A serpente e a estrela
27 O homem e a luta
Notas iniciais
"Quando tudo isso acabar, nós iremos à Terra Santa, cantaremos nossas músicas de amor e solidariedade, olharemos as estrelas através das folhas das oliveiras, sentiremos o cheiro da madeira queimando das fogueiras de nossos anfitriões, estimaremos essa lendária hospitalidade. Mas, até que isso termine, até que todos os povos sejam livres, nós vamos fincar nosso emblema na areia, há uma linha que não cruzaremos, nós não vamos entreter as cortes do rei tirano."
Roger Waters
O homem e a luta
Capítulo 26
Quinze dias de luto e então o ritual de ascensão do novo faraó. Todo o castelo era escuridão e silêncio. Todo o Egito era escuridão e silêncio.
Hades e Pandora mudaram-se para o grande palácio, assim como outros membros da família. Havia uma aflição pela ausência dos corpos, que Hades tratava de resolver. Precisaria apresentar os corpos, e se até o entardecer do dia seguinte os verdadeiros cadáveres não fossem encontrados, ele daria um jeito de por outros no lugar. Não queria um povo comovido pela alma vagante do faraó. Contudo, naquele momento, era o príncipe, o futuro soberano, assim pensavam todos, quem precisava de cuidados; por isso ele e a esposa estavam ali.
Pandora foi quem primeiro resolveu visitar Mu, mas o encontrou acompanhado. Defteros conversava com o sobrinho no jardim quando ela chegou. A mulher pensou em retirar-se em silêncio, mas o irmão a viu, obrigando-a, com grosseiro sarcasmo, a ficar:
— Não te preocupes, Mu. Creio que o corpo do teu pai já apareceu, os abutres denunciam o cadáver.
Pandora suspirou ante essas palavras e reprovou-o com um movimento de cabeça.
— Não cansa de ser grosseiro, meu irmão? Nem mesmo num momento como este? — ela indagou e sentou-se ao lado do jovem príncipe, segurando uma de suas mãos. — Mu, adorado, estou aqui para ajudá-lo e orientá-lo no que for preciso. Tenhas em mim uma amiga.
— Obrigado, Pandora. Estou bem. — Mu disse e direcionou os olhos a Defteros novamente. — Aiolia...
— Aiolia acabou de unir-se em matrimônio, Mu. Não esperes por ele — Defteros replicou com certo constrangimento. Sabia que aquilo era difícil para o sobrinho que tanto amava. Entretanto, não poderia mentir-lhe.
— Posso persuadi-lo a vir — Pandora interferiu.
— Não preciso disso, Pandora. Obrigado. Preciso descansar um pouco agora. Amanhã será um longo dia — o garoto ergueu-se, convidando os tios a saírem.
Quando Mu adentrou sua alcova, Defteros segurou a meia-irmã pelo braço, forçando-a a encará-lo.
— O que tramas agora, víbora?
— Eu? Ai de mim! Não posso preocupar-me com meu sobrinho que acaba de perder o pai e enfrenta seu maior martírio? Perde o pai, perde o amor de sua vida, assume um trono para o qual não tem a menor vocação. Nunca fui insensível como o restante da família, estimado irmão! — ela cuspiu, indignada.
— Se acaso preparas alguma armadilha para Mu...
— Preocupa-te com meu esposo e não comigo, Defteros! E estás a machucar-me! Solte-me!
— Eu a esmagaria por bem menos, Pandora... — ameaçou entredentes.
— Esmagarias um filho de Aspros também? — os olhos violáceos desafiaram o olhar de Defteros, que franziu a testa confuso.
— Que dizes?
Pandora levou a mão ao ventre, numa carícia.
— Estou grávida. De um filho de Aspros. Uma criança com sangue real. Este, sim, futuro faraó.
— Mentes...
— Verás. — Pandora sorriu. — E apenas tu saberás que esta prole não é de Hades. Apenas tu e Aspros. Mais um segredo para que os gêmeos renegados compartilhem. Algo mais que o amor da irmã. — Pandora inclinou-se e beijou os lábios de Defteros, antes de deixar o jardim de Mu.
Defteros sentiu-se perturbado com aquela informação. Era como se sempre fosse enredado pelos seus. Seduzido, subjugado. Pandora, Aspros, a mãe e até Saga e Kanon. Ele era sempre o elo mais fraco. Sempre o que devia servir, cuidar. Sempre um subalterno. Nájila tinha razão: Aspros nascera para liderar, para ganhar o mundo. Ali, ele sempre seria uma sombra. A sombra dos seus irmãos. A criatura nas sombras; aquele que em nada transformaria os destinos.
Sentiu-se minúsculo mais uma vez, perto da grandeza dos seus consanguíneos. Não nascera para aquilo: para os jogos de poder, as maquinações, a infâmia e a perfídia. Se isso era o ser nobre, não era realmente para ele. Não era para Mu. Eles destoavam de todo aquele espetáculo grotesco de ambição e morte. Precisava salvar Mu e precisava salvar-se daquele lodo, daquele lodo mais escuro que Kemet. Mas como se foge da ordem do mundo? Dos desígnios dos deuses? Teria que descobrir. Descobriria e quando isso acontecesse, finalmente seria livre.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Kanon tinha um lugar de honra ao lado de Hamurabi na grande arena, mas não era onde ele estava. Algo o perturbava profundamente, e o príncipe não conseguia se interessar pelo grotesco espetáculo de morte na arena. Ele bebia, bebia tudo que conseguia segurar, embriagando-se para fugir de qualquer possibilidade de pensamento. Precisava voltar para o Egito. Era um chamado. Um chamado que parecia fazer sua pele vibrar. Saga estava em perigo, sentia. Sentia aquela antiga dor no peito que o sufocava quando algo acontecia ao irmão. Foi assim durante a grande febre da infância, foi assim durante a caçada ao leão, quando o faraó quase fora devorado, e era assim agora. Todavia, só poderia deixar a Babilônia quando assim o quisesse Hamurabi, e o rei sabia ser caprichoso. Logo, não sabia quando deixaria aquele lugar.
