Notas iniciais
Olá, queridos, tudo bem? Preciso me desculpar mais uma vez pela demora. Minha disponibilidade para escrever anda bem pouca, mas como é algo que amo, vou fazendo. Perdoem qualquer erro no texto, não foi betado. A imagem que aparece no capítulo não me pertence e sim ao mangá "One thousand and one nights", crédito à autora. QUERO AGRADECER DO FUNDO DO CORAÇÃO À JULIANA S PELA RECOMENDAÇÃO E A TODOS QUE DEIXARAM REVIEW NO CAPÍTULO ANTERIOR TAMBÉM ♥ Boa leitura! Sion Neblina

Haja o que houver
Eu estou aqui
Haja o que houver
Espero por ti
Volta no vento
O meu amor
Volta depressa
Por favor

Madredeus

Haja o que houver

أيا كان هناك

Capítulo XXVII

O local era úmido, já que por ali passava a nascente de um riacho, e somente por esse motivo foi permitido a eles a sobrevivência. Beberam a água suja que no charco acumulava-se e alimentaram-se de raízes amargas por dias; e então Aioros teve forças e segurança para arriscar-se na caça. Não foi fácil. Ele não era versado nessa arte, mas conseguiu capturar uma codorna, e foi a refeição mais deliciosa que comera na vida.

Os homens que atentaram contra o faraó os procuraram durante certo tempo. Aioros via-os contornar as margens do riacho, ao mesmo tempo em que cuidava de Saga, ferido na fuga. Durante dias, ficaram em silêncio e em completa escuridão, ouvindo-os conversar em um dialeto estrangeiro. Eles passavam bem próximo à caverna, mas não conseguiam vê-la, graças à mata abundante, para sorte dos fugitivos.

O assédio constante dos inimigos, contudo, foi apenas o primeiro problema. Ido embora os homens, eles tiveram que lidar com uma nova ameaça; sendo a caverna um lugar quente e úmido, era o local ideal para que um crocodilo fêmea resolvesse pôr seus ovos. Saga e Aioros tiveram que encontrar outro esconderijo. Como o grão vizir fora ferido sem gravidades e o faraó já conseguia andar, eles caminharam até a vila mais próxima e passando-se por pescadores sobreviventes de um naufrágio no Nilo, conseguiram abrigo. As roupas destruídas demais para que alguém desconfiasse de suas origens foram um bom disfarce. Arranjaram-se num seleiro e foi onde ficaram no tempo de convalescença de Saga. Ambos sabiam correr perigo e até por isso ficaram ali, anônimos, enquanto pensavam na melhor forma de voltar ao castelo em segurança.

Para Saga, a descoberta de uma conspiração para sua morte foi surpreendente e desoladora. Ele era o faraó, o deus-na-terra. Será que tal fato não significava mais nada em tempos tão estranhos? Isso o deixou extremamente infeliz e introspectivo. Decepcionado e inseguro. Até então, tudo que ele conhecia eram os louros da sua posição, a opulência de um castelo feito para ele, uma família que se curvava quando ele passava e toda a grandeza que o líder divino do maior império merecia. Agora, no entanto, alguém, alguém do seu próprio povo, tentava matá-lo. O que esperar de época tão obscura?

Os dias se passaram, o faraó recuperou-se totalmente, mas não parecia inclinado a partir. Começou a viver entre aquelas pessoas como se momentaneamente houvesse esquecido a própria origem. Aioros, por sua vez, não conversava a respeito. Sabia que o amigo estava em estado de negação. Os rumores sobre a morte do faraó parecia não incomodar Saga e por certo tempo ele permitiu que o outro assim vivesse. Saga parecia feliz na vida de um homem simples e até havia aprendido a pescar. Todavia, o dia da verdade aproximava-se, e nunca há como escapar dela.

Aioros cansou-se daquele comportamento, então confrontou o faraó:

— Não podemos ficar aqui pelo resto da vida. Temos que retornar — ele declarou. Era uma noite mística, de lua avermelhada, e provavelmente os sacerdotes preparavam rituais de purificação para o novo faraó. O grão vizir queria chegar ao castelo antes que tal profanação fosse concretizada.

— Não desejo partir — Saga respondeu enquanto trançava uma rede com paciência.

— Não é uma opção, meu soberano. Sabe que o Egito o precisa.

— Não. Ele não precisa, Aioros. Mu será um faraó melhor que eu. Deixe que o destino se cumpra e que eu continue como todos pensam: morto.

— Isso não é certo.

Saga respirou fundo e aproximou-se do vizir.

— Claro que é certo. Aqui, não sou ninguém e tu não és ninguém. Podemos ficar juntos.

Aioros emudeceu e depois sorriu. Abraçou-se a Saga, sentindo as batidas do coração dele. Naqueles dias estranhos, eles passaram a compartilhar toda a intimidade vivida na infância e perdida na vida adulta. Ver o amor de sua vida ferido e vulnerável derrubou as muralhas de Aioros, e ele se entregou aos sentimentos pela primeira vez em anos.

— Ter uma vida fácil não é nossa missão. Não nesta vida, meu amigo — o vizir replicou num suspiro e afastou-se do outro. — Sabe o que tem que fazer.

— Sei... Mas não estou pronto — Saga disse e mirou a lua novamente. Ficar ali parecia tão fácil, tão certo. Ele já não possuía tanta convicção de que era um deus, de que sua vida fora determinada quando ainda era uma semente no ventre de sua mãe. Ele queria ter direito à escolha, direito a ficar com quem realmente amava. Direito àquela singela felicidade.

