Notas iniciais
Oi, meus queridos, tudo bem? Demorei um pouquinho, desculpem-me! Espero que gostem do capítulo novo. Meu tempo está meio caótico para atualizar, e me sinto super cansada, ansiando pelo final das aulas, mas a vida é assim mesmo, se fosse pra ser fácil era miojo XD. Aproveitar para desejar feliz aniversário para a leitora e amiga Lanny Mismuse! Parabéns, amora, e espero que curta o capítulo! ♥ Beijos no coração e boa leitura! P.S. Acompanhem o tumbrl! Eu colocarei lá as novidades sobre as fics, pesquisas etc. http://aserpenteeaestrela.tumblr.com/ Bjs! Sion

Teias

لفصل 23

Ikki deixou o templo com a mente envolta em aforismos e o coração cheio de angústia. Sentia todo o medo do mundo dentro de si, todo o medo que Shaka sentiu naquele lugar; sozinho, sem ter a quem pedir ajuda, já que todos achavam que ele deveria simplesmente se submeter e agradecer pela escravidão. O loiro deveria ter mergulhado numa profunda dor.

O árabe sentia um ódio tão intenso, que tinha ganas de sacar sua saif e sair cortando a cabeça de todo babilônio que encontrasse. Entretanto, precisava se controlar, precisava! porque Shaka ainda estava longe. Precisava! porque encontrá-lo e salvá-lo eram mais importante que vingá-lo naquele momento. Precisava! Precisava manter a frieza tão duramente trabalhada.

Seguiu Afrodite, mudo, vendo um grande palanque ser armado na entrada da monstruosa construção que era o castelo de verão do imperador. Escravos corriam, carregando ornamentos e tecidos e recebendo as ordens de sacerdotes e mordomos.

— Hoje é a festa que homenageará Ishtar. Teremos várias solenidades, e eu não poderei bancar tua ama — o sacerdote disse. — Onde está o cego?

— Em suas acomodações, rezando aos deuses, provavelmente — Ikki respondeu enquanto eles subiam uma longa escada em direção aos salões internos do palácio.

— Fique com ele. O cego me parece o mais sensato dos três. Mais sensato que Shaka, inclusive.

— Ele é mais velho — Ikki disse, como se isso bastasse, mas Afrodite riu.

— Idade não quer dizer sabedoria. Entretanto, talvez, as circunstâncias o tenham feito sábio. Shaka nunca me disse que seu irmão fosse cego.

— Ele não o conheceu cego — Ikki explicou.

— Entendo. Ele deverá estar sozinho na audiência com o rei. Para Hamurabi, tu e o saubeu são apenas mercenários que o acompanham. Creia, é melhor que ele assim pense. O rei não entrará em guerra com o Egito por um escravo. A única chance que tens é que Asmita finja que não sabe o destino de Shaka. De tal modo, poderão sair daqui. Eu os ajudarei com a viagem para o Egito, mas precisamos de ajuda.

— Qual ajuda?

O sacerdote mirou o mercenário árabe com atenção.

— Há pouco, o príncipe egípcio, irmão gêmeo do faraó, teve sua audiência com o rei. Soube que o Egito tem sido atacado por hordas que eles acreditavam partirem da Babilônia, o que quebra o acordo de paz entre os impérios. Parece que alguém ou algum reino deseja a guerra. O rei está, neste momento, escrevendo uma resposta ao Faraó.

— E em que isso nos ajuda?

— Não podes enxergar, mas eu sim. A presença do príncipe egípcio é muito oportuna. Falarei com ele, enquanto a presença de Asmita distrai os olhos do rei. Mas para isso, preciso de um favor teu.

— Qual?

— Tu e o saubeu devem distrair o capitão Shura. Ele é o braço direito do rei. Se ele me vir conversando com os egípcios contará a Hamurabi e não quero problemas com meu soberano. Não por enquanto.

— E como posso fazer tal coisa?

— Shaka sempre me disse que tu eras inteligente... — Afrodite deixou escapar um sorriso irônico, antes de se afastar com seus passos graciosos.

Ikki respirou fundo. Procuraria Aldebaran e depois o capitão da guarda do faraó. O que poderia distrair um militar? Tentava imaginar enquanto andava. A resposta era bem simples: guerra.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

— Como não há nenhuma chance da Babilônia está envolvida nos ataques? Não acredito que foste tolo o bastante para acreditares nisto, alteza! — Radamanthys ralhava com Kanon, andando de um lado a outro, dentro do quarto, com a mão sobre o ferimento. O militar egípcio usava uma túnica branca que chegava até o meio de suas coxas, e se o assunto não fosse tão sério, Kanon acharia aquilo cômico e sexy ao mesmo tempo.

