A serpente e a estrela
29 Perdas
Notas iniciais
Excite-se! Excite-se! Enrijeça! Enrijeça! Excite-se como um cervo! Enrijeça como um touro selvagem! (...) Faça amor comigo seis vezes como um corço! Sete vezes como um cervo! Doze vezes como um perdigão! Faça amor comigo porque sou jovem! Faça amor comigo porque sou ardente! Faça amor comigo como um cervo! E eu, protegida pelo deus Ningirsu, te acalmarei!
(Uma prece babilônica)

Perdas
Capítulo 28
Ikki adentrou as sombras do templo da forma que o sacerdote havia lhe dito que deveria fazer. Ali, ele era O estranho, o homem destinado a prestar reverência a Ishtar e representar Tammuz em sua jornada pelo submundo. Ele era o Acólito da deusa do amor, seu escravo e seu amante, era Dmzu.
O corredor cercado de archotes que levava ao grande altar de pedra, onde a estátua da deusa se erguia maravilhosa, era estreito. Ele podia sentir as pedras íngremes rachadas por anos de erosão sob os seus pés. Sentiu um frio na espinha à medida em que ouvia o cântico em pequenos sussurros e via os vultos graciosos se moverem ao redor da grande mesa de pedra. Apesar da penumbra, percebia que todos estavam protegidos por máscaras feitas com penas de corujas e que imitavam a face dessa ave, símbolo da deusa. Ele também ganhara uma semelhante.
Era mais um momento difícil na peregrinação em busca da sua estrela.
Vivera tantos...
Quando seu grupo deixou Karna, aquela que havia sido uma grande cidade ardia em chamas tão vermelhas quanto a areia do deserto de Quim’zinq. Nenhuma construção, plantação ou celeiro foi poupado, havia poucos, na verdade, a cidade militar alimentava-se do que saqueava.
Ikki seguia acompanhado de Aldebaran, que apoiava uma ferida Violet, Jamila, que levava Shun encaixado em sua cintura, os poucos homens que sobraram do seu grupo, e as poucas pessoas poupadas por sua espada, entre elas, Shiva e Ágora. Eles levaram três dias para chegar ao Vale dos desterrados, já que havia muitas crianças, idosos e pessoas feridas. Nesse tempo, a notícia da queda de Karna já ecoava pela Arábia. Ikki, todavia, não permaneceu muito tempo cuidando de doentes. Depois dos primeiros dias de organização, ele, Aldebaran, Jamila e Violet foram para o porto; precisavam de alguns barcos para a travessia.
— Que travessia, Ikki? — Violet perguntou, curiosa, enquanto os amigos negociavam os barcos. Para sorte, eles pilharam todos os recursos de Karna antes de queimá-la.
— Precisamos chegar à Pérsia, e não pretendo atravessar a Babilônia. Será melhor ir pelo Golfo.
— O que faremos na Pérsia? — a guerreira insistiu.
— Nossa morada — Jamila foi quem respondeu. Ela já possuía todas as informações há muito tempo, mas guardou segredo. — Há uma cidade esperando por nós.
— Najah? — Aldebaran voltou-se para o amigo. — Pretende levar toda aquela gente à Najah?
— Pretendo.
— Louco! E se a cidade estiver ocupada? E se algum povo já se apoderou dos seus destroços?
— Expulsá-los-emos. Aquela cidade é de Shaka. Ele será o rei de Najah — Ikki respondeu calmamente, negociando com o homem na língua dos mares.
Aldebaran calou-se até que ele terminassem e os dois deixassem o galpão.
— Não podemos por todas aquelas pessoas em risco, Ikki.
— Por isso iremos primeiro. Violet e Jamila ficarão na liderança da vila enquanto nós dois vamos à Najah. Tu não a conheces, mas é o melhor e mais estratégico lugar do mundo para pessoas como nós. Não pensaste no que nos acontecerá aqui? Logo, todas as cidades saberão o que adveio à Karna e nos temerão. E nos temendo, mandarão guerreiros para perseguir-nos. Precisamos partir.
— Entendo.
A dúvida brilhou nos olhos de Aldebaran e ele, por instinto, desviou os olhos na direção da Saubeia. Ikki percebeu a hesitação do amigo e escapou-lhe um sorriso mínimo.
— Não precisas me acompanhar, meu amigo — Ikki levou a mão ao ombro do saubeu. — Já fizeste por mim o que nunca esperei que alguém fizesse. Tu tens um lar, um pai, uma cidade a guardar. Espero que tua jornada como Emir da Saubeia seja próspera.
Aldebaran calou-se. Ikki só não sabia que ele não tinha interesse algum em ser um emir.
— Iremos a Najah e se for possível viver naquelas terras, estarei contigo para reconstruí-la. — Foi o que ele declarou ao amigo. E os dois seguiram para as terras persas, em uma viagem de 40 dias.
