Notas iniciais
Olá, meus queridos, tudo bem? Mais um capítulo e este está revelador, eu acho hehehehe. Muito obrigada àqueles que deixaram um comentário no capítulo anterior e aos lindos que vêm recomendando a história. É muito gratificante saber que vocês gostam. Crédito ao artista pela imagem no capítulo, achada em busca aleatória no google e creditada a Andancia. Beijos e boa leitura!

A grande contenda

الفصل 22

Para um tamudaei, a Saubeia era surpreendente. A exemplo de Makkah, era uma cidade com um comércio muito forte e nas ruas podia-se observar tendas coloridas vendendo diversos tipos de produtos. Os prédios eram de madeira e pedra, cobertos por peças de barro ou palha, as ruas eram limpas, sem corrimento de água e crianças brincavam livremente, longe de treinamentos militares. Diante das semelhanças com Makkah, Ikki refletiu que era Karna a cidade diferente ali na Arábia. Karna mais parecia uma prisão com suas construções cinzentas e frias, enquanto a Saubeia explodia em vida.

Aldebaran parou de frente a um grande prédio pintado de vermelho, tendo símbolos esculpidos, imagens de homens lutando com bestas.

— Esta é a morada do Emir da Saubeia — ele explicou, apeando do cavalo. — Venha, ele e o conselho irão recebê-lo e decidir por teu futuro.

Ikki o seguiu. Algumas pessoas os cercaram, curiosas, antes que eles adentrassem o prédio. O corredor de chão vermelho abrigava esculturas de deuses e homens e, ao final, eles chegaram a uma grande sala.

Uma mesa de bronze, semelhante a um grande imã, cujas pontas ficavam para a porta, estava ao centro e, atrás dela, na parte que parecia ser a cabeceira, estava um homem loiro, muito semelhante ao seu companheiro até aquele momento, mesmo sendo visivelmente mais velho e exibisse uma grande cicatriz na face, marca de algo que havia vazado seu olho e o inutilizado. Havia mais dois homens, um em cada lado do imã, anciões de barbas brancas e compridas, muito semelhantes ao modo que Zahid utilizava a sua.

Aldebaran fez uma reverência e deixou a sala. Ikki ficou parado, altivo, esperando que alguém se pronunciasse.

— Aproxime-se, tamudaei, e conte-nos o que teus pés malditos fazem na Saubeia.

Ikki aproximou-se, mirando firme o rosto do Emir.

— Meus pés não são mais malditos aqui que em Karna, meu senhor.

— E por quê? — um dos anciões indagou, erguendo uma das fartas sobrancelhas. — O que fizeste para que os loucos e fiéis tamudaeis o condenassem à morte por exílio? Sim, conhecemos os costumes selvagens do teu povo.

— Eu desobedeci as regras do clã.

— De que forma?

— Amando. Não é permitido a um tamudaei amar.

Hasgard e seu conselho se entreolharam.

— Não brinque conosco, menino. Deves ser mais específico se quiseres sair vivo daqui.

— Não posso ser mais detalhista que isto. Só precisam saber que nutro tamanho ódio aos tamudaeis que nenhum saubeu jamais será capaz de sentir como sinto. Amaldiçoados sejam todos eles, e eu os matarei, a todos, assim que possível.

A declaração que causaria riso de troça em outros locais apenas fez que o conselho e o rei da Saubeia se entreolhassem e falassem algo entre si, numa língua que Ikki desconhecia.

Hasgard depois se dirigiu ao jovem novamente.

— Por mais ódio que nutras contra eles, isso não faz de ti um saubeu e precisas deixar nossa cidade.

— Farei isso de imediato.

— Calma, rapaz — um dos anciões disse. — Gostaríamos que ficasse um pouco mais, se possível.

Ikki ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

— Por quê?

— Precisamos de algo que apenas um tamudaei tem. Talvez não seja algo que possa ser ensinado, mas que pode servir de exemplo.

— O quê?

— Selvageria — Hasgard respondeu. — Precisamos fortalecer o exército e muitos dos nossos jovens estão mais inclinados às letras que à espada. Um tamudaei deve servir para algo, afinal.

— Aceito se em troca me desses armas e suprimentos para a minha jornada.

— Qual jornada?

— A volta a Karna.

— Volta a Karna? Se o que disseste até aqui for verdade, estás louco de voltar àquele lugar. Os deuses o pouparam uma vez, não pouparão novamente.

— Tenho amigos a resgatar, lá. Irei para destruir a cidade.

—Muito ódio para um coração tão jovem — ponderou um dos anciões ao lado de Hasgard.

— Não há um coração — Ikki disse sem temor. — Eles o arrancaram de mim.

— Certo, jovem tamudaei — Hasgard disse, enfim. — Temos um acordo. Mas antes, preciso levá-lo a um lugar. Talvez já tenhas ouvido falar desse lugar. É uma terra de exilados, assim como tu.

— O vale dos desterrados. Nunca soube onde fica ou se realmente existe.

— Sim, ele é real. E irás conhecê-lo. Venha comigo, tamudaei.

— Ikki — o jovem retificou, recebendo um olhar do líder, antes de segui-lo para fora do prédio.

Ikki montou no cavalo castanho que Aldebaran havia lhe dado, e Hasgard num multris vermelho. Eles seguiram para a saída da cidade.