— Foi o que Hamurabi me falou. E como mostra de total respeito ao pacto, ele me disse que enviará conosco 10 homens de sua armada para nos garantir proteção e, se necessário, enviará mais 200 homens para auxiliar o exército egípcio. Ele não está mentindo.

— Então quem?

Kanon passou as mãos nos cabelos fartos e soltou um suspiro.

— Já pensaste que pode ser uma rebelião interna? A quem interessaria dividir o reino? Afastar-me do Egito?

O loiro riu.

— Tu? Não tens mais importância política que um escriba menor!

Kanon sorriu com desdém, mas seu semblante manteve-se preocupado, fazendo o sorriso de troça de Radamanthys desaparecer.

— Ontem eu tive um sonho ruim. Foi um episódio da infância... Devíamos ter uns oito anos, e eu quase caí no fosso dos crocodilos do castelo do tio Hades. Fiquei pendurado numa corda, balançado de um lado a outro, e Saga e Aioros gritavam, tentavam alcançar a corda para me salvar...

— O que isso tem a ver com nossa vinda para a Babilônia? — Radamanthys indagou, aproximando-se dele e olhando-o nos olhos.

— No meu sonho, era Saga quem caía. Aioros já estava no fundo do poço sendo devorado... Havia sangue... Saga gritava para que eu os ajudasse, contudo Hades me segurava, não me deixava ajudá-los... — os olhos verdes de Kanon encararam os dourados de Radamanthys — Aconteceu alguma coisa a meu irmão enquanto estamos aqui, eu sinto.

— E pensas que Hades seria capaz de atentar contra a vida do faraó? Não sejas tolo! — Radamanthys disse, lívido. — De nada adiantaria, há o príncipe!

— Não sei o que se passa na cabeça de Hades, mas sei que algo ameaça Saga. Precisamos voltar.

— Precisamos da autorização de Hamurabi, e isso não teremos antes do fim dos festejo da maldita deusa.

— Descobriremos então como os babilônios mandam mensagens — Kanon disse, caminhando para a saída do quarto.

Radamanthys praguejou. “Não ficarei aqui dentro!”, disse, procurando suas roupas. Vestiu-se, seguindo Kanon para descobrir o que ele sabia.

No grande passo do castelo, as comemorações já eram vivas. Dançarinas seminuas, guerreiros que exibiam suas armas, malabaristas do fogo, todos pareciam ensaiar seus números. Radamanthys observou tudo com atenção, mas sua mente perdia-se em informações demais. Era servo fiel de Hades e apoiaria qualquer coisa que ele resolvesse fazer, isso era fato. Até por isso, achava melhor que Kanon ficasse fora do caminho do seu futuro imperador. Desde o começo, ele sabia que aquela viagem serviria para isso: tirar Kanon do caminho dos planos de Hades. Por mais que almejasse o poder também, o príncipe jamais consentiria em algo que ameaçasse a vida do irmão. Estava ali para isso, para distraí-lo. E precisava distraí-lo de qualquer jeito.

“Ou ele terá o mesmo destino que o irmão... talvez o sobrinho também...”, pensou, mordendo os lábios. Enxergou, mais à frente, o homem loiro que, segundo Kanon, o havia salvado. Radamanthys nunca estivera no castelo do faraó, mas vira Shaka uma vez, logo quando ele chegou ao Egito e fora apresentado ao povo como o presente do Oriente, aquele que acabaria com a seca...

“Estranhamente, naquele dia, depois de quase cinco anos, choveu no grande Egito...”, murmurou, mirando o homem. Não se lembrava muito bem do rosto, mas os cabelos e a pele branca eram muito semelhantes. Com certeza faziam parte do mesmo povo e isso o intrigava. Entretanto, o amante do faraó não era sua prioridade no momento.

— Senhor! — ele chamou Asmita, que parou, cobrindo os cabelos com o capuz. — Sou o general Radamanthys, do grande Egito. Soube pelo príncipe que nos ajudaste na luta. Agradeço, por minha honra.

— Não precisas agradecer, general. Fiz o que minha ordem exige.

— Tua ordem?

— Os zoroastros da Pérsia. Uma ordem mística a qual pertenço. Devemos respeitar todas as formas de vida. Por causa dela também, tenho o dom da cura e o dom de ver o que os homens não veem, mesmo que eu não possa enxergar de fato.