— Aioros... Podemos esquecer os problemas do Egito, podemos somente... — Saga interrompeu-se e suspirou. — Não voltarei.

Aioros mirou a lua também. Ele sabia que em breve retornar não seria mais possível sem que grandes acontecimentos desestabilizassem o império. No fundo de sua alma, ele também queria ficar ali, na calmaria daquela vida simples de preocupações tão ínfimas. Contudo, a responsabilidade parecia lhe cobrar atitudes. Ele e Saga gozavam dias calmos e alegres desde que chegaram àquela vila. As pessoas eram quietas, simples e respeitosas. O que mais eles poderiam querer? Saga recuperava-se e parecia feliz pela primeira vez na vida, mas o vizir sabia que era uma ilusão. Aquelas pessoas simples e felizes não eram eles. Aquela era uma vida que nunca poderiam ter.

— Oros... — Saga começou, melancólico. — Mentiu quando me disse que havia esquecido aquela nossa tarde...

— Eu nunca a esqueceria — Aioros murmurou ainda olhando os céus. — Mas crescemos sabendo que ela não deveria ter acontecido, Saga.

—Teu pai disse isso. Não é verdade, Oros.

— Saga, nossa realidade...

— Aqui estamos fora da nossa realidade, Aioros. Por que não ficar com isso? Por que evitar o que sentimos?

Aioros encarou o amigo. Assim, vestido em roupas tão simples, a pele sem nenhuma pintura, os cabelos bagunçado ao vento, Saga era o luminoso adolescente que amou e não o faraó sombrio que ele havia se tornado.

— Não consigo evitá-lo, Saga. Meus olhos seguem-no mesmo quando não quero. Meu único desejo é beijá-lo, mas minha missão como vizir e primogênito de Leontópolis me pede o contrário. Como posso lutar contra tudo isso? Diga-me, como posso trair a confiança do meu clã e de todo o Egito?

— Em Men-nefer, sou o faraó, e se me disseres aceito, eu lutarei contra o mundo por ti — Saga suspirou e baixou a cabeça. Os cabelos escuros e fartos cobriram o seu rosto. — Apenas uma palavra, Aioros.

O vizir ficou em silêncio por um tempo e então se aproximou mais de Saga, segurando-o no rosto e olhando dentro dos olhos dele.

— Tu sempre serás o meu grande amor, faraó Saga Hórus. E também sempre serás o faraó Saga Hórus.

— Aqui só apenas um homem. O homem que te ama. Uma palavra. Uma única palavra.

Aioros apenas sorriu. Puxou o faraó pelos cabelos para um beijo profundo, terno e demorado. Saga o pegou pela túnica, sentindo o coração bater mais forte e o corpo responder com um arrepio de saudade. Havia tanto tempo que não conseguia chegar tão perto dele como naquele hiato de paz que estavam vivendo. Há tanto tempo eram faraó e vizir e não os homens que de fato eram, não aqueles cujos corações se pertenciam.

Beijaram-se por vários minutos. Parecia que os lábios nunca ficariam saciados. Então Aioros afastou-se para mirar o olhar escurecido do amante.

— Serias capaz de abdicar do trono por mim? Serias capaz de deixar todas as obrigações, toda a predestinação? Renegarias teu nome para viver tal amor, Saga?

— Eu o renego agora, Aioros.

Beijaram-se. Ali, na areia da pequena vila de pescadores, longe da magnitude de castelos e pirâmides, as promessas de amor pareciam sérias e verdadeiras, mesmo que feitas sobre a areia.

Não foi difícil livrarem-se das roupas e entregarem-se aos mais profundos e antigos sentimentos que habitavam seus corações. Não parecia errado confessar o que há anos estava guardado. Era algo novo, incerto, vívido, e estranhamente possível.

A noite avançava com sua frieza, mas os corpos descansavam aquecidos por cobertas e abraços.

— Saga... Vamos voltar — Aioros sussurrou, beijando os cabelos do amante, quando os corpos descansavam saciados. — Não podemos deixar as coisas como estão. Tentaram matar o faraó, significa que todo o clã divino está em perigo. Tentarão novamente.

Saga suspirou e assentiu com a cabeça. Não era tolo. Sabia que a partir dali tudo mudaria. Tudo voltaria a ser como era. Voltaria a ter a vida infeliz e incompleta do passado. Queria tanto poder mergulhar na ilusão que vivia para sempre.

— Eu volto, Oros. Volto se me prometer que não me deixará novamente. Haja o que houver, ficaremos juntos.

— Sim, Saga. Enquanto quiseres, minha vontade é tua, como sempre foi.

— Não como sempre foi, Oros — Saga virou-se nos braços do amante para encarar-lhe os olhos claros. — Quero que sejamos como somos agora, mesmo de volta ao castelo do faraó.

Aioros ficou um tempo encarando os olhos que tanto amava. Queria dizer que sim, mas sabia que aquilo não era possível. Sabia que havia outro contexto que impossibilitava aquela intimidade sincera que viviam agora.

— Saga — começou, afastando a franja negra que caía sobre o rosto do faraó e acariciando-o a pele. — Tu és o amor da minha vida. Sempre serás. Esta é a promessa que te faço. Sempre serei teu. Será teu o meu coração. Sempre. Nesta vida e na próxima.