Naquele tempo nem todos os lugares da Terra eram habitados e as cidades estavam separadas por longos caminhos de desertos, florestas ou pântanos. O clima era muito mais frio do que eles estavam acostumados na Arábia, embora pudesse se tornar extremamente árido em alguns locais. Mas Najah ficava próxima ao Mar Cáspio e por isso possuía um clima ameno com estações bem definidas e muito verde. Era um local ideal para que grupos nômades se instalassem e mesmo que a cidade estivesse em escombros, havia pessoas lá, muitas, fugitivas de outras cidades devastadas. Para Ikki não havia problema em levar o povo do Vale dos desterrados para aquele lugar e reconstruir uma cidade junto às pessoas que ali estavam. Foi o que fez: atravessou pelo Golfo todos que quiseram partir da Arábia. Não foi uma travessia rápida e nem fácil. Enfrentaram tormentas e perigos, mas no fim todos aqueles que quiseram reconstruir uma vida migraram para as terras persas.
O prédio do grande castelo do rei Sohan ainda estava de pé, embora a hera já o houvesse tomado, portas tenham sido arrancadas e cômodos incendiados. Poderiam reconstruí-lo e esse foi o primeiro passo do povo do Vale. Lentamente o lugar começou a ganhar feições de uma cidade organizada e isso despertou o interesse das cidades vizinhas. Mensageiros foram enviados. Até então, os povos que habitavam as cidades próximas preferiram não reivindicarem as terras férteis de Najah. Supersticiosos, temiam os espíritos dos mortos e também a volta dos tamudaei. Preferiram fortificar suas defesas que avançar para a cidade massacrada, esse era o novo nome do que um dia fora a cidade branca. Agora, entretanto, eles viam um povo esfarrapado e poucos guerreiros tomando aquelas terras e novamente temiam, e temendo se armavam, e armando-se cobravam explicações.
Violet foi quem recebeu os primeiros mensageiros dos reinos vizinhos. Em trajes negro de tecido e couro, cabelos trançados e a serpente tamudeia pintada no rosto, a bela guerreira era dona de uma imponência intimidante. Mas, ainda assim, era uma mulher.
— Não negociaremos com uma fêmea! — foi o que exclamou um dos mensageiros persas quando a viu sentada no grande trono de ouro do rei Sohan, no centro do salão, trono esse tão maciço, que nem mesmo os tamudaeis conseguiram movê-lo durante o saque.
Violet ergueu-se, mostrando sua grande estatura e poder.
— Não? — ela indagou com um sorriso provocador nos lábios. — Está com medo?
— Insolente! Viemos em paz e é assim que somos recebidos?
Violet puxou a espada.
— Podemos cruzar espadas e veremos quem está sendo insolente. Recuso-me a escutar um mensageiro que desrespeita seus anfitriões. Diga aos teus que estamos aqui para reclamar Najah para quem é de direito: a estipe de Sohan! E massacraremos qualquer um que tente nos impedir.
Os homens se entreolharam. Ikki que até então estava a um canto, esperando o desenrolar dos acontecimentos com grande curiosidade aproximou-se.
—Terrível que mensageiros desrespeitem um dos meus generais. Eu deveria permitir que ela lhes arrancasse as cabeças. — A voz do tamudaei era tão calma que fazia gelar o sangue.
Os homens deram passos para trás, flexionando o tronco em reverência.
— Perdão, senhor, perdão.
— A mim, não. A ela — Ikki continuou.
Indignados, os homens dirigiram suas excursas à Violet.
— Deixe que trato com eles, Violet. Obrigado — ele pediu.
A general fez o gesto militar tamudaei, de encostar o punho ao peito e retirou-se do salão.
Ikki encarou os mensageiros das cidades vizinhas.
— Nós viemos reconstruir esse lugar em paz. Entretanto, se formos hostilizados, responderemos com hostilidade. Saibam que meu exército, embora pequeno, derrotou aqueles que exterminaram Najah em uma única noite. Não teremos piedade por aqueles que ficarem em nosso caminho.
— Tua... Teu general falou da linhagem de Sohan. O que ela quis dizer? — perguntou um dos homens.
— Acaso falam da lenda do príncipe cego?— indagou outro.
— Desconheço tal lenda. O príncipe que conheço não é cego, e ele retornará em breve.
— Conheci os príncipes de Najah — um dos homens, um mais idoso disse. — Nenhum deles era cego. É uma lenda para assustar crianças, criada após o cerco a Najah, o fantasma do príncipe cego. Por isso as pessoas não gostam de vir aqui.
— É melhor que assim continue. Ikki declarou.
Os homens foram embora, mas deixaram Ikki preocupado. Ele precisava deixar Najah e seguir a busca por Shaka, mas não podia levar ninguém com ele, a cidade precisava ser protegida.
Deixou o salão, teria que reunir os generais e informar da sua partida. Só retornaria com Shaka e esperava que todos ali fossem fortes o suficiente para seguir sem ele pelo tempo que precisasse.
— Eles ainda precisam de ti. Da tua liderança — Aldebaran disse quando estavam sozinhos na sala de armas.
— Não posso esperar mais. Cada dia que passa é uma tortura sem saber o paradeiro dele.
— Irei contigo.
— Não. Ainda não. Preciso que fique mais um tempo aqui e ajude Jamila.
— Jamila?
— Sim. Ela é a rainha de Najah. Ela será a líder desse povo até que eu retorne com o seu verdadeiro rei.
— Mas sou apenas uma pobre concubina! — foi o que Jamila respondeu quando Ikki a declarou rainha.