Radamanthys o encarou, percebendo que seus olhos eram opacos. Se havia algo que não poderia esquecer no tal Shaka eram os expressivos olhos de um profundo azul, bem diferente do olhar baço daquele homem à sua frente. Moveu a mão de frente aos olhos dele, percebendo que não havia mesmo reação.

— Tu és irmão de Shaka, o presente do Oriente, sacerdote de Háthor?

— Não. Sou irmão de Shaka, príncipe de Najah. Sabes como posso encontrá-lo?

— Ele já não é isso. É um escravo. E faraó não abrirá mão dele, não importa o que ofereças.

— Posso ao menos tentar.

Radamanthys sorriu com o canto dos lábios.

— Salvaste minha vida, homem da Pérsia, e só por isso dar-lhe-ei um conselho: não é um bom momento para visitar o Egito. O império se agita com rumores de guerra. Tua presença pode ser encarada como uma afronta. Melhor voltares à Pérsia.

Asmita sorriu e assentiu com a cabeça.

— Agradeço o conselho, general. Contudo, costumo fazer meu próprio caminho.

— Como queiras — o egípcio deu as costas a Asmita, que apenas tentou entender as oscilações da áurea daquele homem.

O Zoroastro já havia falado com Hamurabi, que lhe dera um conselho semelhante. Não. Não um conselho, aquilo foi uma ordem. Não teria nenhuma ajuda para chegar ao Egito e deveria partir da Babilônia assim que os festejos terminassem, foi o que ele dissera.

“Os festejos duram sete dias. Talvez eu consiga fazê-lo mudar de ideia até lá...”, pensou Asmita. Precisava de aliados, pessoas que houvessem conhecido Shaka e pudessem ajudá-los a tomar uma barca e entrar em segurança no Egito. O sacerdote parecia querer ajudar, mas tinha um jeito furtivo de agir que não o agradava. Era um homem difícil de ler. O rei, em sua selvageria, era mais fácil. Conseguia prever suas ações, tudo que ele fosse capaz de fazer, e ele era capaz do mais horrendo ato de brutalidade, mas o sacerdote... Precisava aproximar-se dele. Entretanto, parecia que tudo que interessava ao belo homem era o árabe cabeça de vento. Ikki Horuk, e aquele gênio terrível que possuía, poderia por tudo a perder. Até o momento, ele se comportara bem, mas os gritos d e sua alma estavam se tornando mais altos e desesperados. Deveria intervir cedo ou tarde. Precisaria entregar a ele qualquer alento que não o fizesse enlouquecer.

“A babilônia é um bom lugar para a loucura”, refletiu, observando a paisagem luxuriante e traiçoeira, cheia de serpentes, crocodilos e homens armados. Havia sons demais ali, sons que interferiam na sua percepção. Caminhou tateando as paredes, em direção às vozes, tentando encontrar algum dos companheiros, até que encontrou o braço do saubeu.

— Aldebaran — disse, aliviado —, viste Ikki? Preciso falar com ele antes dos festejos.

— Chamaste meu nome! — o Touro riu. Era a primeira vez que ouvia a voz suave de Asmita chamar seu nome e o do amigo. — Estive com Ikki há pouco. Ele saiu com a patrulha da cidade, mas não deve demorar.

— O que ele deseja com a patrulha de Hamurabi?

— Não sei. O sumo sacerdote pediu que ele distraísse os guardas e inventou ter visto um hulagul na cidade.

— Estúpido. Saberão que mentiu.

— Ikki é mais astuto do que imaginas. Tenho certeza que jamais desconfiarão e, se queres saber a verdade, ando meio cansado de que me trates como um tolo. A arrogância é uma característica persa ou apenas tua, Zoroastro?

Asmita sorriu levemente.

— Sinto-me feliz com tua sinceridade, jovem Touro. Entretanto, prudência não é arrogância. Admiro a coragem dos árabes, todavia lhes carece a prudência. Nem tudo é resolvido à espada.

Dizendo isto, Asmita afastou-se, ainda tateando as paredes. Sabia onde estava Ikki, precisava encontrar agora o sacerdote.