O líder era cumprimentado enquanto passava, e o tamudaei, olhado com curiosidade. Chegaram ao grande portão, local onde encontraram Zahid conversando com os guardas. Ele e Hasgard trocaram um olhar firme.

— Para onde vais com ele? — o beduíno indagou.

— Ao vale dos desterrados. Quando retornarmos, poderás levá-lo de volta à tua tenda — o líder disse e adiantou-se. Ikki lançou um olhar ao beduíno, que respondeu apenas com um manear de cabeça.

O tamudaei seguiu o saubeu em silêncio por um longo tempo até que foi vencido pela curiosidade.

— Por que o beduíno não pode entrar na cidade? — indagou.

— Cometeu um crime.

— Qual?

Hasgard suspirou, detestava aquela curiosidade obstinada própria das crianças. Aldebaran ainda tinha a mesma petulância, às vezes.

— Matou um homem.

— Por quê?

— Adultério. O homem que ele matou estava dormindo com a esposa de Zahid. Pelas nossas leis, a esposa seria apedrejada, mas o homem seria apenas preso por algum tempo. Zahid achou injusto que apenas ela morresse.

Ikki suspirou. Aprendera a achar tais leis injustas também. Leis que condenavam a mulher, ser mais frágil, e poupavam aqueles que eram mais fortes.

— Creio que ele deve tê-la perdoado por amor e não achou justo que ela morresse sozinha.

— Sim, mas ele desrespeitou uma ordem do emir. Não deveria buscar vingança, são as leis do clã.

— Leis injustas. Zahid parece um homem bom, não deveria ser expulso da cidade.

— Ele poderia ter sido morto! Eu o poupei — Hasgard disse, enfático. — O que uma criança tamudaeia sabe da vida?

— Quem era o homem que ele matou?

— Isso importa?

— Quem?

— Ele era... meu irmão.

Ikki ficou calado por um tempo, analisando aquela informação.

— A esposa foi apedrejada?

— Não. Ele lhe forneceu veneno, para que ela morresse sem dor. O mesmo fez ao homem. Desrespeitar as leis do clã é uma ofensa aos deuses.

— Ele foi piedoso. Por que isso é tão errado? Por que as leis precisam estar acima dos sentimentos?!

— Porque nem todos os sentimentos são bons e infelizmente não podemos decidir o que é legítimo de acordo com o que achamos certo, mas com o que é correto para todas as pessoas. Só para que saiba... Zahid é meu irmão do meio... Meu irmão mais velho era o emir.

Ikki calou-se, percebendo o quanto aquilo machucava o líder. Guardou um silêncio respeitoso e continuou sua marcha para o Vale dos desterrados.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

— O trono... — Shaka soltou um risinho. — Claro, tens sangue real, seria bem fácil. Mas esquece-te que existe um príncipe que é o primeiro na linha de sucessão, mesmo que te livres de Saga. Não me digas que desejas livrar-te dele também? — sondou, mirando os olhos frios do governador.

Hades encarou o rapaz com mais piedade que ironia antes de dizer:

— Pandora o considera perigoso. Diz que tu és furtivo e dissimulado, que possuis uma alma ardilosa, que és o macho agressivo de uma cobra-rei. Mas o que vejo agora é mais um homem que coloca seus sentimentos acima dos seus ideais. O príncipe Mu, o homem que entregou teus segredos a mim, é realmente tão importante que valha teu receio?

— Ele não entregou. Dizes tal coisa para confundir-me — Shaka hesitou.

— Claro. Há mais alguém que possa me falar do tempo em que estiveste entre os tamudaeis da Arábia? Do tempo em que estiveste no templo de Ishtar na Babilônia?

Shaka estremeceu e um grande fel tomou seu coração. Ele realmente confiara em Mu, amava-o, e o que recebia em troca? Novamente era traído, novamente era vendido. Respirou fundo e encarou Hades mais uma vez, vendo a satisfação brilhar nos olhos frios.

— O que queres de mim?

— Vejo que tomaste uma sábia decisão, Durdanna. — Hades sorriu. — Sou um homem que cumpre a palavra. Terás tudo que prometi e o dobro, se me fores fiel.

— Eu o serei — Shaka disse, engolindo em seco aquele amargor.

— Sim, eu sei.

— O que queres que eu faça?

— Antes disso, preciso contar-lhe uma história, Shaka. Uma história antiga, muito antiga, quando os deuses ainda reinavam no grande Egito. Sei que gostas de contar histórias, mas gostaria que agora apenas as escutasses — Hades aproximou-se da grande janela, sem se incomodar que Shaka continuasse parado. — Vamos falar de sexo, Shaka. Não do sexo como tu e tantos outros conhecem, mas do sexo como ele é denominado desde os primórdios do tempo. Vamos falar do sexo como poder...

Shaka franziu as sobrancelhas e se aproximou lentamente. Hades sorriu de lado e continuou.

— Já deves ter ouvido falar de Hórus, o filho do grande deus Osíris...

— Sim. O deus dos céus, aquele que nasceu após a morte do pai. Fiz questão de ler tudo sobre vós, logo que cheguei aqui, governador. Tu falas que sexo é poder, eu digo que conhecimento também é. É tal poder que faz de mim mais que um simples escravo — o loiro disse suavemente, parando ao lado do homem mais velho.

