A serpente e a estrela
26 O vale dos desterrados
Notas iniciais
“Jurei mentiras e sigo sozinho”
“Assumo os pecados”
“Os ventos do norte não movem moinhos”
“E o que me resta é só um gemido”
“Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos...”
Secos e molhados
O vale dos desterrados
Capítulo 25
Afrodite ergueu-se da cama do rei, sobressaltado, recolhendo sua vestes e joias, enquanto Hamurabi descansava relaxado.
— Ouves os tambores? — ele indagou, uma raiva crescente dentro de si. — A luta terá início. Temos que impedi-la!
— Temos? — o rei riu, espreguiçando-se — Não a impediremos.
O loiro mirou o amante, os cabelos despenteados e o rosto ainda afogueado destacavam os olhos azuis, dando a ele um aspecto selvagem.
— Hamurabi...
— Se o árabe viver, calar-me-ei e permitirei que ele siga os egípcios. É um bom termo, não?
— Ele não sobreviverá a Cassius, sabes disso! — o sacerdote disse, irado, enquanto voltava a amarrar a tanga e o saiote à cintura. — Pensaste nisto todo o tempo? Estavas me enganando?
— Afrodite, por Ishtar, não tomes parte nesta contenda estrangeira. Shaka partiu. Não é mais nossa responsabilidade.
— Sabes por que o mandei embora! Caso estivesse aqui, eu o deixaria ir com o esposo. Meu ciúme o condenou...
— Ele era um escravo. Escravos vem e vão, são negociados. Shaka foi um preço pequeno pela paz que temos hoje, não destrua isso — o rei advertiu, começando a se vestir também. — O melhor é que o árabe morra. Mas se isso não acontecer, fingirei que nada sei e deixarei que seu destino seja selado no Egito, porque tenha certeza, eles não sairão vivos de lá.
O sacerdote calou-se por um tempo, condoído com aquela situação.
— Vamos. Ishtar terá piedade dele. Espero que Cassius não seja um preço muito alto. — falou, lançando um olhar desafiador ao rei.
Máscara da morte riu.
— O rapaz é robusto e parece habilidoso, mas estamos falando de Cassius. Vamos.
Eles deixaram o quarto e fora em direção à grande arena. Todos esperavam o rei, ansiosos para que o combate acontecesse. A humanidade sempre amou o sangue e a guerra, e todos estavam ávidos por mais um espetáculo grotesco naquela arena.
Parado ao lado de Aldebaran, Ikki permanecia impassível. Observava o gigante. Era assírio, e os assírios eram conhecidos pela crueldade. Aldebaran sabia das habilidades de Ikki e, ainda assim, temia pelo amigo. Ikki era um tamudaei, nada poderia ser mais temível que isso. Sua raça fizera história nos quatro cantos do mundo. Outros povos tentaram escravizá-los para seus exércitos e só conseguiram a morte. Contudo, Cassius era um assírio, isso também não poderia ser ignorado.
— Ele é bem grande — comentou o saubeu, afagando a trança loira que caía por seu ombro.
— Já enfrentei maiores. Não temas, meu amigo. — Ikki replicou, indiferente, afiando a lâmina de sua saif numa pedra.
— Quando ele cair, saia de perto. Se ele cair por cima de ti, creio que morres esmagado. — o saubeu disse, fazendo o tamudaei rir.
O moreno observou o treino do adversário por um tempo, analisando-o. Grande realmente, mas lento e pesado. Enfrentara homens piores naquele trajeto... Um longo trajeto desde a Saubeia...
Foi uma viagem longa até que eles chegassem ao local entre as secas montanhas, conhecido como o vale dos desterrados. Era o local para onde iam aqueles que já não tinham um lar e nem parte com nenhuma raça. A maior parte eram escravos que não pertenciam à Arábia, que tiveram a sorte de ter seus senhores mortos e fugiram. Havia muitos jovens, mulheres e crianças. Às vezes, o vale era invadido por grupos de mercadores de escravos e muitos eram sequestrados sem que houvesse quem lutasse por eles. A Saubeia e outras terras vizinhas tentavam ajudar, colhendo também seus frutos — conseguiam escravos sem que tivessem que pagar —, mas não podiam ajudar todos.
Quando os desterrados avistaram o multriz de Hasgard, correram até ele, comemorando, felizes. A Saubeia e seus vizinhos doavam o pão que matava a fome daquelas pessoas. Ikki percebia que ali havia algumas plantações secas e criações parcas de ovelhas e cabra. Mas eram, obviamente, insuficientes, pois, a cada dia, chegavam mais pessoas, inclusive crianças, que não podiam plantar nem colher.