Aldebaran deixou que ele fosse. Definitivamente o cego sabia se cuidar. Um guia cego que conhecia muito mais sobre os caminhos do deserto que qualquer outra pessoa. O irmão da estrela de Ikki... Poderia chamar aquilo de destino, mas não sabia se o destino que via era o mesmo no qual as outras pessoas acreditavam. Ele via uma teia de acontecimentos, uma teia que começava a ser tecida no momento em que as pessoas nasciam. Uma teia que dizia onde cada homem deveria estar e quem eles deveriam encontrar no decorrer da vida, porque não havia caminhos fora da teia, e essa verdade era assustadora, pois a teia, geralmente, beneficiava alguns tipos de indivíduos apenas. Não todos. Apenas alguns.

Observou os servos que organizavam uma grande mesa. Com certeza seria um dia de banquetes, pois o cheiro dos temperos e das raízes fortes já corria pelo palácio. Viu o sumo sacerdote de Ishtar conversando com alguns dos seus servos e aproximou-se.

— Com licença, senhor. Tens alguma informação sobre a patrulha que saiu com meu amigo?

O loiro voltou-se para ele com as sobrancelhas franzidas.

— Sou um religioso, não um militar. Pergunte ao comandante-mor, ele deve saber de algo. Mas acredito que saibas que a intenção do teu amigo é demorar mais um pouco.

— Sim, e isso me preocupa. Por que o interesse em ajudá-lo? — Aldebaran ergueu uma sobrancelha, desconfiado.

— Meus motivos não são do teu interesse, saubeu. Saibas apenas que meus motivos se enlaçam com os motivos do teu amigo. Isto é o suficiente.

Aldebaran sorriu com sarcasmo, mas um sarcasmo que era dirigido mais aos seus pensamentos que ao sumo sacerdote. A teia... A teia não se rompia.

Afrodite afastou-se dele. Seus motivos... Seus motivos talvez fossem remorso. Um grande pesar por não ter ajudado aquela criança quando teve a chance. Sabia que Shaka já não era a criança que chegara ao templo de Ishtar. O sofrimento modifica as pessoas, e ele foi modificado no aço...

— Levanta-te! — o barulho dos golpes da vara de haribau reverberou no chão de pedra, assim como o barulho do corpo do jovem que caía de costas. — Não é assim que louvamos à deusa...

— Mas foi assim que aprendi a dançar! — Shaka disse, erguendo-se e observando o sacerdote.

— E é uma linda dança... — Misty retorquiu, sorrindo com ironia e encarando Afrodite, provocando o sumo sacerdote, sem se importar com o perigo. — Disseste que o importante era que nossa dança agradasse à deusa. Não creio que a dança tão fascinante do príncipe a desagrade apenas por ser estrangeira.

Os demais assinus e assinutus concordaram com Misty. Todos estavam fascinados com a forma que Shaka dançavam e, se bem verdade, gostavam de ver seu sumo sacerdote ser desafiado por um filho rebelde. Misty, inclusive, não tinha mais motivos para defender Shaka, já que não gostava nem um pouco do jovem ariano, ladrão de atenções no templo.

Afrodite sorriu com o canto dos lábios. Talvez estivesse realmente dando voz à sua vaidade, pois até então, ele era o melhor dançarino que a Babilônia já tinha visto. Contudo, nunca tivera um assinu persa ou árabe. Shaka conseguia unir duas culturas em sua dança sensual.

— Terás que ensinar os músicos a tocar algo que combine com essa tua pélvis nervosa — ele disse, fazendo os demais rirem. — Não fiquem rindo, quero a tapeçaria da deusa terminada até o deitar do sol. Não podemos começar o rito d’O estranho sem ela.

Shaka afagou o bumbum, depois da queda causada pela vara do sacerdote.

— Eu não sei tecer. De onde vim, homens não tecem — declarou num resmungo.

— Aprenda que aqui, um assinu não é um homem — Afrodite replicou, chamando-o com a mão para perto de uma grande mesa, portadora de uma ânfora com água fresca e frutas. — Usamos as máscaras fora do templo para que nossa beleza não seja contemplada pelos comuns. Tecemos para nos unir a nossa amada mãe, que é uma entidade feminina. Sim, nos feminizamos, Shaka, e por isso nos tornamos mais que homens. Somos templos da deusa estéril.

— Estéril? — Shaka franziu a testa, fazendo Afrodite rir.

— Ishtar não tem filhos, mesmo sendo a senhora do amor e da fertilidade. Assim sendo, seus sacerdotes também devem ser estéreis. Nossas assinutuns também são estéreis. Assinutu, na verdade, significa na linguagem antiga “aquela que recebe penetração anal”.