— Eu te amo... — Saga sussurrou antes de cobrir os lábios de Aioros em um beijo intenso. Ele tinha consciência de que aquelas palavras não respondiam aos seus anseios, afinal, elas não eram novas. Não obstante, reconhecia seu dever com o Egito e também sabia que aquela vida era um sonho reluzente distante demais das obrigações que os deuses designaram para ambos. Entretanto, naquele momento, acreditaria que era possível. Acreditaria que estaria nos braços de Aioros, como naquela noite, por toda a sua vida.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Cerveja. Este era o líquido que aplacava a solidão e angústia de Defteros naquela noite. Ele sempre preferiu a cerveja ao vinho, principalmente a cerveja amarga e escura, feita para o consumo noturno e horários frios de solidão. Seu pai costumava solvê-las aos borbotões quando visitava sua mãe na calada da noite; único horário decente para ver uma concubina. Defteros era muito pequeno, todavia percebia o quanto os olhos verdes do faraó eram tristes e seu semblante pesado. Ele também percebia que embora Aspros fosse mais obediente e disciplinado, era ele o preferido de seu pai e não o irmão. Era ele quem acompanhava o faraó na bebedeira e não o olhava com censura. Desde muito pequeno, Defteros compreendia o que levava o homem a se entregar aos vícios: o vazio no peito ou a vontade de esquecer.

Agora era ele quem estava ali, tentando esquecer sua vida vazia. Tentando esquecer as tramas cruéis de seus irmãos. Tentando esquecer a decepção que sentia por Aspros, aquele cujo modelo quis seguir durante toda a sua vida.

Cerveja escura e amarga. Aquela cerveja era ele, o homem que se movia nas sombras do seu sangue sagrado. O astro sem brilho que orbitava os outros. O homem-fantasma.

Estava no jardim, e antes mesmo de a figura imponente do irmão vestido em uma suntuosa túnica dourada aparecer, ele já o havia pressentido. Virou a cabeça na direção do arco da entrada, vendo-o luminoso se aproximar. Assim como a túnica, Aspros usava sombra dourada e khol negro nos olhos claros. Os cabelos longos estavam soltos e esvoaçados pelo vento noturno, como os seus. Contudo, isso era a única semelhança entre os seus trejeitos, já que Defteros usava apenas uma calça leve vermelha, feita exclusivamente para que dormisse.

— Tu me chamaste — Aspros disse com um olhar preocupado.

Defteros sorriu com tristeza. — É bom saber que ainda conseguimos nos comunicar pelos pensamentos, embora estejamos tão longe um do outro como nunca imaginei que um dia seríamos.

Aspros encarou o irmão.

— Sei que deveria passar mais tempo contigo, mas há assuntos preocupantes que têm me mantido atado a Hades por muito tempo...

— Assuntos preocupantes? — Defteros riu. — Aspros, não consegue perceber o quanto se distanciou de tudo que sempre defendeu? O que está acontecendo, irmão?

— Não seja dramático, Defteros. Estou construindo uma vida melhor para todos nós e para o Egito.

Defteros riu, pegando seu cálice de cerveja e virando nos lábios.

— Nós e o Egito? — Encarou o irmão. — Quem te fez acreditar nesta asneira? Hades?

Aspros endureceu o semblante. — Ao contrário de ti, tenho minhas próprias convicções. E nelas não se incluem ver minha família como agregada da grande casa para sempre ou eternamente ver a minha mãe conhecida como a concubina do antigo faraó. Não percebes o quanto somos desonrados? Pretendes viver a vida toda nestas condições degradantes?

Defteros encarou o irmão sem saber o que responder. Entendia Aspros e até lhe dava razão. Todavia, ele estava lidando com Hades, acreditando naquele crocodilo do lodo e com certeza seria devorado.

— Engravidar Pandora faz parte do plano, Aspros?

O militar demonstrou surpresa e aproximou-se mais do irmão, falando em um tom mais baixo: — Como sabes disso?

— Ela mesma me contou! Creio que tua amante não é tão discreta...

— Cala-te! Ela não é minha amante, fizemos um acordo!

— Está fazendo acordos com víboras, Aspros! E será picado cedo ou tarde.

Defteros sorveu a sua bebida. Sabia que não tinha como convencer Aspros. Conhecia o irmão o suficiente para saber que nada o moveria dos seus loucos objetivos. Compreendia-o: é horrível crescer como cresceram, sabendo que eram filhos do rei, mas designados a servir seus irmãos, a andar sempre de cabeça baixa, a aceitar que eram meros subalternos.

Aspros aproximou-se e pôs as mãos nos ombros do irmão gêmeo, começando uma suave massagem. — Não quero brigar contigo, irmão. És quem mais amo nesta vida. Confias em mim.

Defteros apenas anuiu com um gesto de cabeça. Não tinha mais forças para argumentar e sabia que era inútil.

— Tenho que ir agora— Aspros continuou. — Vá almoçar comigo, amanhã. Sinto tua falta.

— Irei.

Aspros beijou-lhe os cabelos e partiu.