— A maioria dessas pessoas foi desterrada pelos teus, rapaz — Hasgard disse com desgosto. — Mire o teu legado.
— Não escolhemos de onde viemos, Emir da Saubeia — Ikki replicou, observando o local. Havia muitos doentes e muita miséria. — Por que me trouxeste aqui?
— Para que visses. E para que eles o vissem. Quero construir um lar para estas pessoas, um lar que não seja estas montanhas secas. Infelizmente, abrigamos todos que pudemos sob nossos muros, não cabe mais ninguém. Preciso de guerreiros. Preciso que transformes todo homem que possa segurar uma espada em um guerreiro. — Hasgard o encarou. — Não preciso de mais guerreiros na Saubeia, aquilo foi uma falácia. Preciso que transformes esses desterrados em guerreiros que possam pleitear um lugar no mundo.
Ikki observou desgostoso aquela junta de miseráveis famintos. De onde escavaria guerreiros naquele lugar? Bons guerreiros com certeza não se sujeitariam a ficar ali por muito tempo. Sairiam pela Arábia no ingrato ofício de mercenários.
Hasgard o encarava ansioso por uma resposta.
— Eu aceito. Mas tenho uma condição. — Ikki disse, finalmente.
— Qual?
— Terei ajuda dos teus guerreiros. Farei desses homens guerreiros, mas antes que eles tenham uma causa própria, eles se ocuparão da minha.
— E qual a tua causa?
— Destruir Karna e exterminar os tamudaeis.
Hasgard sorriu, mesmo que achasse aquilo uma loucura.— Trato feito, rapaz. — Estendeu-lhe a mão que Ikki tomou com força. Então eles avançaram com os cavalos.
— Logo chegará uma carroça com mantimentos — Hasgard informou às mulheres que perguntavam.
— Ikki!
O moreno ouviu seu nome como um eco entre as montanhas. Olhou ao redor, tentando olhar de onde ele vinha, mas naquele amontoado de gente, ele não conseguia enxergar ninguém que reconhecesse. Mas, sim, fora seu nome.
— Ikki!
O grito foi mais alto e então ele viu uma mão pequena acenando, correndo no meio da multidão, tentando se aproximar dele, abrindo caminho. O jovem franziu as sobrancelhas, e seu coração acelerou quando em meio àquelas pessoas sofridas, ele enxergou aquele belo rosto, sujo e cansado, mas ainda belo. Um rosto de anjo com aquele vívido par de olhos verdes.
— Jamila! — ele pulou do cavalo, saindo também entre a multidão para encontrá-la e abraçá-la com toda sua força. — Jamila!
Ambos choraram, caindo de joelhos num abraço tão forte quanto sofrido. Choraram durante muito tempo, como se somente um ombro amigo pudesse aplacar a dor da alma. Depois, Ikki segurou o rosto bonito da mulher entre as mãos.
— Onde ele está? Onde ele está? Sabes o que foi feito dele? Ele ainda está em Karna? Jamila, por favor...
— Eu não sei! Shina, aquela víbora... — Jamila soluçava. — Ela nos venderia, apenas ela sabe o que foi feito de Shaka! Eu fugi... Shaka, no entanto... Eu sinto muito, Ikki! Muito!
Ele voltou a abraçá-la, fechando os olhos com força, trêmulo de emoção e revolta. — Está tudo bem, Jamila. Eu o encontrarei. Preciso voltar a Karna. Preciso saber o que foi feito dele... Ele está vivo, eu sei que está! Eu o encontrarei.
— Se voltares, serás morto! Não faças tal loucura!
— Não se eu voltar com um exército, Jamila. Um exército de homens ávidos por vingança.
Jamila sorriu entre as lágrimas e voltou a abraçá-lo. Agora tinha alguma esperança, esperança de que, de alguma forma, Shaka estivesse vivo e de que ele suportaria até que o moreno o encontrasse. Ela se afastou mais uma vez, tirando das veste uma das pérolas vermelhas do colar de Zahira.
— Devemos seguir as pérolas... Se seguirmos as pérolas, o encontraremos. Tais pérolas não mais existem e lugar algum. Onde houver uma, significa que Shaka passou por ali.
Ikki segurou a brilhante joia e assentiu com a cabeça, devolvendo-a à mão da amiga.
— Faremos.
Ikki, meu bebê...
— Iremos buscá-lo. Tê-lo-emos e Shaka conosco novamente. Eu prometo.