Shaka engoliu em seco. Estava apavorado com a possibilidade de ter que servir ao templo, contudo, ao mesmo tempo, achava que deveria saber o máximo que pudesse sobre aquela cultura estranha.

— Quando chegaste aqui, não ficaste assustado? — sondou, receoso.

— Tanto quanto tu estás. — Afrodite mordeu uma suculenta abikí, um fruto vermelho, grande como uma laranja e com polpa branca e suculenta. — Mas fui disciplinado e aprendi rápido. Quero que aprendas algumas coisas. Os homens vêm ao templo procurar por assinus para curar seus problemas, sejam físicos ou sentimentais. Mais que mero prostitutos, nós somos seres sagrados e místicos para esse povo. Curamos doenças, abençoamos e fazemos feitiços. Tudo isso depende, obviamente, do preço que é pago. Todo assinu deve servir 10 anos ao templo, depois disso, pode ser liberto com uma fortuna considerável, já que o rei retém ¼ do que o assinu lucra como um soldo para lhe ser entregue quando ele deixar o templo. O rei é muitas vezes cruel, e também justo.

— 10 anos é tempo demais... — Shaka murmurou.

— Melhor que nenhuma oportunidade de libertação, como acontece com os outros escravos. Aqui na Babilônia, tua beleza é poder, Shaka. Não desperdices a chance que Krishna lhe deste.

— Vi alguns dos assinus banhando-se na fonte... — Shaka comentou, curioso. — São todos castrados?

— Não todos. Alguns já chegam aqui castrados, outros chegam velhos demais para tentarmos a castração, teu caso. Alguns pedem para serem castrados mesmo assim, pois os homens preferem os mais feminis, e isso significa mais dinheiro...

— Não quero ser castrado! — Shaka adiantou-se a dizer, fazendo Afrodite rir.

— Não pensei nisto, criança. Há algumas regras que deves conhecer. Uma delas é nunca sair do templo sem máscara ou desacompanhado. Um assinu é uma joia preciosa da coroa de Hamurabi, e somos muito cortejados. Há um ditado popular na Babilônia que diz: “Se um homem penetrar um assinu se livrará de todos os seus problemas”, mas muitos homens não têm fortuna para oferecer à deusa, e não se acanharão de tomar um assinu à força se tiverem a oportunidade.

Shaka estremeceu. Sua mente foi tomada pelas imagens fragmentadas de Minotauro, e ele sentiu ânsia de vômito.

— Não sairei! Eu prometo!

— Eu sei. Não quero magoá-lo — Afrodite pôs a mão no ombro do garoto e o encarou sério. — Mas preciso que entendas como funcionam as coisas aqui e o que será exigido de ti. Não adianta lutar, Shaka. Eu também lutei, e não foi muito bom para mim.

Os olhos do ariano se encheram de lágrimas, mas ele não as derramou. Assentiu com a cabeça. Se aquele fosse o preço a pagar para ver Ikki novamente, ele o aceitaria.

— Aceitarei — declarou, o coração pesado de um pranto contido.

— Bom. Então vou explicar-te algumas coisas referentes à nossa mãe. Ishtar é a deusa do amor e da guerra, mas é, sobretudo, a deusa do sexo. Como já sabes, seu culto envolve prostitutos cultuais, nós, os assinus e assinutus, por isso Uruk é chamada de “cidade dos cortesãos sagrados”. Ela é a cortesã do deuses. Ishtar teve muitos amantes, no entanto, sempre foi uma amante cruel. Num dos livros sagrados da grande Babilônia está escrito: “Ai daquele a quem Ishtar tenha honrado com suas coxas. A deusa inconstante trata cruelmente seus amantes, e os desgraçados infelizes geralmente pagam caro pelo seu furor sexual. São escravizados pelo amor, perdem seu vigor, caem em armadilhas impostas pelos homens ou são domesticados por eles”. Isso é uma metáfora para nós. Quando os antigos dizem que o homem perde seu vigor e são domesticados, significa que aqueles que amam Ishtar e sucumbem ao seu amor, tornando-se seus heródulos, seus recipientes, tornam-se assinus; seres de sexo indeterminado; meio homens, efeminados ou, ao menos, sem a noção de virilidade dos babilônicos. O povo acredita que ela é capaz de transformar um assinu em uma mulher apenas para demonstrar seu poder, se assim desejar.

— Parece tão cruel... — Shaka murmurou.