Virou mais uma taça nos lábios. O licor era doce e entorpecia. Pegou outra, mas quando viraria novamente, uma mão segurou-lhe o braço e tomou-lhe a bebida.
— Comporta-te, alteza — Radamanthys vociferou. — A noite mal começou...
— Hum... Finalmente disposto a ser minha ama, general? — Kanon o interrompeu, puxando o braço e terminando de sorver da taça. — Não te preocupes, sei me comportar. Não farei um escândalo, prometo.
Radamanthys resmungou algo que foi incompreensível a Kanon e mesmo que fosse, naquela noite, o príncipe não mostrava-se muito disposto a tentar uma aproximação do general mal-humorado. Estava preocupado com o Egito e preferia beber para esquecer a estranha sensação em seu peito. Radamanthys só lhe causava sentimentos mais esquisitos, melhor ficar longe dele.
— Kanon...
— E de repente eu ganho um nome! — Kanon zombou da tentativa de aproximação do homem loiro.
Radamanthys soltou um muxoxo e o pegou novamente pelo braço.
— Não deixarei que envergonhes o Egito, mostrando-te ébrio a essa gente obscena...
— Cala-te, Radamanthys! Nada é mais obsceno do que o que acontece no grande palácio do Egito! — Kanon riu, encarando os olhos dourados do general. — Aqui ao menos as coisas são feitas à luz do dia, sem disfarces, sem dissimulações...
— Do que falas? — o general o encarou, surpreso.
— Do doce presente do Oriente, do sacerdote de Háthor, da ânfora sagrada cujo corpo é profanado pelo faraó, todas as noites! — riu.
O homem loiro franziu as espessas sobrancelhas, mostrando-se confuso. Vira o sacerdote de Háthor uma vez, uma única vez. O garoto sagrado que trouxera a chuva e deveria viver confinado no templo ao lado do grande palácio. O garoto que não deveria ser tocado ou sequer encarado. A ânfora sagrada, o presente do Oriente. Aquele que só deveria responder aos deuses e ao deus na terra.
— Kanon...
— Inocente — Kanon riu. — Todos sabem que meu irmão encontrou um pretexto para render-se às suas verdadeiras inclinações. Shaka nunca foi sacerdote, é um cortesão, um dançarino da corte, um prostituto, sagrado que seja, como o são estes que aqui estão. Todos sabem, menos os adoradores ignorantes do meu irmão. Ele nunca foi sagrado, ele só serve ao pau do faraó! — uma nova gargalhada jocosa irrompeu dos lábios do príncipe sob o olhar surpreso do mestiço.
Não era surpreendente para o general. O que o surpreendia era ouvir aquelas palavras ressentidas dos lábios do príncipe. Sacerdotes não precisavam ser castos ou santos, precisavam apenas ser escolhidos pelos deuses, embora não esperasse que o faraó fosse desrespeitoso suficiente para dar um alto título a um escravo-amante.
— O que te incomodas, alteza? A vileza do nosso soberano ou o fato de ele poder ter o persa, coisa que não podes?
— As duas coisas — Kanon suspirou. — Saga um dia foi bom, puro e justo. Hoje, ele escraviza um menino e nem percebe que...
— Não percebe...?
— Shaka o odeia. Odeia-me também. Odeia tudo que é o Egito.
— E tu o amas. — Radamanthys concluiu, pensativo.
— Amor ou fascínio, não sei. Mas gostaria de tê-lo. Eu seria melhor para ele que Saga.
— Esqueças tal coisa. Paras de beber. Escolhas um dos garotos do templo, pagues e possua-o. Tenhas a certeza de que estarás te igualando ao teu irmão.
— Como?
— Não amas o garoto persa. Amas a possibilidade de ter algo que sempre te foi negado. Amas a possibilidade de ter algo que é de teu irmão. Um conselho amigo, alteza: livre-te desta inveja ou ela o envenenará tanto quanto os licores entorpecentes da Mesopotâmia.
Radamanthys não deixou que o príncipe retorquisse, afastou-se. Tinha coisas importantes a pensar. A volta ao Egito era uma delas. Kanon que se danasse com sua autopiedade ridícula.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Shaka ensaiava a dança ritual que deveria dançar nos ritos de coroação de Mu. Não era nada sensual, dança religiosa, e não levaria muito do seu tempo. Era estranho dançar algo assim. Aprendera a dançar, primeiro forçadamente para disfarçar seu sexo, depois para encantar quem amava, e em seguida para manter-se vivo. A Babilônia só aperfeiçoou seu talento. Afrodite fora um grande mestre, tão bom que acabou por fazê-lo sofrer uma das maiores dores de sua vida. Não o culpava, não foi a intenção dele, contudo, e de toda forma, o grande sacerdote de Ishtar o usou, motivado por ciúmes, egoísmo e vaidade...
Ele estava novamente na Babilônia e dançava. Seu corpo imberbe movia-se ao som de uma flauta cadenciada, que emitia uma canção sensual, sensual como a coreografia que fazia. Pernas juntas, mãos dobradas para os lados, ele agachava-se completamente, movendo apenas o quadril e a barriga, quadril para os lados e barriga contorcendo-se para frente e para trás. Depois vinha o bailado, ele rodava, seus cabelos dourados pareciam uma chuva de ouro, despenteavam-se, caíam sobre o rosto, sobre o torso nu e gracioso, os pés se moviam para o lado, o quadril se agitava, um lado, outro lado, os ombros mexiam, o corpo ia para frente e para trás. A banda parava. A coreografia estava pronta.