— Sim, sim — Jamila acariciou o rosto do rapaz e eles então se ergueram. Hasgard se pronunciava ao povo:
—Andarilhos do Vale dos desterrados, hoje venho não apenas verificar as provisões e tentar aplacar um pouco da vossa miséria, mas trazer esperança. A água está acabando e a Saubeia não tem mais condições de mantê-los aqui — houve burburinho e comoção. — Precisais encontrar um novo lar.
— Onde? Nenhuma cidade quis nos abrigar, senhor! — alguém gritou entre a multidão.
— Devem retornar às suas cidades e reconstruí-las ou, se possível, irem em busca de um novo lar.
— Para reconstruir uma nova cidade ou ir em busca de um novo lar, precisamos de guerreiros! De um exército que possa nos proteger! E não temos ninguém! Da minha guarnição só eu sobrevivi!
O homem continuou a falar e Ikki, que até então apenas observava ao lado de Jamila, se precipitou até onde estava Hasgard.
— Qual é o teu nome? — ele indagou, encarando os olhos do homem que desafiava o Emir.
— Sou Kafeus, um homem de Histreia, terra devastada pelos tamudaeis de Karnas, e tu, quem és?
Hasgard mirou Ikki que continuava encarando o outro, impassível.
— Sou Ikki Horuk Kadar. Este nome te diz algo?
— Kadar... Este era o nome do homem que desgraçou meu povo. Aquele que é chamado de O Chacal! — o homem puxou uma espada, os olhos brilhando de cólera, mas Ikki não se moveu.
— Eu sou o filho d’O Chacal! Um tamudaei! — o jovem declarou, fazendo um silêncio pesado pairar no vale. — E eu mais que todos quero vingança! Vingança daquela raça maldita a qual pertenço!
Um silêncio demasiado longo caiu sobre o local. O homem finalmente baixou a espada e ainda sem tirar os olhos de Ikki indagou:
— Quando começamos?
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
— Mortos? — Mu indagou, atônito.
Nerfertari ao seu lado levou as mãos aos lábios numa falsa comoção.
— Eles caíram no rio... Sou o único sobrevivente do ataque, meu soberano — Aspros disse, sentido. — Eu falhei.
Mu não sabia o que sentia naquele momento. Seu rosto pouco dizia. A verdade era que Saga nunca foi seu pai de verdade, apenas seu progenitor, assim como Nerfertari. Todavia, o que o assombrava agora era a cruel possibilidade e único caminho: assumir o trono.
— Tu serás o faraó, Mu — a rainha sorriu levemente. — Os sacerdotes já estão reunidos, pedindo orientação aos deuses. Decretarei o luto por teu pai e mandarei guarnições para fazer buscas pelo corpo dele. Precisamos seguir os ritos.
— Nerfertari, espere! — Mu pediu, levando a mão ao rosto. — Não faremos nada antes de ter a certeza de que Saga está morto. Depois disso, teremos o luto de sete dias para preparar seu caminho no mundo dos mortos. Até que isso tenha fim, nada será feito.
— Tudo como quiseres, soberano — ela fez uma mesura e saiu, sorrindo satisfeita. Agora era o momento de ter tudo que quisesse.
Mu dispensou Aspros e saiu dali em direção ao quarto de Shaka. Encontrou o dançarino escrevendo na parede perto do quarto de banhos, como ele costumava fazer quando estava entediado.
— Shaka!
O loiro voltou-se para ele, fechando a cortina, ocultando o que quer que fizesse.
— O que houve, Mu?
— Deu tudo errado! Tudo! Meu pai está morto, Aiolia casar-se-á hoje! O que faço? Estou perdido...
Shaka mirou os olhos desesperados do garoto. Não sentiu nada naquele momento. Parecia haver um oco em seu peito que o deixava longe do que poderia ser considerado humano. Havia apenas a obstinação cega. Conseguiria o que deseja e se importaria com ninguém.
— Aceitas teu destino. — Esta foi sua declaração seca àquele que um dia ele amou como a um irmão. Amou? Não possuía condições de amar mais ninguém.
Os olhos verdes de Mu o encararam atônitos e suplicantes.
— Não sei o que fazer... — ele murmurou. — Abrace-me, Shaka...
— Não. — O dançarino afastou-se, deixando o mais jovem com os braços pendentes. —Não é momento para fraqueza, Mu. Precisas aceitar que as coisas mudaram, que não ficará com Aiolia e que Saga está morto. O Egito precisa de um faraó e não de um príncipe chorão. Erga-te e lute. — Havia uma satisfação cruel em suas palavras. Vingava-se da traição daquele em quem confiou. Vingava-se de Saga, vingava-se de todo o Egito.