— Concordo. Então ouças com atenção, pois este conhecimento o levará para longe do Egito e do odioso leito do faraó.

— Prossiga.

— Todos conhecem e veneram Hórus, deus dos céus, entretanto, esquecem que, como tudo, Hórus teve seu oposto. Seu nome era Seth, irmão mais novo de Osíris. Dizem que ele era a própria violência e o ciúme e que rasgou o ventre de sua mãe, Nut, com as próprias mãos para nascer. O que poucos lembram é que Seth era originalmente um deus bondoso e pacífico, que ajudava seu pai Rá em sua eterna luta contra a serpente Apófis, o próprio caos, no barco solar. Mas algo mudou Seth: a injustiça daqueles que ele amava o mudou. — Hades soltou um suspiro cansado. — Alguns contam que Néftis, esposa de Seth, fora seduzida por Osíris e isso gerou o ódio e os ciúmes do antes pacífico deus, tornando-o a representação do mal. Eu prefiro pensar que o mal está em todos nós, ele só precisa de um momento, uma necessidade, para se manifestar — Hades lançou um olhar rápido a Shaka e voltou a fitar pela janela. — Mas a contenda entre Seth e Osíris não é muito importante aqui, nem o fato de ele ter esquartejado o irmão em 14 pedaços e isso ter divido o grande Egito por séculos. Não, o que eu preciso contar-te é sobre a singela relação entre Seth e Hórus, seu formoso sobrinho. Com Osíris morto, Hórus era o primeiro na linha de sucessão, coisa que Seth jamais aceitaria, e é aí que entra o sexo. No âmbito divino, como hoje entre nós egípcios, os papéis sexuais estão muito bem definidos e o falo é o poder do macho. Nunca imaginaste os motivos para que Saga e Aioros não queiram se tornar amantes? — ele encarou o rosto pensativo de Shaka e sorriu. — Papéis, Shaka. Para os homens, ao menos os homens da alta nobreza do Egito, receber o sêmen do outro entre as nádegas é renegar a sua função cósmica. É cuspir no nome do clã, é desonrar suas próprias origens.

Shaka o escutava calado. Todas aquelas informações lhe causavam um grande mal-estar, mas ele precisava ouvir, talvez aquela fosse sua única chance de finalmente se ver livre.

— Continua — pediu mais uma vez.

— Como estava dizendo, Hórus era atrativo e de alguma forma deve ter demonstrado algum interesse por Seth. Segundo nossos documentos sagrados, Seth atraiu Hórus para sua casa e pediu que ele deitasse consigo, ao que Hórus consentiu. Hórus o chamava de “querido do meu coração”, logo, não podemos pensar que o sexo entre os dois não foi consensual. O que há escrito é que “No meio da noite, Seth fez seu membro endurecer e penetrar entre as nádegas de Hórus”, eles fizeram sexo, mas Hórus não permitiu que a semente do tio ficasse dentro dele, a aparando com a mão no momento que Seth ejaculou. Talvez Hórus se sentisse amado, mas as intenções de Seth eram simples poder. Poder. O poder de subjugar o seu adversário. Deitar-se sobre o outro é uma forma antiga de humilhação que, para o bem ou para o mal, ainda faz parte das nossas crenças. A utilização do sexo como demonstração de poder sobre os inimigos fica clara na sequência dos acontecimentos do que foi chamado de “a grande contenda”. Hórus, ciente agora das intenções de Seth, vai até sua mãe, Isis, e chora, mostrando a mão com o sêmen do tio. Os dois então armam um cruel e mentiroso ardil contra Seth. Isis masturba seu filho, recolhendo o seu sêmen que, em seguida, é passado sobre as alfaces, comida favorita de Seth, que as come, seduzido pelo próprio Hórus.

Quando os deuses se reúnem no grande salão dos céus, Seth deu seguimento ao seu plano, orgulhosamente. Disse que tinha feito o trabalho do macho com Hórus e exigiu o cargo de governante, alegando que, por ter sido subjugado, Hórus era desqualificado para reinar. Quer fosse filho de Osíris, quer não, agora tinha sua semente dentro dele, o que podia lhe dar o direito de sucedê-lo, mas jamais de precedê-lo. Os deuses então gritaram horrorizados, humilharam e cuspiram na face de Hórus. Quando finalmente eles pararam, Hórus disse que o tio mentia e que era a semente dele que estava dentro de Seth, o que tornava o tio desqualificado para reinar. Atônitos, os deuses pediram a Thot, deus da sabedoria, para resolver a questão. Ele então chamou a semente de ambos os deuses, e a semente de Hórus respondeu do corpo de Seth, na forma de um disco dourado na testa do deus, disco que Thot transformou no símbolo da lua. Seth então declarou guerra aos deuses e perdeu, sendo banido e desonrado. É por isso que hoje ninguém lembra quem foi o grande deus Seth. Entendes, Shaka, o poder do dominador e do dominado?

Shaka guardou silêncio longamente e depois sorriu com o canto dos lábios.

— Grande tolice. Nenhum homem ou mulher é maior que o outro, não importa suas relações. E sexo pode ser manifestação de poder, mas também pode ser manifestação de amor.