— Por que pararam? — Afrodite indagou rindo, vendo o rosto embasbacado dos músicos. Shaka conseguia desconcentrá-los com sua dança. Às vezes, eles simplesmente não conseguiam seguir os movimentos do garoto persa. — Ensaiem mais. Quero essa peça pronta para a próxima semana. Shaka, você está ótimo! Seguiu tudo que aconselhei, muito bem.
O garoto assentiu com a cabeça, satisfeito por receber um dos raros elogios do sumo sacerdote.
— O que há na próxima semana, mestre? — Misty perguntou, aproximando-se com outros companheiros do templo.
— Mais um grande jantar do soberano, dessa vez em homenagem ao rei do Egito. Foi uma trégua difícil e agora como aliados, Hamurabi deseja que Hórus conheça nosso império, impressione-se e delicie-se com tudo que temos.
— E é Shaka quem dançará para o rei? Novamente, ele? — Misty indagou enciumado. — Não deveria ser eu? Sou o que mais traz riquezas para o império, Shaka nada faz! Não trabalha! Até quando irás protegê-lo?!
A resposta de Afrodite foi um tapa tão forte que deixou o rosto do rapaz vermelho.
— Minha mão só não se fechou, pois como tu mesmo disseste, ainda trazes lucro para o templo. Mas da próxima vez que me desafiar ou questionar qualquer decisão minha...
— Perdão, mestre — Misty disse, os olhos cheio de lágrimas, o rosto vermelho, sentindo gosto de sangue e todo ódio do mundo dentro de si.— Só pensei que... Bem, eu gostaria de dançar para o rei, quem sabe ele não se encante comigo e...
— Sei bem o que desejas, Misty. Desejas a cama de um homem poderoso. Creio que todos os assinus e assinutus daqui desejam isso...
— Eu não.
— Cala-te, Shaka — Afrodite revirou os olhos. — Já fui como são. Sei que não é uma vida fácil ter que se deitar com todos que possam pagar, mesmo sendo em sua maioria homens importantes. Mas devem ter fé. Fazem isso pela deusa, pela honra de Ishtar. Sabem que poderia ser pior.
— Só não entendo por que Shaka. Um garoto que deve ser virgem! — Marila, uma assinutu muito amiga de Misty, indagou despeitada. — Ele nem sabe... — ela riu, mirando o loiro por um tempo. — Creio que nem saiba usar a boca para satisfazer um homem, como agradará a um rei?
— É apenas uma dança — Afrodite sorriu furtivo. — Gosto de como Shaka dança. Ele dança por inteiro. Quando aprenderem a dançar assim terão a chance de vocês. Agora todos ensaiando!
Afrodite deu um comando para os músicos e todos voltaram para as suas atividades. Entretanto, Misty não tirava os olhos de Shaka. Estava com raiva e ela não demoraria a se tornar ódio. Aquele garoto mal havia chegado e já estava cheio de regalias. Misty entendia bem o motivo: ele era o queridinho do Mordomo-mor de Hamurabi e por isso Afrodite tinha uma consideração especial por ele. Aquilo teria que mudar se ele quisesse ser o assinu na cama do rei do Egito. Misty era esperto e bem relacionado. Sabia que o soberano pretendia dar um valioso presente ao rei do Egito. O que ele quisesse. O assinu desejava ardentemente ser o presente que Hórus levaria de volta ao Egito. Riqueza, conforto, a cama de um dos homens mais poderosos do mundo. Na Babilônia, não teria chance: a cama de Hamurabi pertencia ao homem mais belo do mundo. Mas no Egito... Precisava tirar Shaka do caminho. Precisava dar um jeito para que ele nunca mais dançasse na vida.
Quando os ensaios terminaram, todos os assinus foram se banhar na fonte atrás do templo. Shaka enxugava os cabelos, quando Misty aproximou-se dele.
— Queres mesmo ser amante do faraó?
— Amante? — o adolescente o encarou. — Só dançarei... Afrodite disse...
— Afrodite mente. Ele o quer longe daqui e não és o primeiro. Ele se livra de todos para quem o rei direciona o olhar.
— Eu não posso sair daqui — Shaka o mirou, desesperado. — Deixei aqui minha última pérola. Se for embora, Ikki não me encontrará!
— Ikki? Ah, sim, o tal árabe que amas — Misty revirou os olhos, o garoto já havia contado aquela história milhares de vezes desde que chegara ali. — Deves resistir então. Recusa-te a dançar para o faraó ou é isso o que acontecerá.
— Não posso. O senhor Krishna disse que devo obedecer ao sumo sacerdote. Fazer tudo que ele pedir, se eu quiser sair daqui.
— Sair daqui? — Misty franziu a testa.
— Sim. Ele irá me pedir ao soberano... Ele é um homem poderoso.
— Então serão amantes? — o assinu sorriu, aliviado com aquela possibilidade, mesmo que a achasse remota.
Shaka riu. — Não! Ele é como um pai para mim. Ele me ama como a um filho.
— Acreditas mesmo nisso? — Misty o encarou, perturbado e enciumado. Amor de pai, que piada! Aquilo não existia para seres como eles, mera carne exposta. Aquele menino era ridículo se acreditasse naquilo.
— Sim. Ele me disse.— Shaka declarou, confiante.
— Ele irá levaste para a casa dele e fodê-lo tantas vezes que tu não resistirás à primeira semana, parvo! — vociferou irritado o assinu. — Quem pensas que és? Tu és um escravo! Ninguém se importa contigo! O mordomo-mor, o guardião dos tesouros do rei, não se importa contigo! Não és ninguém, aceites tal fato!