— Agora és a única mulher de Sohan viva. És a rainha de Najah e quando Shaka retornar ainda serás a única rainha destas terras, sabes disso. Preciso que lidere esse povo, Jamila. Que reconstrua essa cidade e que ela esteja o mais próxima do que foi quando Shaka retornar.
— Farei isso, Ikki — a mulher assentiu e segurou as mãos do jovem tamudaei. — Traga-o de volta.
— A qualquer custo — Ikki apertou-a contra si, mas separou-se dela em seguida.
Shun que brincava ali perto, correu até a mãe para lhe mostrar um inseto que tinha em mãos. Jamila o pegou nos braços, observando a mariposa colorida que ele segurava e depois soltando o bicho pela janela.
— Diga até breve ao teu irmão, Shun — ela pediu.
— Até breve, Ikki! — o garotinho disse com um sorriso.
Ikki beijou os cabelos da criança e a testa da mulher. Deixou Najah no dia seguinte para buscar a sua estrela...
A máscara em seu rosto tornou-se desconfortável por alguns instantes, mas quando ele aspirou o ar brumoso do local cessou-se tal efeito. Um torpor imediato o dominou, assim como uma excitação tão lacerante que o guerreiro sentiu-se rijo de imediato. Ali, naquele local, os prostitutos cultuais de Ishtar esperavam O Estranho. Todos eles estavam nus, exibindo os corpos belos e esguios. Os cabelos geralmente longos caiam pelos ombros. Havia homens e mulheres entre os sacerdotes. A mistura do vigor masculino e da pulsão adocicada feminina, convidava-o ao instinto básico.
Eles se aproximaram, cercando-o, e tocaram o seu corpo. Livraram-no da capa longa, deixando-o completamente nu, apenas com a máscara que não poderia ser removida. As mãos macias causaram choques. O Estranho gemeu e segurou um dos sacerdotes pelos cabelos e tomou-lhe o folego com vigor e rudeza, mordiscando os lábios, sugando a língua adocicada pela poderosa pedra de Tammuz, o suco de plantas altamente tóxicas que produziam alucinações também fora ministrado a cada um dos sacerdotes, que deveriam entrar em contato com a deusa sob o efeito da droga. Ali, ninguém era humano, todos eram joguetes da caprichosa deusa.
Todo o ambiente era impregnado pelo cheiro forte de flores e mirra, e O Estranho se sentia tonto, todos seus sentidos estavam aguçados como de um animal que fareja o sangue das presas e as mãos em seu corpo, em seu falo ereto, só estimulavam as sensações fortes e faziam a carne tremer desejosa de fundir-se a outra carne quente. Num ímpeto, foi como se um poderoso deus se apossasse dele. A majestade negra o tomou e ele afastou todas as mãos e somente com um olhar os assinus se prostraram aos seus pés de forma que qualquer que visse acharia bizarro, eles se ajoelharam, sussurrando palavras de encantamento e gemendo, movendo os quadris de maneira frenética e obscena. Seus rostos à direção da grande estátua da deusa, contorciam-se em um êxtase esplêndido e profano.
O Estranho aproximou-se e escolheu uma moça. Penetrou o corpo besuntado pelo óleo de mirra. A jovem assinutu estremeceu, mas moldou-se perfeitamente a ele. Tudo parecia perdido em meio a uma bruma mística como sonho. Os corpos se chocavam, dançavam fluídos. Mãos o tocavam enquanto isso, exigiam sua pele. Ele deixou a jovem escolhida e tomou outra... Lábios compartilhados, sangue, saliva, até que o sêmen jorrou, enchendo o receptáculo da deusa, aquela que seria a matriz de Ishtar. Após o grunhido d’O Estranho e seu gozo, gemidos de êxtase preencheram todo o templo, assim como murmúrios e cantos. O Estranho achou ver os olhos de a estátua adquirirem o vívido aspectos de olhos negros como os de uma ave de rapina. Nesse momento, assinus e assinutus tocavam-se e gemiam freneticamente, até que após uivos de satisfação, o silêncio imperou e o jovem escolhido como oferenda viva à deusa, mirou pela última vez os olhos negros da estátua e desmaiou.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
O que será que acontece lá dentro? Era o que um bêbado Kanon perguntava-se. Percebia que todos pareciam felizes demais na festa, mas havia algo que o incomodava em tudo aquilo. Ele queria voltar ao Egito, estava mais inquieto que o normal. Contudo, ainda estava bêbado, e nenhum bêbado tem muito discernimento, é verdade. Ele se viu envolvidos por algumas mulheres que logo o puxaram para um quarto qualquer, seduzindo-o com licores e dança, enquanto retiravam do corpo dele todas as joias que tinha.
— Sabem de quem estão roubando? — a voz imperiosa de Radamanthys falou da porta da alcova iluminada por velas.
As mulheres soltaram gritinhos surpresos e abandonando anéis e braceletes, saíram quase correndo do quarto.
— Que vergonha, alteza! Bêbado a ponto de ser roubado por prostitutas babilônicas.
Kanon, seminu, moveu-se na cama com um sorriso.
— E tu vieste salvar-me?
— A honra do Egito — o general disse, entrando na alcova e aproximando-se do outro. — Venha, vista-se, levá-lo-ei até o seu quarto.
— E ficarás lá comigo por toda a noite para me salvar das malfeitoras?