Defteros voltou a se sentar e encher seu cálice de cerveja amarga. Seus olhos vagaram pelo céu deserto da noite sombria. Gostaria tanto de partir. De sair pelo deserto em direção a um oásis utópico de alguma lenda e nunca mais olhar as grandes construções do seu império. Nunca ter que se preocupar com as maquinações de sua gananciosa família. Ele queria achar uma saída, mas a única saída era o grande cálice de cerveja amarga que virava incessantemente nos lábios. Sua mente começou a pensar numa cidade distante, em um vale com muito verde e águas abundantes. Um paraíso perdido entre rochedos, um lugar em que ele pudesse isolar-se ou mesmo encontrar alguém que o pudesse acompanhar pela vida sem ver nele a sombra do irmão, o subalterno da casa real, o filho da concubina; o homem-fantasma. Alguém que enxergasse além da aparência, além das posições, alguém que conseguisse ver sua alma atormentada e seu coração ferido.

Cerveja amarga. Vida amarga. Amargura do coração. Defteros nunca se sentiu de verdade dentro das configurações do seu nascimento. Ele era um boneco controlado por um titereiro. Um boneco cuja vida foi decidida pelo seu velho pai antes mesmo de respirar o ar da Terra. Não queria mais isso. Partiria daquele lugar. Deixaria o Egito para sempre e seria um libertino, um nômade, mas estaria satisfeito consigo mesmo.

Com tais pensamentos, Defteros adentrou sua alcova, aprontou alforjes com tudo que imaginou necessário para uma longa viagem. Pensou em se despedir de Mu, mas por outro lado, imaginou que em meio a tantos problemas, o jovem-faraó não estaria muito interessado em seus passos. Passou de frente ao quarto da mãe, porém não teve interesse de se despedir; sabia que ela nunca o amou. Deixou a casa, a área do castelo. Tomou um camelo. Partiu.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

Assim como acontecia desde a pretensa morte do faraó, o castelo do soberano estava em respeitoso silêncio.

Alguém andava nas sombras. Envolto numa capa preta, ele atravessava o castelo com cuidado, tentando escapar da vigília arisca da guarda medjai. Contudo, quando estava à porta do jardim que daria acesso ao quarto do futuro faraó, uma espada curva tocou-lhe as costelas fazendo-o estancar o passo.

— Acompanho a tua caminhada desde as portas subterrâneas — a voz forte sussurrou-lhe ao ouvido. — Saibas que não serás morto até que me digas quem trama a morte de faraós.

Conhecia aquela voz. Não era de um simples guarda Medjai, embora o homem que ali estava fizesse parte daquele povo. Aquela voz pertencia ao general Sirius, uma das primeiras patentes do batalhão de elite do Egito. O que ele fazia ali?

A pessoa envolta na capa voltou-se para o portador da lâmina e deitou o capuz.

— Aiolia! — o general exclamou, surpreso. — O que faz aqui?

— Preciso falar com o príncipe. Somos amigos e é urgente. Mas ninguém pode saber da minha presença, general, eu imploro.

Sirius pensou um pouco; a sua fidelidade ao faraó o levara a montar guarda no castelo. Já que havia alguém disposto a derramar o sangue real, ele pensara que deveria cuidar de protegê-lo. Designara seus melhores homens para guardar os membros do clã celeste, e ele em especial assegurou-se de guardar a alcova do futuro faraó e salvaguardá-lo de qualquer perigo. Porém, conhecia Aiolia e sabia da devoção do rapaz ao príncipe, alguns diziam até que a amizade dos dois estava além da devoção. Sirius, todavia, não se interessava por intrigas palacianas. Seu dever era proteger Mu de qualquer perigo, e ele o cumpriria.

— Deverias estar em casa com a tua esposa, Aiolia. Este castelo é perigoso para ti neste momento.

— Apenas algum tempo, general. Por minha honra que serei teu servo, se falar a Mu depender disto.

Sirius era um homem sério, responsável e doentiamente atrelado ao seu dever. Casado e pai de seis filhos, porém, já fora jovem e apaixonado, e lembrava-se bem de quantas loucuras não teria feito por amor, se isso lhe fosse pedido.

— Um quarto de hora e nada mais, rapaz — ele declarou, liberando a passagem para Aiolia.

O jovem soldado correu para dentro da alcova. O príncipe estava na cama, mas não dormia, e sobressaltou-se quando o viu, erguendo-se de supetão e indo até ele sem pensar em mais nada além de abraçá-lo.

— Aiolia, vieste! — exclamou, abraçando-o com força, deixando que as lágrimas que havia controlado até então se derramassem no ombro do amado.

— Eu não poderia deixá-lo nesse momento, meu amor. Não poderia — Aiolia disse, prendendo-o forte nos braços. — Perdoe-me, Mu. Perdoe-me por tudo.

— Não tiveste escolha. Nem eu.

Colheram aquele abraço por algum tempo. Entretanto, Aiolia sabia que tempo era o que menos possuíam. Afastou-se de Mu, segurando-lhe as mãos para mirá-lo.

— Estás em perigo, Mu. Quero que tenhas cuidado.

— Estou protegido no castelo, Aiolia. O general Sirius não permitirá que nada me aconteça. Estou mais assustado com o trono que com as ameaças à minha vida.

— Eu sei. Fico mais tranquilo sabendo que Sirius está aqui — Aiolia falou e voltou a abraçá-lo. — Sinto tanto a tua falta...

— Eu também — Mu sussurrou, segurando-o o rosto entre as mãos. — Quase conseguimos — o sorriso que ele lançou a Aiolia trazia intensa dor. — Agora Saga e Aioros estão morto, eu serei o faraó e tu... estás casado...