— Eu sou um príncipe — Shaka disse com um sorriso fraco, quase triste. Sua confiança sendo temporariamente abalada — Nunca esquecerei que sou um príncipe.
— A arrogância será o teu fim! Estúpido!
Misty cuspiu e partiu irritado, perturbado, triste, deixando Shaka sozinho. O garoto se trocou e, como geralmente acontecia, esperou por Krishna nas escadarias do templo. Tentava não pensar e nem acreditar nas palavras do jovem assinu. O alto-funcionário sempre o levava para passear ao pôr do sol, com a autorização de Afrodite. Os dois formavam um contraste interessante: Krishna alto, corpulento e preto, Shaka pequeno, magro e branco. Mas o afeto que um sentia pelo outro aniquilava qualquer diferença.
— E então ele disse que se eu dançar, me tornarei amante do faraó. Não quero ser amante de ninguém, senhor Krishna. Não posso dançar. Shaka contava ao amigo sua conversa com Misty.
— Shaka... As coisas não são assim. Se Afrodite manda, você faz.
Shaka calou-se, os lábios tremiam de nervoso ao pensar em ter outro homem tocando-o. Sabia que os companheiros de templo reclamavam por ele já estar há certo tempo na casa e ainda não se prestar aos serviços. Mas ele tinha medo. Afrodite sabia que ele tinha medo dos outros homens. De todos eles, menos de Krishna e dos companheiros de templo. A experiência com o rei ainda deixava-o apavorado. Shaka tinha pavor de ser tocado novamente por quem quer que fosse. Era uma criança traumatizada.
— Então... Devo me deitar com o faraó se assim ele quiser? — a pergunta foi um murmúrio condoído.
— Shaka, já disse que conversarei com o rei.
— Não creio que ele te ouça.
— Ouvirá. Não posso enfrentar Afrodite. Contudo, posso pedir que após dançares pare o faraó, deixes o templo e venha morar comigo. Posso pedi-lo como um presente para o rei ou mesmo comprá-lo, já disse. — O homem riu — Deves ser muito caro, mas tenho bastante dinheiro guardado. Quando eu me for, ele será teu.
— Não quero dinheiro.
— Penses que precisarás de dinheiro se quiseres voltar à Arábia e encontrar tua Serpente.
Shaka suspirou. — Presente. Presenteia-se com pessoas?
— Gente poderosa sim, pequeno, infelizmente.
— Será que ele concederia? Sou um belo presente, não sou? — riu baixinho, vaidoso.
— Posso tentar, mas não desafie Afrodite. Faça o que ele mandar, sempre, certo?
— Tentarei. E quem é esse homem, o faraó Hórus? Tu o conheces?
— Sim. Ele já esteve aqui quando muito jovem. Selou a paz com nosso soberano há alguns anos e sempre nos visita uma vez ao ano, ou visitamos o Egito.
— Creio que esse jantar será péssimo. Espero que não seja pior que o último.
— Eu estarei contigo — Krishna sorriu, pousando a grande mão no ombro do garoto e seguindo com ele.
De um dos quartos do templos, Misty os observava com todo o amargor do seu coração.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
Ikki vestiu-se com os trajes rituais. Eram estranhos para ele, um saiote branco, sandálias douradas, um imenso colar de ouro no pescoço e o rosto pintado com tinta negra, mas não a serpente tão conhecida e sim símbolos místicos ligados à Ishtar. Ele sentia-se cada vez mais derrotado diante da possibilidade de macular seu corpo e juramento, mas faria aquilo porque tinha um propósito e tal propósito era maior que sua honra, era maior que qualquer coisa. Ele prosseguiria.
Cobriu-se com a capa vermelha que Afrodite lhe entregava com um olhar interrogatório e contrito. O jovem mercenário deixou que sua mente voasse para outro momento solene do passado.
Havia muito tempo desde que ele deixara Karna e se juntara aos desterrados. Fazia muito tempo desde que ele começara a atravessar a Arábia em busca de pistas sobre o paradeiro de Shaka. Havia muito tempo desde que se prometera a vingança contra aqueles que o levaram para longe. Agora finalmente era tempo de vingança.
Ikki Horuk Kadar tinha um exército de 200 homens. Muito menor que o efetivo de Karna, porém muito mais motivado e treinado. Era o momento de abandonar a vila improvisada no Vale dos desterrados e partir para exterminar aquele povo maldito, seu povo.
Seus feitos já eram notório: ele conseguira tornar aquele lugar, que fora um depósito decrépito de gente, em um vilarejo. As pessoas aprenderam a cooperar, abrigos seguros foram construídos e sementes foram semeadas por aqueles que entendiam um pouco mais de agricultura.
Organização. Era apenas disso que aquele povo precisava. De um líder. Um líder que Hasgard nunca esteve disposto, e nem podia, ser. Contudo, ele sabia que Ikki, um guerreiro nato, general de um dos mais eficientes exércitos da Terra, conseguiria. O primeiro passo fora dado, o segundo seria a queda de Karna, e então Ikki estaria livre para continuar a busca por sua estrela.
— Espero que tua sede por vingança não acabe destruindo tudo que fizeste por esse povo — Violet disse, depois de por o capacete e mirar seu general.
Ikki retribuiu o olhar firme da mulher.
— Deveria ser nossa sede de vingança, Violet. Esquece-te o que eles fizeram ao teu noivo?
— Tenho certeza que Aiacos preferiria que eu estivesse longe daquele lugar.
— Se pensa assim, por que se aliou a mim?
— Por Ágora. Por todos aqueles que são oprimidos pelas leis impiedosas de Omã. Não é vingança que quero.
— Entendo. Também quero justiça — Ikki disse, enquanto pintava a serpente negra no rosto. — E quero vingança. Quero que Omã sinta o terror da forma mais profunda possível. Quero vê-lo sangrar, quero que o sangue dele escureça ainda mais o deserto de Quim'Zinq, quero que ele olhe em meus olhos e se arrependa do que fez a Shaka.
