravo como todos os outros, não importava o quão belo e culto ele fosse. Os deuses decidiram assim.

Afrodite sorriu de leve, baixando o olhar para a adaga em sua mão. Seria verdade? Seria verdade que alguns homens nasciam para ser menores que um homem? Seria verdade que os deuses criaram seres inferiores, seres condenados à servidão e ao sofrimento? Mesmo com toda a sua fé, às vezes duvidava disso.

— Ele é um príncipe — Afrodite murmurou. — Acho que está na hora de começares a acreditar nisso.

— Por que essa insistência, por Nebiru, Afrodite!

— A insistência é vossa, soberano. Parece que reconhecer que Shaka é um príncipe ofende tua nobreza.

Hamurabi revirou os olhos.

— Meus antepassados chegaram a essas terras enfrentando perigos e batalhando maltrapilhos e famintos, Afrodite. Minha linhagem não é mais nobre do que a de qualquer outro homem. Não pense que tenho qualquer ressalva étnica. Tenho escravos porque eles são necessários para manter o império. Diga-me em qual parte do mundo escravos foram tão felizes quanto em Babilônia?

— Mas ainda são escravos...

— Tolo! — Hamurabi riu. — Todos nós somos escravos de algo ou de alguém. Até mesmo os reis. Saga Hórus de ouro, o grande faraó do Egito deve ser escravo das coxas de Shaka, assim como sou das tuas...

Afrodite sorriu de lado enquanto passava a lâmina gentilmente sobre a pele do rei, removendo os últimos pelos que ficaram.

— De toda sorte, teremos que dar uma resposta ao jovem príncipe persa. O que devo dizer?

— O que tens a dizer já foi dito. Que eles fiquem até amanhã e participem dos festejos e depois partam sem olhar para trás. Devolva a ele o valor pago por Shaka multiplicado por dez, não terá do que reclamar.

Afrodite riu, incrédulo, deixando a lâmina na borda da banheira e encarando Hamurabi nos olhos.

— Ele deseja o irmão e tu queres lhe dar moedas?!

— É o máximo que posso fazer! Enviá-lo ao Egito é enviá-lo à morte, não seja sentimental!

— Pois saiba que farei algo melhor que isso!

— Não se atreva! — Máscara da Morte ergueu-se da cadeira e caminhou até o loiro, ficando a meros centímetros dele. — Se eu digo que eles nada devem saber de Shaka, isso é a lei, e será punido qualquer um que desrespeitar a voz de Hamurabi, até mesmo o sumos sacerdote de Ishtar... — a voz do rei era baixa e entre dentes e ele mirava o loiro com olhos estreitos. — Espero ter sido claro.

— Perfeitamente, meu soberano — Afrodite disse também entre dentes e fez uma reverência, antes de sair a passos firmes e pensamentos decididos.

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الثعبان والنجم

A paisagem ia ficando cada vez mais desértica enquanto a comitiva do faraó avançava. Fazia muito calor e Aioros e Saga eram abanados sem descanso dentro do palanquim em que estavam.

— Melhor que saíamos a cavalo — o faraó disse, erguendo-se. — Além de morrer de calor, morro de tédio aqui dentro.

Aioros dessa vez concordou e eles exigiram que parassem os animais para que o faraó saísse.

Aspros era o general responsável pela guarda do deus na terra. Ele e mais um batalhão de cinquenta soldados cuidavam da segurança do soberano e de Aioros. Não que houvesse perigo ao faraó dentro do império, mas ainda assim, ele era valioso demais para que corresse riscos.

— Vamos em montarias a partir daqui, Aspros — Aioros disse, escolhendo dois belos cavalos.

— Certo, grão vizir, mas mantenham-se próximos.

— Separe o batalhão. Coloque vinte homens à direita, vinte à esquerda, cinco na vanguarda avançado e cinco na retaguarda, assim estaremos protegidos — Saga ditou, mostrando que também era um bom estrategista militar, embora seu treinamento militar fosse básico. Aspros acatou as ordens, seguindo para colocar os homens em formação, enquanto vizir e faraó avançavam despreocupados.