— Eu sei — Hades respondeu. — Também vivi os dois lados dessa história. Eu vi amor transformar-se em sexo e vi sexo transformar-se em amor, mas não é o que vai acontecer agora, Pequena pérola do Oriente. Agora, o que há em jogo é unicamente poder.

— O que tudo isso tem a ver comigo, Hades? Por que me contaste toda essa história, afinal?

Hades o encarou com um tanto de deboche. — Decepciona-me, Durdanna.

Shaka franziu a testa e deu dois passos para trás como quem pondera tudo que foi dito até o momento. Quando finalmente compreendeu todas as questões políticas envolvidas naquela conversa. Empalideceu, os olhos azuis escurecendo ao encarar o governador novamente, demonstrando sua incredulidade.

— Mu — ele afirmou, estarrecido. E Hades sorriu.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

— Como assim? Vamos seguir com o casamento mesmo Aioros estando fora? — Aiolia indagou, surpreso e apavorado, encarando a mãe que corria com as servas, escolhendo tecidos e adornos.

— A família da noiva já ameaça entregá-la a outro pretendente e não encontraremos moça melhor, então faremos a cerimonia, mesmo com a ausência do teu irmão. Teu casamento acontecerá daqui a três dias, Aiolia, é bom que te despeças das coisas de menino — a mulher o encarou, séria. — Sabes muito bem do que estou falando.

Aiolia calou-se. Dentro de si brilhava algo entre alívio e tristeza: se tinha que acontecer, que fosse breve. Então ele deixou a mãe sozinha e saiu para o treinamento. Era melhor aceitar de vez, fazer o que esperavam dele. Suspirou, sentindo lágrimas de frustração nos olhos. Marin era maravilhosa, mas não era ela quem amava. Contudo, se teria que viver aquela vida enganosa, melhor que fosse com ela, uma mulher bela e sagaz. Deixaria que sua vida seguisse como o fluxo do Nilo. Era o melhor?

Chegou a uma das arenas do grande passo real e encontrou Defteros e Mu numa luta de lanças. Sentou-se e ficou observando-os, sorrindo quando o príncipe se mostrava habilidoso e selvagem, mesmo que sempre houvesse graça nele. Mu era bonito demais para ser um homem, era o que ele pensava, e lastimava a sorte de ele não ter nascido uma mulher, ao mesmo tempo que se questionava se o amaria, caso ele fosse uma.

Suspirou mais uma vez e viu quando Defteros derrubou o príncipe e depois de ralhar com ele, ajudou-o a se erguer. O treinamento havia terminado, então, sorridente e suado, Mu se aproximou do amante.

— Quando teu pelotão começa as atividades? — ele perguntou, ainda ofegante da luta.

— Acho que em um quarto de hora, por quê? — Aiolia perguntou, fingindo desinteresse.

— Pensei que poderíamos ficar juntos até lá... Meu pai e Aioros não estão no castelo — o garoto falou, desviando o olhar, meio tímido.

Aiolia engoliu em seco. Não conseguiria olhar nos olhos de Mu e dizer a verdade, não naquele momento. Sorriu fraco e assentiu com a cabeça.

— Espere-me, irei assim que terminar meu treinamento. Teremos mais tempo se nos encontrarmos depois.

Mu concordou com um aceno de cabeça e saiu em direção ao castelo. Ele sabia que eram momentos fugidios, que logo tudo terminaria, mas a impossível esperança ainda o animava. Talvez... Talvez houvesse um plano divino secreto para salvá-los. Ele rezaria à grande mãe Isis para que os ajudasse.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Afrodite mirava Ikki, muito interessado em sua história. Não havia dúvidas de que ele fosse o homem que roubara o coração do indômito Shaka, príncipe de Najah. O árabe havia dado uma pausa, e o sacerdote pediu que lhes fosse servido suco de cakua, um fruto cuja polpa doce e ácida refrescava a garganta nos dias quentes.

— Falei um pouco de mim, agora me fale dele. Como ele foi parar no Egito? Por que não ficou aqui?

Afrodite respirou fundo e soltou um sopro de aborrecimento pelos lábios.

— A culpa foi minha. Shaka era uma criança indômita, mas se tornou o melhor dos meus assinus...

Assinus?

— Prostitutos rituais — o sacerdote explicou, e antes que Ikki se manifestasse, ele ajuntou: — Ele nunca chegou de fato a exercer o serviço do templo... Eu dei todo o tempo necessário para que ele se recuperasse de suas ferimentos e um tempo extra para que chorasse sua morte, embora ele nunca tenha aceitado isso. Shaka nunca achou que estivesses morto. Enfim, era uma criança teimosa que não aceitava muito bem sua nova condição.

— Quem aceitaria? — Ikki indagou entre dentes, e Afrodite sorriu com o canto dos lábios. Será que aquele pirralho achava que poderia intimidá-lo? Fora ele quem quis saber de tudo. Não o pouparia dos detalhes mais sombrios daquela história.

— Eu o compreendia bem — volveu Afrodite e ergueu a túnica mostrando o ombro marcado com o símbolo babilônico de um ser antropomórfico entre homem, leão e cabra, dentro de um círculo. — Também sou um escravo e durante muito tempo resisti a esta condição, mesmo não sendo um príncipe. Eu o entendia, mas não podia aceitar.