— Por Shaka, ou por ti?
— Não ouse questionar minha lealdade a ele — Ikki alterou-se, aproximando-se da mulher e encarando-a, seus olhos faiscando de ódio.
Violet franziu o cenho e empurrou o peito do jovem com o dedo.
— E não ouses falar-me neste tom ou quebrarei todos os teus dentes antes que possas abrir a boca novamente, menino — ela ameaçou. — Tenho certeza do que sentes por teu amigo, o que questiono é a tua vingança não a tua lealdade, Horuk.
Ikki afastou-se. — Não deveríamos estar brigando — lamentou.
— Não estamos — Violet sorriu. — Apenas conversamos ao modo tamudaei.
Ikki deixou escapar um meio sorriso também. Aldebaran invadiu a tenda nesse momento, e ele não estava sozinho. O tamudaei ergueu os olhos para a pessoa que o acompanhava. Vestida em couro negro, como os guerreiros, tendo os cabelos presos em tranças, Jamila segurava um machado longo de dois cortes.
— Jamila?!
— Ela vem treinando há muito tempo e me pediu para fazer parte da invasão — foi Violet quem explicou, aproximando-se da fenícia. — Se há lugar para uma mulher no exército, há lugar para duas.
— Isso é uma loucura! — Ikki protestou. — Tu és uma tamudaeia, Violet, mas Jamila...
— Sou uma mãe que lutará para reencontrar seu filho — Jamila disse, firme. — E não permitirei que nenhum homem o tire dos meus braços novamente. Nunca mais, mesmo que este homem sejas tu, Horuk!
— Não adianta tentar convencê-las, Ikki — Aldebaran disse, complacente. — Tento isso há meses.
— Então sabia e nada me disse?
— Violet ameaçou me castrar enquanto eu dormia — o loiro explicou, rindo.
Ikki aproximou-se da amiga e segurou-lhe as mãos, ajoelhando-se em sinal de respeito.
— Tu és como uma mãe para Shaka. O que lhe direi quando encontrá-lo, se deixar que algo aconteça contigo?
Jamila sorriu e apertou as mãos do rapaz.
— Dirás que, assim como ele, eu decidi lutar, mesmo que isto me leve à morte.
O rapaz mirou os olhos verdes da bela mulher e não teve alternativa senão aceitar seus termos. Era tarde demais para mudar os planos.
A tropa saiu à noite, sob o olhar consternado de Hasgard que via seu filho unigênito seguir um exército de loucos em busca de vingança. Seu pacto com Ikki chegara ao fim. A Saubeia tinha um exército como o combinado, mas o tamudaei seguia agora com os melhores guerreiros que tinha em direção à morte certa. Seu filho estava entre eles. Aldebaran era genioso demais, leal demais, inconsequente demais, para que suas palavras o persuadissem a ficar. Era jovem e há muito tempo ansiava por uma aventura a mais que ser filho de um emir. O pai conformava-se em não ter mais poder sobre o filho. Eles cresciam.
O povo do vilarejo do aterro, como alguns chamavam aquele lugar agora, saudava os viajantes, entoava orações e recomendações. Todos torciam para que eles tivessem sucesso. Poucos confiavam de verdade nisso.
O que poucos sabiam, entretanto, era que aquela empreitada já estava sendo desenvolvida há muitos dias. Vários guerreiros tamudaei foram emboscados por batedores de Ikki. Armadilhas foram criadas nas montanhas escarpadas, encostas e no próprio deserto. Alguns visitaram Karna, disfarçados, e descobriram cada fragilidade do local. E havia Ikki, que conhecia profundamente toda e qualquer vulnerabilidade daquele povo e daquela fortaleza.
E foi assim. Como serpentes noturna, a tropa adentrou a Cidade cinzenta. As sentinelas foram rapidamente rendidas e decapitadas. Eram oito ao todo, duas em cada ponto da grande muralha que isolava a fortaleza. Silenciosamente, disfarçados de simples pedintes leprosos, a primeira guarnição composta de míseros 10 homens adentrou a cidade, escalou a muralha e derrubou as sentinelas, tomando os seus lugares na vigilância da fortaleza da Serpente negra. Um lampião foi aceso e apagado duas vezes; era o sinal para que a invasão maciça começasse.
Ikki tinha consigo guerreiros bem treinados. Contudo, a nação tamudaeia era detentora dos mais letais assassinos que a Arábia conhecia. Não era de se estranhar que durante o confronto, o número de invasores fosse a cada minuto reduzido. Entretanto, o ódio e a sede de vingança guiavam os remanescentes e eles continuavam a avançar. Sem medo.
Aldebaran derrubava muitos com sua espada longa e seu machado. No entanto, o que mais havia derrubado inimigos foram as armadilhas plantadas ao longo da cordilheira que levava ao deserto. Os tamudaeis pecavam pela arrogância, acreditavam que os guerreiros que seguiam correndo para aquele local fugiam, sem saber que eram guiados na verdade para um abismo de estacas.
A primeira guarnição tamudeia foi destruída, obrigando Omã a enviar homens de dentro da fortaleza. A cidade não era um império, não tinha uma exército monumental. A grande vantagem dos tamudeus sempre foi a ferocidade e não o número. O líder via seu exército cair e tentava imaginar qual povo teria a audácia de enfrentá-los. Contudo, reconhecia que fizera muitos inimigos na Arábia e pensava que aquilo deveria ser uma força criada por várias cidades para derrubá-lo.
“Eu sou o emir de Karna, o temível Chacal! Nunca serei derrotado!”, batia no peito, enquanto vestia-se com sua armadura de couro negra e pintava a serpente no próprio rosto.
