Notas iniciais
Olá, gente, tudo bem? Sei que estou demorando a postar, mas é que o tempo anda bem curto. Perdão. A imagem do capítulo pertence ao mangá One thousand and one nights. Espero que gostem ♥ Beijos e boa leitura!

Eu fecho meus olhos

Apenas por um momento

E o momento se foi

Todos os meus sonhos

Passam diante dos meus olhos...

...A mesma velha música

Apenas uma gota de água em um mar infinito

Tudo o que fazemos

Desaba sobre a Terra, embora nos recusemos a ver...

Dust in the wind — Kansas

Poeira ao vento

Capítulo 24

Era difícil olhar o céu e não pensar nele. Em qualquer horário. Em qualquer momento. Shaka respirou profundamente, observando o horizonte vermelho e turvo da tarde egípcia. O dia morria lentamente, e ele não deixaria que o mesmo acontecesse com suas esperanças. Agir era necessário, mas como deveria agir?

Hades parecia muito seguro dos seus planos, isso dava a Shaka a certeza de que o governador já havia se livrado de Saga e Aioros. Esperava a triste notícia chegar e não sabia exatamente o que sentia naquele momento. Não era tristeza, mas também não era satisfação. Era um vazio, uma frustração esquisita. Não queria que eles morressem. Não. Mas também não poderia dizer que se importasse. Contudo, se os planos de Hades falhassem, o que seria de um mero escravo no meio do jogo de poder da família real daquele gigantesco império?

“Não sou um mero peão, sou o rei no tabuleiro...”, repetiu mentalmente, aquele mantra íntimo, tantas vezes repetido para lembrá-lo de quem era. Sorriu levemente. Uma vez, tentara ensinar Ikki a jogar aquele jogo...

“Para jogar o chaturanga é necessário concentração e astúcia”, ele informou ao amado, improvisando as peças no carvão. Depois de um tempo, Ikki jogava tão bem quanto ele próprio.

“Ele sempre foi muito inteligente e promissor. Sei que sobreviveu. Sei que está me procurando...”, Shaka murmurou, respirando fundo. Precisava estar pronto logo. Quando as sombras cobrissem o dia, um novo tempo teria início no Egito.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Naquele momento, Ikki também olhava o céu. A festa havia começado no grande castelo e como sempre acontecia em momentos como aquele, ele se dedicava à total introspecção. Recolhia-se e enumerava tudo que precisava fazer até que o encontrasse.

Manter-se calmo;

Prestar atenção ao inimigo;

Meditar.

Tudo era meticulosamente repetido quantas vezes fosse necessário. Era um caminho. Era uma prece. Então, mesmo em meio àquele batuque ensurdecedor, ele se mantinha concentrado, observando tudo com muita atenção.

Agora, a lua estava imensa sobre o grande rio. Barcas balançavam ao vento noturno, dando a Uruk uma aparência mágica e etérea, mesmo com o barulho da música, do canto e do riso. Ikki bebia o suco de uma fruta doce e ácida numa espécie de copo de madeira trabalhada em alto relevo colorida; cuidado, como era tudo na Babilônia, mesmo que simples. Observava o luar e algumas vezes voltava-se para ver Aldebaran cercado por belas mulheres, dançando e rindo, feliz com a festa e Asmita, distante, parecendo apenas refletir no tempo, soturno sob sua capa negra. Como sempre, Ikki preferia permanecer longe, caçando nas profundezas de si próprio a força para continuar e a esperança para não desfalecer. Nisso, ele e Asmita se pareciam, era o que notava o moreno durante suas reflexões. Faltava pouco, sentia, muito pouco. Pensava enquanto observa a palidez funesta da lua. Tudo para ele era funesto, mesmo durante uma noite de festa. Nada teria cor enquanto não estivesse com Shaka.

Hamurabi bebia cerveja doce avidamente, cantando e dançando com seus súditos. Não era rei de ficar no trono só observando. Que graça tinha isso? Preferia aproveitar até que não tivesse mais forças e Afrodite o retirasse praticamente arrastado do salão, como geralmente acontecia. Pouco lhe importava o que seus ministros diziam: rei, escravo de um assinu. Era Afrodite o vaso supremo de Ishtar e por isso a própria Ishtar. Aproximou-se do sumo sacerdote, que parecia agitado, dando ordens aos seus assinus e assinutus. Agarrou-o por trás, roçando-se nele e beijando-o no pescoço.

— Já bêbado? — Afrodite revirou os olhos e afastou as mãos dele de si.

— E desde quando preciso beber para desejaste?

— Comporta-te ao menos em público — o sacerdote repreendeu-o.

Máscara da morte o mirou, estreitando os olhos, irritado.

— Faço o que quero! Esquece-te de quem sou?!

— És tu quem esquece.

O rei mirou o sacerdote nos olhos.

— Percebo-te estranho... O que está acontecendo, Afrodite?

— Não acontece nada. Pedirei que te sirvam mais cerveja doce — Afrodite tencionou se afastar, mas Hamurabi o segurou pelo braço.

— O que está acontecendo? — insistiu.

— Estou apenas ocupado, não percebes? — Afrodite o encarou, demonstrando toda sua irritação. — Não tenho muito tempo até o rito do estranho. Queres acaso irritar a deusa?

O rei soltou-lhe o braço lentamente. Os olhos violáceos perscrutando o outro.