— Na nossa mais antiga e heroica história, o herói diz à deusa: “Tu amaste o leão, poderoso em força, e tens cavado por ele sete e sete poços! Amaste o corcel, orgulhoso de batalha, e destinaste a ele a cabeçada, o aguilhão e o chicote”. Mesmo para os deuses, o amor de Ishtar é fatal. Em sua juventude, a deusa tinha amado Tammuz , deus da colheita, e este amor causou a morte de Tammuz. Sua estrela de oito pontas corta... cantariam alguns.

— Talvez, eu seja como Ishtar... — Shaka murmurou — Meu amor só fere... Ikki poderia ser rei...

— Tu ainda estarias na tua cama incrustrada de rubis se ele não invadisse tua cidade. Somos todos peões dos deuses, Shaka.

— Peões... — Shaka murmurou e encarou o sumo sacerdote. — Não sou peão de nenhum deus. Eu sou o rei no tabuleiro. Sairei daqui, Afrodite. Não serei escravo por 10 anos. Eu juro!

Rei do tabuleiro... Afrodite libertou-se das lembranças com um sorriso. Seria Shaka rei de algum tabuleiro no Egito? Difícil.

O sumo sacerdote caminhou com seus passos elegantes e seguros até o príncipe egípcio, que estava sentado atrás de uma mesa e observava algumas mulheres ensaiarem passos de dança.

— Não há dançarinas no Egito? — indagou, suavemente.

— Não tão boas quanto às daqui — o príncipe ergueu os olhos verdes para ele. — Tu és...

— O sumo sacerdote de Ishtar. Alguns dizem que sou o segundo homem mais importante do império, mas meus irmãos do templo de Marduk discordam. — Sorriu ladino.

— Ishtar... Tu foste o sacerdote que nos enviou Shaka.

— Sim. Shaka foi o mais importante dos meus assinus. Ishtar mora no quadril dele.

— Lá no Egito, dizemos que é Háthor.

— Ambas deusas do sexo, não é mesmo?

— Basicamente.

—Soube que o Egito encontra-se sob ameaça.

— Nada pode ameaçar o grande império — Kanon retorquiu, de mau humor. — Nossos inimigos cairão como sempre caem.

— Ainda assim, seria bom ter aliados. Aliados capazes de fazer a diferença numa guerra.

O príncipe encarou os olhos astutos do sacerdote com atenção. Não era tolo, aquele homem queria alguma coisa, precisava saber o quê. Ergueu-se da poltrona onde estava sentado e encarou o belo homem, posicionando-se de uma forma em que seu físico musculoso e sua altura constituíssem uma possível ameaça.

— E quem seriam esses aliados?

— Um homem que pode curar ferimentos com as próprias mãos, por exemplo.

Kanon riu.

— Bom ardil, sacerdote! Mas precisas de muito mais para me convencer a levar o príncipe persa até o irmão. Tolices. Por mais ouro e pedras preciosas que tenham todos os reinos da Pérsia, meu irmão não abrirá mão do seu presente.

— Não me importo com os persas. Só desejo que ele deixe a Babilônia sem derramamento de sangue. Ele insistirá, Hamurabi dirá não e o matará ao final. Seria apenas uma cortesia para aquele que lhe salvou a vida. Pense nisso. — Afrodite afastou-se, deixando Kanon pensativo. Seria uma grata surpresa levar o irmão de Shaka ao Egito. Saga se sentiria incomodado, sabia. Além do mais, um homem com as suas habilidades e com dois mercenários guerreiro ao seu lado não seria má companhia para atravessar o perigoso estreito de Lundi.

Kanon estava preocupado com o irmão. Enviara uma ave, mas a distância era longa demais e não tinha certeza se o pobre animal conseguiria atravessar o estreito. Ter mercenários armados e um bruxo curandeiro consigo na volta não era má ideia...“Mas qual o interesse do sacerdote?” Kanon ponderou. Não era tolo. Homens como Afrodite não faziam favores. Precisava saber o que ele lucrava ao fazer aquilo.

O príncipe viu a patrulha da cidade retornar, sendo liderada pelo mercenário árabe, que fazia companhia ao príncipe persa. Franziu as sobrancelha, observando o rapaz. Muito jovem, não mais que vinte anos. Contudo, já possuía um semblante bastante duro, o que era reforçado pela cicatriz, que ele tinha entre as sobrancelhas, e o olhar profundo e quente, como um caldeirão em que se cozinha a mais densa água do mar negro.