Shyna o observava assustada. — O que devo fazer, esposo? — indagou.
— Junta-te às concubinas e permaneça nos dormitórios. Eles não invadirão o castelo. Não deixarei!
O emir juntou-se ao seu exército. Era letal em combate, mas via com horror o fogo tomar sua cidade, seus homens caírem e seu povo fugir em desespero.
Já amanhecia quando a maior parte do exército de ambos os lados estava caída. Omã andava pelo campo de batalha, cortando todos que ousavam desafiá-lo. Então ele percebeu que havia uma mulher na linha inimiga, uma mulher que ele conhecia muito bem, mesmo vestida no traje negro e tendo a serpente pintada no rosto.
— Jamila! Então és tu, covarde traidora! — ele rosnou, apeando do cavalo e rodando sua saif enquanto caminhava até a mulher. — Maldita foste desde o ventre de tua mãe! Mulher vil e enganosa! Arrancarei tua cabeça como a de uma serpente!
— Vil e enganosa? — Jamila girou seu machado de cabo longo. — Cruel tirano! Eu o amaldiçoo por tuas maldades! Mas não amaldiçoarei tua semente que de mim brotou. Estou aqui para reaver meu filho!
— Filho? O inválido? Queres dizer que ele vive?! Maldita! Ousas desonrar meu sangue?! Eu a matarei!
— Eu o matarei!
A saif e o machado chocaram-se e logo iniciou-se uma macabra dança entre os dois. Jamila suportava os fortes golpes do competente guerreiro como podia. Quem os visse, entretanto, notava a evidente desvantagem da mulher. Omã era O chacal e era um tamudaei. Não teria problema em eliminar uma pobre fêmea que recentemente aprendera manejar uma arma.
Ele avançou com violência e Jamila viu-se obrigada a recuar, brandindo seu machado em uma posição de defesa que rechaçava com esforço os golpes d’O chacal. O primeiro movimento errado, o pé de Omã encontrou o peito da mulher e a arremessou ao chão. Jamila rolou pela areia vermelha, fugindo dos golpes. Arrastou-se na tentativa de fugir, não havia outra escapatória, e então sentiu o peso do coturno negro em uma de suas pernas, quase a dilacerando. A bela do Eufrates gritou e foi erguida pela longa trança que prendia seus cabelos. Omã forçou-a a voltar o rosto em sua direção, mirando-a com desprezo.
— Como ousaste pintar a serpente negra no teu rosto vil de prostituta?! — a esbofeteou, jogando-a ao chão.
Jamila limpou o sangue dos lábios e o encarou com todo o seu ódio.
— A serpente negra de Karna logo não existirá. Este desenho em meu rosto é outra serpente. É a serpente da transformação, a serpente que cortará a cabeça do seu pai e livrará os desertos do mal. A serpente que engole o chacal!
— Víbora ardilosa, como ousas?! — Omã ergueu a saif e Jamila fechou os olhos.
O golpe não aconteceu, foi substituído pelo tinir das lâminas. A fenícia abriu os olhos e viu a espada longa de Violet duelando com a saif de Omã. Eram como duas serpentes que se agrediam e lançavam veneno.
— Eu a conheço, guerreira mercenária?! — Omã indagou, encarando os olhos de Violet. Era lhe era familiar. Poderia ter sido uma de suas escravas vendidas que buscava vingança.
Violet o empurrou com o pé, puxou Jamila pelo braço, afastando-a do emir que, atordoado, deixou que ela escapasse, mas logo voltou à posição de combate.
— Perguntas se me conheces? — a guerreira riu. — Eu fui, há muito tempo, o melhor dos teu generais, antes da descoberta do meu sexo humilhar tanto teus guerreiros fracos que precisaste me exilar. Antes de o teu desejo impuro violar aquilo que pertencera apenas a um homem. O homem que amei e que tiraste de mim. Agora eu tirar-lhe-ei a vida, Omã, Emir de Karna, maldito e sujo chacal!
A batalha foi intensa. Violet era habilidosa, rápida, mortal. Omã era simplesmente o líder militar de Karna, um guerreiro quase perfeito. As espadas brandiam como se gemessem lamentando o banho de sangue. Enquanto isso, Ikki e Aldebaran derrubavam as últimas defesas da cidade. O ádito dos castigos servia agora como uma prisão para os guerreiros vencidos. As imagens do passado machucavam o guerreiro tamudaei renegado.
“Sobreviva... Sobreviva...”
Enquanto cortava com sua espada, enquanto o sangue respingava e escorria por seu rosto, enquanto ele pisoteava corpos e membros e ouvia gritos de socorro ou por piedade, Ikki pensava nessas palavras: Sobreviva! Sobreviva! Ele só conseguia ver os olhos de Shaka implorando por libertação. E avançava como um sonâmbulo em meio ao caos. Vazio. Sozinho. Inconsciente.
Violet mal teve tempo de escapar da ponta afiada da saif de Omã e uma adaga cravou-se em seu ombro. A grande guerreira retrocedeu. Sua arma estava no chão e a dor excruciante a tomava.
— Admiro a tua coragem — Omã comentou aproximando-se dela. — Para uma fêmea, és realmente um grande guerreiro. Todavia, essa palavra não foi feita para fêmeas. Deverias ter te conformado com as funções dadas a ti pelos deuses!
Violet rangeu os dentes, feroz mesmo no momento da morte.
— Tais funções não se anulam. Eu seria a guerreira perfeita e a esposa perfeita, mas tiraste tudo de mim! E morrerás por isso! — A bela mulher partiu em um golpe suicida, sacando a faca longa que tinha escondida na cintura.
Omã, entretanto, girou o corpo e segurou-lhe o braço, torcendo-o e quebrando-o com facilidade.