Afrodite não se importou com isso. Afastou-se, precisava verificar se a pedra de Tammuz estava pronta. Aracne, o boticário, havia prometido que estaria pronta, e ele sempre cumpria o prometido. Contudo, não aparecera até o momento.

Máscara da morte deixou-o ir e continuou a apreciar a festa. Apesar disso, estava incomodado. Algo dentro de si gritava, querendo se libertar, mas o rei dominava-se. Há muitos anos havia abdicado dos atos selvagens. Nunca confessaria seus motivos, mas o fizera. Todavia, naquele momento, tinha vontade de revogar a própria decisão e voltar a ser o ser imoral e impiedoso do passado. Estava muito aborrecido.

Aproximou-se do saubeu, que parecia já um tanto ébrio entre beijos das belas servas e a bebia que consumia avidamente.

— Percebo que és diferente do teu amigo — ele disse com um sorriso matreiro.

Aldebaran fez uma mesura respeitosa de cabeça e riu.

— Sim. Muito diferente. O loiro, nosso contratante, é um zoroastro. Há muito abriu mão dos prazeres deste mundo — Aldebaran não estava tão bêbado a ponto de falar algo que denunciasse a mentira necessária contada.

Hamurabi riu e direcionou seu olhar a Ikki, que estava distante da festa, sentado à beira do rio.

— E o árabe? Ouvi dizer que os árabes são bastante festivos. Contudo, teu amigo não parece se divertir.

Aldebaran suspirou, mirando o amigo longamente antes de responder:

— Ele é um homem que perdeu sua alma. É o que posso dizer-te.

— Isso é possível? — o rei mostrou-se interessado.

— Penso que quando se perde a parte mais importante da sua teia, perde-se a alma.

— Teia?

— Os fios da vida, soberano.

— Então ele perdeu alguém... — Hamurabi ponderou com um meio sorriso maldoso.

— Sim. E prometeu viver o resto da vida em devoção a esse alguém — Aldebaran mirou Máscara da morte. — Entenda que ele não irá se divertir. É um missionário. Não irá beber, foder, nem fazer nada que seja prazeroso enquanto não tiver sua estrela de volta.

— Uma estrela?

— É como ele o chama.

Máscara da morte assentiu com a cabeça, mirou Ikki novamente e então se voltou para o saubeu, um brilho divertido no olhar.

— Um solipso por promessa?

— Sim. E devoção.

— Tolo homem. Como pode ter certeza que quem ama faz o mesmo sacrifício?

— Não sei. Mas creio que ele não se importa.

— Curioso — os olhos violáceos brilhavam intrigados. Hamurabi bateu no ombro de Aldebaran. — Aproveitas a festa, Saubeu. Esta é tua última noite em Babilônia.

O rei afastou-se. Aldebaran lançou um olhar triste a Ikki e voltou a se ocupar da festa.

Asmita ergueu-se de onde estava e livrou-se da capa negra, ficando vestido apenas nas roupas leve de linho. Pegou duas cuias com o licor de abikí e caminhou até onde estava o tamudaei, à beira do rio. O zoroastro sentou-se sobre as panturrilhas e ofereceu uma das cuias ao rapaz árabe.

— Sabias que há crocodilos monstruosos nadando logo abaixo dos teus pés? — indagou, curioso.

— Sinto a oscilação na água. Sei que eles estão aí, mas as feras não me assustam.

— E o que te assusta, tamudaei?

— Os homens.

Asmita suspirou e mirou a água. Não podia ver, mas sentia a energia dos grandes répteis que nadavam silenciosos.

— Também a mim — volveu suavemente. —Sinto malícia, lascívia e maldade aqui como insetos andando sobre a minha pele. Gostaria de não sentir isso. É difícil e, às vezes, embaraçoso.

— Entendo — Ikki disse, provando o licor. — Sentia semelhante sensação quando era um tamudaei e meu clã praticava chacinas e orgias de sangue.

— Como te livraste disso?

— Resolvi não me importar. Tornei-me indiferente. Deu certo até...

— Shaka.

Ikki deixou escapar um sorriso de lado, mirou a lua novamente e provou da bebida. Uma tristeza resignada brilhou em seu rosto como os raios da lua.

— Queria eu ter a capacidade de abrir e fechar as portas da minha alma. Assim, hoje, sob esta lua, não me sentiria tão miserável.

Asmita guardou silêncio e voltou a sorver o licor. Ikki fez o mesmo. As velas brancas tremulavam na água negra. Silêncio e tristeza fizeram um desafinado dueto na escuridão soturna da noite babilônica. O Zoroastro não encontrou o que dizer, a dor era mais forte que qualquer retórica. Ergueu-se e afastou-se, lançando seus olhos suplicantes aos céus. Só conseguia enxergar pontos de luz embaçados, quase nada. Conseguia enxergar a energia das estrelas, não elas. Não a forma e o brilho. Sentia falta de ver o brilho das estrelas.

Interrompeu os passos fugidios. Voltou-se para o rapaz que não podia enxergar, mas sabia onde estava:

— Fale-me do céu. Como estão as estrelas esta noite? — pediu com a voz suave, mesmo que salpicada por uma emoção entristecida.

— Brilham como os olhos dele — Ikki disse com um sorriso também triste, mas esperançoso.

— Então são as mais brilhantes. E ambos sorriam agora. Asmita terminou seu suco e ouviu o soar de um prato, o anúncio de que o rei se pronunciaria.