— O que fez a ele?

— O que qualquer pai amoroso faria. Eduquei-o para que sobrevivesse... Eu e o homem que ele chegou a chamar de pai... O luto havia chegado ao fim. Shaka fora retirado da casa de purificaçãoe deveria começar suas lições para os serviços do templo. Contudo, mostrou-se hostil. Estava mais interessado em conversar comigo e com os meus assinus sobre sua história do que em aprender os rituais sagrados a Ishtar. Também se mostrava desesperado para ir embora, em busca de alguém que eu achava estar morto. Isso era loucura, e eu não podia conceder-lhe privilégios, embora assim como os demais, estivesse fascinado diante de tanta inocência e boa índole. O templo, por mais estranho que isso pareça, não é o lugar onde habita as mais belas almas. Meus sacerdotes são escravos e escravas. Pessoas arrancadas de suas vidas, usadas, maltratadas, que chegam a mim com a alma seca, sem mais nenhum sonho ou esperança. Mas Shaka, embora houvesse passado por muitas tristezas, continuava limpo, cheio de esperanças estranhas, e possuía um amor inabalável por alguém que todos, fora ele, julgavam morto. Meus assinus apaixonaram-se por ele. Shaka parecia um mensageiro dos deuses distribuindo esperança e falando de liberdade... Isso não era muito bom para os negócios da Babilônia. O templo também era um centro de comércio e arrecadação de Hamurabi. Todos deveriam cumprir suas funções, inclusive ele.

— O que fez a ele? — o coração de Ikki estava disparado no peito só de imaginar o que seu amor passara naquele lugar de depravações.

— Ele precisava dançar, precisava aceitar sua condição de assinu e brevemente oferecer seu corpo a um homem em pró da deusa. Era essa a função dos sacerdotes do templo, e Shaka deveria se sentir feliz por ter sido comprado para tal função e não para servir no palácio ou em uma das muitas casas de prostituição de Uruk. Fui muito paciente com ele, e ele extremamente insolente...

Afrodite, apesar de possuir a voz sempre macia e tranquila, era detentor de um gênio forte e disciplinador. Ele começou a se cansar dos abusos do menino arrogante que dizia ser um príncipe. Não havia nada que fizesse que retirasse do jovem a resolução de morrer para não servir a Hamurabi, Ishtar, ou quem quer que fosse.

“Não sou um servo! Sou um príncipe!”, Shaka dizia desafiadoramente na frente de quem fosse. Afrontava-o todo o tempo sem nenhum pudor.

Afrodite era o sumo sacerdote, um homem perigoso e poderoso, e para manter esse status, deveria disciplinar seus assinus como eles mereciam. Shaka foi um príncipe. Precisava mostrar-lhe que não era mais.

O sol já estava muito alto naquela manhã. Shaka estava sentado na beira de uma fonte de pedra caucásia e brincava de tentar perseguir os grandes peixes que nadavam na água límpida. Gostava de ficar ali no belo pátio que antecedia seu quarto simples de servo atrás do grande zigurat. Ali, ele parava e pensava em uma forma de fugir para reencontrar Ikki, pois sabia que Ikki estava vivo. Sabia que ele cumpriria sua promessa. Sentia-o chamando seu nome, procurando-o. havia um elo entre eles que nada destruiria.

Tirou do bolso da calça branca de tecido cru que vestia, a última pérola vermelha que tinha. Fizeram uma trilha delas da Arábia até ali. Ele o encontraria. Sabia que o encontraria.

Estava distraído quando viu Afrodite surgir entre dois dos guardas imensos que guardavam o templo. O sacerdote vinha, como sempre, belíssimo em sua toga de um ombro só que chegava até os pés brancos calçados em sandálias, seus cabelos volumosos e cacheados esvoaçavam como um redemoinho de luz, mas seus olhos azuis traziam um brilho cruel que não escondia suas intenções.

— Shaka, eu o esperei para o treinamento a manhã inteira — o sacerdote falou muito calmo, aproximando-se do rapaz mais novo.

— Já disse que não irei — volveu Shaka, erguendo-se e encarando Afrodite nos olhos. — Não me submeterei a nenhum homem da Babilônia, minha palavra nobre não volta atrás...

Mal terminou a frase e recebeu uma bofetada que tirou sangue dos seus lábios.

— Garoto tolo e arrogante! Não terei mais piedade de ti, chega! Podem levá-lo! — o sumo sacerdote disse, dando as costas a ele.

Shaka se debateu, mas os homens eram muito mais fortes que ele e o arrastaram para a entrada do templo, enquanto Afrodite seguia tranquilamente atrás deles. Logo os outros assinus se aproximaram curiosos.

— O que fará com ele? — indagou Misty com um sorriso malévolo nos lábios. Até a chegada de Shaka, ele era considerado o mais belo dos assinus de Ishtar. Para alguns, ainda o era, mas o fascínio que o garoto persa causava, despertou-lhe os ciúmes. Misty não simpatizava com o príncipe e não se sentiria nada infeliz se ele fosse castigado. Shaka era atrevido e parecia achar-se melhor que todos. Que pagasse o preço da sua arrogância.