Kanon o viu apear do cavalo e entregá-lo aos cuidados de um servo. As roupas dele eram estranhas, muita roupa! Ele era coberto das botas até o pescoço por tecido negro, a mesma cor do peitoral de couro e metal e da capa que usava. Árabes passavam longo tempo no deserto, e o príncipe pensava que tanta roupa fosse para proteger-se. Entretanto, o loiro gigante, que o acompanhava, não se mostrava tão vestido e nem tinha a cabeça coberta pelo lenço que envolvia os cabelos negros e revolto do jovem de olhos azul-mar-negro, foi como ele passou a denominar aquela coloração estranha. O gigante tinha cabelos loiros, mas não era alvo como o príncipe persa. Suas roupas eram diferente das roupas dos companheiros: um peitoral de couro, cheio de bolsos com adagas, botas e uma calça negra justa. Obviamente, nenhum deles possuía a mesma cultura. Quem seriam aqueles homens? Mercenários? Amigos? Algo naquela história o incomodava, porém precisava tomar logo uma decisão. Aproximou-se do rapaz, que se refrescava da viagem, molhando o rosto numa das diversas fontes do pátio do grande castelo.

— Mercenário! —chamou, e Ikki ergueu-se lentamente, encarando-o.

O olhar do rapaz era intimidante, mas Kanon estufou o peito e retribuiu com desdém. Ele era o príncipe ali e não deixaria que ninguém o olhasse de cima.

— Sabes quem sou?

— Príncipe egípcio, irmão do faraó. Sei, obviamente — Ikki disse, sem cortesia, mas tentando ser polido dentro do que alcançava, querendo seguir os conselhos de Asmita. Talvez aquela fosse sua chance de conseguir chegar até Shaka.

— Estás tu a serviço do príncipe persa — Kanon observou, e Ikki assentiu com a cabeça.— Quais as tuas habilidades e do teu amigo? Talvez seja interessante tê-los como companheiros de viagem depois dos últimos acontecimentos. Apenas meu general sobreviveu ao ataque. Preciso de homens habilidosos para a viagem de volta.

Ikki ergueu uma sobrancelha, encarando o príncipe que tinha um sorrisinho de troça. Seu coração disparou no peito, mas, no rosto, a máscara fria que passou a ostentar nos últimos anos da sua jovem vida continuou imperturbável.

— Caso tua bolsa de ouro seja mais pesada que a do persa... — “Se estiveres me testando, egípcio, não será tão fácil me pegar”, pensou o árabe, interrogando o outro com o olhar.

— Um Zoroastro não parece carregar muito dinheiro...

Ikki tirou um saco do alforje de couro que levava preso ao cinto. — Ele tem pérolas do mar de fogo — sacudiu o saco. — Mas confesso que elas foram suficientes para que chegássemos à Babilônia. Precisaria de muito mais para o Egito.

— Bom. Ofereço 50 escudos de ouro e mais 50 de prata, caso tenhamos de enfrentar perigos como os hulagus e os piratas do estreito.

Ikki sorriu, exibindo os dentes brancos e alinhados. Aquilo estava tão fácil e perfeito que desconfiava. Todavia, seu coração não parava de bater mais rápido com a possibilidade de rever Shaka. Aquelas moedas também seriam muito importantes para sair com ele do Egito, já que as reservas que levara já estavam se esgotando, afinal, sua busca fora longa.

— Informarei ao persa e verei se ele não tem uma contraproposta — Ikki falou, fazendo Kanon rir.

— Justo. Encontrarei meu general e discutirei com eles se os termos são bons e então voltaremos a nos falar. Até lá, aproveite a festa.

Kanon afastou-se, e Ikki riu mais abertamente. Entretanto precisou controlar o entusiasmo. Era necessário que o egípcio continuasse acreditando que ele era apenas um mercenário. Procurou Aldebaran com os olhos, precisava contar o acontecido, mas o que encontrou foi o olhar astuto do sumo sacerdote, que apenas acenou com a cabeça, deixando escapar um sorriso dissimulado e seguindo depois seu caminho, o que deu a Ikki a certeza de que ele tinha participação na resolução do príncipe. Talvez, apenas talvez, ele devesse dar um voto de confiança àquele homem. Por algum motivo que Ikki ainda não sabia, Afrodite, sumo sacerdote de Ishtar, achava que devia algo a Shaka. Os deuses quisessem que sua dívida não fosse muito alta, ou ele não teria piedade do belo sacerdote babilônico.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

“Não sou um peão, sou o rei do tabuleiro...”