— Pode ser importante, melhor ouvirmos — ele aconselhou.

Ikki ergueu-se também e o seguiu. Não via a hora de deixar aquele lugar.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Todo Egito jazia num silêncio suspeito e a noite parecia mais escura do que o natural. Mu, ainda na proteção do castelo, caminhou até o quarto de sua mãe. O caminho iluminado por archotes de chamas altas não permitia que a escuridão completa tomasse o local. Ele avisou a uma das servas particulares de Nerfertari que queria vê-la e a rainha o recebeu em seu jardim.

Nerfertari parecia impaciente ao mirar o filho. Mu nunca a visitava desde que passou a ser tutoreado pelos escribas de Saga, e ela não sentia falta do filho. Mu nunca foi mais do que uma exigência que a fazia infeliz só de lembrar pelo que passara para concebê-lo. Era uma menina, uma criança violentada duas vezes. A primeira quando fora obrigada a se casar com o primo e a segunda quando fora obrigada a dar-lhe um filho. Nerfertari nunca amou e nunca foi amada por Saga e nunca amara sua prole. Vivia reclusa e humilhada por um faraó libertino que não fazia questão de disfarçar sua lasciva por um cortesão estrangeiro. Cortesão que ele fez sacerdote apenas para tê-lo à disposição, sempre. Era fato que até certo ponto, ela também se beneficiara com isso. Shaka era tão bonito, eram tão macias as suas mãos, e ele sabia exatamente onde tocá-la para deixá-la molhada e ávida de desejo. Entretanto, ele nunca seria seu de verdade. Ele era um pertence de Saga e ela só podia tê-lo quando o marido não estivesse por perto, como agora.

— Fale-me o que desejas, Mu — ela indagou impaciente. Queria que o filho partisse logo para que pudesse chamar Shaka até o seu quarto.

— Não é nada. Só vim vê-la. Há um longo tempo que não venho — Mu disse, constrangido. Não poderia dizer a verdade. Também não esperava aquela hostilidade da parte da rainha. Nunca foram próximos, todavia, ela ainda era sua mãe.

— Assim como teu pai, para ti sou apenas um objeto decorativo... — rebateu Nerfertari, amarga.

— Não é verdade... Eu só... Bem, eu só queria vê-la — Mu falou, erguendo-se do canapé, sem saber mais o que dizer. — A senhora está bem?

— Sim. Estou muito bem aqui, exilada nesse castelo sem ser ninguém há muito tempo — ela sorriu sarcástica. — Minha função era gerá-lo. Já o fiz, agora que os homens deixem-me em paz.

— Nerfertari... — Mu hesitou, pensando em tantas coisas e tendo a total certeza de que não queria terminar a vida como aquela mulher. — Sinto muito pelo teu destino.

Não esperou resposta. Saiu, voltando rápido pelo corredor. A noite era pesada, escura, ideal para sua fuga. Foi para seu quarto, cobriu-se com a capa. Pegou seus alforjes e saiu pelo subsolo do castelo, local onde não havia guardas, pois era um caminho conhecido apenas pela família real e para ser usado em caso de uma invasão.

O percurso era longo, mas depois de algum tempo, ele finalmente chegou à saída, às margens do rio. Sorriu, feliz e emocionado por ter conseguido chegar até ali. Agora só precisaria esperar que Aiolia chegasse na hora marcada.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Hamurabi parecia já bastante alterado pelo álcool, era o que Afrodite percebia, e isso nunca era bom. Dali a pouco sairia cortando cabeças ou querendo guerra. Por isso, o sacerdote fez o que geralmente fazia naqueles momentos: encheu um cálice com licor de abikí, cujo sabor doce não permitia que outros sabores fossem percebidos, e despejou nele pó de noz do Líbano. Isso com certeza traria o soberano à razão. Embora houvesse outros efeitos, ainda era melhor que assassinatos. Se estivesse por perto, os efeitos não seriam tão perigosos assim. Entretanto, era esperado que as festas dedicadas a Ishtar, a sagrada prostituta, envolvessem muita comida, bebida e sexo. Ou seja, todos os prazeres livres e proibidos. O castelo estava tomado por cortesãos de todos os cantos do império. Era o verdadeiro jardim das delícias da feiticeira com pés de corujas. Os assinus e assinutus se destacavam entre os outros cortesões por beleza e simplicidade. Usavam saias brancas leves, cintos, joias de ouro e tinham os corpos pintados de dourado, diferente do colorido dos outros. Os rostos permaneciam cobertos por máscaras de bronze, ouro ou prata, dependendo do seu nível de importância dentro do templo, e eles não podiam ser tocados.

Hamurabi fez um gesto, e eles abriram no centro do salão real um imenso tapete vermelho, cujo bordado contava a caminhada de Ishtar pelo mundo subterrâneo à procura de Tammuz. Os assinus abriram o tapete sob o olhar admirado de todos; era uma obra de arte.

O rei então começou a falar:

— Povo da Babilônia, mais uma vez nos reunimos para louvar a grande deusa Ishtar, senhora dos rios e das colheitas. Como em todos os anos, nesta noite única, um homem igualmente singular será escolhido para refazer o caminho de Tammuz à deusa, que o acolhe com toda sua sensualidade e bondade. É o rito do estranho. O estranho que se torna o consorte de Ishtar. O estranho que deve ser escolhido por ela após uma jornada na escuridão, repleta de sensações espirituais e carnais.