As lágrimas nos olhos de Mu se derramaram.
— Mas não é justo....
O murmúrio não foi capaz de comover Shaka. Ele encarou o príncipe com dureza e desprezo. Segurou-lhe o queixo, mirando-o nos olhos com sarcasmo e raiva.
— Não é justo? — riu. — Vamos falar um pouco de justiça, meu pequeno príncipe. Eu nasci em um castelo encrustado de rubis e diamantes, cresci com pajens e mestres de todos os reinos do mundo, estava destinado a ser príncipe de uma nação coberta de riquezas até que me tiraram tudo: família, terra, lar, riqueza... Então eu tive a sorte de, entre os meus algozes, achar o amor da minha vida e ele também me foi tirado... Fui feito escravo, espancado, violentado, e hoje sou a sombra daquela criança feliz e bondosa que um dia eu fui... Mas eu ainda estou de pé! — Shaka falava entre dentes. — Então não tens o direito de fraquejar neste momento, Mu. Prepara-te, tua luta apenas começa. Agora, saia daqui.
Mu respirou fundo, enxugando o rosto, e saiu como Shaka mandou. Parecia que estava sozinho, terrivelmente sozinho. Queria gritar por Aiolia, mas não podia. Tinha que ser forte.
No castelo do clã de Leontópolis, Aiolia estava sozinho em sua alcova, escondendo as lágrimas pela morte do irmão e pelo próprio destino. Ele jamais deveria chorar em público, ainda mais agora, que era o senhor do clã. Ele precisava esconder sua dor.
Um servo adentrou o quarto e informou que sua mãe e os pais de Marin esperavam na sala. A pequena cerimônia seria naquele por do sol. Não haveria festa e convidados, em respeito ao luto da família do noivo. Eles apenas receberiam a comitiva da família da noiva, aceitariam os dotes e os presentes e ela coabitaria com o noivo, que atestaria sua virgindade, no dia seguinte. Estariam casados. Apesar disso, a casa estava decorada e farta em comida, e o noivo deveria estar arrumado e perfumado, purificado para receber a virgem, coisa que Aiolia não havia se preocupado.
— O que estás esperando, Aiolia? — sua mãe o repreendeu. — Logo a comitiva da noiva chegará. É assim que o senhor de Leontópolis se apresentará a eles?
Aiolia quis dizer muitas coisas. Desde a noite anterior, noite da sua malfadada fuga, não havia conversado com a mãe. Faltava-lhe a coragem, todavia. Sendo assim, ele virou-se e foi preparar-se para receber a esposa. Sua vontade era gritar, mas não podia. Precisava honrar a memória de Aioros.
— Aioros... Meu irmão, eu não consigo acreditar que estás morto — ele disse, enquanto se banhava e deixava as lágrimas caírem. — Acho que hoje é meu dia mais triste. Não apenas por ter perdido o amor da minha vida, mas também por ter te perdido... — as lágrimas banhavam o rosto do jovem soldado. Pensar no irmão desaparecendo nas águas caudalosas do Nilo, sendo mastigado por um crocodilo ou simplesmente sendo assassinado por rebeldes o devastava. Não queria acreditar naquilo. Era mentira! Por que tudo parecia solidão e trevas? Precisava ir, ele mesmo, em busca do irmão. Ele deveria encontrar nem que fosse um pedaço de Aioros e trazê-lo para casa.
A comitiva da noiva chegou ao por do sol. Mais silenciosa que o costume, afinal o Egito chorava a morte do faraó e todos estavam de luto. O pai entregou Marin a Aiolia com um sorriso satisfeito e um baú com seu dote. Vestida em um vestido vermelho, tendo os formosos seios cobertos por tinta prateada e uma longa peruca negra sobre os cabelos vermelho, Marin segurou a mão de Aiolia sem desviar o olhar dos seus olhos:
Oh, tu, o mais belo dos homens!
Meu desejo é velar por teus bens
Como dona da casa,
Que teu braço cubra o meu braço
E meu amor te cumule.
Eu confio ao meu coração
Um desejo de amante:
Que eu possa tê-lo esta noite por esposo!
Ela entoou o poema. Aiolia a mirou nos olhos em contemplação e dor. Ela era tão bonita, tão vivaz, tão inteligente. Não merecia aquele destino. Contudo, ele precisava prosseguir e por isso entoou o canto já tão conhecido:
A única, a bem amada, a sem igual,
A mais bela do mundo,
Olhem para ela, é semelhante à estrela brilhante do ano-novo,
No limiar de um belo ano.