Violet gritou, caindo de joelhos, os olhos inundados e cegos pela dor. Sentia seus ossos rangerem e esperou a morte. Entretanto Omã a forçou a encará-lo.
— Talvez eu a deixe viva apenas para que me sirvas no harém, como escrava das minhas concubinas — ele sorriu.
— Prefiro a morte a servi-lo, porco! — ela cuspiu-lhe ao rosto.
— Realizarei teu desejo, meretriz!
— Espere!
A voz imperiosa de Ikki fez com que O chacal esquecesse temporariamente a mulher e mirasse o jovem envolto em trajes negro de guerra.
— Deverias estar enterrado sob a areia vermelha de Quim’Zinq, sangue impuro. Ele girou sua espada e empurrou Violet para longe. Então era Ikki. Sorriu, satisfeito. Mesmo impuro, apenas seu sangue era capaz de um ato grandioso e audaz como aquele.
— Encare-me como uma alma errante que aqui veio para enterrá-lo sob os escombros desta cidade.
Omã caminhou seguro em direção ao filho, à prole traidora pagaria por tudo: a raiva, a decepção, a desonra e a afronta. Era chegado o momento.
Duas espadas furiosas brandiram e chocaram-se, dois braços hábeis as manejavam de forma tão perfeita que nenhuma delas encontrava a carne adversária.
Habilidades e estilos semelhantes confidenciavam que aqueles guerreiros possuíam o mesmo sangue. O embate se tornava cada vez mais difícil. Ikki era mais ousado, mais agressivo, mas isso não vencia a tranquilidade e experiência de Omã.
O primeiro sangue que foi bebido com avidez pelas areias de Karna, foi o jovem sangue de Ikki. Um corte superficial no ombro, que fez Omã sorrir e deferir um novo golpe, recepcionado pela espada do jovem inimigo.
Omã era forte, habilidoso. Mas Ikki era igualmente forte, habilidoso e ainda mais empenhado. Ele não pararia, nem o sangue, nem o cansaço o faria parar. E enquanto sua leva de guerreiros derrotava, matava ou prendia cada homem adulto daquela cidade, ele e o emir pelejavam sob o sol.
— Não passas de um filhote rejeitado de chacal, Horuk! — Omã disse, trocando golpes de espada com o guerreiro mais jovem. — Filhotes rejeitados devem ser imolados. Não o fiz quando eras uma criança, mas o farei agora!
As lançadas de espadas tornaram-se mais fortes e perigosas, Ikki defendia-se e contra atacava com espada, pés e cotovelos. Um dos golpes do seu cotovelo atingiu o rosto de Omã que cuspiu sangue e pulou para trás, limpando os lábios.
— Isto é pouco para me derrotar, menino — ele sorriu. — Vejo tanto ódio em teus olhos... Seria pelo que fiz ao maldito djin?
— Ele não é um djin, sabes muito bem disso! Pagarás pelo que lhe fez!
— Gostaria de tê-lo estraçalhado com minhas próprias mãos. Isso me foi tirado pela meretriz fenícia, mas ela terá teu mesmo fim, assim que me livrar de ti!
A peleja entre os dois fantásticos guerreiros invadiu a noite e emitia os únicos sons na cidade silenciosa e sitiada. Talvez a habilidade, a determinação e principalmente a juventude de Ikki tenha lhe dado a vantagem que ele precisava numa luta tão longa. Talvez tenha sido uma falha, uma desatenção do emir que o levou a cair com um golpe. A espada do exilado não foi rápida o bastante para feri-lo no solo, entretanto, o giro, o pulo, ele arrastou-se e armou-se novamente, evitando o golpe que o decapitaria.
Ikki esperou que ele estivesse de pé e voltaram a menear espadas. Golpes e golpes sucediam-se sem que houvesse superioridade. As espadas e corpos giravam, golpeavam, chocavam-se. A noite avançou sem que um dos guerreiros retrocedesse.
— Preciso confessar que és o maior guerreiro que já enfrentei. Orgulho-me de tê-lo treinado, mas me envergonho do que te tornaste e por isso não te pouparei a vida.
Ikki riu, impertinente.
— Não tens a honra de chamar-me de discípulo! Foi o deserto quem me treinou. Foi o sol da Arábia quem me forjou e foi o exílio quem me transformou no que sou hoje: o guerreiro que porá fim à vida do grande emir de Karna. O homem que enterrará a grande nação tamudaei nas areis de Quim’Zinq.
O duelo não parou durante esse diálogo, ao contrário, apenas aumentava de força e intensidade, apenas ganhava fúria e determinação. Num golpe mais ousado, digno da pouca idade e inconsequência proveniente dela, Ikki surpreendeu o adversário e rasgou-lhe a couraça que cobria-lhe o peito, fazendo parte dela despencar ao solo. A surpresa de Omã foi tanta, que ele parou alguns segundos para observar a armadura ao chão. Isso foi suficiente para que Ikki executasse com destreza um segundo golpe, decepando-lhe a mão que segurava a espada.
O emir de Karna gritou de horror, mirando o membro que cuspia sangue, contudo, logo o seu grito era contra o golpe que rasgou seu abdômen e expôs seus intestinos. O senhor de Karna caiu de joelhos, o olhar feroz contra o opositor:
— Jamais o encontrará! Eu o amaldiçoou a uma vida errante em que jamais encontrará a felicidade! Eu o amaldiçoou a jamais vê-lo novamente!
— Não tens o poder de rogar maldições, perdedor. Eu irei encontrá-lo ou morrerei tentando.
— Morrerás! Ele está morto! Mort...
Omã não conseguiu prosseguir. Sua vida durou os segundos suficientes para que ele visse seu corpo sem a cabeça e depois findou-se.
Ikki pegou a cabeça do emir e a ergueu, soltando o urro da vitória tão conhecido em Karna.