A maioria dos homens presentes, de sacerdotes a artesões, começou a gritar para ser o escolhido. Ikki trocou um olhar com Aldebaran, que riu de leve, dando de ombros.

— Silencia — a voz do rei foi um leve sibilar que levou o total silêncio ao salão novamente.

— Hoje, este homem será escolhido após uma luta até a morte na nossa grande arena...

Afrodite arregalou os olhos. De imediato, entendeu as intenções cruéis do seu rei e amante. Estava relativamente longe dele, mas praticamente correu, cortando a multidão até chegar a ele.

— Não! Não! — dizia, enquanto corria, empurrando quem estivesse à sua frente. — Hamurabi! — gritou, fazendo os olhares do salão se voltarem para ele.

O rei o encarou com olhos estreitos.

— Eu escolherei dois homens para este duelo pela honra de ser o estranho! — ele continuou, mirando Afrodite nos olhos, vendo que ele implorava para que não fizesse o que tencionava. Isso só serviu para inflamá-lo ainda mais. — Escolho dessa vez um estrangeiro! O mercenário árabe! O mais jovem! — explicou ao ver Aldebaran puxar o machado. — Ikki! Ele lutará contra Cássio, nosso campeão, até a morte.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Shaka estava dançando. Não era sempre que sentia vontade de dançar, mas naquele momento, era como se a dança fosse uma libertação e ele dançava, movia o quadril, rodava no jardim, sacodia pernas e braços, ao som enérgico dos tambores. Seus cabelos já se grudavam a suas costas e fronte, soltos da trança folgada que ele usava, mas ele mantinha o ritmo frenético da dança. Precisava descarregar a tensão que sentia e dançar naquele momento era melhor que a meditação.

Os sons do passado não o deixavam descansar e por isso ele dançava. Dançava com a mesma graça e energia que dançou para o rei da Babilônia. A dança que selou seu destino.

Era a grande festa de Ishtar. Todo o templo tecia e ensaiava e com ele não era diferente. Havia prometido a Krishna que o faria e fez com tanta dedicação que impressionou o sumo sacerdote. Afrodite estava exultante com seus avanços, fascinado com sua graça... até aquela noite.

Todos dançaram, mas Afrodite tinha uma surpresa especial para os embaixadores, convidados de Hamurabi. Essa surpresa era Shaka e sua dança peculiar. Era Shaka e sua beleza alva, tão estranha naquele lugar de maravilhosas peles de ébanos. Era Shaka e aqueles olhos que eram pedaços de céu que brilhavam vivos, mesmo que o rosto se escondesse atrás da máscara. Afrodite tinha planos para o garoto, naquela noite. O sacerdote queria certos favores do rei e sabia que agradar aos seus convidados lhe daria os acessos dos quais precisava.

Shaka dançou uma música extremamente sensual. Ele havia construído aquela coreografia. Seus corpo esguio ondulava em provocativa lentidão ou em sensual euforia. Ele não se sentia bem dançando para aqueles homens de olhares desejosos, mas era preciso e por isso imitava os movimentos de uma serpente com extrema presteza e sensualidade. Enquanto dançava, o jovem ária viajava para qualquer lugar ou momento que não fosse aqueles olhos de desejo. Odiava aqueles olhares, sentia-se exposto, envergonhado. Mas prometera. Teria que sobreviver, apenas isso.

Quando terminou a dança, os embaixadores quiseram conhecê-lo. Afrodite permitiu, ficando por perto, Krishna também. Quando Shaka tirou a máscara e os homens viram seu belo rosto imberbe, a lascívia era notória neles. Muitos ofereceram fortunas ao rei para poder levá-lo às suas nações, mas suas ofertas foram rejeitadas.

Krishna pediu que Afrodite levasse o jovem de volta ao templo, e o loiro faria, se o próprio rei não o impedisse.

— Por que o retiras? Também quero conhecê-lo melhor. Quem sabe ele não tenha uma nova dança? — Hamurabi disse com um sorriso provocador. — Há muito não vejo um rosto tão bonito. Tu manténs todos os assinus longe de mim, sumo sacerdote — provocou.

— Os assinus servem à deusa, não ao rei — Afrodite retrucou, irritado.

Máscara da morte não gostou daquelas palavras rudes diante dos seus convidados. Estreitou os olhos e apertou os dentes.

— Pois este me servirá esta noite — declarou, feroz.

Shaka mirou Afrodite, apavorado, depois Krishna, que apenas baixou o olhar. Quem seria capaz de desafiar um rei como Hamurabi? Ele segurou Shaka pelo braço e saiu com ele do salão, sem mais delongas. Afrodite o seguiu, Krishna também. Os embaixadores ficaram confusos por um tempo, mas depois voltaram-se para os outros servos.

— Senhor Krishna, me ajuda! — Shaka pedia, sendo arrastado pelo rei, incapaz de impor resistência. Não sabia o que fazer.

Máscara da morte riu.

— Ele pensa que tu podes ajudá-lo, Krishna, que ingenuidade!

— Senhor, por favor, é só um menino — o mordomo tentou argumentar.

— Há muito não é mais um menino, Krishna. Não sejas tolo! Meninos não dançam daquele jeito! — riu o soberano.

— Chega, Hamurabi! — Afrodite disse em um tom mais forte, o que fez o rei parar e encará-lo.