— Dar-lhe-ei o castigo que ele precisa para aprender disciplina! — Afrodite respondeu, mesmo que não gostasse da crueldade que brilhava nos olhos de Misty. — Afasta-te se não desejas o mesmo destino. —ameaçou.

Misty sorriu, posicionando-se de lado e admirando o espetáculo, satisfeito, enquanto os outros assinus, moças e rapazes, miravam aquilo, consternados.

Os soldados amarraram Shaka a um obelisco que possuía correntes específicas para disciplinar escravos em praça pública. Afrodite fez soar um chicote e se aproximou do mais jovem.

— Eu o avisei, agora infelizmente terei que aplicar a ti a mesma pena que seria aplicada aos demais, caso fossem insolentes como és. Lembre-te, Shaka, aqui não és um príncipe! Eu ordeno e tu me obedeces, entendeste bem? Ou isto, ou eu mesmo o sacrificarei em nome da deusa!

A mão de Afrodite tremia e seu rosto estava vermelho pela raiva e pela revolta que sentia ao ter que fazer aquilo. O chicote com o qual disciplinava seus assinus era diferente, embora cortasse, não era tão danoso quanto os que maltratavam os outros escravos. Ainda assim, provocaria muita dor.

Shaka estremeceu, sabia que aquilo o machucaria, e embora seus olhos estivessem molhados, ele olhou por cima do ombro em desafio, erguendo o queixo, os olhos derramando-se de raiva.

— Eu sempre serei um príncipe! — grunhiu com um olhar feroz — E não me importa se vás me bater! Nunca arrancarás isso de mim!

— Pois bem!

Afrodite ergueu a mão e estava pronto para golpear as costas do garoto se alguém não lhe segurasse o pulso.

— O que pensas que estás fazendo?! — a voz forte de Krishna fez-se ouvir.

— Solte-me, Krishna! Ele foi entregue a mim para se tornar um recipiente de Ishtar, tenho todo o direito de disciplina-lo!

— Não deixarei que o machuque!

— Não me desafies... — sussurrou Afrodite com os olhos brilhando de cólera.

Krishna baixou o olhar respeitosamente e soltou o pulso do sacerdote.

— Senhor, sei que és um representante da deusa e que tens todo o direito de disciplinar este rapaz como queiras, mas, por favor, permita-me tentar uma última vez persuadi-lo a obedecer-lho?

— Sim, Afrodite!

A voz do rei se fez ouvir. Afrodite voltou-se e surpreendeu-se ao encontra-lo junto a um dos seus comandantes. Ele usava apenas uma calça vermelha folgada e seu tórax forte estava desnudo, ornado por um colar repleto de dentes de leão, como geralmente ficava. O olhar violáceo de Máscara da morte sorriu para o sacerdote, que se empertigou, empinando ainda mais o formoso nariz, se isso fosse possível.

— Tudo bem, Krishna. — O belo disse. — Mas se Shaka não cumprir suas obrigações até amanhã. Eu o buscarei pessoalmente em seus aposentos e dessa vez não será para puni-lo, mas para matá-lo. Falado isto, o belo do norte marchou para dentro do templo, passando pelo rei, a quem fez um movimento respeitoso de cabeça, e sumindo atrás da estátua de Ishtar. Hamurabi trocou um olhar divertido com Shura, seu capitão, e então seguiu o sacerdote. Todos estavam tão envolvidos no problema que nem reverência prestaram ao soberano.

Krishna caminhou até Shaka e pediu que os soldados o soltassem. O pequeno massageou os pulsos e jogou os cabelos para trás, empinando o nariz ao erguer o queixo de forma tão petulante quanto a do sumo sacerdote.

— Tu vens comigo — falou o mordomo-mor entre dentes, segurando o pulso do príncipe de Najah e o arrastando para suas acomodações nos fundos do templo.

Shaka puxou o braço, libertando-se, quando entrou na câmara que ocupava com mais dois assinus.

— Eu disse que não dançaria para ninguém — regougou, cruzando os braços. — Ele não tem o direito de me forçar!

— Cale-te, garoto estúpido, ele tem todo o direito! — irritou-se o Krishna. — Afrodite é o sumo sacerdote, uma autoridade divina e dizem, que Marduk me proteja, que ele manda até no próprio Hamurabi. Se ele quisesse, o esmagaria como a um inseto insignificante!

— Que faça! Prefiro estar morto que aqui! — os olhos do menino marejaram, e Shaka, orgulhoso, deu as costas ao outro, para que ele não percebesse. — O que esperas de mim, senhor Krishna?

— Que lutes. Somente lutes para reencontrar esse amigo que tanto amas. E não é enfrentando Afrodite que conseguirás isto. Shaka, tua única chance de sair daqui vivo e reencontrar esse menino é te tornando um assinu de Ishtar, ganhando prestígio e conseguindo tua liberdade!

— Não consigo, senhor Krishna. — O menino deixou as lágrimas caírem. — Vi o que os assinus fazem... Eles... Eles se sujeitam da forma mais vil! Não posso fazer isso! Eu... Eu estaria traindo Ikki...E... — virou-se e seus olhos terrivelmente azuis encararam o mouro assustado – Ele me mata se souber!

Krishna sentiu vontade de rir, mas esforçou-se para manter-se sério. Não podia deixar que maltratassem aquela criança, porque Shaka era apenas isso, uma criança apaixonada e perdida; sofrida e sozinha.