Uma brisa morna avisava que eles estavam chegando próximo ao mar e Aioros respirou profundamente e sorriu de lado, chamando a atenção de Saga pra seu rosto.

— O que foi?

— Quê? — o vizir se surpreendeu.

— Estava sorrindo como... como há muito não vejo.

— Lembranças...

— Parece a única coisa que restou.

Aioros não respondeu. Não adiantava insistir naquela discussão, sua decisão fora tomada há muitos anos, não havia espaço para mudanças de comportamento agora, por mais que ele sufocasse a cada dia.

Seguiu ao lado do faraó, observando a paisagem. Não havia sinais de luta ou de desolação, seguia organizada como tudo no império. A vanguarda desceu por uma trilha estreita que serpenteava um pequeno afluente do Nilo. Ali, a brisa era mais fresca devido à quantidade de árvores.

Os pássaros cantavam com o vento, fora isso, tudo era quietude, mas entre as árvores, camuflados em piche e folhas, guerreiros estrangeiros aguardavam o momento de atacar. E foi com grande surpresa que os dois homens da vanguarda caíram atingidos por flechas. Vários guerreiros de pele escura e pintada soltaram da mata e das árvores, cercando a comitiva. O exército egípcio avançou, começando uma luta feroz, Aspros tomou a dianteira, protegendo faraó e vizir. Aioros e Saga também puxaram suas espadas e recuaram, esperando pela luta, mas Aspros os impediram de lutar, afastando-os para a retaguarda, e avançando também contra os inimigos.

A luta foi feroz, mas a comitiva egípcia estava em menor número e quando Aspros foi cercado e ferido, Aioros tomou uma decisão.

— Precisamos fugir! Eles são muitos! — o vizir disse, puxando as rédeas do cavalo do faraó.

— Não! Aspros! — Saga escapou dele e adiantou-se, golpeando os inimigos com sua espada curta, ferindo alguns, mas acabou sendo derrubado do cavalo.

— Saga! — Aioros gritou, galopando até ele, acertando os inimigos. Soltou do cavalo, cortando todos os inimigos até que conseguiu chegar ao faraó.

— Fujam! — Aspros gritou, e o vizir puxou o soberano pelo braço e correu com ele por entre as palmeiras, ouvindo o barulho das lanças e das flechas, assim como o cantar do rio que corria violento em suas corredeiras.

Não havia lugar para ir, não havia como escapar. A única chance deles era as violentas corredeiras daquele rio.

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الثعبان والنجم

O dia estava bonito e com a ausência do faraó o castelo estava silencioso e tranquilo. A única coisa que quebrava essa harmonia era o barulho do riso de Mu e o barulho que faziam suas mãos ao baterem palmas. Ele estava no quarto de Shaka, e maravilhava-se com a coreografia que era feita pelo ariano. A barriga que ondulava, comprimindo-se e agitando-se em curvas e tremores, os pés, que carregavam guizos, esticando-se, mexendo com o curvar da perna, os movimentos delicados das mãos. Shaka era todo sensualidade e beleza quando dançava.

— Será que um dia consigo dançar assim? — Mu perguntou, alegre. Ver o amigo dançar fazia com que se esquecesse um pouco de suas dores.

— Não é uma dança egípcia. — Shaka rebateu.

— Nem persa. Mu replicou.

— Desejas passar três anos num harém árabe?

— Não. Mas posso ir para um lugar bem distante daqui e... quem sabe eu não dance para meu amor assim como tu fizeste no passado?

— Não sei do que falas. Danço apenas para o faraó — Shaka respondeu, sem parar de dançar. Ensaiava um novo passo para dançar para Saga, quando ele retornasse. Não que isso lhe desse prazer, mas o príncipe persa sabia que manter uma boa relação com o faraó era imprescindível se quisesse manter seu status dentro daquele castelo.

Mu suspirou.