— Atenção ao teu tom de voz, sacerdote — Máscara da morte advertiu. — Estou sendo paciente com teus desmandos em Uruk, mas saiba que minha boa vontade tem limites.

— Mate-me então. — Afrodite desafiou, empinando o arrebitado nariz. —Mate-me, pois se tocares neste assinu, nunca mais porás as mãos em mim, e pela deusa, não importa quantas coroas tenhas, soberano, Ishtar o amaldiçoará se tentares me tomar à força, como tentas fazer a esta criança!

— Não é uma criança, é um escravo! — Hamurabi cuspiu. — Talvez sejas tu quem esteja velho, Afrodite.

O sacerdote ficou vermelho com aquele comentário. Obviamente Afrodite não era velho, o rei queria apenas ferir sua vaidade ao dizer aquilo.

— Pois bem. Isso significa que não precisas mais dos meus serviços. Já sou um homem livre. Partirei da Babilônia.

Hamurabi bufou, sabia que aquilo era chantagem, coisa que Afrodite sempre fazia quando ele se interessava por qualquer outro ou outra. Shaka o seduziu com sua dança naquela noite, assim como seduzira todos, mas o rei não se arriscaria em perder seu amante, o homem mais belo do mundo, como muitos o chamaram, e a ânfora de Ishtar. Arriscaria muito por uma noite de prazer com aquele garotinho bonito, não valia a pela. Contudo, era orgulhoso, e não queria recuar. Jogou Shaka nos braços de Krishna e encarou o sacerdote.

— Leve-o de volta ao templo, Krishna. Guardarei o assinu para algo mais importante. Agora saia.

— Sim, meu soberano — Krishna disse, tratando de correr com Shaka dali.

Hamurabi segurou o braço de Afrodite, puxando-o para si e o encarando de forma dura.

— A próxima vez que me questionares na frente dos outros, eu mesmo o mato... — sua voz era baixa, sibilada, mas Afrodite não se intimidou, ergueu o queixo e retribuiu o olhar do rei.

— Ele é meu assinu, pertence à Ishtar, a deusa não o perdoará por tal afronta.

Máscara da morte o jogou contra a parede e levou a mão ao pescoço do loiro, apertando-o levemente.

— Estás me ameaçando?

— A deusa fala por mim, esquece-te?! Juro por todos os deusas, Hamurabi, se tocar em qualquer um dos meus assinus sem a minha permissão...

— Cala-te! — Máscara da morte apertou os dentes. Nunca fora desafiado daquela forma antes. Afrodite estava brincando com algo muito perigoso que era seu orgulho. Ele riu, deslizando a mão pelo pescoço delgado do estrangeiro, como quem ensaia o estrangulamento.

— Tens certeza que me queres como teu inimigo, sumo sacerdote?

— Não. Não o quero como inimigo, mas desejo que respeites as determinações da deusa. Meus assinus são minha responsabilidade e ninguém, nem o rei, deve tocá-los sem meu consentimento.

— Dentro da Babilônia, eu toco no que eu quiser. Nem a deusa pode me impedir e já que queres desta forma, saibas que acabas de entrar numa contenda que não podes vencer, sumo sacerdote.

Afrodite mordeu os lábios, contendo a respiração. Estava jogando errado, reconhecia. Desafiar Hamurabi não era sábio. Deixara-se levar pela emoção do momento.

— Deseja-o tanto assim? — recuou, lançando a ele um olhar magoado. — Pensas mesmo que estou velho e desejas me substituir na tua cama?

— Não mandas nos meus desejos, sacerdote — o rei replicou. Uma fúria contida brilhava em seus olhos.

— Decerto. Sou apenas um escravo. Não me pronunciarei mais. Faça o que desejas, com Shaka ou qualquer outro. Recolher-me-ei ao templo e lá permanecerei em jejum até que me livre dos sentimentos ruins que tu me despertas, meu soberano.

Máscara da morte ergueu uma sobrancelha. Conhecia aquele procedimento e não gostava dele. Afrodite era o sumo sacerdote e dentro do templo ele era o soberano. Nem mesmo o rei poderia desrespeitar a casa de Ishtar.

— Repetirei: tens certeza que desejas iniciar esta contenda, Afrodite?

— Que escolha tenho eu quando o meu próprio rei deseja violar um dos meus assinus, desrespeitando as leis que ele mesmo criou?

Hamurabi bufou e revirou os olhos.

— Por que és tão sentimental? Seria apenas sexo, Afrodite. Não me digas que tens ciúmes?

— Não sejas tolo! — Afrodite corou, desviando o olhar. — Sou apenas um sacerdote estrangeiro e sei bem o lugar que ocupo junto a ti, meu soberano.

— Sabes mesmo? — Hamurabi se aproximou dele, os olhos escuros querendo extrair qualquer mistério oculto naquelas palavras.

Afrodite respirou fundo, afetado por aquela proximidade. Revidou o olhar do rei com a mesma selvageria.

— Se queres começar a foder com qualquer garoto, pouco me importa, mas não ponha a mão em um dos meus assinus.

— Creio que não entendas exatamente quem eu sou aqui — o rei levou a mão novamente ao pescoço do loiro, pressionando-o contra a parede. — Eu posso o que eu quiser! Inclusive destruir leis criadas por mim, e se continuares a me desafiar, não terei mais nenhuma piedade!