Aquela na qual brilha a graça, de pele radiante,
Aquela cujo andar é cheio de nobreza, assim que ela coloca os pés no chão.
Seu beijo arrebata meu coração.
Um abraço cálido selou a união. Depois os familiares continuaram reunidos para comer, beber e falar sobre as tristezas do Egito, enquanto os noivos iam para a alcova, consumar o casamento. Ao menos era isso o que se esperava, caso Aiolia tivesse condições de consumar qualquer coisa.
— Venha, bebas — Marin lhe ofereceu um cálice de cerveja, vendo o esposo tão triste. — Não te preocupes comigo, Aiolia. Sei que perdeste teu irmão. Não foi bom momento para casamento, não sei por que tua mãe insistiu tanto.
— Porque eu fugiria, Marin! — ele a encarou, os olhos verdes brilhando pelas lágrimas contidas. — Não queria me casar contigo, me desculpe!
Marin o encarou, os olhos castanhos pintados em khol tornando-se ainda mais brilhantes.
— Eu sempre soube que não querias. Ela disse sem sobressalto. — É o príncipe, não é? O boato de que há mais que amizade entre vos é verdadeiro...
— Mu não tem nada a ver com isso! — Aiolia ergueu-se da cama, irritado. — Não questiones isso!
Marin ergueu-se também, cautelosamente. Precisava lembrar-se que agora era esposa de Aiolia e lhe devia respeito e obediência.
—Não questionei. Sabemos que homens amam homens, o mais valente e valoroso dos homens pode amar um igual. Tua amizade com o príncipe Mu sempre pareceu muito profunda aos olhos de fora...
— Não fale o nome dele! Não fale! — Aiolia esbravejou, irritado, aproximando-se de Marin, mas quando voltou a falar a voz já não estava irritada, estava coberta de dor e as lágrimas caíam. — Não fale nunca mais dele... Eu... Eu preciso esquecê-lo...
Marin levou a mão aos lábios, contendo um soluço, não de decepção ou mágoa, mas por sentir profundamente a dor daquele homem. Aproximou-se mais dele e o abraçou com força.
Aiolia deixou a cabeça cair naquele ombro cheiroso e tão pequenino e entregou-se ao pranto, a dor que sentia pela morte do irmão, por tudo, enquanto a esposa acariciava seus cabelos.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Ikki examinou o adversário que girava uma massa, dando golpes no ar, fazendo as pessoas que assistiam urrarem animadas. Ele viu quando o sacerdote e o rei tomaram seus lugares na grande arena. O canto cessou, pois as atenções agora eram para a luta.
Um pajem foi posto à disposição do árabe, e lhe trouxe armas, mas Ikki achava que sua saif seria suficiente.
— Está na hora. Sejas rápido — Aldebaran disse, mostrando-se entediado com o exibicionismo de Cassius.
— Serei o mais rápido possível — Ikki sorriu de lado, caminhando para o centro da arena.
Arenas... Isso sempre lhe trazia recordações sombrias...
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Não foi tão difícil recrutar guerreiros desterrados. O ódio une mais que a ambição e assim que souberam que havia um guerreiro disposto a exterminar os tamudaeis, muitos homens foram se unir a ele no vale.
Após as montanhas rochosas, Ikki e seu grupo fizeram uma gigantesca arena de treinamento. Homens entre 12 e 30 anos começaram a chegar para se juntar a ele e o treinamento tivera início.
Nos primeiros dias, era só ele e um grupo pequeno e destreinado, mas gradativamente, o número de homens fora crescendo, chegando a pouco mais de 80 homens no amanhecer do centésimo dia. Era difícil para Ikki comandar o treinamento de todos, por isso ele designou alguns, entre os mais hábeis, para ajudá-lo.
— Precisando de ajuda? — algum tempo depois, ele ouviu essas palavras. Estava há várias luas naquele vale, praticamente sozinho e sem nenhuma ajuda da Saubeia. Ele ensinara o povo a caçar no deserto e a se abrigarem do sol e das tempestades de areia. Aos 16 anos, Ikki Horuk Kadar tornou-se o líder do Vale dos desterrados e era seguido por aqueles que odiavam seu povo, assim como ele.
Durante aqueles 100 dias, apenas um homem foi seu verdadeiro amigo: Zahid, o beduíno, o homem expulso do convívio dos seus, um pária como ele. Era à noite, na cabana de Zahid, que Ikki derramava seu cansaço e sua dor. Era com ele que contava mudamente as estrelas. Não falava de nada sobre seu passado, e nem sobre o de Zahid. Contemplavam o céu em silêncio e paciência e contava os dias; Ikki, os dias longe de Shaka; Zahid, os dias que faltavam para se unir à sua esposa amada e infiel.