— Certo, entendo. Vamos esquecer essa conversa. Podias ler para mim, o que achas? Não sei ler o Arcádio, poderia me ajudar?

Shaka parou de dançar e encarou o príncipe. Estava a ponto de concordar quando viu Hades passar pela entrada do seu jardim e lhe lançar um olhar insinuante.

— Mas tarde, Mu. Agora preciso resolver alguns assuntos.

Mu franziu a testa. De costas para a entrada do jardim, ele não viu Hades, então, sem entender muito bem o que Shaka teria a fazer sem seu pai estar ali, ele deu de ombros e saiu, aproveitaria o dia bonito para dar um passeio com Defteros, depois dos seus exercícios.

Shaka esperou que o governador fosse até ele. Sabia que Hades estava em algum canto, esperando a saída de Mu. Seu coração disparava numa estranha ansiedade enquanto ele esperava por aquele que poderia mudar seu destino de várias maneiras.

Não demorou muito, o belo e imponente governador adentrou seu jardim com um meio sorriso nos lábios. Seus olhos verde-acinzentados examinavam o persa profundamente. Ele se aproximou de Shaka, ficando a centímetros dele, segurando-lhe o queixo e mirando os olhos claros pintados pelo Kohl negro. Hades mordeu os lábios e desceu a mão pelo pescoço do loiro, seguindo para o peito e beliscando provocativamente o mamilo exposto, sem tirar o olhar de Shaka que não teve nenhuma reação, continuou mirando-lhe em desafio, até que ele se afastou.

— Sabes o que dizem aqui de homens como tu? — ele indagou, mirando o luxo ao redor: o longo tapete de pele de tigre, as poltronas confortáveis, as almofadas em tecido persa, todo o luxo que era dedicado ao mais importante amante do faraó, aquele que ele nomeou sacerdote por simples capricho. Não que isso incomodasse Hades, ele pouco se importava com quem Saga dormia, ele apenas precisava tirá-lo do seu caminho.

— Não. Vivo preso neste palácio, impossível saber sobre coisas que não querem que eu saiba. — Shaka respondeu com desdém. Sabia que Hades prolongaria aquilo e não se mostraria ansioso.

— Ah, é algo um tanto negativo, mas não deixa de ser interessante. Aqui, homens como tu são inconvenientes pela sua esterilidade. Na nossa visão da vida, a interação entre masculino e feminino estabelece a força regeneradora do universo, enquanto a relação entre dois homens é vista como a negação desse poder de dar vida,portanto, considerada um desperdício de sêmen e insatisfatória por ser improdutiva.

Shaka estreitou os olhos e lambeu os lábios.

— Imagino que haja um motivo para que me digas essas coisas.

— Chegarei ao ponto, mas é importante que entenda tudo que envolve nosso próximo passo — Hades disse calmamente, andando ao redor do dançarino com a mão no queixo, como alguém que analisa profundamente e pondera cada palavra.

— Então continue, por favor.

— Sim. Por esse ângulo, podes imaginar que seria um escândalo que o grande faraó, deus na terra, senhor dos mundos, o sagrado, A estrela da manhã, resolvesse exibir um amante estrangeiro e torná-lo sagrado, receptáculo de Háthor e seu sacerdote. Mas, e é aí que a coisa fica interessante, o povo não se horrorizou e nem se escandalizou, Shaka. Pois Saga, melhor, Aioros foi muito inteligente, como sempre, preciso confessar. Ele fez uma grande festa e o exibiu como a ave rara que tu és: lindo, perfeito, com esses olhos que tanto amedrontam quanto fascinam. E o povo se rendeu à sua beleza, como todos os povos rendem-se à beleza. Para tornar tudo ainda mais adequado, foram convocados os sonhadores do templo, pagos com muitas moedas de cobre pelo nosso justo e honesto grão vizir, e eles declararam aos quatro ventos que tu eras o presente do Oriente e que traria paz e prosperidade ao Egito. Não sei se te recordas, mas nós havíamos saído da nossa mais longa seca e o povo estava com medo. Nada seria mais adequado que transformar a libidinagem do faraó em um presságio de prosperidade. Então, o povo esqueceu da relação estéril e contra a ordem do universo e aceitou-o como o nunefer de Saga. O povo esqueceu quem tu de fatos és; um hemiu, um inimigo da grande ordem cósmica.