Aiolia enxugou as lágrimas que desciam pelo rosto de Mu enquanto o jovem-faraó fazia o mesmo com as que desciam pelo rosto dele.

— Eu te amo. Sempre te amarei e darei minha vida por ti — Aiolia professou, olhando os olhos verdes do rapaz, os olhos mais lindos que já vira, os olhos que habitavam todos os seus sonhos e planos. — Faça-me teu vizir, Mu. Faça-me e mais ninguém poderá nos separar. Serei para ti o que meu irmão foi para teu pai: teus olhos e ouvidos, e também serei teu braço, teu corpo, e tudo que por ventura queiras.

— Meu amor! — Mu exclamou, antes de tomar os lábios dele num beijo cheio de desejo, carinho e angústia.

Mãos enroscavam-se nos cabelos, línguas procuravam-se em desespero. Mu puxou Aiolia para si, pela túnica que ele usava, guiando-o consigo para a cama. Nunca precisou tanto dos braços do amante como naquele momento. Amante. E pensar que há pouco tempo eram apenas crianças brincando pelos corredores daquele castelo. Eram amigos confidenciando aventuras e sonhos...

Aiolia segurou os braços de Mu, afastando-o de si, ofegante, mirando os olhos confusos do jovem-faraó.

—Não, Mu. Não podemos.

— Não?

Aiolia desviou o olhar com um sorriso triste.

— Sou um homem casado. Não seria justo com nenhum de nós dois e nem com a Marin.

Mu afastou-se dele e enxugou as duas lágrimas que desceram por seu rosto.

— Sim. Tens razão. Não és mais meu, Aiolia.

— Sempre serei teu, Mu. Sempre. — Aiolia mirava-o de forma profunda. Era possível enxergar a angústia que sentia no reluzir dos seus olhos verdes. — Por isso estou aqui. Não poderia continuar vivendo sem saber se estavas realmente seguro.

— Estou. Há muitos que olham por mim neste momento. — As palavras do jovem príncipe foram quase sussurros. — Tu precisas ir.

Aiolia voltou a aproximar-se dele. Segurou-lhe as mãos e as beijou, antes de abraçá-lo.

— Prometa-me que me mandará chamar caso qualquer coisa o ameace. Prometa-me, Mu.

— Sim, meu amigo. Eu prometo.

— Sempre te amarei, Mu. Faça-me teu vizir.

— Tu queres abrir mão do teu casamento? Não podemos fazer tal coisa, Aiolia.

— Marin continuaria a ser minha esposa, com todas as vantagens que essa posição daria a ela. Nós só não precisaríamos mais nos sujeitar à cama. Eu não a desonraria e estaria perto de ti. Para mim é a solução perfeita. Pense nisso, Mu. Por favor, pense.

— O que teus parentes pensariam disso, Aiolia? Não posso...

— Não me importo, Mu.

— Aiolia, a audiência precisa terminar. É tarde — a voz severa de Sirius lembrou as horas aos dois.

— Faça isso, Mu. Faça isso.

Aiolia partiu. Assim como adentrou pelas sombras, deixou o castelo pelas sombras.

Mu voltou para à cama, mas não conseguiu dormir.

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

— O ritual de purificação é amanhã. Ele precisa se tornar impuro antes do ritual de ascensão.

— E o que acontecerá a ele depois disso?

— Importa?

— Responda a pergunta.

— Escarnecido. Desprezado. Exilado. Mas não te preocupes. Nada tenho contra o jovem príncipe. Eu o deixarei em segurança em um castelo que possuo numa cidade distante demais para que a maledicência o atinja.

— Por que farias tal coisa? Pareces odiar tudo que representa a linhagem de Djoser. Mu vivo sempre será uma ameaça ao teu poder.

Hades sorriu levemente.

— Tenho minhas garantias. Não te preocupes.

— E quanto a Nerfertari?

— A desposarei, óbvio. Ela será minha segunda esposa.

— Como pretendes que o hem-netjer tepy acredite na impureza de Mu? Qual será tua prova?

— O próprio sumo sacerdote será a testemunha.

Shaka arregalou os olhos, porém, mordeu os lábios antes de dizer qualquer coisa. Não podia fraquejar naquele momento.

— O que devo fazer?

— Amanhã, quando o sol se encontrar a oeste da grande pirâmide, tu irás até o quarto do príncipe e cearão juntos. Tu levarás isto. — Hades tirou das vestes uma pequena garrafa com um líquido negro. — Não te preocupes, é inofensivo. Quero que mistures isto ao vinho dele e depois o guie até o jardim do faraó.

— Isto é veneno?

Hades sorriu. — Mu ficará bem, eu prometo. Por mais que negues, sei que nutres certa afeição por ele. Como o julgo inteligente, espero que ela seja menor que a tua vontade de te tornares livre. — Como os olhos de Shaka ainda não expressassem confiança, Hades acrescentou: — Neste frasco há uma mistura de mandrágora, pétalas de rosas vermelhas de Karoiz e Tríbulus negro. Na Babilônia, alguns a intitularam pedra de Tammuz.

Shaka mordeu os lábios novamente, mas sua mão estava firme quando segurou o pequeno frasco.

— Será feito.

— Tenho certeza que sim, Shaka.