— Detesto o seu sarcasmo.
— E eu detesto o teu mau humor, general — Kanon ergueu-se da cama, deixando a toga que vestia escorregar ao chão, mostrando-se seminu de frente ao outro. — Nunca te divertes na vida?
— Está contigo não é divertido — Radamanthys revidou entredentes, virando o rosto para não ver a nudez do príncipe. Aquilo não estava certo.
Kanon aproximou-se mais dele e segurou-o pelo queixo, forçando-o a encará-lo.
— Mas tu morrerias por mim naquela estrada.
— Pela minha missão. Pelo Egito.
— Mentiroso — o príncipe sorriu.
— Alteza...
— Kanon. Diga o meu nome...
Radamanthys umedeceu os lábios, mirando os olhos verdes do outro.
— Kanon... — ele falou devagar e empurrou a mão do príncipe, revidando a ação, segurando o queixo dele entre os dedos. — Não devia provocar-me. Não sou um garoto eunuco do castelo do teu irmão.
Kanon sorriu mais abertamente.
— E quem disse que isso me importa hoje, general? — o príncipe roçou o corpo no do general, sem nenhum pudor, o sorriso lânguido e debochado ainda no rosto.
Radamanthys sentiu a própria respiração se tornar mais pesada. Seus dedos deixaram o queixo do príncipe para descer pelo pescoço dele e em seguida atraí-lo para um beijo sedento. As línguas se provaram com ansiedade, tão embriagadas de desejo quanto de licor de abikí.
Kanon estava bêbado, Radamanthys sabia, mas não era homem de ter esses escrúpulos e ademais o príncipe abusado o provocou durante todo o tempo daquela viagem. Por que não aproveitar o corpo dele e vê-lo corar de vergonha na manhã seguinte? Pensando nisso, o general puxou com força a peça única que o outro vestia, desnudando-o, e atirou-o sobre a cama, subindo em seu corpo e segurando o príncipe pelos pulsos para em seguida beijar-lhe o pescoço, aspirando o cheiro másculo que deveria pertencer à essência de alguma árvore exótica.
Kanon, todavia, estava longe de ser um amante passivo, submisso aos caprichos do general. Ele era um príncipe e seria um príncipe mesmo ali: forcejou as mãos que o aprisionavam e inverteu as posições, ficando por cima e, ele mesmo, arrancando as vestes de Radamanthys, deslizando os dedos pelos fios dourados e crespos que cobriam o peito do general. Kanon lambeu os lábios, cobiçoso. Por um segundo, a imagem de Shaka invadiu sua mente e ele pensou que embora o dançarino e o general compartilhassem o ouro dos fios nada poderia ser mais diferente do que eles. O persa tinha aquela beleza andrógina, quase infantil, que fascinava e tinha gosto de pecado, o general tinha aquela virilidade visceral que o enlouquecia. Percebeu surpreso que desejava Radamanthys com a mesma intensidade com a qual desejou o dançarino durante todo aquele tempo.
Kanon moveu os lábios por todo o tórax forte do general, beijando, chupando os mamilos dele, mordendo, vendo-o cerrar os dentes para não gemer alto por puro orgulho idiota. O príncipe ria-se internamente, descendo a língua do peito para o ventre dele, terminando no sexo rígido, sentindo o homem loiro estremecer com a carícia. Não terminou nisso; começou a chupar o membro em riste com um despudor inédito. Nunca tinha dado prazer a outra pessoa, sempre que fazia sexo era com escravos e escravas que tinham a única função de fazê-lo gozar. Era a primeira vez que experimentava sexo com alguém que não fora feito unicamente para servi-lo. E a empáfia de Radamanthys deixava-o mais excitado. A resistência dele o desafiava.
— Kanon! — Radamanthys, por sua vez, estava a ponto de explodir em gozo e por isso segurava os fios negros do amante, tentando afastá-lo. Assim como Kanon, sua experiência sexual resumia-se à escravos e prostitutas e um ou outro amante militar. Relações que ficavam nas sombras. Agora era diferente, havia um sedutor descompromisso, entrega, e certo prazer cruel em foder o príncipe atrevido, prazer que na verdade escondia um desejo tão pungente, que ele preferia não refletir sobre ele.
Kanon continuou a felação, mas uma puxada mais forte e dolorosa em seus cabelos, obrigou-o a afastar-se do general. Mirou-o no rosto: enrubescido, os lábios molhados entreabertos, ofegantes. Isso o deixou louco de desejo.
— Venha, preciso de você — ele murmurou, levando a mão ao próprio sexo e começando a masturbar-se, gemendo e mordendo os lábios.
Radamanthys levou a mão ao próprio sexo também, apertando a glande como se assim pudesse evitar gozar apenas olhando para aquele depravado. Empurrou-o rapidamente na cama e procurou com os olhos qualquer coisa que o ajudasse naquele processo. Acabou encontrando ao lado da cama, junto a frutas e vinhos, uma sugestiva manteiga amarelada. Não quis saber o que era aquilo, empapou os dedos e enfiou dois em Kanon, abrindo-o para si, gemendo de prazer antecipados apenas por ouvir os gemidos altos do amante. Passou em seguida aquela pomada perfumada em si mesmo e entrou no corpo do outro com certa urgência, começando imediatamente a mover-se.