Shaka ponderou aquilo, mirando o governador com atenção. Sabia ser uma pessoa astuta, mas seu isolamento dentro daquele castelo o tornava cego para aqueles detalhes. Ele nunca saiu dali naqueles dois anos e ninguém falava com ele. Contudo, não se mostraria surpreso.

— E aonde chegamos com tudo isso? — indagou, fingindo-se enfadado.

— Deves saber também dos sentimentos do faraó pelo grão vizir...

— Sim, sei.

— Nunca se perguntou por que eles não realizam esse amor tão forte?

— Sempre achei que a posição que eles ocupam os impedem.

— Sim, mas não apenas isso. A ordem, Shaka. A ordem é Maat. O grão vizir é o receptáculo de Maat e aquele que detém o poder de manter a ordem. Ele não poderia jamais desrespeitar a ordem cósmica.

— Não apenas isso. Isso seria fácil resolver, só seria necessário que Aioros abrisse mão do cargo. O que é mais importante o cargo ou o amor que ele sente por Saga? — agora era Shaka quem especulava, seguindo o raciocínio de Hades.

— Muito astuto. — Tornou o governador. — Verdade, não é apenas isso. Há um passado entre o clã de Leontópolis e a dinastia. Eu ainda era um adolescente quando essa história aconteceu.

— Devo saber?

— Apenas se for curioso.

— Conte-me.

— Quando o grande faraó, Ramsés morreu e seu filho Djoser subiu ao trono. Meu pai era o grande vizir do império e reinava havia anos, pois a doença de Ramsés foi longa e debilitante. Mas quando meu primo Djoser, pai de Saga, subiu ao trono, sua primeira atitude foi dispensar os serviços de meu pai. Ilias do clã de Leontópolis, pai de Sísifo, pai de Aioros, preveniu o novo soberano de que as intenções e ações de meu pai eram más e que ele queria usurpar o trono, valendo-se de ter sangue real, o que nunca foi verdade. Meu pai foi destituído do título, e Shion, aliado e amigo de Ilias, tornou-se o grão vizir. Um pacto foi estabelecido com o clã de Leontópolis para que o próximo grão vizir fosse um dos seus filhos. Shion viveu demais para que Sísifo se tornasse vizir, mas não o suficiente para usurpar o cargo de Aioros. Meu pai, humilhado e difamado, tido como maldito por todo o império, cometeu suicídio com acônito.

Shaka o encarava sério, vendo finalmente a face de mármore de o governador transfigurar-se por algum sentimento. Hades ergueu os olhos e o encarou, percebendo que o olhar compenetrado e a expressão séria do persa foi lentamente se transformando num olhar de desprezo e num sorrisinho de lado sarcástico.

— Que historinha triste — Shaka disse, irônico. — E agora deseja vingar-se, é isso?

Hades riu de leve e respirou fundo.

— Vingança é algo que cega os tolos. Não quero vingança. Quero poder. Quero de volta o que me foi roubado e quero mais.

— E o que essa história tem a ver com Saga e Aioros?

— Não percebe, criança? — Hades riu. — Aioros não pode abrir mão do cargo até que morra ou desonrará o pacto. Além disso, ele é o primogênito de Sísifo, isso humilharia sua família. Mas... O faraó pode livrar-se dele, se quiser.

Shaka suspirou, movendo os ombros para alongá-los.

— Então, queres o lugar de Aioros. Garanto que isso não será fácil e não sei como posso ajudá-lo. Aioros não confia em mim, não tenho nenhum poder para influenciá-lo.