Shaka exercia naquele momento o poder total sobre seu corpo e sua consciência. Entoava baixinho um dos cânticos dos vedas, há muito tempo ensinado pelo sacerdote dos cânticos do seu lar. O único lar que teve na vida, Najah. Há tanto tempo sentia-se afastado das suas antigas crenças. Há tanto tempo não era a pessoa que um dia foi. Agora era o momento de retorno. O momento de assumir todo o poder que possuía. O poder de todos os deuses que o abençoaram.

Respirou fundo, deixando que o ar fluísse não apenas para seus pulmões, mas pelo seu abdômen, a respiração de Brammah. Equilíbrio definiria todos os seus passos dali para frente. Não deixaria mais que os sentimentos interferissem no seu caminho. Precisava acalmar todos os seus sentidos e enxergar com os olhos da sabedoria.

Hades achava que seria ele a comandar aquele jogo. Mas ele não fazia ideia dos planos de Shaka. Ele mandava no jogo. Era ele quem determinaria os rumos daquela história. Seria manipulado até o limite conveniente.

Ergueu-se do tapete em que estava sentado e alongou os músculos. Uma linha de preocupação ocupava sua testa, embora ele quisesse livrar-se dela. Não havia como. Suas decisões e atitudes dali para frente seriam de vital importância para sua vida.

Cobriu-se com um robe vermelho e um lenço da mesma cor. Nunca conseguiu se deixar numa posição passiva demais, não era da sua natureza. Resolveu ele mesmo procurar Mu, já que há alguns dias o príncipe não o visitava. Atravessou os corredores do castelo como se fosse o dono de tudo aquilo. Não importava a situação, era e sempre seria um príncipe.

Um longo corredor levava aos aposentos de Mu e se ele seguisse mais um pouco chegaria ao da rainha, mas não precisava de Nerfertari no momento. Precisaria ainda, mas não naquele momento. Adentrou o quarto do príncipe egípcio e o encontrou arrumando algo que parecia ser alguns papiros dentro de alforjes.

— Shaka! — Mu pareceu assustar-se, mas riu ao perceber que era o amigo e foi até ele, abraçando-o. — Pensei que fosses algum dos vigias de meu pai, ou Defteros! Que bom que és tu.

Shaka o afastou delicadamente e observou a bolsa sobre a bancada de pedra.

— O que estás fazendo?

Mu mordeu os lábios cheios, ansioso.

— Seguindo teu conselho e meu coração, Shaka. Aiolia e eu vamos fugir esta noite.

A surpresa que se estampou na alma do príncipe de Najah não se mostrou em seu rosto. Ele apenas mirou o príncipe egípcio seriamente, antes de proferir com a mesma voz serena que cantava hinos aos deuses:

— É mesmo o que tua alma anseia?

— Fugir? — Mu deixou escapar um riso triste. — Não. Não desejo fugir, mas não temos muitas escolhas nesta vida. Ou fugimos, ou Aiolia casar-se-á amanhã. Melhor vivermos como fugitivos, que longe um do outro.

Shaka guardou silêncio mais uma vez, analisando aquele novo intempérie. Lembrou-se de si mesmo, pouco mais jovem que Mu, empreendendo uma fuga louca pelo deserto. O peito cheio de sonhos maravilhosos, a mente, de pensamentos fantásticos, repletos de amor e felicidade.

Poeira ao vento...

— Não direi nada contra teus atos — Shaka disse ao se aproximar do rapaz. — Que o destino não lhe seja cruel demais, meu pequeno. — Disse, e em um gesto inédito, beijou a face de Mu e deixou que uma lágrima caísse.

Mu sorriu, os olhos repletos de lágrimas por se derramar.

— Nunca me esquecerei de ti. Foste mais que um amigo, Shaka. Foste um verdadeiro irmão. Não irmão como são minhas irmãs, fadadas a ser-me possíveis esposas. Mas um irmão de verdade.

Os lábios de Shaka tremeram. Ele não teve coragem de abraçar Mu, entretanto, não evitou que o outro o abraçasse com força.

— Adeus, meu amigo.

— Adeus, Mu.

Shaka disse e voltou-se em direção à porta. Saindo rapidamente da alcova do príncipe egípcio. Os ventos do destino haviam começado a soprar. E já sabia quem seriam os primeiros arrastados pela ventania cruel.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

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Notas finais
OBRIGADA A TODOS QUE LERAM! UM OBRIGADA MUITO ESPECIAL AOS QUE LEEM COMENTAM, RECOMENDAM ♥ ATÉ MAIS!! SION