— Diante de tamanho desrespeito, o melhor é que me mates — Afrodite desafiou. — Agora!

O rei moveu os dedos no pescoço delgado do sacerdote, sem nenhuma pressa.

— Por que te importas com um simples escravo? — ele indagou, curioso.

— Não me importo. Caso desejes, eu mesmo o mato. Só não o quero em tua cama.

Aquela declaração pareceu agradar o rei, que sorriu, exibindo os dentes alvos e bem alinhados.

Afrodite sentiu as mãos fortes envolverem sua cintura.

— Fico excitado quando és cruel assim — murmurou Máscara da morte ao ouvido dele. — Acho que gozaria se o visse matando alguém...

— E eu mataria se fosse para dar prazer ao meu rei — o sacerdote sorriu de maneira perversa.

Máscara da morte riu, erguendo os cabelos da nuca do sacerdote para beijar seu pescoço, virando-o contra a parede e roçado a ereção que já despontava nele.

—Shaka é belo, muito belo...

— Acho Misty mais belo...

— O que importa? Nenhum deles é mais bonito que tu... – murmurou, chupando a orelha de Afrodite, que gemeu.

— Não foi o que disseste há pouco...

— Esqueças o que eu disse há pouco. Mas nunca mais me desafie na frente das pessoas. Da próxima vez não serei tão compreensivo — o rei disse, empurrando-o com pouca delicadeza para dentro do quarto e tomando-lhe os lábios em seguida.

Depois daquilo, não sabia se por ciúme ou proteção, Afrodite evitou que Shaka participasse das recepções do rei. O assinu de nome Misty passou a ser o acompanhante do sacerdote, e sempre voltava para o templo com bolsas cheias de moedas e pedras preciosas, exibindo seus ganhos por seduzir reis e embaixadores. Shaka não se importava, quando não estava trabalhando nos afazeres do tempo, era-lhe permitido que fizesse passeios com Krishna, que era um homem de confiança, e ele aproveitava para aprender uma nova língua ou ler textos em arcádio, em grandes blocos de argila ou em papiros. Eles passeavam de carroça ou em barcos, e passavam muito tempo juntos, o que despertava desconfiança de todos, menos de Afrodite. Ele sabia qual era o interesse de Krishna pelo garoto. Antes de se tornar o mordomo-mor de Hamurabi, Krishna foi um simples escravo de arena, guerreiros destinados a lutar até a morte para entreter reis. Quando conseguiu sua liberdade, ele se casou com uma assinutu do templo e tivera uma filha, Lalanda. Lalanda cresceu e se tornou uma moça muito bonita, tinha a pele escura do pai e os olhos claros da mãe. Tal beleza atraiu a cobiça dos homens, a garota foi violada e morta quando lavava roupa às margens do rio. Krishna vingou-se, matando os assassinos de sua filha, clamando pela lei do rei. Todavia, nunca se recuperou do que houve. Sua esposa morreu de tristeza tempos depois, e Hamurabi o convidou para ser o seu mordomo-mor e também mercador de escravos. O sacerdote pensava que ao encontrar Shaka, o pobre homem não pôde deixar de compará-lo à filha. Afrodite chegou a conhecê-la. Assim como Shaka, Lalanda era altiva, bela e ingênua. Também como Shaka, ela foi vítima da maldade dos homens. Mesmo que Shaka fosse um garoto e trouxesse em si a rebeldia dos garotos, seus olhos tinham a pureza do olhar de Lalanda.

Naquela noite, depois que Krishna o tirou das mãos de Hamurabi, Shaka sentou-se em sua esteira e abraçou os próprios joelhos.

— Odeio os homens... Odeio os homens... — ele murmurou entre dentes, sentindo os olhos molhados. Tremia levemente, completamente apavorado com as atitudes do rei. Tinha medo de ser novamente violentado, humilhado e machucado. Preferia a morte.

— Eu também os odeio, Shaka — Krishna disse, sentando-se ao lado dele. — Mas precisamos conviver com eles. Um dia, quando meus serviços a Hamurabi terminarem, irei para as montanhas do sul, viver bem distante deles.

— Mas tu não és um escravo, por que continuas aqui?

— Jurei fidelidade de serviço a Hamurabi por 20 anos.

— Por quê?

— Porque ele vingou minha criança. A criança que não pude proteger.

— É por isso que me proteges?

Krishna sorriu levemente e levou a mão aos cabelos do garoto numa carícia rude.

— Tu és um bom menino, Shaka. Um bom menino.

Shaka pousou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos. Ao menos naquela noite, ele estava seguro.

Afrodite observa o presente, mergulhado nas lembranças do passado. Como Hamurabi era tolo! Tinha uma vontade absurda de bater na cara dele até que ele desfalecesse.

O rei desceu do púlpito depois da sua decisão já ter sido tomada. Cássios apareceu, afiando seu imenso machado e batendo com um martelo no chão. Era um homem enorme, mas não do tipo bonito como o saubeu, mas monstruoso, deformado. Afrodite tinha pavor dos lutadores de Hamurabi. Eram bestas que precisavam permanecer enjauladas, não homens.

Ele caminhou até o rei, assim que Máscara da Morte atravessou o salão. Seus olhos faiscavam de fúria, e o sacerdote não conseguia se conter.

— Essa palhaçada foi por ciúmes, Hamurabi?! — ele esbravejou, colérico.