Hades riu mais abertamente, ficando satisfeito com o que ouvia, pois aquilo provava que Shaka não era tão perigoso quanto chegou a pensar. O persa o encarou confuso, franzindo as sobrancelhas.

— Criança ingênua — o governador disse. — Não quero me tornar vizir. Eu quero o trono do Egito.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

O dia amanhecia no grande império entre rios e a movimentação já era intensa. Todos trabalhavam para a grande celebração no templo de Ishtar. Cantores ensaiavam com seus músicos, as sacerdotisas dançavam e homens disputavam lutas diversas. Ikki acordou antes de o sol tomar o horizonte e fez sua meditação, como aprendera com Zahid há alguns anos, isso o ajudava a controlar sua latente agressividade, algo tão presente em si que às vezes o assombrava. Sentia naturalmente uma vontade de matar. Zahid dizia que o homem era feito de sua cultura, ele pensava que aquilo era apenas o monstro que morava dentro de si e que o acompanhava desde que nascera. A sombra do espírito compartilhado pelo clã, e tal espírito gostava de sangue.

Vestiu-se e ergueu-se, queria encontrar os companheiros, tomaria uma decisão naquela noite, Asmita concordasse ou não. Não era um homem de seguir ordens, tornara-se o líder de seu clã sem nome devida a isso.

Saía dos aposentos quando foi surpreendido pela presença de Afrodite. Ele franziu a testa e o belo sacerdote sorriu.

— Bom dia, árabe. Venha comigo, preciso mostrar-lhe algo.

O moreno não hesitou, seguiu-o com seus passos firmes e destemidos. Eles deixaram o castelo e atravessaram um grande pátio, que se assemelhava a um bosque, em direção ao templo, não o majestoso templo com as estátuas da deusa com pés de corujas, mas a um prédio menor atrás deste. Era o palacete do sumo sacerdote, o local em que ele morava com seus subordinados.

Havia vários corredores decorados com imensas pilastras de mármores com desenhos de conotação sexual, em muito deles, aparecia a deusa com seus pés de coruja, imponente observando tudo como uma soberana, como se fosse ela a ditar os atos que ali acontecia.

Afrodite o guiou para um quarto afastado de tudo. Assim que entrou, Ikki soube que Shaka esteve ali, podia sentir algo dele no ambiente, e então o loiro mostrou-lhe um desenho na parede, era ele, Ikki! Desenhado com uma precisão impressionante.

— O rei nunca esteve aqui, por sorte. Caso ele soubesse tuas intenções, com certeza não o deixaria chegar ao Egito. São impérios aliados agora, e Hamurabi deseja que assim continue.

Ikki ouvia, mas não conseguia tirar os olhos do desenho. Aproximou-se lentamente e sentiu como se tocasse a mão de Shaka. Pôde vê-lo desenhando aquilo, pintando a pedra durante a noite, machucando os dedos, sujando-o com a tinta negra. Fechou os olhos com força, sentindo sua mão pousar sobre a dele e apertá-la entre as suas, sentindo-lhe a maciez como fazia no passado.

Lágrimas inundaram seus olhos e ele os apertou forte para controlá-las, antes de abri-los e mirar Afrodite.

— Vai me ajudar?

O sacerdote sentou-se numa cadeira que havia ali, calmamente.

— Conte-me o que aconteceu desde que se separaram. Conheço a história de Shaka e posso contar-lhe. Conte-me a tua. Pelo que sei, deverias estar morto, embora ele nunca tenha acreditado nisso.

— Um homem me salvou.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Quando Ikki abriu os olhos, já havia se passado dez dias que ocupava a tenda de Zahid. Ele estava muito debilitado, mas fora de perigo.

A luz intensa da manhã do litoral entrava pela fenda da porta, e o tamudaei se ergueu com dificuldade, seguindo, instintivamente, o cheiro de chá que vinha do lado de fora.

— Ah, acordaste então,mahaba. Venha, sente-se. Temos pão e batatas. Deves estar com fome.

— Quanto tempo? Por quanto tempo estou dormindo? — Ikki indagou, ansioso.