Kanon esforçava-se para manter os olhos abertos, admirando Radamanthys enquanto ele entrava e saia do seu corpo. Os cabelos dourados caíam sobre o rosto do general e gemidos baixos escapavam dos seus lábios.
Radamanthys não conseguia mais se controlar, seu corpo ansiava o prazer e depois de algum tempo daquela dança deliciosa ele entregou-se, derramando-se no corpo apertado do príncipe
Kanon gemeu mais alto ao sentir-se aquecido por dentro e também gozou, deixando-se repousar exausto e parecendo ainda mais bêbado que antes.
Radamanthys respirava forte contra o pescoço do amante e assim ficou até que seu corpo serenou. Ele ergueu a cabeça para mirar o príncipe, percebendo que ele tinha dormido quase que automaticamente após o orgasmo. Acabou rindo disso, rolando para o lado. Ficou um tempo refletindo sobre aquilo. Sabia que estava errado, mas...
Dane-se! Ele resmungou, riu e dormindo também.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
A caminhada era longa. Muito longa até que conseguissem alcançar o primeiro barco que os levaria à Men-nenfer. Contudo, não era a distância que incomodava e sim a sensação de ameaça constante que sentiam. Todos pareciam inimigos, e o disfarce talvez não fosse tão bom quanto eles pensassem.
Saga e Aioros receberam um pouco de provisão da vila onde foram hóspedes. Saga havia prometido a si mesmo providenciar melhorias para a vida daquelas pessoas. Durante todo o seu reinado, ele pouco se interessou pela vida do seu povo, esse não era um interesse do deus-na-Terra. Agora, percebia-se como um garoto mimado, protegido num castelo e que nunca soube da grande responsabilidade que tinha. Desde sempre eram os outros que deveriam resolver todos os problemas. Ele precisava apenas aparecer, radiante como o sol, e dar esperanças. Nada era cobrado dele além de etiqueta, postura e firmeza. No fim, tudo uma grande encenação de poder. Ele não sabia quem era o seu povo e suas necessidades. Ele era um deus indiferente e vaidoso. Jurou que aquilo mudaria.
— Não temos dinheiro para alugar um camelo — Aioros explicou. — Precisamos atravessar o deserto a pé até o rio.
— O deserto? — Saga indagou, pensativo. — Nunca estive no deserto a pé. Deve ser uma boa experiência.
O grão vizir riu.
— Vamos rezar aos deuses para não morrermos de desidratação.
— Não morrerei, Aioros, sou um deus — e havia um sarcasmo amargurado em sua voz que não foi ignorado pelo vizir.
— Saga... Tu estás bem?
— Nunca estive melhor — o faraó respirou fundo, olhando a imensidão de areia a frente. —Parece que meus olhos estiveram velados por cera e que só agora enxergam de verdade.
— Luz demais pode cegar, meu amigo — Aioros observou, preocupado.
— Não estou cego, garanto — Saga deixou escapar um sorriso enigmático e começou a caminhada. Era melhor que aproveitassem enquanto o sol ainda não despontava sua violência no horizonte. Na melhor das hipóteses, atravessariam o deserto antes do meio dia e encontrariam uma vila para descansar antes de chegarem ao palácio. Na pior... Morreriam secos antes que conseguissem ajuda. Todavia, seguir era preciso.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
A noite chegara. Mu estava sozinho, isolado no castelo. Providências foram tomadas para que ninguém adentrasse sua alcova antes da ascensão do novo faraó. Apenas Hades era a companhia constante do jovem príncipe. Todavia, Mu não confiava em Hades, e para que seus planos dessem certo, o governador contava com um cuidadoso, perspicaz e letal aliado. Assim, Shaka foi ao quarto de Mu como combinado e permitido. A ceia estava disposta na esteira, vinho, pães e frutas. Mu parecia sentir-se feliz com a presença do amigo em hora tão infortuna da sua jovem vida.
— Pensei que nunca mais viria aqui. Senti sua falta. Sinto-me tão sozinho — Mu confessou, triste. — Mas sou consciente do meu dever. Farei o que for preciso, Shaka. O Egito precisa de mim.
— Recolhimento é necessário até a cerimônia de ascensão, alteza — Shaka explicou. — Mas achei que te alegrarias uma noite com um... amigo. Caso desejes, dançarei para ti, como dancei para o teu pai.
Mu sorriu.
— Não quero que dance como se fosse um escravo a me servir. É meu amigo. O único que tenho agora. Aiolia não pode mais ser meu amigo. Sinto-me abandonado.
— Será o faraó, sentimentos como esse não devem habitá-lo. Lembre-se: precisa ser forte.
— Shaka... — Mu começou receoso. — Não quero ser faraó. Hades está me orientando e realmente tem me orientado bem, mas... Será que é certo? Se houvesse outro na linha de sucessão...
— Há. O próprio Hades — Shaka disse, afastando-se do rapaz. Ergueu-se e andou pelo quarto. — Se fosse possível passar tal fardo adiante...
— Não há. É o meu direito de nascença. Os deuses não me perdoariam.
— Esqueça os deuses, Mu. Eles não são tão poderosos, mudam de terra para terra. Minha preocupação é que se torne um párea.