— Ela me pediu perdão — Zahid murmurara numa noite fria em que as estrelas pareciam mais distantes. — Ela disse que me amava e que me esperaria. Eu confio nela.
Ikki deixou-se tombar num respeitoso silêncio naquela noite. Não sabia se Zahid desconfiava de que Hasgard havia lhe contado sua história, e também não quis perguntar. Ambos precisavam de silêncio. Depois, o beduíno foi fazer chá e conversar sobre coisas banais enquanto eles jantavam vegetais com carne de cordeiro. Zahid, o beduíno desterrado, era sua única companhia. Então por que agora ouvia aquela voz ali?
— Filho do Emir da Saubeia — ele cumprimentou o robusto jovem loiro, enxugando o suor da testa, enquanto retirava a proteção de tecido do rosto. — A que devo a visita?
— Não é uma visita. Vim ajudar — Aldebaran disse, girando seu machado. — Neste ritmo estarás velho quando conseguires guerreiros para destruir os tamudaeis. Precisas de ajuda e quero ajudar.
— Por quê?
— Precisa?
— Para tudo.
—Talvez eu apenas odeie os tamudaeis tanto quanto tu odeias.
Ikki mirou o rapaz por um tempo e depois assentiu com a cabeça.
— Tua ajuda é bem-vinda, mas precisamos de mais. No mínimo mais dois guerreiros que nos ajudem. Preciso ver umas pessoas.
— Conheces pessoas fora do teu clã?
— Não. Mas conheço dois bons guerreiros tamudaeis que também não gostam muito do clã ao qual pertencem.
— E aonde os encontrarás? Não pensas em voltar a Karna, pensas?
— Sei onde posso encontrá-los, e irei esta noite.
— Certo. Irei contigo.
Ikki o encarou novamente. — Por quê?
— Porque estou bem interessado em destruir Karna.
O jovem tamudaei não fez mais perguntas. Voltou ao treinamento dos homens. Ainda havia muito a fazer, inclusive conseguir armas e convencer aqueles homens de que eles tinham uma chance.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
As velas e archotes clareavam todas as casas do Egito e iluminavam com vigor o templo. Rezavam para que o corpo do faraó fosse encontrado e ele tivesse a honra da mumificação. Era preciso entregar o morto ao tribunal de Anúbis, caso isso não acontecesse, a alma humana se tornaria um espírito errante, e tal desonra não poderia acontecer a um deus. Por isso as buscas continuariam. Porquanto, e se o corpo não fosse encontrado, a alma, Rá, não voltaria ao corpo, Ká.
Geralmente, a morte de um Faraó era um evento repleto de cânticos e festas. O povo cantava o percurso do deus na Terra pelo mundo dos mortos. Mas a falta de um corpo era uma tragédia imensa e por isso o Egito silenciava-se.
Aproveitando-se da comoção, Shaka cobriu-se em um manto negro e carregando uma vela, atravessou os corredores escuros do castelo, descendo para as alas subterrâneas, onde deveria encontrar o seu aliado.
Hades estava de frente a uma grande pedra, onde havia vários símbolos. Era uma oração ou um feitiço, Shaka sabia ler as letras dos egípcios, mas não comentou. O governador também estava coberto por um manto negro, que deixava seu rosto pálido resplandecer sobre as luzes dos archotes, e quando o percebeu, seus profundos e frios olhos verdes miraram o dançarino.
— Diga-me...
— Fiz o que me aconselhaste. Abandonei-o. Deixei-o frágil e sozinho... — Shaka falou com frieza. — Tens a oportunidade que querias. Mu nunca esteve tão vulnerável. A chance perfeita para uma ave de rapina como tu és comer-lhe as vísceras... — as últimas palavras foram ditas quase entre dentes, o que fez Hades sorrir levemente e aproximar-se dele, segurando-lhe o queixo entre o polegar e o indicador com certa violência.
— Vejo algum desagrado... — inspecionou os olhos azuis do dançarino com atenção.
— Nenhum. — Shaka o encarou. — Por que me chamaste aqui? Justo aqui?
Hades afastou-se dele, mirando o local.
— Não sabia que tinhas medo de alcovas escuras, Shaka. Já que andaste pelos lugares mais exóticos da terra... De Najah à Arábia, da Arábia à Babilônia e finalmente ao Egito... Deves conhecer muitos locais escuros, como a fortaleza de Karna... Quantos anos passaste lá?