O rei o mirou com atenção, sua expressão fechada não mudou.

— Tenhas muito cuidado a partir daqui, sacerdote. Se me desrespeitares na frente dos meus convidados, irás se arrepender...

Afrodite engoliu em seco.

— Então venhas comigo, meu rei. Precisamos conversar, agora... — o loiro disse, caminhando para fora do salão em direção aos aposentos do soberano.

Máscara da morte riu, deuses, como ele adorava aquela rebeldia! Nunca tivera um amante tão desaforado. Pensava que era isso que amava em Afrodite. Seguiu-o até o quarto e assim que se aproximou do loiro, recebeu uma bofetada, que só lhe causou a reação de rir.

— Cretino! Parvo! Aquela criança não fez nada para merecer o destino que deste a ela!

— Ele ser digno de tua preocupação já me é o suficiente — o rei falou, irritado. — Achas que não sei que estiveste com ele nos fundos do templo? Por que o levaste lá? Por que andas de segredos com ele?! Agora te interessas por garotos também, sacerdote?! Devo supor que andas fodendo teus assinus!

Afrodite soltou uma risada debochada.

— Ikki jamais seria um assinu, é demasiado macho para isso! — revirou os olhos. Os assinus eram homens que deveriam possuir graça e delicadeza quase feminis, o sacerdote achara Shaka deveras agressivo para ser um, um Ikki como assinu era algo impensável.

— Sim, eu sei... Talvez seja isso que o faça tão atraente a ti. Talvez ele lembre a mim quando mais jovem...

— Ele não me é atraente. Não precisas matá-lo por isso. Não tenho interesse no garoto — Afrodite declarou. — Por favor, pares com essa loucura.

— Não tens interesses nele... Contudo, vem a mim, pedir por ele... Afrodite, já foste mais inteligente... Que tal se eu o matasse e a ti em seguida?! — o rei o puxou para si pelos cotovelos, olhando-o de perto, os olhos faiscando de raiva. — Como ousas me trair desta maneira com aquele garoto estrangeiro?! Quase posso sentir o cheiro dele em ti!

— Rei tolo! — Afrodite sacudiu-se, tentando livrar-se das mãos dele. — Não tenho e jamais terei nada com aquele rapaz! É Shaka! É por Shaka que ele está aqui!

Máscara da morte o encarou, a surpresa estampada em seu rosto.

— Então...

— Sim. Ele não é um simples mercenário, é o esposo. Lembra-te que ele falava de um esposo? Há um desenho no quarto no fundo do templo para provar isso, caso queiras. O rapaz o segue, está tentando reavê-lo. E eu... eu quero ajudá-lo. — Afrodite acabou desabafando e suspirou cansado.

Máscara da morte o encarou, franzindo a testa.

— Então estavam tramando por minhas costas?

— Eu sabia que tu não o ajudarias, Hamurabi, que o expulsarias e que nunca deixarias que ele fosse ao Egito — Afrodite suspirou. — Enfim, podes me castigar se quiseres, mas deixes o garoto em paz, ele é só um amante sofrido.

— Castiga-lo-ei — o rei falou, olhando-o no fundo dos olhos. — E será agora... — tomou-lhe os lábios num beijo sôfrego e em seguida virou o loiro contra a parede, começando a beijar o pescoço dele, erguendo a saia vermelha que ele vestia, acariciando as pernas bem feitas.

— Qual o castigo que desejas, assinu? — ele murmurou, erguendo os cabelos do loiro para beijar seu pescoço, virando-o pra si novamente e tomando-lhe os lábios enquanto o segurava pelas coxas brancas e bem feitas, erguendo-o nos braços e caminhando com ele, até que as costas de Afrodite batessem contra uma parede. Apoiou o sacerdote com o corpo e usou uma das mãos para expor o pênis grande e ereto.

— Assim vais me machucar... — reclamou o loiro, lambendo os lábios

— Essa é a intenção, traidor... — ele disse, perverso, fazendo o sacerdote afastar-se e encará-lo com os olhos azuis arregalados. Mas o rei rapidamente levou seus dedos aos lábios do estrangeiro que os lambeu sensualmente, aliviado. Ele então os introduziu de vez dentro do corpo de Afrodite, fazendo-o gritar e estremecer de prazer, indo e vindo com força dentro dele.

Afrodite gemia, sentindo aquela carícia ardida que adorava. O rei mordia e lambia seu pescoço enquanto movia os dedos dentro dele. Afrodite apertou as pernas no quadril dele, e Máscara da morte retirou os dedos de dentro do loiro e o levou até a cama, jogando-o sobre ela.

O rei observou por um tempo a face avermelhada do loiro, sua respiração ofegante e deleitosa, então se livrou das veste, aproximando-se dele.

— De quatro. Quero te foder como se fode um assinu...

— Não sou mais um assinu — resistiu o sacerdote, mirando-o em desafio.

— Obedeça-me — o rei sibilou, fazendo o amante se arrepiar e, com um sorrisinho depravado nos lábios, ficar na posição que ele queria.

Com um sorriso sádico, Hamurabi arrancou a saia que ele vestia, certificando-se mais uma vez que ele estava nu sob ela.

— Tu és a perdição deste império, sumo sacerdote Afrodite... — murmurou e com um gemido estrangulado invadiu o corpo do loiro, que estremeceu arqueando as costas e gritou sem tentativas dúbias de se conter. Ninguém os ouviria mesmo.