Os guerreiros que ainda resistiam, e eles morreriam antes de se render, abandonaram as espadas ao reconhecer a vitória dos invasores. Os guerreiros do Vale dos desterrados comemoram. Eles triunfaram! Eles teriam uma moradia!
Era o que pensavam, mas esses não eram os planos do líder.
Ikki procurou os amigos com os olhos quando o dia já clareava e as pilhas de mortos eram queimadas. Os guerreiros tamudaeis vivos estavam presos no ádito dos castigos.
Jamila e Violet, feridas, mas de pé, apareceram trazendo Shyna pelos cabelos. A fenícia a empurrou e a mulher caiu aos pés de Ikki.
O guerreiro agachou-se para encará-la. Em seu rosto não havia sinal de nenhum sentimento.
— Diga-me onde ele está e talvez eu a deixe viver.
Shyna tremia, os olhos verdes, muito abertos e apavorados. — Eu o vendi aos maeditas... É tudo que sei. Por favor...
— Ikki... — Aldebaran aproximou-se do amigo, pondo a mão em seu ombro. — Se ele está com os maeditas...
— Temos uma pista — o jovem tamudaei respondeu rápido, pois sabia que não era isso que o amigo diria. Ele sabia quem eram os maeditas: seres repugnantes que matavam e estupravam tudo que caía em suas mãos; homens, mulheres, crianças. E depois os vendiam para prostíbulos imundos. Não queria pensar nisso, tinha que estar concentrado em encontrar Shaka, não importava como o encontrasse. Ele era o amor da sua vida. Ele o cuidaria, ele o limparia, ele o faria esquecer todos os horrores pelos quais ele passou, e Shaka seria feliz novamente porque Ikki dedicaria sua vida para isso.
Aldebaran apenas meneou a cabeça e encarou Shyna que tremia de frente ao jovem tamudaei.
— O que fará dela?
— O mesmo que faremos a todos os outros.
— Não! Não! Por favor! — a mulher desesperou-se. — Estou grávida! Tu tens um irmão em meu ventre.
Ikki se ergueu e mirou Jamila que negou com a cabeça.
— Tirem essa víbora das minhas vistas. Prendam-na com os outros e execute todos ao pôr-do-sol.
— Ikki! — Violet tropeçou até o companheiro, o braço quebrado já preso em uma tala, mas ainda muito dolorido.
O rapaz a encarou com um meio sorriso.
— Fico feliz por vê-la viva.
— Graças a ti.
— Obrigado, Violet.
A bela assentiu com a cabeça e encarou os olhos escuros do moreno.
— Preciso que me ouças. Ágora e Shiva estão entre os sobreviventes. Sei que teu desejo é extinguir a raça dos tamudaeis, mas ele é meu irmão.
Ikki ponderou as palavras da companheira de luta e assentiu com a cabeça.
— Para extinguir a raça dos tamudaeis seria necessário nosso sacrifício e não posso fazer isso agora. Ágora, Shiva, mulheres e crianças estão livres para nos seguir. Os outros devem morrer e ao amanhecer queimaremos a cidade.
— E para onde iremos com toda essa gente? — Violet arregalou os olhos com tamanha insanidade declarada.
— Para o Vale. Depois iremos para um lugar onde todos estarão salvos e prontos para recomeçar. Mas agora... Eu preciso achar uma pessoa...
Ikki afastou-se e tomou de um cavalo.
— Jamila — chamou a mulher e lhe ofereceu o braço. — Venha comigo.
A bela aceitou-lhe a mão e cingiu-lhe a cintura. Cavalgaram para um dos subúrbios de Karna, já tomado pelos guerreiros invasores.
Um grupo de moradores esperava as ordens dos conquistadores, acuados no final de uma quadra.
— O que está havendo? — indagou o líder.
— Estamos avisando que queimaremos a cidade, meu senhor. Mas eles alegam não ter para onde ir.
— Terão — Ikki disse, descendo do cavalo e puxando Jamila para baixo. — Procuro a mulher de nome Kiara. Esta mulher é mãe de duas crianças pequenas. Reivindico uma dessas crianças. Esta ao meu lado é a sua verdadeira mãe.
Ikki esperou. As pessoas se entreolhavam, temerosas. Ele temeu que depois do que lhe acontecera, a mulher houvesse se livrado do bebê. Mas logo uma mulher pequena e encurvada saiu do meio dos outros, segurando pelas mãos duas crianças de no máximo dois anos.
— Aqui estamos, meu senhor — ela disse. — E um destes é a criança que me confiaste há várias luas.
Jamila não precisou que lhe informassem quem fosse o seu filho, correu até o pequeno e o ergueu no ar. Era a criança certa a que ela aninhou ao seio.
— Meu filho! Meu filho! — ela repetia entre lágrimas de emoção, triunfo e alívio. — Obrigada! Obrigada!
Ikki sorriu, sentindo pela primeira vez uma emoção verdadeira desde que começara aquela guerra. Ali estava sua amiga e seu irmão.
“Posso ter um irmão de novo... Jamila é como uma mãe para mim... Dê uma chance a ele...”
O guerreiro recordava-se das palavras de Shaka e assentia, silencioso, com a cabeça. Aquela criança teria uma nova chance.
— Ikki, está na hora.
No presente, a voz decidida de Afrodite o despertou. Era o momento do ritual. Ele tremia por dentro, mas precisava se manter forte. Ser forte era tudo que lhe restava.
— Tome isso — o sumo sacerdote lhe ofereceu um líquido em um pequeno frasco que ele virou na boca, percebendo o gosto amargo e ácido. — A pedra de Tammuz.
— Estou pronto.
O jovem tamudaei foi guiado pelo corredor escuro que conduziria ao templo de Ishtar.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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