— Como sabes tantos detalhes da minha vida? — Shaka franziu a testa, tentando entender o que aquele homem queria. Já estava fazendo o que ele pediu, o que mais ele queria?
— Sou o governador, Shaka, mas também sou um sacerdote e necromante, sei de tudo. Sei que não te sentes feliz com nossa aliança. Posso garantir, contudo, que serás feliz quando tudo sair do jeito que quero. Cumprirei tudo, contanto que cumpras com a tua parte.
— Estou cumprindo. Estou aqui, não estou? — Shaka falou, erguendo o queixo e sorrindo de leve. — Mu está em seu dormitório, triste e sozinho. É tua chance, governador.
O loiro voltou a vestir o capuz e deu as costas, deixando aquela galeria. Hades sorriu. Não confiava em Shaka, mas admitia que nada conseguiria sem ele. O persa era uma arma valiosa que usaria nos momentos oportunos.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Ikki ouviu o barulho estridente dos pratos sendo batidos. A arena ficou em silêncio.
Um. Dois. Três.
Precisaria de três simples etapas para derrubar aquele grandalhão. Qualquer guerreiro minimamente hábil conseguiria derrubar alguém tão lento e furioso.
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Furioso. Fora Zahid quem o chamara assim e quem o ensinara a controlar sua raiva, toda a fúria e ódio que tinha dentro de si. Respirar, usar os sentidos com mais atenção, tentar captar as alterações emocionais das pessoas. Ikki já era um guerreiro excepcional, depois dos ensinamentos de Zahid, tornou-se quase invencível. Tornou-se um homem. Até ali, era um garoto apaixonado e desesperado, mas para alcançar Shaka precisaria se tornar um homem. E durante meses ele treinou um exército no Vale dos desterrados, e durante meses ele espionou Karna e sua rotina, e durante meses ele treinou seu espírito com o velho beduíno do deserto.
E finalmente ficou pronto. E ele conquistou um exército. Mas precisava de generais. Um homem precisa de aliados em grandes empresas.
Certa noite em que a lua clareava todo o deserto, ele resolveu sair para fazer uma visita a uma velha amiga. Aldebaran, com quem ele já havia adquirido laços de lealdade, fora com ele. E eles chegaram à cidade perdida na areia.
Violet recebera-os com grande espanto, e os levara para suas acomodações na torre do bordel.
— Ágora me falou que estavas morto! — ela disse. — Eu avisei, eu avisei! O pequeno? Onde ele...
— Eu não sei — Ikki adiantou-se, pois não estava ali para falar de Shaka. Até porque falar de Shaka o angustiava tanto que ele acabava não conseguindo pensar com clareza. — Preciso de tua ajuda, Violet.
A mulher o mirou, surpresa.
— Por que precisas da ajuda de uma meretriz? — ela riu.
— Preciso da ajuda de uma guerreira.
— Já não sou guerreira há muito tempo, criança.
— Podes o ser novamente. Estou formando um exército. Um exército com o intuito de destruir Karna.
A mulher riu, nervosa. A palavra Karna sempre a deixava apreensiva. Vivera toda a vida com medo de Omã encontrá-la. Não queria pensar em Karna, tinha uma vida boa ali, há anos já não precisava servir nenhum homem, tinha uma boa vida agora, dinheiro. Não se arriscaria por aqueles insensatos.
— Eu desejo apenas distância de Karna, Horuk — ela replicou. — O que aquele homem me fez...
— Não desejas vingança? Eu desejo! Desejo vingar-me e a Shaka!
— Eu desejo viver fora dos olhos de Omã!
— E até quando achas que poderás fugir dele? Omã está saqueando toda a Arábia. Não demora que a encontre.
Violet estremeceu. Por toda a sua vida, ela temeu que Omã a descobrisse e descobrisse que Zahira e Ágora a ajudara a fugir do castigo de morrer no deserto. Já fazia 10 anos, mas ele a reconheceria com certeza.
— O que desejas de mim, Horuk? — a bela morena se voltou para ele, os olhos escuros flamejando.
— Que voltes a ser uma guerreira e que me ajudes a liderar um exército contra Karna.
A mulher arregalou os olhos. — Uma missão suicida?
— Não — Ikki sorriu. — Ninguém conhece aquelas terras melhor que eu, e estar morto é uma grande vantagem. Vamos dizimar aquele clã de bastardos.
— E depois?
— Queimaremos até a última casa. Karna sumirá do mapa. Para sempre.
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O segundo prato soou alto, os guerreiros começaram a girar, estudando-se e o barulho do público finalmente foi ouvido. A torcida por Cassius, o grande campeão, era animada, e ele aproveitava para exibir-se, girando o machado, arma escolhida, em poses e golpes que evidenciavam os músculos excessivos que inchavam sob a pele escura.