— Dormiste por 16 sóis.

— 16? Preciso ir embora... Preciso...

— Não conseguirá dar dois passos se não comer algo agora. Venha, alimente-se, por favor.

Ikki estava aflito, mas também faminto e se sentou ao lado do beduíno, devorando o alimento com muita vontade. Sentiu uma leve dor no abdômen e percebeu que seu ferimento havia sido costurado.

— Preciso voltar a Karna — Ikki dizia, enquanto comia. — Dushara...

— Dushara? — Zahid indagou, curioso.

— Meu cavalo. Ele ficou lá — resmungou.

— Vai voltar para os braços da morte por causa de um cavalo? — o beduíno ergueu uma sobrancelha.

Ikki continuou comendo. Não queria falar da sua história, não tinha tempo para isso e também não interessava. Precisava apenas voltar.

— É um bom cavalo — resmungou novamente.

— Imagino que seja. Bom, antes de tudo, precisas falar com o senhor da Saubeia. Ele deseja saber o que um tamudaei faz adentrando o litoral e seus domínios. Sabeis que há mais de 100 anos há uma fronteira entre as duas cidades e há um rancor milenar entre saubeus e tamudaeis.

— Aprendi que saubeus são covardes, afeminados e sem palavras.

Zahid riu disso.

— Aprendeste com os tamudaeis? Com o clã mais covarde e sem palavra que há no grande reino?

Ikki o encarou de maneira feroz, o sangue tamudaei ainda esquentava diante de uma ofensa. Ele aprenderia no futuro a não se considerar mais um tamudaei, mas naquele momento tudo era muito recente e ele ainda possuía um vínculo de linhagem com o clã.

— Podes me fazer mudar de ideia. Nunca conheci um tamudaei, tudo que sei foi o que me ensinaram — o beduíno sorriu humildemente e continuou a comer.

— Os tamudaeis são homens fortes que não temem nada.

— E que também pilham, roubam e estupram, estou correto?

— Tu não entendes...

— O que deveria entender?

— Fazemos o melhor para o clã!

— Roubar? Destruir vilas? Violar mulheres?

Ikki mordeu os lábios, sem saber o que dizer. Até porque, desde que conhecera Shaka, tudo que seu clã fazia lhe parecia tão errado...

— Preciso voltar lá. Tenho contas a acertar com o clã das serpentes negras.

— Um homem contra uma cidade inteira? Melhor, um menino...

— Não sou mais um menino. E preciso voltar lá. Preciso saber dele... Não tenho tempo a perder. Preciso de uma saif...

— Precisa estar saudável antes de qualquer coisa.

Ikki mordeu os lábios novamente e encarou o tamudaei.

— Cada dia que passo aqui, aumentam as chances de ele se perder para sempre de mim ou de morrer.

— Ele?

— Eu não posso dizer mais. Preciso salvar uma pessoa.

Zahid assentiu com a cabeça.

— Avisarei a Hasgard que acordaste. Ele irá ouviste.

Ikki apenas assentiu com a cabeça. O beduíno se ergueu e cobriu-se com um manto. Havia um camelo preso sob a sombra de uma grande tamareira. Ikki o viu caminhar tranquilamente até o animal e depois de cumprimentá-lo carinhosamente, como se faz a uma criança, ele o montou e partiu.

Ikki ergueu-se de onde estava. Podia ouvir o barulho da água descendo das pedras das montanhas e decidiu tomar um banho, estava imundo depois de tanto tempo de convalescença. Despiu-se e entrou na água fria, lavando-se e pensando em formas de reencontrar Shaka. Acreditava que ele estava vivo. Shaka era forte, esperto, ele sobreviveria, tinha certeza.