— Apenas dance. Se prometeres dançar, convencerei Afrodite a não colocá-lo no serviço do templo, não ainda. Prometa-me.

Shaka mordeu os lábios, hesitante.

— Prometa-me, Shaka!

— Sim, eu prometo. Amanhã, dançarei como quer o senhor Afrodite — volveu o menino, firme.

Krishna sorriu satisfeito. — Ótimo. Agora vá até a despensa e coma alguma coisa. Continuas horrivelmente magro!

Shaka sorriu e balançou a cabeça positivamente. Krishna começava a se retirar quando parou por causa de um chamado do garoto.

— Fale, Shaka.

— O senhor és um bom homem e também és meu amigo. Obrigado.

O homem de Muariett sorriu, assentindo com a cabeça e partiu.

— Krishna também era uma pessoa que só conheceu violência e desprezo na vida. Por isso, creio que ser amado como ele foi por um príncipe como Shaka conseguiu aquecer seu coração tão espezinhado. Pareciam ser como pai e filho. Ele era o mercador de escravos de Hamurabi, guardião dos tesouros da Babilônia, mas era um homem gentil e bondoso. Um homem religioso que nunca esqueceu sua filha, violentada e morta por árabes, talvez os próprios tamudaeis, teu povo. Shaka nunca lhe disse que tu eras um tamudaei. Acho que se ele soubesse disso, nunca o ajudaria a encontrá-lo como prometeu. Eles tinham muito em comum apesar da diferença de idade e, com certeza, os primeiros passos do teu ariano na grande Babilônia foram suaves por causa de Krishna.

— Ele dançou? — Ikki indagou, o coração apertado no peito.

— Sim. Foi para as lições no templo e aprendeu tudo que precisava. Destacou-se mais uma vez. Ele dançava de um jeito que eu ainda não tinha visto ninguém dançar. Nem homem e nem mulher. Um jeito... sagrado. Era como se Ishtar dançasse com ele. Quando ele movia o quadril... Era simplesmente fascinante. — Afrodite encarou os olhos escuros do árabe. — Não sei onde e nem com quem ele aprendeu a dançar daquela forma, mas era como se houvesse um encantamento. Quando Shaka dançava, todos o desejavam. Não importava se a mais linda princesa da Terra estivesse presente, não importava se fosse homem ou mulher, todos o desejavam. Isso se mostrou mais uma maldição que uma bênção. Mas falemos disso depois. Agora, o rei deve recebê-lo — o loiro ergueu-se e encarou severamente o moreno, apontando o dedo para ele como um mestre faria a um discípulo. — Seja educado e o ajudarei. Seja insolente e deixarei que Hamurabi arranque tua cabeça e sirva aos cães.

Ele caminhou para a saída do templo. Ikki respirou fundo, entoando mentalmente um dos vários mantras que aprendera com Shaka. Precisava mais que nunca de calma para continuar sua jornada.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Mu e Aiolia estavam no quarto do príncipe, deitados na cama de pedra, sobre os lençóis de algodão macios, especiarias da Pérsia, presente para a família real. Ali, sob as sombras que as chamas dos archotes jogavam no quarto, eles se amavam como se não houvesse perigos, obrigações ou mentiras.

— Aiolia... — Mu sussurrou-lhe ao ouvindo, sorrindo, colhendo com a língua o gosto salgado do suor que banhava o pescoço moreno. Aiolia respondeu com um gemido, virando o rosto e tomando a boca do amante enquanto as mãos mantinham-se firmes na cintura delgada do príncipe, guiando seus movimentos.

— Eu te amo, Mu... — Aiolia sussurrou, antes de grunhir, chegando ao orgasmo, prendendo o amante forte contra si. Mu também gemeu, derramando seu prazer sobre o amado. Abraçando-o, pousando a testa em seu ombro.

— Eu também te amo... — murmurou.

Aiolia ficou em silêncio enquanto a respiração dos dois voltava ao normal. Quando falou, sua voz tinha uma ferrenha convicção:

— Vamos fugir, Mu. Vamos embora do Egito.

O príncipe afastou-se para mirar o rosto do amado. Aiolia estava muito sério.

— Sabes que isso é loucura...

— Não importa. Podemos tomar a primeira barca para as Ilhas Bakaus, há barcas para tantos lugares a partir de lá que seria impossível para o teu pai nos encontrar.

— O Egito tem espiões em todas as partes, Aiolia. Seríamos facilmente encontrados — Mu rebateu, preocupado.

— Há um reino novo nas colinas da Pérsia. Dizem que ele nasceu de uma cidade destruída e que é uma terra de homens livres que não responde a nenhum império. Poderíamos ir para lá, Mu. Poderíamos ser livres. — Aiolia disse, mas percebeu que a hesitação ainda brilhava nos olhos do príncipe, então ele o segurou pelos braços, encarando com toda sua convicção e também com todo seu amor. — Terei que me casar daqui a dois dias. Se não fugirmos agora...

Mu sentiu o peito apertar-se em dor e tomou a decisão que há tanto hesitava:

— Eu aceito, Aiolia! Sim, vamos embora para esse reino livre! Quero ficar contigo para sempre — Mu abraçou o amante com força e Aiolia sorriu, sentindo o alívio no peito.