Ikki observou os movimentos e esquivou-se com simplicidade do primeiro golpe, do segundo também. Era tão previsível, tão pesado. Imaginou que se aquele gigante desengonçado fosse o maior guerreiro de Hamurabi, o rei não devia ter o melhor dos exércitos.
O grandalhão segurou o machado com as duas mãos e golpeou com toda a força, fazendo a areia do solo se levantar, o que o cegou por alguns instantes, dando vantagem a Ikki, que saltou, caindo ao lado e cortando a perna oposta, a de apoio, de Cassius com a espada curva.
O sangue esguichou; o guerreiro urrou desesperado e precipitou-se, mancando, com toda sua fúria. Outro erro. Ele girou o machado, Ikki esquivou-se, abaixando-se, e cortou-lhe o tendão da outra perna, da mesma forma que havia lhe feito na panturrilha.
O gigante tombou, o sangue ensopou a areia, enquanto o árabe caminhava tranquilamente em direção aos companheiros.
— Impressionante! — Aldebaran exclamou, batendo palmas. — Mas por que demoraste tanto?
Ikki riu. —Precisei de cautela para cortar nos lugares certo. Ele viverá, não sei se caminhará sem mancar, mas... — o tamudaei deu de ombro, mostrando não se importar, e depois se voltou para o camarote do rei, olhando-o nos olhos e sorrindo de canto, provocador, ao mesmo tempo que fazia uma reverência, curvando-se levemente.
Máscara da Morte o encarou, sério, e depois viu o meio sorriso nervoso nos lábios de Afrodite. Engoliu a raiva e aplaudiu o mercenário, fazendo a plateia, até então em suspenso, fazer o mesmo.
— Congratulações ao estrangeiro! — falou o rei, quando o silêncio voltou a reinar. — Temos então o nosso Estranho! Que comece o ritual.
Ikki imediatamente encarou Afrodite, que crispava os lábios em uma expressão de derrota. O sacerdote deixou o lado do rei e depois de alguns minutos se acercava do forasteiro.
— Precisas acompanhar-me.
O moreno franziu o cenho, estranhando aquilo. Asmita posicionou-se ao lado dele, pondo a mão em seu ombro.
— Eu conheço tal rito bárbaro e sem propósito — ele disse, contrariado.
— Em que consiste? — Ikki indagou, olhando do cego para o loiro que enxergava, o coração apertando-se, aflito.
— Um rito de sexo e sangue.
A cor pareceu fugir do rosto do jovem tamudaei. — Sexo e sangue? O que devo fazer?
— A passagem do estranho consiste em atravessar o labirinto do templo até a estatua de Ishtar, refazendo seu caminho no submundo em busca de Tammuz. Tu serás Tammuz, o estranho que cairá aos pés da deusa, depois de deixar o labirinto. No percurso, terás que fazer uma oferenda de sangue e possuir os vasos sagrados.
— Vasos sagrados?
— Assinus e assinutus escolhidos.
Se Ikki estava pálido, agora ficara verde. Ele sentia seu estômago se revirar a ponto de precisar apoiar-se no braço forte de Aldebaran.
— Não, não... Não posso... — murmurou, encarando o sacerdote com olhos suplicantes.
O gigante o segurou pelo braço. — Irei no lugar dele — disse a Afrodite, mas o sacerdote negou com a cabeça.
— Hamurabi nunca permitiria. Por favor, Ikki, venha comigo.
— Eu não posso — o guerreiro murmurou, angustiado. — Fiz uma promessa. Não posso...
— Promessa?
— De viver em abstinência até que encontre Shaka — foi Asmita quem explicou, e o moreno o mirou, surpreso. — Sim, eu deduzi, dado o teu comportamento.
Afrodite encarou os olhos do jovem árabe. — Bem, neste momento, não é como se houvesse escolha. Se te recusares, Hamurabi não o deixará sair vivo da Babilônia. Tens que pensar que fazes isto por ele.
Ikki riu, um riso sem desespero, sarcástico e resignado.
— Dei-me uma garrafa do teu licor mais forte e mostre-me onde fica o tal labirinto. — pediu, conformado.
— Não precisarás de licor. Depois que experimentares a pedra de Tammuz, tudo não passará de um sonho, um luxurioso e sombrio sonho.
“Rompi tratados e Trai os ritos”
“Quebrei a lança e lancei no espaço”
“Um grito, um desabafo”
“E o que me importa é não está vencido...”

A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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