Saiu da água e pegou a roupa que vestia, um camisolão, mas ela pareceu malcheirosa e ele não quis vesti-las, então caminhou nu até a tenda e procurou suas roupas com os olhos. Não encontrou as roupas que deixara Karna, mas achou peças dobradas sobre a esteira em que esteve deitado. Pensou que eram para si e vestiu sem cerimônia, era uma calça reta negra e uma túnica vermelha, diferente das roupas tamudeias, mais leves. Havia também um lenço negro que ele envolveu no pescoço e que serviria para esconder seu rosto quando necessário. Tinha que ir embora e precisava estar pronto.

Mas antes que pudesse sair da tenda, esta foi invadida. Ele encarou o invasor atentamente, em desafio, embora estivesse fraco e percebesse que uma luta entre eles seria desproporcional e desvantajosa para si. Estava debilitado e o homem a sua frente possuía quase o dobro do seu tamanho e era muito forte, embora, olhando-o com atenção percebesse que ele tinha pouco mais que a idade do tamudaei.

— O que queres? — Ikki indagou em desafio.

— Tu és um tamudaei? Um desprezível tamudaei? — a voz forte do homem à sua frente indagou.

— Quem pergunta? Um frouxo saubeu? — cuspiu, disposto a não recuar da briga.

O rapaz loiro franziu as espessas sobrancelhas numa careta de desagrado.

— A insolência faz mesmo parte da tua raça como me disseram. O fato, tamudaei, é que tu invadiste nosso território e precisa sair dele. Não importa o que pense Zahid.

— O beduíno? Não, não importa o que ele diz. Eu já estou mesmo de saída.

Ikki avançou, mas o jovem loiro se moveu, ocupando-lhe o caminho.

— Não antes de ter uma audiência com Hasgard. Uma serpente invadiu nosso quintal, precisamos saber qual o poder de seu veneno.

— Então eu falarei contigo, Hasgard da Saubeia, e depois irei embora.

A firmeza na voz de Ikki pareceu divertir o saubeu que começou a rir, fazendo o tamudaei franzir as sobrancelhas, irritado.

— Não, não! Eu sou apenas o filho dele! Fui encarregado de levá-lo até a cidade, vamos?

Ikki mirou o rapaz desconfiado e este cruzou os braços, mostrando que não sairia dali sem o outro. O tamudaei resignou-se e o seguiu.

Do lado de fora da cabana havia dois cavalos selados os esperando. O saubeu montou e esperou que o moreno fizesse o mesmo, coisa que Ikki fez com dificuldade, o ferimento ainda não estava cicatrizado.

Ele seguiu o saubeu, observando a paisagem ao redor, as tamareiras altas que faziam trilhas pelo caminho, o mar mais adiante cuja brisa fresca tocava-lhe o rosto. Era um lugar bonito, Shaka teria gostado de viver no litoral. Suspirou de tristeza e aflição com esses pensamentos, mas sabia que precisava ser cauteloso se quisesse encontrá-lo. Seu coração sentia que ele estava vivo, mas em perigo.

— Qual o teu nome? — o rapaz saubeu indagou, quebrando o silêncio da cavalgada.

— Ikki.

— Sou Aldebaran. Filho de Hasgard, senhor da Saubeia. Qual era a tua posição entre os tamudaeis?

— Isso não importa mais. Agora sou um exilado.

O loiro deu de ombro. Mais algum tempo, e eles alcançaram os portões da cidade. Ikki se surpreendeu ao ver Zahid sentado na entrada da cidade, conversando com alguns guardas. O beduíno ergueu-se e acenou ao vê-lo.

— Que bom que veio, mahaba Ikki. Que os deuses o protejam.

Ikki o mirou e aos homens que o acompanhavam e demonstravam todo desgosto de ter um tamudaei adentrando sua cidade.

— Não vem comigo?

— Não posso entrar na cidade — Zahid sorriu com um pouco de tristeza. — Também sou um exilado, meu jovem.

— Vamos — Aldebaran disse, passando pelo portão. Ikki, confuso, o seguiu.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Notas finais
GOSTARAM? NÃO? DEIXE UM COMENTÁRIO E ALEGRE O DIA DA AUTORA ;) BEIJOS NO CORAÇÃO E ATÉ O PRÓXIMO! SION