— Ficaremos juntos. Eternamente juntos, meu amor — sorriu o jovem-faraó e beijou os lábios do amante mais uma vez. Partiria do Egito, fugiria daquele destino cruel que o aguardava. Estaria ao lado da pessoa que amava, nem que isto custasse sua própria vida.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Hades voltou para o seu castelo. O dia já clareava, e assim como o sol começava a brilhar no horizonte, a satisfação sombria brilhava em seu rosto. Não estava feliz. Achava que felicidade era algo que nunca chegaria a sentir. Satisfeito era a palavra certa. Não era mentira quando os sábios diziam que a vingança era amarga. Amarga? Não propriamente. Era apenas insípida.

Pandora saiu do quarto ao perceber a sua chegada. Ela tinha um sorriso nos lábios, e ele sorriu levemente para a esposa. Tão bela e tão inútil. Pensou que se casar com a irmã do faraó lhe renderia mais poderes políticos dentro do império. Enganou-se. A lealdade da família real à casa de Leontópolis continuava sendo o seu grande obstáculo nas conquistas que almejava. Mas não agora. Agora teria o que queria. Seu plano era infalível. Saga e Aioros estavam finalmente fora do seu caminho.

— Voltaste tarde. Estavas no grande castelo? — ela indagou, aproximando-se do esposo e retirando a capa pesada de pele de tigre que ele vestia.

— Sim, minha bela esposa — ele respondeu.

— Tiveste bons resultados? — sondou, curiosa.

— Sim. Podemos dizer que sim.

— Ótimo. Espero que fique mais tempo aqui comigo. Sinto-me solitária. Há dias não me tocas... — e finalmente ela chegava ao ponto que queria.

Hades ergueu uma sobrancelha e examinou-a com um olhar que fez gelar o sangue de Pandora. Depois, ele se aproximou dela e segurou-lhe a nuca com força, roçando os lábios finos nos carnudos da mulher.

— Também tenho saudade do teu corpo...

Ela sorriu, deslizando a língua pelos lábios dele.

— Estou quente... — disse, soltando as amarras da camisola que vestia, exibindo o corpo nu e belo.

Hades sorriu e rapidamente a virou, segurando-a pelos cabelos negros, fazendo o corpo da mulher deitar-se sobre uma mesa de pedra. Em seguida, ele livrou-se da túnica que vestia e afastou as calças, entrando nela com vigor, fazendo-a gritar de alegria e prazer. Ele entrava fundo e rude, fazendo a pele macia de Pandora roçar na mesa rústica, causando um atrito dolorido, mas que era bom. Ela gemia e gritava, sorrindo, seus pensamentos vagando:

“Sim, meu amado, faça esta criança, que há em meu ventre, tua...”, pensava, enquanto experimentava o prazer daquele sexo bruto e impiedoso.

Hades satisfazia-se no corpo da mulher e nos seus pensamentos de poder e vingança, até que alcançou o orgasmo e viu Pandora retorcer-se gemendo, alcançando o cume do prazer também.

O grande imperador a pegou nos braços e, dando-lhe um beijo terno na testa, levou-a para a cama.

Pandora aconchegou-se em suas almofadas e sorriu.

— Não quero que passes mais tanto tempo longe de mim. Quando fores ao castelo, quero que me leves contigo. Não gosto desse teu hóspede sombrio. Ele vive pelos cantos, parece me vigiar.

Hades riu de leve.

— Se ele a importuna, eu o manterei em outro lugar, mesmo que para mim isto seja inconveniente.

— Não. Se for importante mantê-lo aqui. Mas por que tanto segredo, meu amado?

— Os mistérios devem ser respeitados, minha esposa — Hades disse, lançando um olhar enigmático à Pandora. — Todavia, tudo se revelará no tempo certo.

Ele tomou de um roupão e cobriu-se, saindo do quarto em seguida, descendo as escadas que levavam ao subsolo do castelo e chegando ao cômodo que abrigava a figura sombria em volta numa longa capa com capuz preto.

— Como passaste o dia? Soube que encontraste minha esposa...

— Foi um incidente. Procurava a dispensa, tive fome e o servo demorou a vir — a voz melodiosa como a de um anjo respondeu, e as mãos cadavericamente pálidas, como se há muito não vissem a luz do sol tomaram de uma taça de cobre e levaram-na aos lábios. A luz tênue das velas revelou metade do rosto descorado, marcado terrivelmente por uma profunda cicatriz que parecia desenhar algo sobre a epiderme do ser misterioso.

— Evite sair deste aposento — Hades solicitou. — Não quero ter que responder a perguntas inconvenientes.

— Óbvio. Uma figura grotesca como eu...

Hades franziu a testa. Pensou em responder àquilo, mas achou que seria algo frívolo demais.

— Evite. — Reforçou, antes de dar as costas ao estranho hóspede e sair.

O ser envolto na capa pousou novamente a taça na mesa e soltou um suspiro que mais pareceu um gemido de dor.

“Um dia, fui diferente...” murmurou, antes de apagar as velas para mergulhar mais uma vez na escuridão dos seus dias.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE LERAM. BEIJOS NO CORAÇÃO E ATÉ A PRÓXIMA! SION POSTADO EM 24.06.2016