Hamurabi sabia que enquanto estava com Afrodite, a grande arena era preparada para a sangrenta batalha, mas não estava incomodado com isso. Talvez, no dia seguinte quando o álcool e os ciúmes arrefecessem, ele sentisse remorso. Agora não. Agora queria prazer.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Mu estava nervoso com a demora de Aiolia. A noite parecia se tornar cada vez mais escura, engolindo-o. O príncipe encolheu-se, recostando-se contra uma árvore seca, amedrontado. Aquele lugar não era protegido por redes e sabia que muitos crocodilos podiam deixar o rio à noite.

“Sobek, mantenha teus filhos no Nilo”, pediu mentalmente. E então ouviu o trotar de um cavalo. Saiu, sob a luz do luar, e viu o cavaleiro envolto em pensada capa, guiando o cavalo em sua direção.

— Mu! — Aiolia exclamou, retirando o capuz e sorrindo para ele, estendendo-lhe a mão. — Venha!

O príncipe sorriu, segurando a mão dele e montando no cavalo, abraçando-se ao corpo do amado, aliviado.

Aiolia esporeou o cavalo, em direção ao grande portal que os tiraria da cidadela e os levaria para as fronteiras de Men-nefer. Contudo, eles não esperavam que uma patrulha inteira estivesse à frente do portal.

— Não podemos sair por lá, Mu, temos que dar a volta —Aiolia disse nervoso. Percebia que a patrulha de mdjais próxima ao portal carregava tochas e tinha ao menos um general com eles. — Vamos! — ele tomou a direção inversa, pegando uma estrada de pedra. Entretanto, havia uma patrulha ali também. Estavam cercados!

— O que está acontecendo, por Rá! — Aiolia resmungou, retornando com o cavalo, procurando outra direção, mas foi cercado.

— Aiolia da casa de Mahes, filho de Leontópolis, ordeno que pares! — uma voz forte ecoou na noite funesta, e um dos homens que liderava os patrulheiros se adiantou, retirando o capuz que usava.

— Defteros! — Mu exclamou, lívido.

— Mu, venhas comigo — o irmão do faraó disse, mirando o sobrinho de forma dura. — Já fizeste muitas tolices para uma única noite. Não lutes.

Mu abraçou-se mais forte a Aiolia, sentindo lágrimas nos olhos.

— Como soubeste?! — indagou, entristecido.

— Não importa. O que estão fazendo é uma tolice — Defteros disse, aproximando-se e tirando Mu do cavalo de Aiolia com facilidade. O príncipe não apresentou resistência, seus olhos só procuravam os de Aiolia, desesperado.

— Aiolia, voltes para tua casa — Defteros continuou. — Teu casamento será amanhã. Esqueceremos esta noite. E tu esquecerás meu sobrinho.

Dito isso, ele esporeou o cavalo, afastando-se. Aiolia sabia que não poderia lutar contra um exército, ainda assim ele quis. Mas Mu o impediu.

— É inútil — disse, os olhos molhados encarando o amado. — Não quero que morras, por favor, não lute.

— Ouça-o — Defteros advertiu, e seguiu dali com o príncipe. Aqueles dois não passavam de crianças tolas.

— Defteros...

— Cala-te, Mu. Aspros está de volta. E não trouxe boas notícias — o tio declarou com ar grave e soturno.

Alguns Mdjais escoltaram Aiolia para casa, deixando a estrada pela qual ele seguiria. O jovem militar sentia o peito apertado e uma intensa vontade de gritar. Suas últimas esperanças de felicidade estavam perdidas. Ele estava impotente e isso o deixava completamente desesperado.

Da varanda do grande castelo, Hades observava a tropa que voltava, seguindo Defteros, e sorriu, confiante.

— Defteros foi eficiente desta vez — ele voltou-se para Aspros, que já havia sido cuidado do corte em seu abdômen e que descansava num canapé ao seu lado. — Assim como tu és sempre, meu filho.

— Defteros só precisa de orientação, meu senhor — respondeu Aspros.

— Decerto. E da influência do irmão. Estamos a caminhou da nossa vitória — ele bateu levemente no ombro do pupilo e seguiu pelo corredor do grande castelo do faraó. Era o homem certo, no lugar certo, e com os aliados certos. Sorriu, atravessando o suntuoso salão e mirando o trono gigantesco feito em ouro maciço e encrustado de gemas brilhantes.

“Em breve...”, sorriu, seguindo adiante. Não precisava mais se esconder, Saga estava morto e logo seria ele o dono de tudo aquilo, inclusive do seu amante.

Adentrou o luxuoso jardim e encontrou o jovem ária sentado no canapé, dedilhando seu alaúde.

— Ele já chegou?

— Está vindo. Fizeste um bom trabalho, Shaka.

Os olhos azuis do escravo encararam o olhar frio do governador.

— Tu cumprirás o que me prometeste.

— Evidente. Mas teu trabalho está só começando, Durdanna. Hades falou e deu as costas ao loiro, deixando seus aposentos.

Shaka fechou os olhos com força, respirando fundo. Ele deixaria o Egito, ele não seria mais um escravo. Não importava quem tivesse que trair para isso. Que os outros chorassem, ele não choraria nunca mais.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Notas finais
Obrigada a todos que estão lendo e comentando ♥ Beijos e até mais! Sion Neblina