Hades deixou a alcova, voltando a esconder-se sob o capuz negro. Shaka apertou o frasco contra a palma da mão e voltou para os seus aposentos. Observou a lua, recordando-se de quando tivera conhecimento daqueles estranhos líquidos, no passado...

Faraó estava a caminho da Babilônia. O templo de Ishtar movimentava-se com os preparativos da grandiosa festa de boas-vindas. A paz estava selada, as pessoas felizes, o rei extremamente satisfeito. Conseguira o que seu pai não havia conseguido: aliar-se ao poderoso império egípcio e ter, junto a ele, o controle dos mares e das terras férteis de toda a região.

Afrodite fora encarregado de cuidar de tudo, e como ele tinha trabalho! Assinus e assinutus teciam e ensaiavam. Ele resolvera apresentar um grandioso espetáculo no qual todo o templo participaria. Isso pareceu deixar assinus e assinutus mais satisfeitos em detrimento à apresentação especial de Shaka, e Afrodite precisava que eles estivessem sorridentes e disposto, e que recebessem as moedas necessárias para os diversos presentes que seriam oferecidos ao faraó. E dentre tais presentes estava a noite com o escravo que ele escolhesse. Na verdade, o belo sacerdote sabia bem quem seria o escolhido. Não havia possibilidade de erro em seu plano.

Enquanto assinus e assinutus ensaiavam incansavelmente para serem bem quistos por governantes, o que renderia glórias e riquezas, talvez até a liberdade. Shaka preocupava-se em encontrar a última pérola vermelha perdida, melhor, roubada. Alguém a tirara do seu quarto, mas ele não tinha certeza, então procurava em silêncio. Não queria alarde, talvez estivesse errado.

Krishna e Afrodite percebiam sua preocupação, mas foi apenas com o mordomo-mor de Hamurabi que Shaka se abriu a respeito.

— Sem a pérola, ele não me encontrará.

— Ela está na Babilônia que é onde tu estás. Ele o encontrará, sim. Volte às tuas lições.

— Já disse que não desejo dançar para o faraó. Tenho medo de reis.

— Teu pai era um rei, não era?

— É diferente.

— Não é. Shaka, conversamos sobre isso. Precisas obedecer ao Afrodite.

— Certo. — Mesmo contrafeito, Shaka concentrou-se em ensaiar seus passos com os demais assinus e assinutus. A coreografia era sensual e bela. Afrodite parecia satisfeito com todos e na véspera da esperada chegada do faraó, ele declarou:

— Nossa dança será linda e digna da nossa grande mãe Ishtar e também do soberano do Egito. Sabem que mesmo tendo escolhido Shaka para a dança especial, estou contando com todos para que o espetáculo seja inesquecível.

— Apenas ele será destacado? — uma assinutu indagou, lastimosa.

— Todos são maravilhosos, mas a deusa só poderá se invocada e habitar um corpo. Creiam, minha escolha é a escolha dela, como sabem, por isso escolhi Shaka. Ela escolheu.

Todos os olhos do salão voltaram-se para o jovem persa. Aquela escolha era antiga, todos eles sabiam, mas por algum motivo, com as últimas mudanças, esperavam ter uma chance. Alguns sorriam e o parabenizavam, outros resmungavam e demonstravam raiva e inveja.

— Sabem que a palavra do sumo sacerdote de Ishtar não volta — Afrodite retorquiu, ferino, observando os que reclamavam.

— Eu não quero... — Shaka murmurou, um murmúrio quase inaudível, mas que fez Afrodite erguer uma sobrancelha.

— Não ouse recusar um presente como esse, criança estúpida!

— Eu não o mereço, senhor! — Shaka exclamou, as lágrimas enchendo seus olhos. — Há outros merecedores, eu...

— Cala-te e obedece. Vais para o teu dormitório, agora.

Shaka deixou o salão. Afrodite suspirou: criança difícil! Tentava domá-lo o tempo todo, mas ele era incrivelmente impertinente, não importava o que fizesse.

Misty aproximou-se do sumo sacerdote.

— Ele não quer. Eu, contudo, daria minha vida pela chance de agradar ao faraó. Por favor, pai — Ajoelhou-se aos pés do sacerdote. — Dei-me esta oportunidade. Sabes que Shaka resiste a isto desde que soube.

— Recolhe-te também, Misty. Sabes que todo assinu deve se preservar até a noite da grande festa.

Misty respirou fundo e assentiu com a cabeça, afastando-se. O belo assinu sabia que sua sorte estava sentenciada. Sua sorte havia sido roubada por Shaka. Entretanto, algo sórdido e cruel passava por sua cabeça. Algo que sabia tão imoral e inumano que ele próprio resistia a aceitar. Era, todavia, sua única chance. A chance de uma vida. Assim, na escuridão da noite, ele fugiu do templo, e tomando de um cavalo, depois de seduzir e deixar que um escravo o fodesse como quisesse, o jovem prostituto viajou até o oeste do Tigre.

Uma lua imensa que parecia pingar sangue alumiava a noite quando Misty prendeu seu cavalo numa árvore e atravessou o riacho em direção a uma cabana velha, única moradia numa pequena ilha no meio daquele afluente.

Um lampião pendia sobre a porta. Misty a empurrou lentamente, vendo o ambiente escuro.

— Quem procura a Tarântula? — o voz cavernosa falou atrás dele, fazendo seu sangue gelar nas veias.

— Aquele que busca a magia necessária para alcançar seus sonhos.