— Minha mãe conta com minha coroação para governar, eu sei. No fim, todos querem fazer-me joguete e Hades não é diferente. Não entregarei o meu direito de nascença a ele. Entregaria nele confiasse, mas não confio.
—Pode ser o melhor para ti.
— Não. Seguirei minhas obrigações. Devo isso a Aiolia que também se sacrificou em um casamento sem amor. Não tenho o direito de ser fraco.
Shaka mordeu os lábios. Aquela era a sua última tentativa contra o destino cruel do príncipe. Hades não queria apenas livrar-se de Mu, ele queria desonrá-lo. Caso Mu cedesse o seu direito ao trono, talvez isso não acontecesse.
—Mu. Precisamos comer. Hades pediu-me para que o levasse até o templo para a cerimônia dos mortos. Já foste purificado, agora falta pouco.
— Purificado — Mu suspirou. — Banhos de ervas e sais não fazem com que me sinta puro. Sinto-me contaminado, hipócrita, mentiroso.
— Não seja tolo — Shaka comentou, sorvendo o cálice de vinho. — Vá pegar a sua caixa de joias, vamos escolher peças bonitas para essa noite — sorriu, dissimulado.
Mu sorriu de volta e o obedeceu, indo pegar a caixa. Foi o tempo necessário para que Shaka derramasse o líquido negro no cálice do príncipe e o misturasse ao vinho. O persa fechou os olhos e respirou fundo, sentindo a pulsação acelerar. Estava feito.
Mu retornou, arrastando o imenso baú.
— Pode ser qualquer uma, não me importo — ele disse, referindo-se às joias.
— Um faraó deve ostentar seu poder através de suas joias. Tome, beba seu vinho, está maravilhoso, ótima safra, digna do faraó do Egito — e havia certo triunfo vingativo em sua voz que não era direcionado a Mu, mas sim a todo aquele império cruel e escravista.
Mu ergueu seu cálice e eles brindaram. Shaka sorriu, mirando o rosto adorável do garoto. Havia tanta pureza, tanta inocência nele... O rosto...
Seu rosto ardeu com a primeira bofetada que recebeu da mão pesada do general.
— Conte a verdade! Por que matou o mordomo-mor?!
Shaka estava sentado em um banco, tendo os braços preso por cordas. Sentia o sangue descer dos seus lábios e sabia que aquele era apenas o começo de sua desgraça. O que podia fazer? Mentir?
— Eu não o matei, ele se matou — murmurou, as lágrimas descendo por seu rosto.
— E por que ele faria isso?! — o militar gritou, tomado pelo ódio. Era amigo de Krishna.
— Eu não sei...
— Então vai apanhar até descobrir...
— Shura, chega disso — a voz calma e imperiosa de Afrodite invadiu o recinto junto à sua presença fascinante. — Liberte meu assinu, como ousa?
— Ele é um assassino!
— Ele é uma criança, liberte-o. Shaka nada tem com a morte de Krishna. Foi um infeliz acidente que tratarei adequadamente, mas depois da partida do faraó. Não devemos ter escândalos nesse momento e creio que Hamurabi não precisa saber detalhes da morte agora. Eu me encarrego disso.
Shura ainda hesitou, mas Afrodite era o sumo sacerdote e só estava abaixo do próprio rei. Foi obrigado a deixá-lo levar Shaka.
— Afrodite, o que está acontecendo? Por que Krishna... Por que... — Shaka não conseguia pensar, a dor era grande demais. — Ele era meu amigo, e ele... ele tentou...
— Não foi ele, criança. Ele foi enfeitiçado. Não foi culpa dele. Krishna tentou protegê-lo e sacrificou a própria vida para isso, faça valer a pena. — A voz de Afrodite foi séria e incisiva.
Shaka calou-se e deixou que a dor o dominasse. Foi Afrodite e Shura que o encontraram banhado no sangue de Krishna. O sacerdote, como mandava os costumes, tratou do morto primeiramente, deixando Shaka aos cuidados do capitão da guarda. Não imaginou que ele, ignorante dos fatos, imaginasse que o pequeno assinu havia assassinado o mordomo-mor.
Shaka estava em choque e assim ficou por muito tempo, quase um dia inteiro sem falar e sem comer. Quando finalmente teve forças, a primeira coisa que fez foi interrogar Afrodite.
— Disseste-me que ele foi enfeitiçado — começou. — Por quem? Por quê?
O sumo sacerdote o encarou. Shaka estava vestido em uma túnica e calça brancas, os trajes simples de sempre e que, anteriormente, lhe davam uma aparência ainda mais infantil. Naquele momento, entretanto, ele parecia ter amadurecido anos, seu olhar era inquisidor e maduro.
— Não deve se preocupar com isso. O que precisa fazer é dançar para a festa do faraó. Darei um jeito nesses ferimentos até lá. Ficará magnificamente lindo como esperamos.
— Se não me disseres a verdade, não dançarei, não importa o quanto me tortures — Shaka disse, sério. — Eu preciso saber quem fez isso ao meu amigo...
— Shaka... Saber não mudará nada. Eu mesmo cuidarei da pessoa que fez isso.
— Quem? — Shaka insistia, e sua vontade era férrea.
Afrodite se viu encurralado. Não teria mais Misty para dançar para o faraó. Nunca daria tal prazer àquela pequena víbora. Caso Shaka não dançasse, estaria sem uma atração digna do faraó. Misty já estava devidamente confinado em seu quarto e ele faria com que o assinu pagasse caro por aquilo, mas não agora. Agora seus olhos estavam sobre Hamurabi e o Faraó Saga Hórus.
— Misty — confessou. — Mas não posso acusá-lo de assassinato, não era isso que ele queria. A morte de Krishna foi uma fatalidade — Afrodite disse, incomodado. Não acreditava em nada daquilo e com o devido tempo, daria a Misty o que ele merecia, mas não queria que Hamurabi intervisse em seu templo e por isso guardaria aquele segredo. — Ninguém pode saber disso, Shaka. Se contar isso a alguém...
— Não contarei. Mas por que ele fez isso?— a voz do jovem era fria.
— Misty quer dançar para o faraó. Ele queria que Krishna o violasse e o deixasse incapaz de dançar amanhã. Ele jurou que não queria a sua morte, apenas que ficasse machucado. Sei que isso não apaga o que suas atitudes provocaram.
Shaka encarou o sacerdote com horror. Uma lágrima desceu por seu rosto e ele a sentiu como uma pedra de gelo.
—Ele não imaginou que isso seria pior que me matar? — indagou, transido de dor. — Só por causa de... de um homem?! Ele me machucaria da pior forma que uma pessoa pode ser machucada? Por causa de um homem, ele matou o senhor Krishna?!
— Poder, riqueza, ascensão. Enfim, nada importa — Afrodite declarou com tristeza.— Eu tenho que seguir com o funeral do mordomo-mor e tu tens que ensaiar a dança do faraó. Nada mudou. O que está morto, morto é.
Afrodite o deixou sozinho, e Shaka deixou-se cair no mármore do chão do templo, chorando dolorosamente. Chorando tudo que podia porque ele jurou que aquelas seriam suas últimas lágrimas, jurou que nunca mais deixaria que as pessoas que amava pagassem o preço da sua afeição. Krishna estava morto por sua causa, Ikki perdera tudo por sua causa. Não era justo, parecia que havia uma maldição sobre sua sina. Mas ele não permitiria nunca mais que isso acontecesse, nunca mais seria um joguete dos deuses!
“Não nasci para ser uma vítima, nunca mais serei uma vítima! Não sou um brinquedo, uma peça descartável. Eu sou o príncipe de Najah. Sou filho de Sohan. Não sou um mero peão, eu sou o rei no tabuleiro!” E esse passou a ser o seu mantra.
O mordomo-mor foi sepultado na noite seguinte. Shaka jurou contrariar seu juramento uma última vez ao ajoelhar-se diante seu túmulo e jurar vinga-lo entre lágrimas. A dor era insuportável, mas ele sobreviveu. Ele sobreviveria até o fim.
Ergueu-se, enxugou as lágrimas e voltou para o templo, indo ensaiar a dança, e ele nunca dançou com tanta perfeição, enquanto os últimos ritos fúnebres de Krishna clareavam a noite com suas lanternas.
Shaka sorriu para Mu, sorvendo lentamente o vinho da vingança, saboreando aquele momento de triunfo sobre si mesmo.
— Eu me sinto tonto — Mu riu, terminando seu cálice. Sentia-se quente e seus movimentos eram lentos. — Mas me sinto bem, feliz por tu estás aqui, Shaka. Obrigado.
— Não precisa agradecer. Venha, eu te levarei ao jardim central.
— Ao jardim central? Não iríamos ao templo? — Mu estranhou, já com os pensamentos confusos e lentos.
— O governador deve ter coisas importantes a tratar contigo, venha — Shaka ergueu-se da posição de lótus em que estava e ofereceu a mão a Mu. O jovem o seguiu sem pestanejar, mas quando eles saíram do jardim foram interceptados por Sirius.
— Para onde vais, alteza? — o general quis saber.
— Ele está seguro no castelo. Iremos até o jardim central, o governador o espera — Shaka explicou.
— Eu não perguntei a ti, escravo — o homem volveu com desprezo. Morto o faraó, a reverência que eles tinham por Shaka parecia ser desaparecido.
— Como ousa assim falar com o meu sacerdote? — Mu interviu, todavia. — Será que não sabe que este com quem fala com tanto desrespeito é o Presente o Oriente, aquele que organizou as moções, abençoado por Kemet, recipiente de Háthor? Desculpe-se!
O homem pigarreou, constrangido e fez uma reverência a Shaka.
— Perdão, senhor.
Shaka o ignorou. Sirius deveria bem saber que ele não era nada daquilo, que era sim o escravo-sexual do falecido faraó. Talvez ele houvesse pensado que morto Saga, Shaka cairia ao valor de um escravo qualquer, contudo, havia Mu e sua amizade. Pensar nisso, entristeceu o dançarino, mas não havia retorno. Mu não era forte o suficiente para protegê-lo, e Shaka também não queria, por hipótese alguma, tornar-se amante do rapaz. Entendia que somente dessa forma, homens protegeriam homens. As relações não passavam de simples troca.
— Vamos — Shaka disse, segurando Mu pelo braço, guiando-o pelo corredor.
Na Babilônia, o céu começava a ser pintado pela aurora quando Ikki acordou sobressaltado. Um frio intenso tomava seu corpo e ele tremia de bater os dentes.