— Vendo desejos de morte e não sonhos, criança tola! Partes!

— Dar-te-ei tudo que tenho para que realizes meu desejo. Contudo, não desejo a morte a ninguém. Desejo apenas ficar livre de um inimigo.

— Conte tua história à tarântula.

O ambiente foi iluminado e uma figura envolta em trapos negros saiu das sombras e sentou-se atrás de uma mesa. Misty sentou-se de fronte a ele e pediu o que precisava. Saindo dali com seu desejo realizado.

Sem nenhuma consciência das maquinações do prostituto, Shaka ensaiava para dançar ao faraó e aproveitava seus dias em conversas e passeios com Krishna.

Naquela tarde especialmente quente, o jovem dançava enquanto o amigo o observava satisfeito no pátio do templo. Krishna o esperava para mais uma das caminhadas e lições diárias. Shaka o ensinava outras línguas e Krishna ensinava ao menino sobre a vida. Era como uma relação de mestre e discípulo, mas os papéis investiam-se o tempo todo. Shaka era muito mais culto e sábio que os garotos da sua idade, e Krishna gostava de aprender com ele.

Naquela tarde, contudo, como o calor era muito e a espera demorada, Misty aproximou-se do mordomo-mor de Hamurabi com uma taça de um perfumado licor de abikí.

— Senhor — ele ofereceu com um sorriso e diante do calor, Krishna aceitou, bebendo tudo praticamente em um único gole. Foi o tempo de Shaka finalizar o ensaio e correr até ele, ainda suado e ofegante.

— Vamos, senhor Krishna, não podemos perder tempo, logo será noite!

— Um banho, criança!

— Hoje, não! Quero alcançar aquele rochedo, talvez eu tenha deixado minha pérola lá — Shaka segredou ao gigante.

— Está bem. Vamos. Tome tua máscara.

Shaka colocou a máscara, prendendo os cabelos e cobrindo-se com um xale. Era o que sempre fazia até que chegassem aos montes deserto perto do rio, e então ele se livrava de tudo aquilo e sentia-se livre, um simples rapaz outra vez.

Aquele passeio, contudo, não aconteceu da forma que Shaka esperava. Krishna andava lentamente, levando a mão à cabeça vez por outra, como se sentisse dor ou tontura. O garoto praticamente falava sozinho durante a caminhada.

— Algum problema, senhor Krishna?

— Sinto-me tonto... Vá à frente, criança — Krishna disse, mirando o garoto.

Shaka sentiu algo estranho na expressão dele, mas continuou a caminhar com seus passos ágeis, falando algumas palavras em ilírio e explicando o significado delas.

O sol deitava-se lentamente entre as montanhas, e quando estavam quase alcançando o pequeno monte, Shaka se voltou para o amigo.

— Procurarei por minha pérola...

As palavras, entretanto, foram morrendo em seus lábios quando ele mirou os olhos injetados de Krishna. Não era mais seu amigo quem estava ali, ele tinha certeza. Alguma coisa estava muito errada. Krishna não tinha aquele olhar, aquela expressão esquisita que fazia com que o garoto se sentisse desconfortável. Shaka percebeu suor na testa dele e um rubor estranho em sua face.

— Senhor Krishna? — o rapaz indagou, sentindo o coração parecer falhar.

— Shaka... Eu não... Eu não consigo me controlar... Eu não sei o que está... Corra, Shaka...Corra! — ditas tais palavras, ele avançou em direção ao garoto. Shaka tentou correr, mas teve o braço preso por ele e mesmo lutando foi arremessado ao chão.

— Senhor Krishna, o que está fazendo?! — ele lutava, tentando livrar-se do homem.

— Eu não sei! Eu só não consigo! Não consigo!

Shaka gritou horrorizado, o que via nos olhos negros do homem era luxúria, um desejo sombrio. Aliás todo o corpo dele exibia o desejo descontrolado que ele sentia naquele momento.

— Não! Pare! Não faça isso comigo! — Shaka gritava. Não entendia o que estava acontecendo, aquele não era seu amigo, não era! — Senhor Krishna, solte-me!

Krishna facilmente prendeu os braços delgados do garoto contra o solo. Seus olhos eram obcecados, loucos, seu corpo estava tão quente que ele parecia sentir febre.

— Perdoe-me, Shaka... — ele virou o corpo do adolescente de bruços e desceu a calça fina que ele usava, apertando a pele branca com força, com toda a luxuria que tomava seu corpo. Sua mente lutava contra o que suas mãos faziam. Ele tentava resistir, mas parecia possuído por uma entidade sombria e obscena.

Luxúria insana e impossível de ser controlada. Fora isso que Aracne, a tarântula, prometera a Misty. O afrodisíaco-alucinógeno era insípido e totalmente disfarçável no licor de abikí. Misty sabia que todos os dias o mordomo-mor caminhava com Shaka para lugares afastados, lugares em que ninguém poderia ajudar o assinu. Também sabia que todos os dias, Krishna bebia o melhor licor de Uruk, palavras dele mesmo, que era o servido no templo. O ambicioso assinu teve todas as possiblidades e a utilizou. Misty não queria admitir, mas no fundo de sua alma não fazia aquilo somente para ser o escolhido do faraó. A relação de Shaka e Krishna incomodava-o demais. Não conseguia acreditar numa relação como aquela entre um homem e um assinu. Por que Shaka merecia afeto quando ele só teve homens dispostos a usá-lo? Por que Shaka tinha o carinho de todos? Por que Krishna o escolheu daquela forma? Se eles fossem amantes, mas... Não. Aquilo estava errado.

Agora, o belo prostituto dançava. Ensaiava a apresentação individual que faria ao faraó e com certeza teria uma vida plena de riquezas. Não desejava a morte de Shaka. Esperava que o rapaz fosse esperto o suficiente para ceder logo e evitasse sair muito machucado. Aracne dissera que após o coito, o feitiço perderia seu efeito, então tinha certeza que o máximo que aconteceria ao preferido de Afrodite seria ficar algum tempo se recuperando. Tempo suficiente para que o faraó partisse do Egito, de preferência, levando o mais belo e competente dos assinus. Ele estaria longe e feliz, e a relação de Krishna e Shaka estaria destruída.

Misty rodopiava alegre pelo salão, rindo e remexendo os quadris. Afrodite estranhou toda aquela animação e aproximou-se dele.

— O que está fazendo? Que saiba, o ensaio terminou.

— Estou praticando uma dança individual. Caso Shaka não possa dançar por qualquer motivo — Misty disse, um sorriso adornando os lábios formosos. Tinha total confiança em seu futuro naquele momento.

Afrodite franziu as sobrancelhas e sem dizer nada, deixou o templo. Desconfiado, pensou ser conveniente encontrar Shaka e salvaguardá-lo de Misty. Ele não confiava naquele assinu.

— Chama-me o capitão Shura. Peça que me traga um cavalo! — foi o que ele ordenara a um escravo.

Longe dali, o céu era iluminado pelos últimos raios de sol, que pareciam lágrimas douradas. Lágrimas como as que Shaka deixava cair enquanto tentava fugir do seu algoz. Krishna, contudo, era muito mais forte e facilmente segurava-lhe os dois pulsos com uma só mão enquanto o despia.

— Quieto! Quieto! Não, não! Eu não posso! Hubal, ajuda-me!

Com esforço, Shaka conseguiu virar o corpo, ficando de frente para o homem. Seus pulsos doíam, mas ele tentava usar suas últimas forças.

— Eu sou teu amigo, senhor Krishna! Sou teu amigo! — ele soluçava. — Sou teu filho! Por favor!

Krishna soltou os braços dele, os olhos do mouro estavam molhados por lágrimas de desespero. Era como se ele observasse impotente tudo que ele próprio fazia, mas não tivesse forças para evitar. Era como se um djin diabólico houvesse tomado seu corpo.

Ele puxou o punhal incrustado de pedras preciosas que sempre levava na cintura. O brilho das pedras se refletiu nos olhos azuis de Shaka.

— Sou teu filho... — Shaka murmurou. Sentia que morreria naquele momento.

— Tu és meu amigo, Shaka. Tu és... meu filho...

As lágrimas desceram pelo rosto do mordomo-mor de Hamurabi antes de ele pegar o punhal e erguê-lo. Shaka fechou os olhos, esperando o golpe que lhe tiraria a vida, mas ele não veio. Krishna cravou o punhal no próprio abdômen e, como se ainda tivesse forças para cometer aquele ato hediondo contra a criança que jurou proteger, apunhalou-se novamente, e novamente, e novamente, e, não satisfeito, lacerou o próprio pênis praticamente a até extração.

Os gritos de dor daquele homem nunca seriam esquecido por Shaka e povoaria seus pesadelos pelo resto da sua vida.

Os olhos escuros do mordomo-mor recaíram sobre o jovem escravo e ele sorriu entre as lágrimas.

— Eu nunca... Nunca...,Shaka...

Shaka gritou quando o mouro tombou numa poça de sangue. Depois de segundos de choque, o garoto arrastou-se até ele, segurando-lhe o rosto entre as mãos.

— Não! Não! — ele gritou. — Não morra, senhor Krishna... Não morra... Tu és o meu único amigo... Por favor... — ele pedia, sentindo o peito sangrar tanto quanto sangrava o homem que o havia salvado e mantido a salvo durante todo aquele tempo.

— Haja o que houver, Shaka... — Krishna balbuciou, engasgando-se com o sangue que subia por sua garganta. — Nunca esqueça... Haja o que houver...Minha criança, meu filho...

— Não morra, senhor Krishna, por favor... — Shaka murmurou entre lágrimas — Não me deixe sozinho de novo...

O homem sorriu e seus olhos fixaram-se no infinito a frente.

— Lalanda... Lalanda...

Essas foram as últimas palavras de Krishna antes de seu olhar petrificar-se pela morte, e Shaka ficar completamente sozinho. Infinitamente sozinho e vazio. E ele chorou lágrimas amargas naquele momento.

No presente, Shaka deixou uma lágrima pintar seu rosto com o negro do khol. A beleza; seu único bem e também sua maldição. Apertou o frasco com força novamente e o escondeu num vaso ao lado da cama. Tinha que fazer o que era preciso. Havia jurado fazer o que fosse preciso, e faria. Não seria mais vítimas das maldades alheias. Nunca mais. Ele era o rei no tabuleiro.

Eu sei, eu sei
Quem es para mim
Haja o que houver
Espero por ti

A serpente e a estrela

الثعبان والنجم

hem-netjer tepy era o sumo sacerdote dos templos egípcios.

Notas finais
Obrigada a todos que leram ♥ Postado em 05.09.2017