Archotes decoravam o quarto onde estava, e pela luminosidade do lugar ele percebeu o desenho que Shaka fizera na parede. Estava no templo de Ishtar, e provavelmente morreria ali, tão mal se sentia. Seu estômago revirava-se em enjoo, seus olhos ardiam.
— Acordaste — a voz de Asmita ecoou na semiescuridão. — Venha, baba isso — ele apoiou as costas do tamudaei e lhe ofereceu algo numa cuia, que Ikki aceitou beber, pois sua garganta queimava. Contudo, era um líquido amargo e não água. — Isso o ajudará, é raiz funcho, um antídoto para alcaloides como a pedra de Tammuz, logo estará bem.
— Nunca mais estarei bem... — Ikki murmurou — Eu... Eu...
— Ikki, não foi sua culpa...
— Eu o traí... Traí tudo que prometi, tudo que disse nesses malditos quatro anos... Eu não podia... Estou sujo! Indigno...
— Não foi sua culpa — Asmita repetiu e sentou-se ao lado dele. Passou as mãos nos cabelos molhados do rapaz. — Está com muita febre, não está pensando direito... Fez o que precisava para conseguir seguir e encontrá-lo.
Ikki ouvia, mas os efeitos da pedra de Tammuz deixavam seu emocional e sua percepção completamente embaralhadas.
— Eu não podia... Aquele lugar… A deusa. Ela é real, ela me olhou nos olhos e disse que eu nunca o encontrarei... Nunca o encontrarei.
Asmita levou a mão ao rosto dele, enxugando as lágrimas que desciam.
— Ela disse o que teu medo quis escutar, Ikki. Uma alucinação fruto do medo e dessa vil droga dos babilônios. Não deixe que o medo o cegue.
— Não! Foi real! Eu o vi... Eu o vi tão corrompido que era impossível salvá-lo... Eu o vi!
Asmita sentiu o coração se apertar.
— Foi uma ilusão.
— Não. Foi real... Foi real, Asmita. Ele... Ele se perdeu... Eu achei que pudesse salvá-lo não importava como o encontrasse, mas ela disse que não... Ele está perdido para mim.
— Não é verdade! — Asmita disse, e o abraçou com força. — Não é verdade!
Ikki deixou-se chorar no ombro do Zoroastro, entregue a dor e confusão profundas.
— Ele está perdido... Perdido...
Shaka levou Mu até o jardim. O lugar estava escurecido. Havia menos archotes que o normal, mas Mu estava tonto e excitado, excitação que sua mente inocente julgava ser causada pelo vinho.
— Até amanhã, jovem faraó — Shaka disse, vacilante, e antes que pudesse fugir, Mu o agarrou num abraço cheio de ternura.
— Obrigado por essa noite, Shaka. Nunca a esquecerei — lágrimas formaram-se nos olhos do príncipe egípcio. — Eu posso ter perdido Aiolia, meu pai, mas sei que não estou sozinho, eu tenho a ti, um amigo. Um irmão. Sei que depois desta noite, uma vida amarga me espera, mas estou feliz por que estás aqui comigo.
Shaka estremeceu com aquelas palavras, afastou-se de Mu.
— Depois dessa noite... — suspirou. — Vá...
Mu levou a mão ao rosto dele, e o beijaria, mas Shaka o afastou com um leve empurrão.
— Não! Vá! Vá embora daqui! — disse e saiu quase correndo pelo corredor escuro. Apoiou-se numa parede e cobriu os lábios com o antebraço para não gritar.
Nesse momento, Mu adentrava mais o jardim em direção à entrada do templo, que deveria estar preparado para o ritual pelos mortos. Sua ascensão seria no dia seguinte.
O garoto estranhou o silêncio, mas logo três sacerdotes, assim ele pensava que fossem, apareceram e o conduziram para uma mesa ritual. Ele foi deitado e despido.
Não havia ninguém que explicasse a Mu como seria o ritual e talvez mesmo sóbrio, ele seria condescendente aos sacerdotes. Todavia, Hades queria mais que simplesmente violar a purificação do príncipe, ele queria humilhá-lo de forma que ele não pudesse assumir o trono. Ele desejava como vingança a total aniquilação moral da linhagem de Djoser. Queria Mu cuspido e espezinhado como Hórus no tribunal dos deuses.
Assim, mesmo que confuso e envergonhado, o corpo de Mu reagia aos cuidados dos pretensos sacerdotes e ele gemia com as carícias deles, completamente embriagado pela Pedra de Tammuz, enquanto Shaka voltava correndo pelo corredor em direção à sua alcova e Hades e os verdadeiros sacerdotes chegavam pelo outro lado do jardim, em cortejo pelos mortos. Sacerdotes, testemunhas mais que confiáveis. O plano de Hades era perfeito.
Mu gemeu, tudo parecia um sonho perdido numa estranha e vermelha névoa. Recebeu um beijo, beijou o homem também. Uma ave noturna cantou, atravessando o jardim, junto ao gemido que o jovem soltou quando foi mordido em um ponto sensível do seu jovem corpo. O príncipe perdia-se naquela estranha orgia, embriagado de luxúria.
A serpente e a estrela
الثعبان والنجم
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